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Antropologia do parentesco

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Um dos contribuas da antropologia do parentesco radica em ter posto sobre a mesa o facto de que os laços de parentesco são um produto cultural que não necessariamente passa pela consanguinidade. Na imagem, uma família de Dejenné (Malí).

A antropologia do parentesco —chamada também estudos de parentesco— constitui uma das áreas com as que deu origem o desenvolvimento da antropologia moderna durante a segunda metade do século XIX. O parentesco foi, para os precursores do pensamento antropológico, um campo de especial interesse, enquanto advertiram sua importância em questões como o pertence a um grupo social, a transmissão da herança e os direitos de uma linhagem, e inclusive influía na dinâmica das relações sociais, especialmente nas sociedades que naquele tempo eram qualificadas de primitivas .

Conteúdo

Breve história da antropologia do parentesco

Origens

O combate das amazonas, de Rubens (s. XVII). Bachofen pensava que mitos como o das amazonas provavam a existência de um tempo remoto no que as mulheres dominavam a sociedade em todos seus âmbitos, dando lugar a um matriarcado. A ideia está em desuso desde o princípio do século XX.

O parentesco apareceu como um dos primeiros temas da antropologia evolucionista da segunda metade do século XIX. Em um tempo em que a antropologia aparecia mais como um entretenimento, sócio ao coleccionismo de antigüedades e objectos de culturas exóticas, é sintomático que quase todos os primeiros interessados no estudo sistémico das culturas dos povos considerados nesse tempo como selvagens[1] tenham sido advogados de profissão, e que uma de suas principais matérias de estudo a constituísse precisamente o parentesco. O interesse de personagens como J. F. McLennan ou Johann Jakob Bachofen no parentesco de sociedades antigas —principalmente a romana e a grega— radicaba em suas intenções de encontrar as origens das regras européias de parentesco que determinavam, entre outros assuntos, o direito à herança ou à sucessão.

Precisamente é a obra destes dois autores a que marca o início dos estudos de parentesco. Em seu livro Mutterecht (O direito materno), Bachofen —de nacionalidade suíça— expõe sua hipótese sobre o matriarcado como a forma original da organização nas sociedades primitivas. A base de sua argumentación constituía-a o conjunto de mitos antigos nos que as mulheres apareciam como as figuras de autoridade —exemplo disso era o mito das amazonas—. De acordo com Bachofen, o parentesco nas sociedades primitivas fixava-se através da mãe, já que a promiscuidad sexual dos seres humanos em estado selvagem teria impedido que os homens reconhecessem a seus próprios filhos. Como corolario do anterior, as mulheres possuíam também o monopólio do poder político, o que deu lugar a uma ginecocracia ou governo das mulheres.[2] Há que aclarar que a existência do matriarcado não foi provada nunca, e que seu emprego na fala quotidiana para se referir a contextos sociais onde há predominio feminino é erróneo desde o ponto de vista da antropologia.[3] A existência do matriarcado foi posta em dúvida por autores contemporâneos de Bachofen, como Maine, para quem o matriarcado era só resultado de um erro interpretativo dos mitos.

Por sua vez, o britânico John Ferguson McLennan, desconhecendo a obra de Bachofen que serviu de ponto de partida para numerosas investigações etnológicas sobre o parentesco, publicou cinco anos mais tarde sua própria proposta, que em alguns pontos parecia coincidir com a de Bachofen. No casal primitivo, McLennan argumentava que as formas anteriores de organização parental podiam ser descobertas mediante a observação de certos ritos dos povos primitivos, entre eles, o rapto da noiva. A existência desta prática em vários povos era explicada por McLennan como uma sobrevivência[4] de tempos remotos nos que o infanticidio feminino era uma prática generalizada, o que redundaba em um número reduzido de mulheres disponíveis para os homens maduros. Isto teria gerado o aparecimento da poliandria[5] como a primeira forma de organizar as relações de parentesco entre os seres humanos.[6]

Proposta de Morgan

L. H. Morgan foi o primeiro antropólogo que apoiou suas hipóteses sobre o parentesco em dados empíricos. Seu erro foi considerar que a cada sistema de parentesco estava relacionado com um estádio determinado do progresso da Humanidade.

