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Arte

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Para outros usos deste termo, veja-se Arte (desambiguación).
Alegoria da arte (1690-1694), de Sebastiano Ricci.

A arte (do lat. ars, artis, e esta sobreposição do gr. τέχνη)[1] é entendido geralmente como qualquer actividade ou produto realizado pelo ser humano com uma finalidade estética ou comunicativa, através do que expressa ideias, emoções ou, em general, uma visão do mundo, mediante diversos recursos, como os plásticos, linguísticos, sonoros ou mistos.[2] A arte é um componente da cultura, refletindo em sua concepção os sustratos económicos e sociais, e a transmissão de ideias e valores, inherentes a qualquer cultura humana ao longo do espaço e o tempo. Costuma-se considerar que com o aparecimento do Homo sapiens a arte teve em princípio uma função ritual, mágica ou religiosa, mas essa função mudou com a evolução do ser humano, adquirindo um componente estético e uma função social, pedagógica, mercantil ou simplesmente ornamental.

A noção de arte continua hoje em dia sujeita a profundas polémicas, dado que sua definição está aberta a múltiplas interpretações, que variam segundo a cultura, a época, o movimento, ou a sociedade para a qual o termo tem um determinado sentido. O vocablo ‘arte’ tem uma extensa acepción, podendo designar qualquer actividade humana feita com esmero e dedicação, ou qualquer conjunto de regras necessárias para desenvolver de forma óptima uma actividade: fala-se assim de arte culinario”, “arte médica”, “artes marciales”, “artes de arraste” na pesca, etc. Nesse sentido, arte é sinónimo de capacidade, habilidade, talento, experiência. No entanto, mais comummente costuma-se considerar à arte como uma actividade criadora do ser humano, pela qual produz uma série de objectos (obras de arte) que são singulares, e cuja finalidade é principalmente estética. Nesse contexto, arte seria a generalização de um conceito expressado desde antanho como “belas artes”, actualmente algo em desuso e reduzido a âmbitos académicos e administrativos. De igual forma, o emprego da palavra arte para designar a realização de outras actividades tem vindo sendo substituído por termos como ‘técnica’ ou ‘oficio’. Neste artigo trata-se de arte entendido como um médio de expressão humano de carácter criativo.

Conteúdo

Conceito

Arquivo:Attributes of painting, sculpture & architecture.jpg
Atributos da pintura, a escultura e a arquitectura (1769), de Anne Vallayer-Coster.
Artigo principal: Teoria da arte

A definição de arte é aberta, subjetiva, discutible. Não existe um acordo unânime entre historiadores, filósofos ou artistas. Ao longo do tempo deram-se numerosas definições de arte, entre elas: «a arte é o recto ordenamento da razão» (Tomás de Aquino); «a arte é aquilo que estabelece sua própria regra» (Schiller); «a arte é o estilo» (Max Dvořák); «a arte é expressão da sociedade» (John Ruskin); «a arte é a liberdade do génio» (Adolf Loos); «a arte é a ideia» (Marcel Duchamp); «a arte é a novidade» (Jean Dubuffet); «a arte é a acção, a vida» (Joseph Beuys); «arte é todo aquilo que os homens chamam arte» (Dino Formaggio). O conceito tem ido variando com o passo do tempo: até o Renacimiento, arte só se consideravam as artes liberais; a arquitectura, a escultura e a pintura eram “manualidades”. A arte tem sido desde sempre um dos principais meios de expressão do ser humano, através do qual manifesta suas ideias e sentimentos, a forma como se relaciona com o mundo. Sua função pode variar desde a mais prática até a ornamental, pode ter um conteúdo religioso ou simplesmente estético, pode ser duradouro ou efémero. No século XX perde-se inclusive o sustrato material: dizia Beuys que a vida é um médio de expressão artística, destacando o aspecto vital, a acção. Assim, todo mundo é capaz de ser artista.

O termo arte procede do latín ars, e é o equivalente ao termo grego τέχνη (téchne, de onde prove ‘técnica’). Originalmente aplicava-se a toda a produção realizada pelo homem e às disciplinas do saber fazer. Assim, artistas eram tanto o cocinero, o jardineiro ou o construtor, como o pintor ou o poeta. Com o tempo a derivação latina (ars -> arte) utilizou-se para designar às disciplinas relacionadas com as artes do estético e o emotivo; e a derivação grega (téchne -> técnica), para aquelas disciplinas que têm que ver com as produções intelectuais e de artigos de uso.[3] Na actualidade, é difícil encontrar que ambos termos (arte e técnica) se confundam ou utilizem como sinónimos.

Evolução histórica do conceito de arte

Na antigüedad clássica grecorromana, uma dos principais berços da civilização ocidental e primeira cultura que reflexionou sobre a arte, se considerava a arte como uma habilidade do ser humano em qualquer terreno produtivo, sendo praticamente um sinónimo de ‘destreza’: destreza para construir um objecto, para comandar um exército, para convencer ao público em um debate, ou para efectuar medidas agronómicas. Em definitiva, qualquer habilidade sujeita a regras, a preceitos específicos que a fazem objecto de aprendizagem e de evolução e perfeccionamiento técnico. Em mudança, a poesia, que vinha da inspiração, não estava catalogada como arte. Assim, Aristóteles, por exemplo, definiu a arte como aquela «permanente disposição a produzir coisas de um modo racional», e Quintiliano estabeleceu que era aquilo «que está baseado em um método e uma ordem» (via et ordine).[4] Platón, no Protágoras, falou da arte, opinando que é a capacidade de fazer coisas por médio da inteligência, através de uma aprendizagem. Para Platón, a arte tem um sentido geral, é a capacidade criadora do ser humano.[5] Casiodoro destacou na arte seu aspecto produtivo, conforme a regras, assinalando três objectivos principais da arte: ensinar (doceat), comover (moveat) e comprazer (delectet).[6]

Alegoria da pintura (1666), de Johannes Vermeer.

Durante o Renacimiento começou-se a gestar uma mudança de mentalidade, separando os oficios e as ciências das artes, onde se incluiu pela primeira vez à poesia, considerada até então um tipo de filosofia ou inclusive de profecia –para o que foi determinante a publicação em 1549 da tradução italiana da Poética de Aristóteles–. Nesta mudança influiu uma melhora na situação social do artista, devida ao interesse que os nobres e ricos prohombres italianos começaram a mostrar pela beleza. Os produtos do artista adquiriram um novo estatus de objectos destinados ao consumo estético e, por isso, a arte se converteu em um médio de promoção social, se incrementando o mecenazgo artístico e fomentando o coleccionismo.[7] Surgiram nesse contexto vários tratados teóricos a respeito da arte, como os de Leon Battista Alberti (De Pictura, 1436-1439; De re aedificatoria, 1450; e De Statua, 1460), ou Os Comentários (1447) de Lorenzo Ghiberti. Alberti recebeu a influência aristotélica, pretendendo contribuir uma base científica à arte. Falou de decorum , o tratamento do artista para adecuar os objectos e temas artísticos a um sentido mesurado, perfeccionista. Ghiberti foi o primeiro em periodificar a história da arte, distinguindo antigüedad clássica, período medieval e o que chamou “renacer das artes”.[8]

Com o manierismo começou a arte moderna: as coisas já não se representam tal como são, senão tal como as vê o artista. A beleza se relativiza, passa da beleza única renacentista, baseada na ciência, às múltiplas belezas do manierismo, derivadas da natureza. Apareceu na arte um novo componente de imaginación , refletindo tanto o fantástico como o grotesco, como se pode perceber na obra de Brueghel ou Arcimboldo. Giordano Bruno foi um dos primeiros pensadores que prefiguró as ideias modernas: dizia que a criação é infinita, não há centro nem limites –nem Deus nem o homem–, tudo é movimento, dinamismo. Para Bruno, há tantas artes como artistas, introduzindo a ideia de originalidad do artista. A arte não tem normas, não se aprende, senão que vem da inspiração.[9]

Os seguintes avanços fizeram-se no século XVIII com a Ilustração, onde começou a se produzir certa autonomia do facto artístico: a arte afastou-se da religião e da representação do poder para ser fiel reflito da vontade do artista, centrando-se mais nas qualidades sensíveis da obra que não em seu significado.[10] Jean-Baptiste Dubos, em Reflexões críticas sobre a poesia e a pintura (1719), abriu o caminho para a relatividad do gosto, razonando que a estética não vem dada pela razão, senão pelos sentimentos. Assim, para Dubos a arte comove, chega ao espírito de uma forma mais directa e imediata que o conhecimento racional. Dubos fez possível a democratização do gosto, opondo à regulamentação académica, e introduziu a figura do ‘génio’, como atributo dado pela natureza, que está para além das regras.

O tribunal dos Uffizi (1772-1778), de Johann Zoffany.

