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| Arturo Uslar Pietri | |
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Arturo Uslar Pietri, fotografado em sua casa ao norte de Caracas (ao pé do Ávila) por Alejandro Touro Camacho. | |
| Nome | Arturo Uslar Pietri |
| Nascimento | 16 de maio de 1906 |
| Morte | 26 de fevereiro do 2001 (94 anos) |
| Ocupação | Advogado, jornalista, escritor, produtor de televisão e político |
| Nacionalidade | |
| Género | Novela, jornalismo |
| Assinatura | |
Arturo Uslar Pietri (Caracas; 16 de maio de 1906 - Caracas; 26 de fevereiro de 2001 ), advogado, jornalista, escritor, produtor de televisão e político venezuelano. É considerado como um dos intelectuais mais importantes do século XX em seu país. Seu cédula de identidade era o número 21.
Conteúdo |
Arturo Uslar Pietri nasceu em Caracas em uma casa situada na rua de Romualda a Manduca, número 102, o 16 de maio de 1906. Foi filho maior do casal entre o general Arturo Uslar Santamaría e de Helena Pietri Paúl. Entre seus antepassados inclui-se a Johan Von Uslar, um alemão que lutou na Batalha de Waterloo em 1815 e depois pela independência de Venezuela. Uslar Pietri criou-se nessa casa e em Maracay, (Aragua), lugar onde publicou alguns contos em revistas juvenis.
Sua infância e adolescencia estiveram enquadradas pela província venezuelana: Os Teques, Maracay, Cagua. Desde 1915 conheceu a um colega que exerceria nele influjo importante e com quem teria de compartilhar o crescimento intelectual: Carlos Eduardo Frias. Estudou Ciências Políticas na Universidade Central de Venezuela da capital venezuelana.
Há uma incidencia particular que poderia explicar em verdadeiro modo a atitude de Arturo Uslar Pietri em seus dias juvenis, com respeito aos acontecimentos políticos encabeçados pelos universitários contra Juan Vicente Gómez. Seu avô materno, o médico e general Juan Pietri, foi amigo pessoal do ditador. Esteve entre quem impulsionaram-no a actuar contra Cipriano Castro, em 1908. Quando Gómez assumiu a Presidência, o general Pietri fez parte do Conselho de Governo, primeiro como Ministro de Fazenda e depois como Vice-Presidente da República, no desempenho de cuja responsabilidade morreu em 1911. Uslar era então um menino de 5 anos; esses vínculos de família e a condição militar de seu pai deveram pesar sobre o jovem que desde 1923 cursaba Ciências Políticas na Universidade Central. Sua conduta nas acções estudiantiles foi, pois, muito discreta, de modo particular nos protestos de 1928, quando estava mal a um ano de obter seu título de Advogado. Em mudança, desde cedo definiu-se nele a vocação literária. Como aluno de secundária no Colégio San José dos Teques começou a escrever primeiras páginas. Já em 1922 tinha publicado um texto, «A luta» em Billiken. Suas colaborações fizeram-se frequentes também no Universal e O Novo Diário.
Leitor temporão de modernistas e simbolistas, Eugenio de Castro, Gómez Carrillo, Rémy de Gourmont, Darío, Lugones, Herrera e Reissig, Horacio Quiroga, Vale Inclán, sua escritura inicial esteve assinalada por essas tendências.
A partir de 1925 mudam as perspectivas: contactos intelectuais com outros jovens universitários, novas fontes de leitura; os realistas russos: Andreiev, Gogol, em especial o livro comum daqueles estudantes: Saschka Yegulev. Ademais a Revista de Occidente, editada em Madri por Ortega e Gasset, e uma espécie de breviario para a aprendizagem das novas estéticas: Literaturas européias de vanguardia, de Guillermo de Torre (3).