Um parteaguas na história dos estudos de parentesco na antropologia constituiu-o a obra do estadounidense Lewis H. Morgan. Ao igual que Bachofen, Maine e McLennan, Morgan também era advogado. Desde jovem interessou-se pelos iroqueses e sua cultura, ao grau que participou em uma sociedade que emulaba a organização social desse povo dos Grandes Lagos e uma de suas obras mais conhecidas trata da organização política das tribos pertencentes a esse povo.[7] Precisamente seu contacto com os indígenas dos Estados Unidos fez-lhe notar algumas particularidades linguísticas dos iroqueses no que toca aos termos de parentesco: tinha categorias que os ocidentais como ele distinguiam que não podiam ser traduzidas dos idiomas indígenas. Posteriormente, depois de um das primeiras tentativas de etnografía em campo que se tenham realizado na história da antropologia, Morgan recabó informação sobre numerosos sistemas de nomenclatura do parentesco ao redor do mundo, que finalmente lhe conduziram a propor uma hipótese explicativa da diversidade linguística no paradigma das relações parentales.

A obra finque de Morgan no campo do parentesco é Systems of Consanguinity and Affinity of the Human Family (Sistemas de consanguinidade e afinidad da família humana, publicado em 1871), no que expõe suas principais contribuições ao campo dos estudos de parentesco, que constituem a pedra baseie do desenvolvimento posterior, apesar dos erros interpretativos que têm sido assinalados por vários críticos de sua obra.[8] Em Sistemas de consanguinidade, Morgan dá conta dos seis principais tipos de nomenclatura do parentesco, aos que ele define como descritivos —as famílias ariana, semítica e urálica— e clasificatorios —os tipos malayo, turanio e ganowaniano—.[9]

Para Morgan, os sistemas que chamou descritivos correspondiam a sociedades desenvolvidas, enquanto os clasificatorios correspondiam às sociedades primitivas ou bárbaras. Desta maneira, um sistema de parentesco como o malayo (correspondente na actualidade ao sistema hawaiano) estaria relacionado com a família consanguínea;[10] os sistemas iroqués turanio e ganowaniano estão relacionados na hipótese de Morgan com a chamada família punalúa, característica do período inferior de barbarie, onde um homem estaria casado com várias mulheres que não pertenciam a seu grupo, e vice-versa; outro exemplo é o que correponde à relação a entre a família monogámica e o sistema esquimal de parentesco, que Morgan vinculou ao surgimiento das sociedades patriarcales na civilização antiga.[11] Ainda que os sistemas definidos por Morgan continuam em vigência na antropologia do parentesco com nomes diferentes, tanto a ideia de que existem sistemas clasificatorios e descritivos como a associação destes tipos com certos estádios do desenvolvimento humano têm sido eliminados.

A influência de Morgan não atingiu só aos antropólogos. Federico Engels realizou uma interpretação da proposta de Morgan na origem da família, a propriedade privada e o Estado; e o marxismo mesmo reflete a tendência materialista de seu trabalho. Em Ancient Society (A sociedade antiga), Morgan propõe uma hipótese sobre a evolução dos modos de organização social que se associa à evolução das tecnologias e modos de subsistencia, similar à que é comum na teoria marxista.