No romantismo, surgido na Alemanha no final do século XVIII com o movimento denominado Sturm und Drang, triunfou a ideia de uma arte que surge espontaneamente do indivíduo, desenvolvendo a noção de génio –a arte é a expressão das emoções do artista–, que começa a ser mitificado.[11] Autores como Novalis e Friedrich von Schlegel reflexionaram sobre a arte: na revista Athenäum, editada por eles, surgiram as primeiras manifestações da autonomia da arte, unido à natureza. Para eles, na obra de arte se encontram o interior do artista e sua própria linguagem natural.[12]

Arthur Schopenhauer dedicou o terceiro livro do mundo como vontade e representação à teoria da arte: a arte é uma via para escapar do estado de infelicidade próprio do homem. Identificou conhecimento com criação artística, que é a forma mais profunda de conhecimento. A arte é a reconciliação entre vontade e consciência, entre objecto e sujeito, atingindo um estado de contemplación , de felicidade. A consciência estética é um estado de contemplación desinteresada, onde as coisas se mostram em sua pureza mais profunda. A arte fala no idioma da intuición, não da reflexão; é complementar da filosofia, a ética e a religião. Influído pela filosofia oriental, manifestou que o homem deve libertar da vontade de viver, do ‘querer’, que é origem de insatisfacción. A arte é uma forma de livrar da vontade, de ir para além do ‘eu’.[13]

Richard Wagner recolheu a ambivalencia entre o sensível e o espiritual de Schopenhauer: em Ópera e drama (1851), Wagner propôs a ideia da “obra de arte total” (Gesamtkunstwerk), onde fá-se-ia uma síntese da poesia, a palavra –elemento masculino–, com a música –elemento feminino–. Opinava que a linguagem primitiva seria vocálico, enquanto a consonante foi um elemento racionalizador; por conseguinte, a introdução da música na palavra seria uma volta à inocência primitiva da linguagem.[14]

No final do século XIX surgiu o esteticismo, que foi uma reacção ao utilitarismo imperante na época e à fealdad e o materialismo da era industrial. Em frente a isso, surgiu uma tendência que outorgava à arte e à beleza uma autonomia própria, sintetizada na fórmula de Théophile Gautiera arte pela arte” (l'art pour l'art), chegando inclusive a se falar de religião estética”.[15] Esta postura pretendia isolar ao artista da sociedade, para que procurasse de forma autónoma sua própria inspiração e se deixasse levar unicamente por uma busca individual da beleza.[16] Assim, a beleza se afasta de qualquer componente moral, convertendo no fim último do artista, que chega a viver sua própria vida como uma obra de arte –como se pode apreciar na figura do dandy–.[17] Um dos teóricos do movimento foi Walter Pater, que influiu sobre o denominado decadentismo inglês, estabelecendo em suas obras que o artista deve viver a vida intensamente, seguindo como ideal à beleza. Para Pater, a arte é “o círculo mágico da existência”, um mundo isolado e autónomo posto ao serviço do prazer, elaborando uma autêntica metafísica da beleza.[18]

A oficina do pintor (1855), de Gustave Courbet.

Por outro lado, Charles Baudelaire foi um dos primeiros autores que analisaram a relação da arte com a recém surgida era industrial, prefigurando a noção de beleza moderna”: não existe a beleza eterna e absoluta, senão que a cada conceito do belo tem algo de eterno e algo de transitório, algo de absoluto e algo de particular. A beleza vem da paixão e, ao ter a cada indivíduo sua paixão particular, também tem seu próprio conceito de beleza. Em sua relação com a arte, a beleza expressa por um lado uma ideia “eternamente subsistente”, que seria a “alma da arte”, e por outro um componente relativo e circunstancial, que é o “corpo da arte”. Assim, a dualidad da arte é expressão da dualidad do homem, de sua aspiração a uma felicidade ideal enfrentada às paixões que lhe movem para ela. Em frente à metade eterna, ancorada na arte clássica antigo, Baudelaire viu na metade relativa a arte moderna, cujos signos distintivos são o transitório, o fugaz, o efémero e cambiante –sintetizados na moda–. Baudelaire tinha um conceito neoplatónico de beleza, que é a aspiração humana para um ideal superior, acessível através da arte. O artista é o “herói da modernidad”, cuja principal qualidade é a melancolia, que é o anseio da beleza ideal.[19]

Em contraposição ao esteticismo, Hippolyte-Adolphe Taine elaborou uma teoria sociológica da arte: em sua Filosofia da arte (1865-1869) aplicou à arte um determinismo baseado na raça, o contexto e a época (race, milieu, moment). Para Taine, a estética, a “ciência da arte”, opera como qualquer outra disciplina científica, se baseando em parámetros racionais e empíricos. Igualmente, Jean Marie Guyau, nos problemas da estética contemporânea (1884) e A arte desde o ponto de vista sociológico (1888), propôs uma visão evolucionista da arte, afirmando que a arte está na vida, e que evolui como esta; e, ao igual que a vida do ser humano está organizada socialmente, a arte deve ser reflito da sociedade.[20]

A estética sociológica teve uma grande vinculação com o realismo pictórico e com movimentos políticos de esquerdas, especialmente o socialismo utópico: autores como Henri de Saint-Simon, Charles Fourier e Pierre Joseph Proudhon defenderam a função social da arte, que contribui ao desenvolvimento da sociedade, aunando beleza e utilidade em um conjunto harmônico. Por outro lado, no Reino Unido, a obra de teóricos como John Ruskin e William Morris contribuiu uma visão funcionalista da arte: nas pedras de Veneza (1851-1856) Ruskin denunciou a destruição da beleza e a vulgarización da arte levada a cabo pela sociedade industrial, bem como a degradação da classe operária, defendendo a função social da arte. Na arte do povo (1879) pediu mudanças radicais na economia e a sociedade, reclamando uma arte “feita pelo povo e para o povo”. Por sua vez, Morris –fundador do movimento Arts & Crafts– defendeu uma arte funcional, prático, que satisfaça necessidades materiais e não só espirituais. Em Escritos estéticos (1882-1884) e Os fins da arte (1887) propôs um conceito de arte utilitario mas afastado de sistemas de produção excessivamente tecnificados, próximo de um conceito do socialismo próximo ao corporativismo medieval.[21]

Representação do cascanueces, de Piotr Chaikovski.

Por outro lado, a função da arte foi questionada pelo escritor russo Lev Tolstoi: em Que é a arte? (1898) propôs-se a justificativa social da arte, argumentando que sendo a arte uma forma de comunicação só pode ser válido se as emoções que transmite podem ser compartilhadas por todos os homens. Para Tolstoi, a única justificativa válida é a contribuição da arte à fraternidad humana: uma obra de arte só pode ter valor social quando transmite valores de fraternidad, isto é, emoções que impulsionem à unificação dos povos.[22]

Nessa época começou-se a abordar o estudo da arte desde o terreno da psicologia: Sigmund Freud aplicou o psicoanálisis à arte em Uma lembrança infantil de Leonardo dá Vinci (1910), defendendo que a arte seria uma das maneiras de representar um desejo, uma pulsión reprimida, de forma sublimada. Opinava que o artista é uma figura narcisista, próxima ao menino, que reflete na arte seus desejos, e afirmou que as obras artísticas podem ser estudadas como os sonhos e as doenças mentais, com o psicoanálisis. Seu método era semiótico, estudando os símbolos, e opinava que uma obra de arte é um símbolo. Mas como o símbolo representa um determinado conceito simbolizado, há que estudar a obra de arte para chegar à origem criativa da obra.[23] Igualmente, Carl Gustav Jung relacionou a psicologia com diversas disciplinas como a filosofia, a sociologia, a religião, a mitología, a literatura e a arte. Em Contribuições à psicologia analítica (1928), sugeriu que os elementos simbólicos presentes na arte são imagens primordiais” ou “arquetipos”, que estão presentes de forma innata no “subconsciente colectivo” do ser humano.[24]

Wilhelm Dilthey, desde a estética cultural, formulou uma teoria a respeito da unidade entre arte e vida. Prefigurando a arte de vanguardia, Dilthey já vislumbraba no final do século XIX como a arte se afastava das regras académicas, e como cobrava a cada vez maior importância a função do público, que tem o poder de ignorar ou engrandecer a obra de um artista determinado. Encontrou em todo isso uma “anarquía do gosto”, que achacó a uma mudança social de interpretação da realidade, mas que percebeu como transitório, sendo necessário achar «uma relação sã entre o pensamento estético e a arte». Assim, ofereceu como salvação da arte as “ciências do espírito”, especialmente a psicologia: a criação artística deve poder analisar-se baixo o prisma da interpretação psicológica da fantasía. Em Vida e poesia (1905) apresentou a poesia como expressão da vida, como ‘vivência’ (Erlebnis) que reflete a realidade externa da vida. A criação artística tem pois como função intensificar nossa visão do mundo exterior, o apresentando como um conjunto coerente e pleno de sentido.[25]

Visão actual

Fonte, de Marcel Duchamp. No século XX supõe uma perda do conceito de beleza clássica para conseguir um maior efeito no diálogo artista-espectador.

No século XX tem suposto uma radical transformação do conceito de arte: a superação das ideias racionalistas da Ilustração e o passo a conceitos mais subjetivos e individuais, partindo do movimento romântico e cristalizando na obra de autores como Kierkegaard e Nietzsche, supõem uma ruptura com a tradição e uma rejeição da beleza clássica. O conceito de realidade foi questionado pelas novas teorias científicas: a subjetividad do tempo de Bergson , a relatividad de Einstein , a mecânica cuántica, a teoria do psicoanálisis de Freud, etc. Por outro lado, as novas tecnologias fazem que a arte mude de função, como a fotografia e o cinema já se encarregam de plasmar a realidade. Todos estes factores produzem a génesis da arte abstrata, o artista já não tenta refletir a realidade, senão seu mundo interior, expressar seus sentimentos.[26] A arte actual tem oscilações contínuas do gosto, muda simultaneamente junto a este: bem como a arte clássica sustentava-se sobre uma metafísica de ideias inmutables, o actual, de raiz kantiana, encontra gosto na consciência social de prazer (cultura de massas). Também há que valorizar a progressiva diminuição do analfabetismo, já que antigamente, ao não saber ler grande parte da população, a arte gráfica era o melhor médio para a transmissão do conhecimento –sobretudo religioso–, função que já não é necessária no século XX.