Desde 1925 em adiante incrementa-se a produção e publicação de textos. Foi abundante a escritura de poemas que só recolheria em livro já em plenitude de sua carreira literária: Manoa, (1972). Os primeiros contos começam a difundir-se pela mesma época (4). A vida daquele escritor de 20 anos estava delimitada. Dantes de que estallase a pequena escaramuza intelectual contra válvula, Uslar tinha publicado um texto dramático reimpreso depois na revista: «E ultreja» (5). Em 1927, em um ano dantes de redigir o manifesto editorial de válvula, tinha publicado um ensaio teórico sobre vanguardismo (6). O intelectual ostentaba familiaridad com princípios da filosofia de Spengler. Estreava prosa enérgica e o poder dialéctico de argumentación que não tem abandonado ao ensayista. Cita a Góngora junto a Goya, Whitman, Mallarmé, Wilde, Lautréamont, Rimbaud, Marinetti, Cocteau, Picasso, Tzara, Huidobro. Não lhe é alheia a inclinação para os problemas da plástica, tão palpable no conjunto de sua obra. O mais surpreendente é que aquele ensaio de juventude está escrito para refutar pontos de vista reticentes sobre as vanguardias, expostos nada menos que por César Vallejo. Cobra relevo singular uma cita extensa, se se pensa que foi esgrimida como argumento naqueles dias de agrio debate ao longo de toda a América:
Mas tem tido no entanto homens superficiais que têm tomado a vanguardia como uma excentricidade de artistas ociosos, como um aspecto da antiga manía bohemia de epatar aos burgueses, a localizando como própria do grupo que por maiores facilidades de médio e localização tem podido vocearla mais, colocados sobre esta falsa base têm tentado gritar que as novas gerações da América são plagiarias da arte moderna europeu. Um destes é César Vallejo, sudamericano, quem enrostra às gentes jovens do continente tamanha vaciedad. Bem se vê que não se tomou o trabalho de saber que pertencemos a uma cultura, em todo o largo sentido que encerra o punhado de letras, e que um fenómeno dela tem de arropar a todos os homens que a constituem com as necessidades das forças fisiológicas, sem que possam se dizer plagiarios os uns dos outros, mas sim com o direito de chamar desertores ou rezagados aos que não têm o valor de colocar em seu momento histórico.
A vanguardia não é nem individual, nem nacional, é um fenómeno de nossa cultura que cai sobre todos e que estamos no dever de lhe pôr os ombros para que se apoie.
Assim de maduramente razonaba quem mal em umas semanas depois assumiria o papel de ductor ideológico-literário do famoso manifesto com que se abria válvula. Mas mais que nesta última página de combate, no ensaio de 1927 existe e se exibe um conhecimento preciso do acontecer literário hispanoamericano por parte de Uslar Pietri. Considerava precursores das novas modalidades a Darío e Herrera e Reissig, afirmação que a crítica mais recente tem corroborado. Sabia também da trascendencia que a obra de José Juan Tablada teve para o momento germinal de nossa vanguardia, «cujos entretenimentos não palidecen ante os Caligrammes de Apollinaire». Em outros parágrafos recuenta seu familiaridad com a evolução das vanguardias hispanoamericanas, das quais menciona: estridentismo mexicano, vedrinismo antillano, nativismo uruguaio de Silva Valdés, creacionismo de Huidobro e a polémica deste com Reverdy. Semelhantes evidências em um ensaio prévio ao aparecimento de válvula propõem uma rectificação. O próprio Uslar Pietri, em repetidas ocasiões tem sustentado que por aqueles anos de seu iniciación literária era muito pouca e fragmentaria a informação manejada por ele e seus colegas (7). De ser assim, não por fragmentaria pode colegirse que dita informação estética não tivesse ligado claramente o movimento venezuelano com o que estava a suceder em outras partes do continente. O melhor depoimento contribui-o Uslar. Dos textos polémicos reseñados dantes a propósito de válvula, se excluem-se as três notas bem meditadas que publicou Gabriel Espinosa, não se acha nenhuma outra página tão medulosa e com manejo mais rico de conceitos que o ensaio de Uslar Pietri, produzido, insistimos, dantes de que se publicasse a revista.
Com o anterior achamos que possam dissipar-se as suspeitas de parcialidad por preferências pessoais quando se afirma que foi Arturo Uslar Pietri a figura decisiva, por consciência e actuação, no que a estremecimiento literário representou no ano 1928 na vanguardia venezuelana. E mais, seu papel intelectual esteve em todo o caso à altura de quem em outro terreno, o político, despregaram uma frente capaz de conmocionar um país aletargado por depressões de toda a espécie.