Consolidação da antropologia do parentesco

Os trabalhos de Morgan foram uma base importante para o desenvolvimento da teoria antropológica do parentesco durante a primeira metade do século XX. Em boa medida, os problemas que interessavam aos pesquisadores eram os envolvimentos jurídicos e políticas das redes de parentesco em sociedades não ocidentais. No entanto, os pontos centrais da teoria de Morgan —e com ela, a do resto dos antropólogos evolucionistas— foram postos em teia de julgamento com o desenvolvimento dos paradigmas relativistas e funcionalistas na Europa e Estados Unidos durante as primeiras décadas do século XX. Desta sorte, Franz Boas descalificó o método de investigação de Morgan e sua tendência a procurar leis universais. Para Boas, o conhecimento etnográfico sobre outros povos não era suficiente como para se aventurar à formulación de leis unificadoras nas que a diversidade cultural não tinha cabida; ademais, Boas desarmou a associação entre os períodos étnicos de Morgan e a tecnologia e os tipos de organização social (incluídos os tipos de família), assinalando que todos os elementos que compõem uma cultura devem ser entendidos em seu contexto cultural e não como parte de uma corrente unívoca de sucessões de estádios evolutivos da humanidade (Boas, 1964: capítulo 4).

Truganini e os últimos aborígenes de Tasmania. Os sistemas de parentesco próprios dos povos da Australasia foram um modelo sobre o que Durkheim e posteriormente Lévi-Strauss construíram suas teorias a respeito das estruturas elementares de parentesco e a proibição do incesto.

Por outra parte, na Europa, as tendências principais da sociologia e a antropologia social tentavam explicar as instituições sociais por médio de sua função social. Um exemplo clássico do tratamento do parentesco desde uma mirada funcionalista constituiu-o o trabalho de Émile Durkheim. No suicídio (1997: livro segundo, cap. III), Durkheim assinala que uma das funções da família é proporcionar um ambiente de primeira socialización das pessoas. Para Durkheim, os laços de parentesco modificavam-se de acordo com outras condições da vida, e atribuía ao debilitamiento da função da família o aumento das taxas de suicídios em sociedades industrializadas. Ademais, Durkheim sentou as bases da posterior teoria estructuralista de Claude Lévi-Strauss sobre a proibição do incesto. Para Durkheim, esta proibição é uma consequência da aplicação das leis exogámicas que obrigam às pessoas de um clã a se casar com membros de outros clãs; amém da identificação entre o clã e o tótem, cujas relações refletir-se-iam na proibição do incesto nos sistemas de parentesco dos aborígenes australianos.[12]

Anos mais tarde, Bronislaw Malinowski realizaria suas próprias investigações etnográficas sobre o parentesco entre os habitantes das ilhas Trobriand, ao oriente de Nova Guiné. Malinowski pretendia encontrar que o modelo universal de família era o da família nuclear, ainda que este tipo de organização não aparecesse claramente em vários povos. Desta maneira, segundo Lévi-Strauss, o que Malinowski —e outros antropólogos sociais britânicos que o sucederam— fez foi eliminar a importância da indagación nos sistemas terminológicos de parentesco, que tinham sido de vital importância nas indagaciones dos antropólogos evolucionistas como Morgan (Lévi-Strauss, 1981). Para os antropólogos britânicos da primeira metade do século XX, o interesse dos estudos de parentesco radicaba na função destes no sistema social das sociedades, de modo que outros envolvimentos desta esfera da sociedade, especialmente as relacionadas com a dimensão simbólica dos termos com os que as pessoas se referem a seus parentes em diversos povos, quase eras passadas por alto pelos antropólogos estrutural-funcionalistas.

Duas teorias

A maior parte da produção antropológica moderna em torno do parentesco está dominada por dois grandes enfoques. Trata-se da teoria da filiación e a teoria da aliança, a cada uma com seus particulares interesses teóricos e com propostas divergentes de interpretação das relações de parentesco.

Teoria da filiación

Uma mãe peruana e seu filho. Para os partidários da teoria da filiación, a esencia do parentesco radica na relação entre um casal e seus filhos, dado que esta relação determina em algumas sociedades questiones fundamentais na estrutura social como a sucessão, a herança e o pertence a uma linhagem.
O enfoque da teoria da filiación, de acordo com Radcliffe-Brown, estava centrado na família elementar, composta por um casal e seu descendencia. Na imagem, uma família palestiniana em Ramala .
Artigo principal: Teoria da filiación