Uma das primeiras formulaciones foi a do marxismo: da obra de Marx desprendia-se que a arte é uma “superestructura” cultural determinada pelas condições sociais e económicas do ser humano. Para os marxistas, a arte é reflito da realidade social, conquanto o próprio Marx não via uma correspondência directa entre uma sociedade determinada e a arte que produz. Georgi Plejánov, em Arte e vida social (1912), formulou uma estética materialista que recusava a “arte pela arte”, bem como a individualidad do artista alheio à sociedade que o envolve.[27] Walter Benjamin incidiu de novo na arte de vanguardia, que para ele é «a culminación da dialéctica da modernidad», o final da tentativa totalizador da arte como expressão do mundo circundante. Tentou dilucidar o papel da arte na sociedade moderna, realizando uma análise semiótico no que a arte se explica através de signos que o homem tenta decifrar sem um resultado aparentemente satisfatório. Na obra de arte na época da reproductibilidad técnica (1936) analisou a forma como as novas técnicas de reprodução industrial da arte podem fazer variar o conceito deste, ao perder seu carácter de objecto único e, por tanto, seu halo de reverência mítica; isto abre novas vias de conceber a arte –inexploradas ainda para Benjamin– mas que suporão uma relação mais livre e aberta com a obra de arte.[28]

Theodor W. Enfeito, como Benjamin pertencente à Escola de Frankfurt, defendeu a arte de vanguardia como reacção à excessiva tecnificación da sociedade moderna. Em sua Teoria estética (1970) afirmou que a arte é reflito das tendências culturais da sociedade, mas sem chegar a ser fiel reflito desta, já que a arte representa o inexistente, o irreal; ou, em todo o caso, representa o que existe mas como possibilidade de ser outra coisa, de trascender. A arte é a “negación da coisa”, que através desta negación a trasciende, mostra o que não há nela de forma primigenia. É aparência, mentira, apresentando o inexistente como existente, prometendo que o impossível é possível.[29]

Ilha Pagoda na desembocadura do rio Min (1870), de John Thomson. A fotografia supôs uma grande revolução à hora de conceber a arte no século XIX e o XX.

Representante do pragmatismo, John Dewey, em Arte como experiência (1934), definiu a arte como “culminación da natureza”, defendendo que a base da estética é a experiência sensorial. A actividade artística é uma consequência mais da actividade natural do ser humano, cuja forma organizativa depende dos condicionamientos ambientais em que se desenvuelve. Assim, a arte é expressão”, onde fins e meios se fundem em uma experiência agradável. Para Dewey, a arte, como qualquer actividade humana, implica iniciativa e criatividade, bem como uma interacção entre sujeito e objecto, entre o homem e as condições materiais nas que desenvolve seu labor.[30]

José Ortega e Gasset analisou na deshumanización da arte (1925) a arte de vanguardia desde o conceito de sociedade de massas”, onde o carácter minoritário da arte vanguardista produz uma elitización do público consumidor de arte. Ortega aprecia na arte uma “deshumanización” devida à perda de perspectiva histórica, isto é, de não poder analisar com suficiente distância crítica o sustrato sócio-cultural que implica a arte de vanguardia. A perda do elemento realista, imitativo, que Ortega aprecia na arte de vanguardia, supõe uma eliminação do elemento humano que estava presente à arte naturalista. Assim mesmo, esta perda do humano faz desaparecer os referentes em que estava baseado a arte clássica, supondo uma ruptura entre a arte e o público, e gerando uma nova forma de compreender a arte que só poderão entender os iniciados. A percepción estética da arte deshumanizado é a de uma nova sensibilidade baseada não na afinidad sentimental –como se produzia com a arte romântica–, senão em um verdadeiro distanciamiento, uma apreciação de matizes. Essa separação entre arte e humanidade supõe uma tentativa de voltar ao homem à vida, de rebajar o conceito de arte como uma actividade secundária da experiência humana.[31]

Na escola semiótica, Luigi Pareyson elaborou em Estética. Teoria da formatividad (1954) uma estética hermenéutica, onde a arte é interpretação da verdade. Para Pareyson, a arte é “formativo”, isto é, expressa uma forma de fazer que, «ao mesmo tempo que faz, inventa o modo de fazer». Em outras palavras, não se baseia em regras fixas, senão que as define conforme se elabora a obra e as projecta no momento da realizar. Assim, na formatividad a obra de arte não é um “resultado”, senão um “lucro”, onde a obra tem encontrado a regra que a define especificamente. A arte é toda aquela actividade que procura um fim sem meios específicos, devendo achar para sua realização um processo criativo e inovador que dê resultados originais de carácter inventivo.[32] Pareyson influiu na denominada Escola de Turín , que desenvolverá seu conceito ontológico da arte: Umberto Eco, em Obra aberta (1962), afirmou que a obra de arte só existe em sua interpretação, na abertura de múltiplas significados que pode ter para o espectador; Gianni Vattimo, em Poesia e ontología (1968), relacionou a arte com o ser, e por tanto com a verdade, já que é na arte onde a verdade se mostra de forma mais pura e reveladora.[33]

A banda desenhada tem sido uma das últimas incorporações à categoria de belas artes. Na imagem Little Nemo inSlumberland , o primeiro grande clássico da banda desenhada publicada em 1905.

Uma das últimas derivações da filosofia e a arte é a postmodernidad, teoria sócio-cultural que postula a actual vigência de um período histórico que teria superado o projecto moderno, isto é, a raiz cultural, política e económica própria da Idade Contemporânea, marcada no cultural pela Ilustração, no político pela Revolução francesa e no económico pela Revolução industrial. Em frente às propostas da arte de vanguardia, os postmodernos não propõem novas ideias, nem éticas nem estéticas; tão só reinterpretan a realidade que lhes envolve, mediante a repetição de imagens anteriores, que perdem assim seu sentido. A repetição encerra o marco da arte na arte mesma, assume-se o falhanço do compromisso artístico, a incapacidade da arte para transformar a vida quotidiana. A arte postmoderno volta sem pudor ao sustrato material tradicional, à obra de arte-objecto, à “arte pela arte”, sem pretender fazer nenhuma revolução, nenhuma ruptura. Alguns de seus mais importantes teóricos têm sido Jacques Derrida e Michel Foucault.[34]

Como conclusão, caberia dizer que as velhas fórmulas que baseavam a arte na criação de beleza ou na imitação da natureza têm ficado obsoletas, e hoje em dia a arte é uma qualidade dinâmica, em constante transformação, inmersa ademais nos meios de comunicação de massas, nos canais de consumo, com um aspecto muitas vezes efémero, de percepción instantânea, presente com igual validade na ideia e no objecto, em seu génesis conceptual e em sua realização material.[35] Morris Weitz, representante da estética analítica, opinava no papel da teoria na estética (1957) que «é impossível estabelecer qualquer tipo de critérios da arte que sejam necessários e suficientes; portanto, qualquer teoria da arte é uma imposibilidad lógica, e não simplesmente algo que seja difícil de obter na prática». Segundo Weitz, uma qualidade intrínseca da criatividade artística é que sempre produz novas formas e objectos, pelo que «as condições da arte não podem se estabelecer nunca de antemão». Assim, «o suposto básico de que a arte possa ser tema de qualquer definição realista ou verdadeira é falso».[36]

No fundo, a indefinición da arte estriba em sua redução a determinadas categorias –como imitação, como recreación, como expressão–; a arte é um conceito global, que inclui todas estas formulaciones e muitas mais, um conceito em evolução e aberto a novas interpretações, que não se pode fixar de forma convencional, senão que deve aglutinar todas as tentativas do expressar e o formular, sendo uma síntese ampla e subjetiva de todos eles.

A arte é uma actividade humana consciente capaz de reproduzir coisas, construir formas, ou expressar uma experiência, se o produto desta reprodução, construção, ou expressão pode deleitar, emocionar ou produzir um choque.
Władysław Tatarkiewicz, História de seis ideias (1976).[37]

Classificação

As sete artes liberais, imagem do Hortus deliciarum (século XII), de Herrad von Landsberg.