Entre janeiro e setembro de 1928 Arturo Uslar Pietri enche um indisputable primeiro plano intelectual, tanto por suas intervenções no escândalo e a polémica de válvula como pelo aparecimento de seu primeiro livro de contos.
Em 1929, doctorado em Ciências Políticas na Universidade Central de Venezuela, marcha-se a Europa. Leva investidura de servidor público diplomático na Legación de Venezuela ante o governo francês e representante ad honorem na Sociedade de Nações. Tem-se-lhe reprochado inumeráveis vezes o desempenho dessas funções quando seus colegas de aulas universitárias estavam prisioneiros ou no exílio. Seguimos achando que este critério pode ter validade histórica para julgar sua conduta política de juventude, mas não como processe para negar sua obra. Ademais, vistos os factos desde uma perspectiva contemporânea e em contraste com a atitude posterior de muitos protagonistas estudiantiles de 1928, podem-se considerar os factos sem que medien ressentimentos de grupo. Para efeitos da história literária, ainda assim, este critério resulta estreito à hora de valorizar obras. Nesses mesmos anos, Julio Garmendia desempenhava também modestísimos cargos diplomáticos e outro tanto ocorria com Enrique Bernardo Núñez, para citar só àqueles não envolvidos na cohorte oficial de modernistas e positivistas, dobrados incondicionalmente ao regime. Nos casos de Garmendia e Núñez, como no de Uslar, a excepcional qualidade da obra legada diferencia campos. Faz-se innegable.
Na Europa, Uslar Pietri teve oportunidade de afirmar como experiência o que em Caracas tinha sido vislumbre assimilada em páginas de livros e revistas onde se falava de novas modalidades culturais. O gosto pela pintura acentua-se. Lê com avidez a Breton, Eluard, Maurois, Mauriac, Giono, Michaux, Céline. Frequenta as tertulias surrealistas da Coupole. Actualiza-se nas controvérsias geradas a partir do Segundo Manifesto Surrealista e as ácidas disensiones provocadas entre Breton e seus seguidores, que advienen em detractores. Não faz, pois, nem mais nem menos, que outros hispanoamericanos com quem entabla contacto imediato: Miguel Ángel Astúrias, Afasto Carpentier, Luis Cardoza e Aragón, Max Jiménez. Conhece intelectuais europeus que estavam em primeira linha das transformações literárias: Rafael Alberti, Robert Desnos, Max Darieux, Jean Cassou, Adolphe de Falgairolles, George Pillement, Curzio Malaparte, Massimo Bontempelli e outros (8).
Contínuas viagens ampliam sua visão da Europa. Percorre a Itália, Espanha, Inglaterra. O estimulante para ele, no entanto, segue sendo a convivência com a capital francesa:
Faz vinte anos eu era muito jovem e vivia em Paris. Estava entregue a essa cidade como com uma fascinación mágica. Sua cor, seu cheiro, as formas de sua vida, pareciam-me a sozinha cor, o sozinho cheiro, as únicas formas de vida apetecibles e dignas de um homem verdadeiramente culto. Às vezes ocorria-me soar que me tinha marchado e me acordava, no meio da noite, com o sobresalto de um pesadelo. Quando saía a alguma curta viagem, o regresso me parecia uma maravilhosa festa (9).
Quanto a escritura, a mudança mais notável operado no novel cuentista de Barrabás e outros relatos foi sua incursão afortunada na novela, quiçá a mais afortunada. Foi induzido talvez pela amizade de dois latinoamericanos que o animaram, com quem trocou experiências e leituras de originais: Afasto Carpentier e Miguel Ángel Astúrias. Este último residia na Europa desde 1923. Depois de um curto passo de cinco meses por Inglaterra tinha-se radicado em Paris. Cursaba com George Reynaud algumas matérias relacionadas com as culturas mayenses de Mesoamérica. Tomava consciência a fundo do contexto cultural de seu próprio âmbito nativo, ironicamente desde França. É a famosa busca de uma perspectiva de distância, que os novelistas contemporâneos latinoamericanos têm revivido. Astúrias ampliava um conto, «Os mendigos políticos», para converter no Senhor Presidente. Em 1930 tinha publicado em Madri suas Lendas de Guatemala, que tanto admiraram a Paul Valery.