O desenvolvimento da teoria da filiación —telefonema em inglês descent theory, pelo que em ocasiões se traduz erroneamente o termo ao espanhol como teoria da descendencia— se deve antes de mais nada aos antropólogos sociais britânicos que desenvolveram seu trabalho à luz do paradigma do funcionalismo estrutural. Este paradigma tem raízes profundas na tradição sociológica de Émile Durkheim, com a que compartilha, entre outras características, o tratamento dos fenómenos sociais como coisas, a metáfora da sociedade como um organismo coerente e a intenção de descobrir as leis do funcionamento das sociedades humanas. Entre os principais modeladores do paradigma estcrutural-funcionalista encontram-se Alfred Reginald Radcliffe-Brown, Edward Evan Evans-Pritchard, Meyer Fortes e outros mais, enfocados especialmente nas sociedades que habitavam os territórios africanos baixo o domínio de Grã-Bretanha .

A teoria da filiación tem em Radcliffe-Broown um de seus principais artífices. De acordo com este autor, um sistema de parentesco —que de acordo com ele é um termo que se deve empregar como abraviación de sistema de parentesco e casal, ou parentesco e afinidad (Radcliffe-Brown, 1972: 65)— pode ser definido como uma rede de relações sociais de tipo definido que constituem parte de toda a rede de relações sociais que chamo estrutura social (1972: 67). Para Radcliffe-Brown, como para outros antropólogos que estudaram o parentesco à luz de paradigma da filiación, o coração dos sistemas de parentesco o constitui a família elementar. Esta família elementar não é outra que a família nuclear característica das sociedades européias modernas, isto é, o conjunto de pessoas formada por um casal e seus descendentes.[13] Como fica claro em seu ensaio sobre as relações jocosas entre ego e o irmão da mãe (1972: 107-122), para este antropólogo britânico o interesse do estudo do parentesco radicaba na possibilidade de decifrar os códigos sociais que subyacen nas relações entre parentes. Mas ademais, a teoria da filiación mostra-se como um enfoque pouco interessado na explicação histórica dos fenómenos sociais. Antes de mais nada, está interessada em pôr em relevo a estrutura de relações em uma sociedade durante um momento dado, pelo que necessariamente representa aos sistemas estudados fora de qualquer contexto histórico.[14]

Em sua tentativa por explicar a estabilidade das sociedades africanas sem Estado, primitivas para Radcliffe-Brown (1974), onde realizaram seu trabalho de campo; Evans-Pritchard e Fortes (1994) sosteían que os nuer e os tallensi estavam organizados principalmente através de grupos de filiación unilineal. Estes grupos funcionavam como grupos corporativos, o que significa que eram grupos estáveis com regras claras de funcionamento e uma estrutura interna capaz de regular as relações entre os membros mediante a atribuição de atribuições —direitos e obrigações— à cada um deles, de acordo com a posição que ocupavam na rede estrutural.

Os grupos corporativos aos que referiam Evans-Pritchard e Fortes se caracterizam porque seus membros compartilham objectivos comuns, como a administração dos bens do grupo e a defesa ante embates dos inimigos. A estabilidade dos grupos corporativos organizados em torno do parentesco, de acordo com estes antropólogos, perduraba para além da morte dos membros do grupo e reproduzia-se de geração em geração. Neste contexto africano, as divisões territoriais dos povos estavam relacionadas com linhagens, fazendo dos laços "de sangue" e o direito derivado do nascimento em um território as duas caras de uma mesma moeda. (Kuper, 1988: 195). Os laços de afinidad entre os parentes que não fazem parte do mesmo grupo de filiación foram considerados pelos antropólogos estrutural-funcionalistas como questões accesorias —Fortes, por exemplo, criou o conceito de filiación complementar.