A classificação da arte, ou das diferentes facetas ou categorias que podem se considerar artísticas, tem tido uma evolução paralela ao conceito mesmo de arte: como se viu anteriormente, durante a antigüedad clássica se considerava arte todo o tipo de habilidade manual e destreza, de tipo racional e sujeita a regras; assim, entravam nessa denominação tanto as actuais belas artes como o artesanato e as ciências, enquanto ficavam excluídas a música e a poesia. Uma das primeiras classificações que se fizeram das artes foi a dos filósofos sofistas presocráticos, que distinguiram entre “artes úteis” e “artes placenteras”, isto é, entre as que produzem objectos de certa utilidade e as que servem para o entretenimento. Plutarco introduziu, junto a estas duas, as “artes perfeitas”, que seriam o que hoje consideramos ciências. Platón, por sua vez, estabeleceu a diferença entre “artes produtivas” e “artes imitativas”, segundo se produziam objectos novos ou imitavam a outros.[38]

Durante era-a romana teve diversas tentativas de classificar as artes: Quintiliano dividiu a arte em três esferas: “artes teóricas”, baseadas no estudo (principalmente, as ciências); “artes práticas”, baseadas em uma actividade, mas sem produzir nada (como a dança); e “artes poéticas” –segundo a etimología grega, onde ποίησις (poíêsis) quer dizer produção’–, que são as que produzem objectos. Cicerón catalogou as artes segundo sua importância: “artes maiores” (política e estratégia militar), “artes médias” (ciências, poesia e retórica) e “artes menores” (pintura, escultura, música, interpretação e atletismo). Plotino classificou as artes em cinco grupos: as que produzem objectos físicos (arquitectura), as que ajudam à natureza (medicina e agricultura), as que imitam à natureza (pintura), as que melhoram a acção humana (política e retórica) e as intelectuais (geometria).[39]

No entanto, a classificação que teve mais fortuna –chegando até a era moderna– foi a de Galeno no século II, que dividiu a arte em artes liberais” e “artes vulgares”, segundo se tinham uma origem intelectual ou manual. Entre as liberais encontravam-se: a gramática, a retórica e a dialéctica –que formavam o trivium–, e a aritmética, a geometria, a astronomia e a música –que formavam o quadrivium–; as vulgares incluíam a arquitectura, a escultura e a pintura, mas também outras actividades que hoje consideramos artesanato.[40]

Durante a Idade Média continuou a divisão da arte entre artes liberais e vulgares –chamadas estas últimas então “mecânicas”–, conquanto teve novas tentativas de classificação: Boecio dividiu as artes em ars e artificium, classificação similar à de artes liberais e vulgares, mas em uma acepción que quase excluía as formas manuais do campo da arte, dependendo este tão só da mente. No século XII, Radulfo de Campo Lungo tentou fazer uma classificação das artes mecânicas, reduzindo-as a sete, igual número que as liberais. Em função de sua utilidade cara à sociedade, dividiu-as em: ars victuaria, para alimentar à gente; lanificaria, para vestir-lhes; architectura, para tentar-lhes uma casa; suffragatoria, para dar-lhes médios de transporte; medicinaria, que lhes curava; negotiatoria, para o comércio; militaria, para defender-se.[41]

No século XVI começou a considerar-se que a arquitectura, a pintura e a escultura eram actividades que requeriam não só oficio e destreza, senão também um tipo de concepção intelectual que as faziam superiores a outros tipos de manualidades. Se gestaba assim o conceito moderno de arte, que durante o Renacimiento adquiriu o nome de arti do disegno (artes do desenho), porquanto compreendiam que esta actividade –o desenhar– era a principal na génesis das obras de arte.[42]

As Meninas (1656), de Velázquez , foi um alegato da figura do pintor como artista inspirado, em frente à condição de simples artesão que até então se tinha do oficio de pintor.

No entanto, faltava aglutinar estas artes do desenho com o resto de actividades consideradas artísticas (música, poesia e teatro), tarefa que se desenvolveu durante os dois séculos seguintes com várias tentativas de procurar um nexo comum a todas estas actividades: assim, o humanista florentino Giannozzo Manetti propôs o termo “artes ingeniosas”, onde incluía as artes liberais, pelo que só mudava o vocablo; o filósofo neoplatónico Marsilio Ficino elaborou o conceito de artes musicais”, argumentando que a música era a inspiração para todas as artes; em 1555 , Giovanni Pietro Capriano introduziu em seu De lado poetica a acepción “artes nobres”, apelando à elevada finalidade destas actividades; Lodovico Castelvetro falou em seu Correttione (1572) de artes memoriales”, já que segundo ele estas artes procuravam fixar em objectos a memória de coisas e acontecimentos; Claude-François Menestrier, historiador francês do século XVII, formulou a ideia de artes pictóricas”, remarcando o carácter visual da arte; Emanuele Tesauro criou em 1658 a noção de artes poéticas”, inspirado na célebre cita de Horacio “ut pictura poesis” (a pintura como a poesia), descrevendo o componente poético e metafórico destas artes; já no século XVIII, coincidiram em um mesmo ano (1744) duas definições, a de artes agradáveis” de Giambattista Vico, e a de artes elegantes” de James Harris; por último, em 1746 , Charles Batteux estabeleceu nas belas artes reduzidas a um único princípio a concepção actual de belas artes, remarcando seu aspecto de imitação (imitatio).[43]

Batteux incluiu nas belas artes pintura, escultura, música, poesia e dança, enquanto manteve o termo artes mecânicas para o resto de actividades artísticas, e assinalou como actividades entre ambas categorias a arquitectura e a retórica, conquanto ao pouco tempo se eliminou o grupo intermediário e a arquitectura e a retórica se incorporaram plenamente às belas artes. No entanto, com o tempo, esta lista sofreu diversas variações, e conquanto aceitava-se comummente a presença de arquitectura, pintura, escultura, música e poesia, os dois postos restantes oscilaram entre dança-a, a retórica, o teatro e a jardinería, ou, mais adiante, novas disciplinas como a fotografia e o cinema. O termo “belas artes” fez fortuna, e ficou fixado como definição de todas as actividades baseadas na elaboração de objectos com finalidade estética, produzidos de forma intelectual e com vontade expresiva e trascendente. Assim, desde então as artes foram “belas artes”, separadas tanto das ciências como dos oficios manuais. Por isso mesmo, durante o século XIX se foi produzindo uma nova mudança terminológico: já que as artes eram só as belas artes, e o resto de actividades não o eram, pouco a pouco se foi perdendo o termo ‘belas’ para ficar só o de artes’, ficando a acepción ‘arte’ tal como a entendemos hoje em dia. Inclusive sucedeu que então se restringiu o termo “belas artes” para designar as artes visuais, as que no Renacimiento se denominavam “artes do desenho” (arquitectura, pintura e escultura), sendo as demais as “artes em general”. Também teve uma tendência a cada vez mais crescente a separar as artes visuais das literárias, que receberam o nome de “belas letras”.[44]

No entanto, pese à aceitação geral da classificação proposta por Batteux, nos séculos seguintes ainda se produziram tentativas de novas classificações da arte: Immanuel Kant distinguiu entre “artes mecânicas” e “artes estéticas”; Robert von Zimmermann falou de artes da representação material (arquitectura e escultura), da representação perceptiva (pintura e música) e da representação do pensamento (literatura); e Alois Riegl, em Arte industrial da época romana tardia, dividiu a arte em arquitectura, plástica e ornamento. Hegel, em sua Estética (1835-1838), estabeleceu três formas de manifestação artística: arte simbólica, clássico e romântico, que se relacionam com três formas diferentes de arte, três estádios de evolução histórica e três maneiras diferentes de tomar forma a ideia:

Arte História Ideia Forma
Simbólico Infância Desajuste Arquitectura
Clássico Maturidade Ajuste Escultura
Romântico Velhice Desbordamiento Pintura, música e poesia


Na ideia, primeiro há uma relação de desajuste, onde a ideia não encontra forma; depois é de ajuste, quando a ideia se ajusta à forma; por último, no desbordamiento, a ideia ultrapassa a forma, tende ao infinito. Na evolução histórica, equipasse infância com a arte prehistórico, antigo e oriental; maturidade, com a arte grega e romano; e velhice, com a arte cristã. Quanto à forma, a arquitectura (forma monumental) é uma arte tectónico, depende da matéria, de pesos, medidas, etc.; a escultura (forma antropomórfica) depende mais da forma volumétrica, pelo que se acerca mais ao homem; a pintura, música e poesia (formas suprasensibles) são a etapa mais espiritual, mais desmaterializada. A criação artística não tem de ser uma mimesis, senão um processo de liberdade espiritual. Em sua evolução, quando o artista chega a seu limite, se vão perdendo as formas sensíveis, a arte se volta mais conceptual e reflexivo; ao final deste processo produz-se a “morte da arte”.[45]

Os produtos artísticos de Juan Acha, mapa sobre a organização das artes em Arte e sociedade. Latinoamérica: o produto artístico e a estrutura (1979).

Pese a tudo, estas tentativas de classificação resultaram um tanto baldios e, quando parecia que por fim se tinha chegado a uma definição da arte universalmente aceitável, após tantos séculos de evolução, as mudanças sociais, culturais e tecnológicos produzidos durante os séculos XIX e XX têm comportado uma nova tentativa de definir a arte com base em parámetros mais abertos e omnicomprensivos, tentando abarcar tanto uma definição teórica da arte como uma catalogación prática que incluísse as novas formas artísticas que têm ido surgindo nos últimos tempos (fotografia, cinema, banda desenhada, novas tecnologias, etc.). Como o de Juan Acha com seu ensaio Arte e sociedade. Latinoamérica: o produto artístico e estrutura (1979), cuja complexa organização das artes é segundo sua aplicação e origem; em grupos como "Corpo-Objecto", "Superfície-Objectos", "Superfícies-Icónicas", "Superfícies-Literárias", "Espectáculos" e "Audiciones". E outra mais simples em Lógica do Limite (1991) de Eugenio Trías, na que o artista é como um habitante e a um determinado oficio artístico como um habitáculo, que constituem três grandes áreas da arte: artes estáticas ou do espaço, artes mistas e artes temporárias ou dinâmicas.

Artes estáticas ou espaciais Artes mistas Artes dinâmicas ou temporárias
Arquitectura Cinema Música
Escultura Teatro Dança
Pintura Ópera Literatura


Estas tentativas, um tanto infructuosos, têm produzido em certa forma o efeito contrário, acentuando ainda mais a indefinición da arte, que hoje em dia é um conceito aberto e interpretable, onde cabem muitas fórmulas e concepções, conquanto se costuma aceitar um mínimo denominador comum baseado em qualidades estéticas e expresivas, bem como um componente de criatividade.[35]

Classificação actual

Actualmente costuma-se considerar a seguinte lista de belas artes:

Certos críticos e historiadores consideram outras artes na lista, como a televisão, o teatro, a moda, a publicidade, a animação e os videojuegos. Na actualidade existe ainda certa discrepância sobre qual seria a “décima arte”.[46]

Elementos do fenómeno artístico

Autorretrato (1498), de Alberto Durero.
Seja qual seja seu antigüedad e clasicismo, uma obra de arte é em acto e não só potencialmente uma obra de arte quando pervive em alguma experiência individualizada. Assim que pedaço de pergamino, de mármol, de teia, permanece (ainda que sujeita às devastaciones do tempo) idêntica a si mesma através dos anos. Mas como obra de arte se recreia a cada vez que é experimentada esteticamente.
John Dewey, A arte como experiência (1934).[50]
Uma performance, exemplo de actividade artística que requer um público.
Galería de arte com vistas de Roma antiga (1754-1757), de Giovanni Paolo Pannini.

Disciplinas artísticas

Arquitectura: Casa de la Cascada (1939), de Frank Lloyd Wright.
Pintura: La noche estrellada (1889), de Vincent van Gogh.
Pintura: A noite estrellada (1889), de Vincent vão Gogh.
Escultura: Éxtasis de la beata Ludovica Albertoni (1671-1674), de Gian Lorenzo Bernini.
Escultura: Êxtase da beata Ludovica Albertoni (1671-1674), de Gian Lorenzo Bernini.
Música: Cuarteto para flauta (1777), de Wolfgang Amadeus Mozart.
Literatura: Ejemplo de caligrafía en latín que representa una Biblia de 1407.
Literatura: Exemplo de caligrafía em latín que representa uma Biblia de 1407 .

As artes criativas com frequência são divididas em categorias mais específicas, como as artes decorativas, as artes plásticas, as artes escénicas ou a literatura. Assim, a pintura é uma forma de arte visual, e a poesia é uma forma de literatura. Alguns exemplos são:

Artes visuais
Artes escénicas
Artes musicais
Artes literárias

Estilos artísticos

Artigo principal: Movimento artístico

A cada período histórico tem tido umas características concretas e definibles, comuns a outras regiões e culturas, ou bem únicas e diferenciadas, que têm ido evoluindo com o devir dos tempos. Daí surgem os estilos artísticos, que podem ter uma origem geográfica ou temporária, ou inclusive reduzir à obra de um artista em concreto, desde que se produzam umas formas artísticas claramente definitorias. ‘Estilo’ prove do latín stilus (‘punzón’), escrito em época medieval como stylus por influência do termo grego στύλος (stylos, ‘coluna’). Antigamente, denominava-se assim a um tipo de punzón para escrever sobre tablillas de cera ; com o tempo, passou a designar tanto o instrumento, como o trabalho do escritor e sua maneira de escrever. O conceito de estilo surgiu em literatura, mas cedo estendeu-se ao resto de artes, especialmente música e dança. Actualmente emprega-se este termo em seu sentido metonímico, isto é, como aquela qualidade que identifica a forma de trabalhar, de se expressar ou de conceber uma obra de arte por parte do artista, ou bem, em sentido mais genérico, de um conjunto de artistas ou obras que têm diversos pontos em comum, agrupados geográfica ou cronologicamente. Assim, o estilo pode ser tanto um conjunto de caracteres formais, bem individuais –a forma de escrever, de compor ou de elaborar uma obra de arte por parte de um artista–, ou bem colectivos –de um grupo, uma época ou um lugar geográfico–, como um sistema orgânico de formas, em que seria a conjunción de determinados factores a que geraria a forma de trabalhar do grupo, como na arte románico, gótico, barroco, etc. Segundo Focillon, um estilo é «um conjunto coerente de formas unidas por uma conveniencia recíproca, sumisas a uma lógica interna que as organiza».

Estes caracteres individuais ou sociais são signos distintivos que permitem diferenciar, definir e catalogar de forma empírica a obra de um artista ou um grupo de artistas adscritos a um mesmo estilo ou “escola” –termo que designa um grupo de autores com características comuns definitorias–. Assim, a “estilística” é a ciência que estuda os diversos signos distintivos, objectivos e unívocos, da obra de um artista ou escola. Este estudo tem servido na História da arte como ponto de partida para a análise do devir histórico artístico baseado no estilo, como se pode apreciar em alguma escola historiográfica como o formalismo.[60]

O estilo estuda ao artista e à obra de arte como materialización de uma ideia, plasmada na matéria através da técnica, o que constitui uma linguagem formal susceptível de análise e de catalogación e periodificación. Por outro lado, bem como a similitud de formas criam uma linguagem e, por tanto, um estilo, uma mesma forma pode ter diferente significação em diversos estilos. Assim, os estilos estão sujeitos a uma dinâmica evolutiva que costuma ser cíclica, recorrente, perceptible em maior ou menor grau na cada período histórico. Costumam-se distinguir na cada estilo, escola ou período artístico diversas fases –com as naturais variações concretas na cada caso–: “fase preclásica”, onde se começam a configurar os signos distintivos da cada estilo concreto –se costumam denominar com os prefixos ‘proto’ ou ‘pré’, como o prerromanticismo–; “fase clássica”, onde se concretan os principais signos característicos do estilo, que servirão de pontos de referência e suporão a materialización de suas principais realizações; “fase manierista”, onde se reinterpretan as formas clássicas, elaboradas desde um ponto de vista mais subjetivo por parte do autor; “fase barroca”, que é uma reacção contra as formas clássicas, deformadas a gosto e capricho do artista; “fase arcaizante”, onde se volta às formas clássicas, mas já com a evidente falta de naturalidad que lhe é intrínseca –se costuma denominar com o prefixo ‘pós’, como o postimpresionismo–; e “fase recorrente”, onde a falta de referentes provoca uma tendência ao eclecticismo –se costumam denominar com o prefixo ‘neo’, como o neoclasicismo–.[61]

Estilos artísticos.
Kouros Asclepeion Paros Louvre.jpg Discobulus.jpg Apollo Saurocton Louvre.jpg Laoconte.jpg Grupo de San Ildefonso (Museo del Prado) 02.jpg IMG 3972 - Canova - Napoleone Bonaparte - Milano, Cortile del Palazzo di Brera - Foto Giovanni Dall'Orto 19-jan 2007.jpg
Fase preclásica:
Kurós
do Asclepeion de Desempregos.
Fase clássica:
Discóbolo,
de Mirón .
Fase manierista:
Apolo Sauróctono,
de Praxíteles .
Fase barroca:
Laocoonte e seus filhos,
de Agesandro, Polidoro e Atenodoro de Rodas .
Fase arcaizante:
Grupo de San Ildefonso,
escultura romana
inspirada em modelos gregos.
Fase recorrente:
Napoleón divinizado,
de Antonio Canova,
escultura neoclasicista
inspirada em modelos clássicos grecorromanos.

Géneros artísticos

Artigo principal: Tema artístico

Um género artístico é uma especialização temática em que se costumam dividir as diversas artes. Antigamente denominava-se “pintores de género” aos que se ocupavam de um só tema: retratos, paisagens, pinturas de flores, animais, etc. O termo tinha um verdadeiro sentido peyorativo, já que parecia que o artista que tratava só esses assuntos não valia para outros, e se contrapunha ao “pintor de história”, que em uma sozinha composição tratava diversos elementos (paisagem, arquitectura, figuras humanas). No século XVIII, o termo aplicou-se ao pintor que representava cenas da vida quotidiana, oposto igualmente ao pintor de história, que tratava temas históricos, mitológicos, etc. Em mudança, no século XIX, ao perder a pintura de história sua posição privilegiada, outorgou-se igual categoria à história que à paisagem, retrato, etc. Então, a pintura de género passou a ser a que não tratava as principais quatro classes reconhecidas: história, retrato, paisagem e marinha. Assim, um pintor de género era o que não tinha nenhum género definido. Por último, ao eliminar qualquer hierarquia na representação artística, actualmente considera-se pintura de género qualquer obra que represente cenas da vida quotidiana, temas anecdóticos, ao mesmo tempo em que ainda se fala de géneros artísticos para designar os diversos temas que têm sido recorrentes na História da arte (paisagem, retrato, nu, bodegón), fazendo assim uma síntese entre os diversos conceitos anteriores.[62]

Géneros artísticos.
Mona Lisa.jpg Claude Lorrain 008.jpg VelazquezVenues.jpg Paul Cézanne 187.jpg
Retrato: A Gioconda
(1503), de Leonardo dá Vinci.
Paisagem: Porto com o embarque
da Rainha de Saba

(1648), de Claude Lorrain.
Nu: Vénus do espelho
(1647-1651), de Diego Velázquez.
Bodegón: Bodegón com cebollas
(1895-1900), de Paul Cézanne.