Teoria da aliança

De acordo com a teoria da aliança, o parentesco é importante em toda a sociedade porque é uma dimensão que permite a reprodução dos laços sociais. Todo o sistema de parentesco giraria, desde esta perspectiva, em torno da relação estabelecida entre um homem e o irmão de sua esposa. Na imagem, um desposamiento tradicional indiano.
O incesto é considerado pelos estructuralistas como uma regra que obriga aos grupos a estabelecer alianças com outros colectivos e dar origem deste modo ao tecido social. Na imagem, Edipo e a Esfinge, em um jarrón grego (circa 440 a. C.).
Artigo principal: teoria da aliança

Em contraste com a proposta dos africanistas britânicos, a teoria da aliança põe um especial énfasis nas relações sociais que se constroem em torno do casal. A proposta foi desenvolvida amplamente por Claude Lévi-Strauss, etnólogo francês cuja faz As estruturas elementares do parentesco forma uma das pedras angulares do paradigma estructuralista da antropologia.

A teoria da aliança diferencia-se em vários aspectos à teoria da filiación. Em primeiro lugar porque não pretende descobrir o funcionamento social dos laços de parentesco, ainda que estes não ficam necessariamente excluídos na análise de um sistema. Por outra parte, volta sua atenção aos sistemas terminológicos do parentesco, que tinham sido minimizados pelos antropólogos da teoria da filiación. De acordo com a teoria da aliança, nas terminologías do parentesco encontram-se codificadas essencialmente as categorias que uma sociedade considera incestuosas, e portanto, permitem regular a distribuição de casais, ou em outras palavras, quem pode ou deve emparejarse com quem (Buchler, 1982: 11); de onde pode se entender o interesse que o paradigma da aliança tem na proibição do incesto e o chamado átomo do parentesco, nascido da aliança entre um homem que cede os direitos sobre suas irmãs e o homem que recebe estes direitos mediante a realização do casal.

Efectivamente, o funcionamento social do parentesco não constitui para os estructuralistas o nó dos sistemas de nomenclatura do parentesco. Lévi-Strauss afirmou que o sistema de parentesco, enquanto conceito, encobre duas dimensões das relações parentales.

O parentesco não se expressa somente em uma nomenclatura: os indivíduos ou as classes de indivíduos que utilizam os termos se sentem (ou não se sentem, segundo os casos) obrigados a uma determinada conduta recíproca [...] Assim, então, junto ao que nós propomos chamar o 'sistema de denominações' (que constitui, em rigor, um sistema de vocabulario), há outro de natureza igualmente psicológica e social, que chamaremos sistema das atitudes' (Lévi-Strauss, 1977: 33).

O sistema das atitudes —como chamava Lévi-Strauss ao conjunto de prescripciones sobre os deveres, obrigações e a forma de se conduzir entre parentes que tanto interessava aos funcionalistas estruturais como Radcliffe-Brown— não é, desde a perspectiva da teoria da aliança, um reflito do sistema de denominações, nem também não ocorre o contrário. A relação entre ambas dimensões do parentesco é innegable, como reconhece Lévi-Strauss (1977: 37), mas esta relação não é uma correspondência termo a termo: desde seu ponto de vista, os termos do parentesco não constituem uma realidade unicamente analítica e teórica, senão que fazem parte do modo em que a cada sociedade vive as relações de parentesco. Por tanto, estes vínculos entre as pessoas e os grupos são considerados como mensagens ou sistemas de símbolos (Lévi-Strauss, 1977: 49) que podem ser decodificados e interpretados até em suas consequências mais profundas.

A existência dos sistemas de parentesco não é resultado das relações biológicas entre os sujeitos. Portanto, os estructuralistas recusam as relações de filiación como o núcleo das relações parentales, eliminando assim a proposta teórica dos funcionalistas para os que a família elementar —mãe, pai e descendencia— é o nó a partir do qual se tece a trama do parentesco na cada sociedade. Este lugar ocupa-o a relação de aliança que se estabelece mediante o casal. Mas esta aliança não é um pacto entre duas pessoas: trata-se de um pacto entre os grupos dos que provem os contrayentes porque o rasgo principal do parentesco humano consiste em requerer, como condição necessária de existência, a relação entre o que Radcliffe-Brown chama família elementar' (Lévi-Strauss, 1977: 49).