Técnicas artísticas

Johann Sebastian Bach, considerado o grande maestro do contrapunto.
Música
Desenho
Paleta de pintor, pinceles e canos de pintura (óleos).
Pintura

A pintura, como elemento bidimensional, precisa um suporte (muro, madeira, tela, cristal, metal, papel, etc.); sobre este suporte se põe o pigmento (colorante + aglutinante). É o aglutinante o que classifica os diferentes procedimentos pictóricos:

Escultura

Segundo o material, pode-se trabalhar em três sistemas: “aditivo”, modelando e acrescentando matéria, geralmente em matérias macias (cera, plastilina, varro); “sustractivo”, eliminando matéria até descobrir a figura, geralmente em materiais duros (pedra, mármol, madeira, bronze, ferro); e “misto”, acrescentando e tirando. Também se pode fazer por fundição, através de um molde. Feita a escultura, pode-se deixar ao natural ou policromarla, com colorantes vegetales ou minerales ou em encausto, ao tempere ou ao óleo, em dourado ou estufado (imitação de ouro).

Grabado: El velo de Verónica (1513), de Alberto Durero.
Gravado: O velo de Verónica (1513), de Alberto Durero.
Mosaico: mosaico bizantino del siglo V (Estambul).
Vidriera: Moisés en el monte Sinaí y Moisés ante el faraón (siglo XIII), Catedral de Colonia, Alemania.
Vidriera: Moisés no monte Sinaí e Moisés ante o faraón (século XIII), Catedral de Colónia, Alemanha.
Cerámica: fuente de la Dinastía ming (siglos XIV-XV).
Cerâmica: fonte da Dinastía ming (séculos XIV-XV).
Orfebrería: collar de oro micénico, siglo XII a. C.
Gravado
Mosaico
Vidro

Existem diversos tipos de vidro: “vidro sódico” (o mais básico, a partir de sílice ), cristal (sílice e óxido de chumbo ou potasio), “vidro calcedonio” (sílice e óxidos metálicos) e “vidro lácteo” (sílice, bióxido de manganês e óxido de estaño ). A principal técnica para trabalhá-lo é o soprado, onde se lhe pode dar qualquer forma e espessura. Quanto à decoración, pode ser pintada, esgrafiada, talhada, com pinzas, a filigrana , etc.[68]

Cerâmica

Realiza-se com arcilla, em quatro classes: varro cocido poroso vermelho-amarillento (alfarería, terracota, bizcocho); varro cocido poroso branco (loza); varro cocido não poroso cinza, pardo ou marrón (gres); varro cocido compacto não poroso alvo médio transparente (porcelana). Pode-se elaborar de forma manual ou mecânica –com torno–, depois se cuece no forno –a temperaturas entre 400º e 1300 º, segundo o tipo–, e decora-se com esmalte ou pintura.[69]

Orfebrería

É a arte de confeccionar objectos decorativos com metais nobres ou pedras preciosas, como o ouro, prata, diamante, pérola, ámbar, coral, etc.

Forja

Faz-se com ferro (limonita, pirita ou magnetita), reduzindo-o com calor, saindo uma massa ao vermelho com a que se fazem lingotes. Há três classes: “colado”, com muito carbono, sílice, azufre e manganês, não serve para forjar, só para fundir em molde; “ferro doce ou forjado”, com menos carbono, é mais maleável e dúctil, pode-se forjar, mas é macio e desafilable; “aço”, com manganês, tungsteno, cobalto e wolframio, é mais duro, para instrumentos cortantes. A modelagem realiza-se sem acrescentar nem tirar material, senão que existem diversas técnicas alternativas: esticar, alargar, hendir, curvar, recalcar, etc.

Restauração

Artigo principal: Restauração (arte)
El Juicio Final de Miguel Ángel antes de la restauración.
O Julgamento Final de Miguel Ángel dantes da restauração.
El Juicio Final durante la restauración.
O Julgamento Final durante a restauração.
El Juicio Final tras la restauración.
O Julgamento Final depois da restauração.

A restauração de obras de arte é uma actividade que tem por objecto o reparo ou actuação preventiva de qualquer obra que, devido a sua antigüedad ou estado de conservação, seja susceptível de ser intervinda para preservar sua integridade física, bem como seus valores artísticos, respeitando ao máximo a esencia original da obra.[71]

A restauração deve dirigir à restauração da unidade potencial da obra de arte, sempre que isto seja possível sem cometer uma falsificação artística ou uma falsificação histórica, e sem apagar impressão alguma do transcurso da obra de arte através do tempo.
Cessar Brandi, Teoria da restauração (1988).[50]

Em arquitectura, a restauração costuma ser de tipo funcional, para preservar a estrutura e unidade do edifício, ou consertar grietas ou pequenos defeitos que possam surgir nos materiais construtivos. Até o século XVIII, as restaurações arquitectónicas só preservavam as obras de culto religioso, dado seu carácter litúrgico e simbólico, reconstruindo outro tipo de edifícios sem respeitar sequer o estilo original. No entanto, desde o auge da arqueologia no final do século XVIII, especialmente com as excavaciones de Pompeya e Herculano, tendeu-se a preservar na medida do possível qualquer estrutura do passado, desde que tivesse um valor artístico e cultural. Mesmo assim, no século XIX os ideais românticos levaram a procurar a pureza estilística do edifício, e a moda do historicismo levou a propostas como os de Viollet-lhe-Duc , defensor da intervenção em monumentos em base a um verdadeiro ideal estilístico. Na actualidade, tende-se a preservar ao máximo a integridade dos edifícios históricos.

No terreno da pintura, evoluiu-se desde uma primeira perspectiva de tentar recuperar a legibilidad da imagem, acrescentando se fosse necessário partes perdidas da obra, a respeitar a integridade tanto física como estética da obra de arte, fazendo as intervenções necessárias para sua conservação sem que se produza uma transformação radical da obra. A restauração pictórica adquiriu um crescente impulso a partir do século XVII, devido ao mau estado de conservação de pinturas ao fresco, técnica bastante corrente na Idade Média e o Renacimiento. Igualmente, o aumento do mercado das antigüedades propiciou a restauração de obras antigas cara a sua posterior comercialização. Por último, em escultura tem tido uma evolução paralela: desde a reconstrução de obras antigas, geralmente quanto a membros mutilados (como na reconstrução do Laocoonte em 1523 -1533 por parte de Giovanni Angelo Montorsoli), até a actuação sobre a obra preservando sua estrutura original, mantendo em caso necessário um verdadeiro grau de reversibilidad da actuação praticada.[72]

Estética

Artigo principal: Estética
O Homem vitruviano, de Leonardo dá Vinci, estudo das proporções no corpo humano.

A estética é um ramo da filosofia que se encarrega de estudar a maneira como o razonamiento do ser humano interpreta os estímulos sensoriales que recebe do mundo circundante. Poder-se-ia dizer, bem como a lógica estuda o conhecimento racional, que a estética é a ciência que estuda o conhecimento sensível, o que adquirimos através dos sentidos.[73] Entre os diversos objectos de estudo da estética figuram a beleza ou os julgamentos de gosto, bem como as diferentes maneiras de interpretá-los por parte do ser humano. Por tanto, a estética está intimamente unida à arte, analisando os diversos estilos e períodos artísticos conforme aos diversos componentes estéticos que neles se encontram. Com frequência costuma-se denominar a estética como uma “filosofia da arte”. A estética é uma reflexão filosófica que se faz sobre objectos artísticos e naturais, e que produz um “julgamento estético”. A percepción sensorial, uma vez analisada pela inteligência humana, produz ideias, que são abstracções da mente, e que podem ser objectivas ou subjetivas. As ideias provocam julgamentos, ao relacionar elementos sensoriales; a sua vez, a relação de julgamentos é razonamiento. O objectivo da estética é analisar os razonamientos produzidos por ditas relações de julgamentos.[74]

O termo estética prove do grego αἴσθησις (aísthêsis, ‘sensação’). Foi introduzido pelo filósofo alemão Alexander Gottlieb Baumgarten em sua obra Reflexiones filosóficas a respeito da poesia (1735), e mais tarde em sua Aesthetica (1750).[75] Por conseguinte, a História da estética, rigorosamente falando, começaria com Baumgarten no século XVIII, sobretudo com a sistematización desta disciplina realizada por Immanuel Kant. No entanto, o conceito é extrapolable aos estudos sobre o tema efectuados pelos filósofos anteriores, especialmente desde a Grécia clássica. Cabe assinalar, por exemplo, que os antigos gregos tinham um vocablo equiparable ao actual conceito de estética, que era Φιλοκαλία (filocalía, ‘amor à beleza’). Poder-se-ia dizer que na Grécia nasceu a estética como conceito, enquanto com Baumgarten se converte em uma ciência filosófica.

Segundo Arnold Hauser, as «obras de arte são provocações com as quais polemizamos», mas que não nos explicamos. Interpretamo-las de acordo com nossas próprias finalidades e aspirações, transladamos-lhes um sentido cuja origem está em nossas formas de vida e hábitos mentais. Nós, «de todo a arte com o qual temos uma relação autêntica fazemos uma arte moderna». Hoje em dia, a arte tem estabelecido uns conjuntos de relações que permitem englobar dentro de uma sozinha interacção a obra de arte, o artista ou criador e o público receptor ou destinatário. Hegel, em sua Estética, tentou definir a trascendencia desta relação dizendo que «a beleza artística é mais elevada que a beleza da natureza, já que muda as formas ilusorias deste mundo imperfecto, onde a verdade se esconde depois das falsas aparências para atingir uma verdade mais elevada criada pelo espírito».