O énfasis da teoria da aliança na proibição do incesto —à que se considera universal, inclusive se a regra é violada em alguns casos (Héritier, 1994: cap. 1)[15] — aparece em numerosos tratados elaborados à luz deste enfoque teórico. Em Masculino/feminino , Françoise Héritier introduz a questão do intercâmbio de mulheres entre dois grupos, que presupone seu subordinación inherente em todas as sociedades em aparente contradição com o valioso papel da mulher como reproductora da sociedade. Em outro texto desta autora francesa, Deux soeurs et leur mère, Françoise Héritier (1994) introduz um incesto de terceiro tipo, que implica uma regra quase universal que impede às mulheres de um mesmo grupo de filiación compartilhar o mesmo marido. Outros autores, como Louis Dumont abordam a questão do casal também como uma instituição que permite o estabelecimento de relações solidarias. Entre os poucos antropólogos formados no paradigma estrutural-funcionalista que dominou a antropologia no Reino Unido que depois adoptaram a teoria estructuralista, Edmund Leach (1954) desenvolveu seu estudo sobre o casal entre os kachin baixo a premisa de que existem sociedades que constroem seus sistemas de parentesco em torno da filiación, enquanto outros, como os habitantes da Ásia sudoriental, o faziam em torno do casal, pelo que os enfoques teóricos não necessariamente podiam ser aplicados em todos os casos.

Crítica e novas problemáticas

As sociedades não são entidades estáticas, e as mudanças nelas podem ter impacto nas relações de parentesco. O reconhecimento dos direitos de minorias como os homossexuais tem derivado na consagración legal do casal entre pessoas do mesmo sexo nas legislações de vários países. Na imagem, o casamento de Michael Hendricks e René Leboeuf, o primeiro casal homossexual no Canadá.

A história social mundial a partir da segunda metade do século XX tem posto na mesa novas problemáticas que têm envolvimentos em todas as esferas da sociedade. O desenvolvimento industrial nos países mais avançados, os movimentos de libertação nacional, as migrações; os movimentos de reivindicação de grupos minoritários —especialmente o feminismo e as reivindicações do colectivo LGBT—, o aparecimento de novas doenças e até o desenvolvimento tecnológico são só alguns dos novos problemas que foram incorporando na perspectiva dos antropólogos dedicados aos estudos do parentesco. As novas gerações destes especialistas, que começaram a tomar notoriedad a partir da década de 1970, deveram revisar com uma mirada crítica as teorias produzidas por seus antecessores e adaptar às necessidades da sociedade contemporânea.

Em estudos como o de Rodney Needham (1971), se punha em teia de julgamento o conteúdo de conceitos finque como filiación, casal, parentesco, incesto e outros, com os que semeou o trabalho a mais de um século de reflexão sobre o parentesco.[16] Em anos mais recentes, o aparecimento de novas tecnologias de reprodução e fenómenos como o sida têm provocado que a teoria antropológica do parentesco apareça incompleta ou incapaz de abordar analiticamente esses temas que não apareciam dantes de 1980, devido, entre outras coisas, a que não existiam.

Parentesco

O parentesco é considerado pelos antropólogos como um laço social no que as relações biológicas entre duas pessoas não necessariamente são relevantes para a adscripción a uma parentela. Desde uma base constituída por inumeráveis investigações etnográficas em centenas de sociedades, as teorias antropológicas coincidem em que não todas as sociedades conhecem a existência da consanguinidade biológica, no sentido que se entende em Occidente. Em outras palavras, existem alguns povos para os que a concepção de um novo ser não tem que ver no absoluto com a cópula. Por outra parte, existem casos nos que, conhecendo o vínculo entre o acto sexual e a concepção, se considera que a procriação de um novo membro da parentela se deve principal ou exclusivamente, ao génitor ou à génitrix.[17]

A adscripción social de um indivíduo a um grupo de parentes é formulada de acordo com as regras sociais. De acordo com o sistema de parentesco que prime em uma sociedade determinada, um recém nascido é considerado parte da linhagem[18] do pai (em cujo caso se fala de patrilinaje ), da mãe (matrilinaje) ou em casos muito específicos, se reconhece o pertence a ambos grupos de descendencia. Desde o ponto de vista da ciência ocidental, isto pode parecer contradictorio, mas deve se recordar que a definição do parentesco é um assunto cultural, não biológico. Existem algumas sociedades, como a ocidental, onde uma pessoa é reconhecido socialmente como parente dos familiares da mãe e do pai; nestes casos, falar de linhagens carece de qualquer sentido.

Sistemas terminológicos de parentesco

O parentesco é um facto ao mesmo tempo natural e cultural. As relações de parentesco estão baseadas na observação de factos dados pela natureza como o nascimento de um menino, o exercício da sexualidad ou a morte das pessoas. No entanto, está carregado de conteúdos culturais que condicionan a forma em que a cada sociedade define as regras que regem esta esfera da sociedade. Os códigos sociais que regulam a função das redes de parentesco estão relacionados com os sistemas terminológicos de parentesco, que podem ser definidos como o conjunto de palavras que são empregues por uma sociedade para chamar aos membros de uma parentela. A cada língua possui um sistema de termos particular; no entanto, as análises antropológicos têm arrojado como resultado a caracterização de todos os sistemas conhecidos em seis grandes tipos de sistemas de nomenclatura.


Notas

  1. Com o termo salvajismo designava-se aos povos não europeus que não tinham desenvolvido uma cultura urbana. Durante o século XIX, era comum entre os pensadores sociais o pensar que todos os povos tendiam a um estado de progresso —cria fortemente relacionada com o Iluminismo do século XVIII— e que, nesta tendência inexorável, tinha uns povos que estavam mais atrasados que os que encabeçavam a civilização universal, isto é, os franceses e britânicos.
  2. Para uma introdução mais ampla às ideias de Bachofen, pode revisar-se seu texto "A história da família como instituição social", em Palerm, 1976: 159-165.
  3. Veja-se por exemplo, o artigo Juchitán: um matriarcado em luta, http://www.arquired.com.mx/palm/shwNoticia.ared?idNot=2479, onde o termo designa um contexto social onde as mulheres têm uma presença importante, ainda que sempre se objeta que em realidade são os homens os que possuem o poder na sociedade zapoteca contemporânea do Istmo de Tehuantepec.
  4. Com o termo de sobrevivência, McLennan referia-se às impressões anacrónicas que ficavam na cultura de uma sociedade moderna e que tinham sua origem em práticas comuns em outras etapas de sua evolução, mesmas que perdiam seu significado na medida que a mesma sociedade se transformava (Lowie, 1985).
  5. Poliandria é um termo técnico da antropologia do parentesco que se refere às situações nas que uma mulher tem vários cónyuges. Pode ser permitida socialmente —como entre os nayar da Índia, ou condenada, como no caso das sociedades ocidentais.
  6. Lowie, 1985: 54-71.
  7. Este livro é Une-a dos Iroqueses.
  8. Entre os mais duros críticos à obra de Morgan encontrava-se Franz Boas, que em um de seus textos declara absurdas certas ideias sustentadas por Morgan, como a equiparación do estado de salvajismo com a infância humana, ou a forte tendência especulativa da corrente evolucionista que influía a obra de Morgan e os demais antropólogos contemporâneos seus.
  9. Para maiores detalhes sobre este ponto em particular, pode revisar-se a edição facsimilar da edição de 1871 de Systems of Consanguinity and Affinity em http://www.openlibrary.org/details/systemsofconsang00morgrich.
  10. De acordo com Morgan, a família consanguínea era o tipo de unidade de parentesco surgida da união entre dois irmãos em casal; que seria o primeiro tipo de família que surgiu. A razão desta interpretação é que nos sistemas hawaianos, Ego lume às irmãs de seu pai com o mesmo termo que a sua própria mãe.
  11. O sistema de parentesco esquimal é análogo ao que se emprega na maior parte das línguas indoeuropeas. A característica principal deste sistema é que Ego não distingue entre seus primos cruzados e paralelos, e lume do mesmo modo aos irmãos de ambos sexos de seus pais.
  12. Nas formas elementares da vida religiosa (1997), Durkheim chegou à conclusão de que o tótem em realidade é uma encarnación do clã. Em tanto elemento sagrada, a relação entre o clã e o tótem regia-se por um código de proibições, entre as que se encontrava a proibição de ingerir o tótem para os membros do clã (se o tótem é o clã, ao o comer realizariam um acto de canibalismo). Por tanto, se o grupo estava obrigado a ceder seu tótem como alimento para outros clãs, da mesma maneira os membros do clã deveriam se casar fosse do grupo. Durkheim pensava que as proibições sobre o tótem se refletiam na esfera do parentesco nas exogamia que primava nas regras nupciais dos povos aborígenes australianos. Sobre a proibição do incesto, Durkheim publicou um ensaio: "A prohibition de l'inceste", em L'Année Sociologique não. 1, 1896; a um século de seu aparecimento, o texto aparece em Durkheim, 1996.
  13. Seguindo com seu argumentación, Radcliffe-Brown considerava que os casais sem filhos não podiam constituir uma família nesse sentido (1972: 41).
  14. Esta postura é criticada por todos aqueles antropólogos para os que o dinamismo das sociedades é de vital importância para analisar teoricamente as relações entre os seres humanos. Entre os críticos do anti-historicismo da teoria da filiación e todo o paradigma do funcionalismo estrutural se encontram alguns antropólogos formados nesta corrente, entre eles, o procesualista Max Gluckman, Victor Turner, Edmund Leach e Julian Steward.
  15. São conhecidas algumas excepções onde ocorre que a prescripción matrimonial de uma parte de uma sociedade aponta a relações incestuosas. Por exemplo, entre as famílias nobres de Hawái ou a antiga sociedade inca, costumava dar-se preferência ao casal entre parentes da mesma classe para manter o estatus social do grupo. No entanto, nestes contextos o casal incestuoso estava proibido para os estratos mais baixos da sociedade.
  16. González, 1994: 9.
  17. Em antropologia, estes termos são empregados para distinguir aos progenitores (papel biológico) dos pais (papel social).
  18. Em antropologia, o termo linhagem refere-se ao conjunto de pessoas que descem de um mesmo antepassado, cuja descendencia é reconhecida socialmente como válida.