A arte é também um jogo com as aparências sensíveis, as cores, as formas, os volumes, os sons, etc. É um jogo gratuito onde se cria da nada ou de pouco mais que a nada uma aparência que não pretende outra coisa que nos enganar. É um jogo placentero que satisfaz nossas necessidades eternas de simetría , de ritmo ou de surpresa. A surpresa que pára Baudelaire é a origem da poesia. Assim, segundo Kant, o prazer estético deriva menos da intensidade e a diversidade de sensações, que da maneira, em aparência espontánea, pela qual elas manifestam uma profunda unidade, sensível em sua reflito, mas não conceptualizable.

Para Ernst Gombrich, «em realidade a arte não existe: só há artistas». Mais adiante, na introdução de sua obra A história da arte, diz que não tem nada de mau que nos deleitemos no quadro de uma paisagem porque nos recorda nossa casa, ou em um retrato porque nos recorda um amigo, já que, como humanos que somos, quando olhamos uma obra de arte estamos submetidos a um conjunto de lembranças que para bem ou para mau influem sobre nossos gustos. Seguindo a Gombrich, pode-se ver como aos artistas também lhes sucede algo parecido: no Retrato de um menino (Nicholas Rubens), o pintor flamenco Rubens representou-o formoso, já que seguramente sentia-se orgulhoso do aspecto do menino, e quis-nos transmitir sua paixão de pai ao mesmo tempo que de artista; no Retrato da mãe, o pintor alemão Alberto Durero desenhou-a com a mesma devoción e amor que Rubens sentia por seu filho, mas aqui vemos um estudo fiel da cara de uma mulher velha, não há beleza natural, mas Durero, com sua enorme sinceridade, criou uma grande obra de arte.

Veja-se também: História da estética

Sociologia da arte

Artigo principal: Sociologia da arte

A sociologia da arte é uma disciplina das ciências sociais que estuda a arte desde uma proposta metodológico baseado na sociologia. Seu objectivo é estudar a arte como produto da sociedade humana, analisando os diversos componentes sociais que coincidem na génesis e difusão da obra artística. A sociologia da arte é uma ciência multidiciplinar, recorrendo para suas análises a diversas disciplinas como a cultura, a política, a economia, a antropologia, a linguística, a filosofia, e demais ciências sociais que influam no devir da sociedade. Entre os diversos objectos de estudo da sociologia da arte encontram-se vários factores que intervêm desde um ponto de vista social na criação artística, desde aspectos mais genéricos como a situação social do artista ou a estrutura sociocultural do público, até mais específicos como o mecenazgo, o mercantilismo e comercialização da arte, as galerías de arte, a crítica de arte, o coleccionismo, a museografía, as instituições e fundações artísticas, etc.[76] Também cabe remarcar no século XX o aparecimento de novos factores como o avanço na difusão dos meios de comunicação, a cultura de massas, a categorización da moda, a incorporação de novas tecnologias ou a abertura de conceitos na criação material da obra de arte (arte conceptual, arte de acção).

A sociologia da arte deve suas primeiras propostas ao interesse de diversos historiadores pela análise do meio social da arte desde mediados do século XIX, sobretudo depois da irrupción do positivismo como método de análise científico da cultura, e a criação da sociologia como ciência autónoma por Auguste Comte. No entanto, a sociologia da arte desenvolveu-se como disciplina particular durante o século XX, com sua própria metodología e seus objectos de estudo determinados. Principalmente, o ponto de partida desta disciplina costuma-se situar imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, com o aparecimento de diversas obras decisivas no desenvolvimento desta corrente disciplinar: Arte e revolução industrial, de Francis Klingender (1947); A pintura florentina e seu ambiente social, de Friedrich Antal (1948); e História social da literatura e a arte, de Arnold Hauser (1951). Em seus inícios, a sociologia da arte esteve estreitamente vinculada ao marxismo –como os próprios Hauser e Antal, ou Nikos Hadjinikolaou, autor de História da arte e luta de classes (1973)–, conquanto depois se desmarcó desta tendência para adquirir autonomia própria como ciência. Outros autores destacados desta disciplina são Pierre Francastel, Herbert Read, Francis Haskell, Michael Baxandall, Peter Burke, Giulio Carlo Argan, etc.[77]

Psicologia da arte

Artigo principal: Psicologia da arte
Autorretrato com a orelha cortada (1889), de Vincent vão Gogh. O psicoanálisis permite compreender certos aspectos da personalidade do artista.

A psicologia da arte é a ciência que estuda os fenómenos da criação e a apreciação artística desde uma perspectiva psicológica. A arte é, como manifestação da actividade humana, susceptível de ser analisado de forma psicológica, estudando os diversos processos mentais e culturais que na génesis da arte se encontram, tanto em sua criação como em sua recepção por parte do público. A sua vez, como fenómeno da conduta humana, pode servir como base de análise da consciência humana, sendo a percepción estética um factor distintivo do ser humano como espécie, que o afasta dos animais. A psicologia da arte é uma ciência interdisciplinar, que deve recorrer forçadamente a outras disciplinas científicas para poder efectuar suas análises, desde –logicamente– a História da arte, até a filosofia e a estética, passando pela sociologia, a antropologia, a neurobiología, etc. Também está estreitamente conectada com o resto de ramos da psicologia, desde o psicoanálisis até a psicologia cognitiva, evolutiva ou social, ou bem a psicobiología e os estudos de personalidade. Assim mesmo, a nível fisiológico, a psicologia da arte estuda os processos básicos da actividade humana –como a percepción, a emoção e a memória–, bem como as funções superiores do pensamento e a linguagem. Entre seus objectos de estudo encontram-se tanto a percepción da cor (recepção retiniana e processamento cortical) e a análise da forma, como os estudos sobre criatividade, capacidades cognitivas (símbolos, ícones), a arte como terapia, etc. Para o desenvolvimento desta disciplina têm sido essenciais as contribuições de Sigmund Freud, Gustav Fechner, a Escola da Gestalt (dentro da que destacam os trabalhos de Rudolf Arnheim), Lev Vygotski, Howard Gardner, etc.[78]

Uma das principais correntes da psicologia da arte tem sido a Escola da Gestalt, que afirma que estamos condicionados por nossa cultura –em sentido antropológico–, que a cultura condiciona nossa percepción. Tomam um ponto de partida da obra de Karl Popper, quem afirmou que na apreciação estética há um ponto de insegurança (gosto), que não tem base científica e não se pode generalizar; levamos uma ideia preconcebida (“hipótese prévia”), que faz que encontremos no objecto o que procuramos. Segundo a Gestalt, a mente configura, através de certas leis, os elementos que chegam a ela através dos canais sensoriales (percepción) ou da memória (pensamento, inteligência e resolução de problemas). Em nossa experiência do médio ambiente, esta configuração tem um carácter primário sobre os elementos que a conformam, e a soma destes últimos por si sozinhos não poderia nos levar, por tanto, ao entendimento do funcionamento mental. Fundamentam-se na noção de estrutura, entendida como um todo significativo de relações entre estímulos e respostas, e tentam entender os fenómenos em sua totalidade, sem separar os elementos do conjunto, que formam uma estrutura integrada fora da qual ditos elementos não teriam significação. Seus principais expoentes foram Rudolf Arnheim, Max Wertheimer, Wolfgang Köhler, Kurt Koffka e Kurt Lewin.[79]

Crítica de arte

Artigo principal: Crítica de arte
Denis Diderot, considerado o pai da crítica de arte.

A crítica de arte é um género, entre literário e académico, que faz uma valoração sobre as obras de arte, artistas ou exposições, em princípio de forma pessoal e subjetiva, mas baseando na História da arte e suas múltiplas disciplinas, valorizando a arte segundo seu contexto ou evolução. É ao mesmo tempo valorativa, informativa e comparativa, redigida de forma concisa e amena, sem pretender ser um estudo académico mas contribuindo dados empíricos e contrastables. Denis Diderot é considerado o primeiro crítico de arte moderno, por seus comentários sobre as obras de arte expostas nos salões parisinos, realizados no Salão Carré do Louvre desde 1725. Estes salões, abertos ao público, actuaram como centro difusor de tendências artísticas, propiciando modas e gustos em relação à arte, pelo que foram objecto de debate e crítica. Diderot escreveu suas impressões sobre estes salões primeiro em uma carta escrita em 1759 , que foi publicada na Correspondance littéraire de Grimm , e desde então até 1781, sendo o ponto de arranque do género.[80]

Na génesis da crítica de arte há que valorizar, por um lado, o acesso do público às exposições artísticas, que unido à proliferación dos meios de comunicação de massas desde o século XVIII produziu uma via de comunicação directa entre o crítico e o público ao que se dirige. Por outro lado, o auge da burguesía como classe social que investiu na arte como objecto de ostentación, e o crescimento do mercado artístico que levou consigo, propiciaram o ambiente social necessário para a consolidação da crítica artística. A crítica de arte tem estado geralmente vinculada ao jornalismo, exercendo um labor de porta-vozes do gosto artístico que, por uma parte, lhes conferiu um grande poder, ao ser capazes de afundar ou encumbrar a obra de um artista, mas por outra lhes fez objecto de ferozes ataques e controvérsias. Outra faceta a remarcar é o carácter de actualidade da crítica de arte, já que centra-se no contexto histórico e geográfico no que o crítico desenvolve seu labor, inmersa em um fenómeno a cada vez mais dinâmico como é o das correntes de moda. Assim, a falta de historicidad para emitir um julgamento sobre bases consolidadas, leva à crítica de arte a estar frequentemente sustentada na intuición do crítico, com o factor de risco que isso implica. No entanto, como disciplina sujeita a seu tempo e à evolução cultural da sociedade, a crítica de arte sempre revela um componente de pensamento social no que se vê inmersa, existindo assim diversas correntes de crítica de arte: romântica, positivista, fenomenológica, semiológica, etc.[81]