Bibliografía

  • Boas, Franz (1964), Questões fundamentais de antropologia cultural, Edições Solar, Buenos Aires.
  • Buchler, Ira (1982), Estudos de parentesco, Anagrama, Barcelona.
  • Evans-Pritchard, Edward Evan e Fortes, Meyer (1994): African Political Systems, Paul Kegan International.
  • González Echevarría, Aurora (1994), Teorias do Parentesco. Novas aproximações. Eudema, Barcelona.
  • Kuper, Adam (1988), The Invention of Primitive Society, Routledge, London.
  • Leach, Edmund (1976), Sistemas políticos da Alta Birmania: estudo sobre a estrutura social kachin, Anagrama, Barcelona.
  • Lévi-Strauss, Claude (1977), Antropologia estrutural, Editorial Universitária de Buenos Aires.

—— (1981), As estruturas elementares do parentesco, Paidós, Barcelona.

  • Lowie, Robert (1985), História da etnología, Fundo de Cultura Económica, México.
  • Morgan, Lewis Henry (1984), A sociedade primitiva, Quinto Sol, México.
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  • San Román, Teresa e Aurora González Echevarría (1994), As relações de parentesco, Universitat Autònoma de Barcelona, Bellaterra.
  • Trautmann, Thomas R. (1987), Lewis Henry Morgan and the invention of kinship, University of Califórnia Press, Berkley.

Veja-se também

Obtido de http://ks312095.kimsufi.com../../../../articles/a/r/t/Artes_Visuais_Cl%C3%A1sicas_b9bf.html"