Para ser justa, isto é, para ter sua razão de ser, a crítica deve ser parcial, apasionada, política; isto é: deve adoptar um ponto de vista exclusivo, mas um ponto de vista exclusivo que abra ao máximo os horizontes.
Charles Baudelaire, Salão de 1846.[82]

Entre os críticos de arte têm tido desde famosos escritores até os próprios historiadores da arte, que muitas vezes têm passado da análise metodológico à crítica pessoal e subjetiva, conscientes de que era uma arma de grande poder hoje em dia. Como nomes, poder-se-ia citar a Charles Baudelaire, John Ruskin, Oscar Wilde, Émile Zola, Joris-Karl Huysmans, Guillaume Apollinaire, Wilhelm Worringer, Clement Greenberg, Michel Tapié, etc.; no mundo hispanohablante, destacam Eugeni d'Ors, Aureliano de Beruete, Jorge Romero Brest, Juan Antonio Gaya Nuño, Alexandre Cirici, Juan Eduardo Cirlot, Enrique Lafuente Ferrari, Rafael Santos Torroella, Francisco Calvo Serraller, José Corredor Matheos, Irma Arestizábal, Ticio Escobar, Raúl Zamudio, etc.[83]

Historiografía da arte

Artigo principal: Estudo da História da Arte

A historiografía da arte é a ciência que analisa o estudo da História da arte, desde um ponto de vista metodológico, isto é, da forma como o historiador enfrenta o estudo da arte, as ferramentas e disciplinas que lhe podem ser de utilidade para este estudo. O mundo da arte sempre tem levado em paralelo um componente de autorreflexión, desde antigo os artistas, ou outras pessoas a sua ao redor, têm plasmado por escrito diversas reflexões sobre sua actividade. Vitruvio escreveu o tratado sobre arquitectura mais antigo que se conserva, De Architectura. Sua descrição das formas arquitectónicas da antigüedad grecorromana influiu poderosamente no Renacimiento, sendo ao mesmo tempo uma importante fonte documental pelas informações que contribui sobre a pintura e a escultura gregas e romanas.[84] Giorgio Vasari, em Vida dos mais excelentes arquitectos, pintores e escultores italianos desde Cimabue até nossos tempos (1542–1550), foi um dos predecessores da historiografía da arte, fazendo uma crónica dos principais artistas de seu tempo, pondo especial énfasis na progressão e o desenvolvimento da arte. No entanto, estes escritos, geralmente crónicas, inventarios, biografias ou outros escritos mais ou menos literários, careciam de perspectiva histórica e o rigor científico necessários para ser considerados historiografía da arte.[85]

Johann Joachim Winckelmann é considerado o pai da História da arte, criando uma metodología científica para a classificação das artes e baseando a História da arte em uma teoria estética de influência neoplatónica: a beleza é o resultado de uma materialización da ideia. Grande admirador da cultura grega, postuló que na Grécia antiga se deu a beleza perfeita, gerando um mito sobre a perfección da beleza clássica que ainda condiciona a percepción da arte hoje em dia. Em Reflexão sobre a imitação das obras de arte gregas (1755) afirmou que os gregos chegaram a um estado de perfección total na imitação da natureza, pelo que nós só podemos imitar aos gregos. Assim mesmo, relacionou a arte com as etapas da vida humana (infância, maturidade, velhice), estabelecendo uma evolução da arte em três estilos: arcaico, clássico e helenístico.[86]

Durante o século XIX, a nova disciplina procurou uma formulación mais prática e rigorosa, sobretudo desde o aparecimento do positivismo. No entanto, esta tarefa abordou-se desde diversas metodologías que supuseram uma grande multiplicidad de tendências historiográficas: o romantismo impôs uma visão historicista e revivalista do passado, resgatando e pondo novamente de moda estilos artísticos que tinham sido minusvalorados pelo neoclasicismo winckelmanniano; assim o vemos na obra de Ruskin , Viollet-lhe-Duc, Goethe, Schlegel, Wackenroder, etc. Em mudança, a obra de autores como Karl Friedrich von Rumohr, Jacob Burckhardt ou Hippolyte Taine, supôs uma primeira tentativa séria de formular uma História da arte em base a critérios científicos, baseando na análise crítico das fontes historiográficas. Por outro lado, Giovanni Morelli introduziu do conceito do connoisseur, o experiente em arte, que o analisa em base tanto a seus conhecimentos como a seu intuición.[87]

A primeira escola historiográfica de grande relevância foi o formalismo, que defendia o estudo da arte a partir do estilo, aplicando uma metodología evolucionista que outorgava à arte uma autonomia afastada de qualquer consideração filosófica, recusando a estética romântica e o idealismo hegeliano, e se acercando ao neokantismo. Seu principal teórico foi Heinrich Wölfflin, considerado o pai da moderna História da arte. Aplicou à arte critérios científicos, como o estudo psicológico ou o método comparativo: definia os estilos pelas diferenças estruturais inherentes aos mesmos, como argumentou em sua obra Conceitos fundamentais da História da Arte (1915). Wölfflin não outorgava importância às biografias dos artistas, defendendo em mudança a ideia de nacionalidade, de escolas artísticas e estilos nacionais. As teorias de Wölfflin foram continuadas pela chamada Escola de Viena, com autores como Alois Riegl, Max Dvořák, Hans Sedlmayr e Otto Pächt.[88]

Já no século XX, a historiografía da arte tem continuado dividida em múltiplas tendências, desde autores ainda enquadrados no formalismo (Roger Fry, Henri Focillon), passando pelas escolas sociológica (Friedrich Antal, Arnold Hauser, Pierre Francastel, Giulio Carlo Argan) ou psicológica (Rudolf Arnheim, Max Wertheimer, Wolfgang Köhler), até perspectivas individuais e sintetizadoras como as de Adolf Goldschmidt ou Adolfo Venturi. Uma das escolas mais reconhecidas tem sido a da iconología, que centra seus estudos na simbologia da arte, no significado da obra artística. Através do estudo de imagens, emblemas, alegorias e demais elementos de significação visual, pretendem esclarecer a mensagem que o artista pretendeu transmitir em sua obra, estudando a imagem desde postulados mitológicos, religiosos ou históricos, ou de qualquer índole semántica presente a qualquer estilo artístico. Os principais teóricos deste movimento foram Aby Warburg, Erwin Panofsky, Ernst Gombrich, Rudolf Wittkower e Fritz Saxl.[89]

História da arte

Artigo principal: História da arte

Arte na prehistoria (ca. 25000-3000 a. C.)

Arte antiga (ca. 3000-300 a. C.)

Artigo principal: Arte antiga

No Egipto e Mesopotamia surgiram as primeiras civilizações, e seus artistas/artesãos elaboraram complexas obras de arte que supõem já uma especialização profissional.

Veja-se também: Arte ibéria

Arte clássica (1000 a. C.-300 d. C.)

Arte na Alta Idade Média (300-900)

Artigo principal: Arte medieval

Arte na Baixa Idade Média (900-1400)

Pantocrátor de Sant Climent de Taüll, MNAC.
Vejam-se também: Arte mudéjar e Arte precolombino

Arte na Idade Moderna (1400-1800)

Artigo principal: Arte da Idade Moderna

Arte na Idade contemporânea (1800-Actualidade)

Artigo principal: Arte contemporânea
Século XIX

Entre finais do século XVIII e princípios do XIX sentaram-se as bases da sociedade contemporânea, marcada no terreno político pelo fim do absolutismo e a instauración de governos democráticos –impulso iniciado com a Revolução francesa–; e, no económico, pela Revolução industrial e o afianzamiento do capitalismo, que terá resposta no marxismo e a luta de classes. No terreno da arte, começa uma dinâmica evolutiva de estilos que se sucedem cronologicamente a cada vez com maior celeridade, que culminará no século XX com uma atomización de estilos e correntes que convivem e se contrapõem, se influem e se enfrentam.

Formas únicas de continuidade no espaço (1913), de Umberto Boccioni.
Século XX

A arte do século XX padece uma profunda transformação: em uma sociedade mais materialista, mais consumista, a arte dirige-se aos sentidos, não ao intelecto. Igualmente, cobra especial relevância o conceito de moda, uma combinação entre a rapidez das comunicações e o aspecto consumista da civilização actual. Surgem assim os movimentos de vanguardia , que pretendem integrar a arte na sociedade, procurando uma maior interrelación artista-espectador, já que é este último o que interpreta a obra, podendo descobrir significados que o artista nem conhecia. As últimas tendências artísticas perdem inclusive o interesse pelo objecto artístico: a arte tradicional era uma arte de objecto, o actual de conceito. Há uma revalorización da arte activa, da acção, da manifestação espontánea, efémera, da arte não comercial (arte conceptual, happening, environment).

Libertação de 1001 balões azuis, “escultura aerostática” de Yves Klein. As últimas tendências têm sido propensas a uma arte mais desmaterializado, onde importa mais o conceito, a mensagem, a acção.
Veja-se também: História da literatura, História da música, História do teatro, História da ópera, História de dança-a, História da fotografia, História do cinema e História da banda desenhada

Veja-se também

Referências

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Bibliografía

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(2002), [Expressão errónea: operador < inesperado História de seis ideias], Madri: Tecnos, ISBN 84-309-3911-3 

Enlaces externos

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