Carpentier, por sua vez, ocupava-se de preferência em assuntos musicais e de radiodifusión na emissão francesa, enquanto escrevia sua novela Ecué-Yamba-Ou!, editada em Madri em 1933.
Nos três escritores tinha comum preocupação pelas novas técnicas literárias, particularmente algumas contribuídas pelo surrealismo, notoria presença na obra produzida por eles naqueles anos parisinos. Ademais, tinha um comum desvelo por estremecer os gastados esquemas académicos do espanhol:
Nessa época falávamos de um modo inesgotável de literatura, do que estávamos a fazer, do que tinha que fazer, do que estavam a fazer os demais, com um verdadeiro amor delirante da palavra, que era muito curioso. Às vezes davam-nos as duas da manhã elucubrando sobre palavras e dando-lhe voltadas a giros idiomáticos. Eu me lembro, anecdóticamente de uma coisa... Você recorda a frase com que começa O Senhor Presidente? Eu ma sei de cor porque lha ouvi a Miguel Ángel oitocentas vezes. Diz: «Alumbra lumbre de alumbre, Luzbel de piedralumbre!» E depois acrescenta «maldoblestar da luz na sombra, da sombra na luz». Esse «maldoblestar» é produto de algo muito gracioso. Em um dia estávamos a falar do empobrecimiento geral do espanhol; tinha-se empobrecido mas tinha sido muito rico nos começos. Depois tinha caído em uma pobreza retórica e dramática muito grande. Eu lhe dizia que uma das coisas que revelavam a riqueza inicial do castelhano e da liberdade com que o usavam, algo que depois se perdeu, eram os livros que fez publicar Alfonso X O Sabio e, particularmente, a General Estoria e as Sete Partidas. Lendo as Sete Partidas um ficava assombrado de como usavam a língua; a riqueza, variedade e propriedade com que a usavam de uma maneira criadora, espontánea, com uma espécie de jogo do valor das palavras e lhe dizia eu a Miguel Ángel uma frase que tinha encontrado lendo as Sete Partidas -já não lembrança em que ponto-; ali, em lugar de dizer «de qualquer natureza que fosse», diz: «de cualnaturaquier que fosse». Miguel Ángel impressionou-se muito e daí saiu o «maldoblestar» que escreveu depois no Senhor Presidente (10).
Com a fruición de penetrar a raiz mesma de seu instrumento expresivo, o intelectual de 24 anos empreende a redacção de Lança-las coloradas. Um modo de ir às origens da consciência nacional em agraz, no período emancipador, sem cair nos esquemas da novela histórica galdosiana.
Nosso parecer é que nas três novelas nomeadas -Ecué-Yamba-Ou!, Lança-las coloradas e O Senhor Presidente- estava a operar-se uma verdadeira transformação na narrativa hispanoamericana dos 30. Delas, a primeira em ser editada foi a de Uslar Pietri; a a mais tardia aparecimento, O Senhor Presidente. Nas três acham-se delineados os rasgos que posteriormente dar-se-iam em chamar realismo mágico», termo introduzido na teoria literária hispanoamericana pelo mesmo Uslar Pietri. Os três autores, asiduos partícipes nas tertulias do surrealismo francês, tentavam afastar daqueles códigos, sem desconhecer seus contribuas, mais bem estudavam seus postulados para projectar sobre a realidade artística de Hispanoamérica. Com os anos, Afasto Carpentier falará de «o real maravilhoso americano», como nível diferencial do maravilhoso surrealista (11). E Uslar, parafraseando a expressão aplicada por Franz Roh ao campo das artes plásticas dos anos 20, porá a circular o conceito de realismo mágico» (12).
Em Paris, Uslar não só madurou com a assimilação de novas técnicas que se impunham através de Breton e que tiveram longo expediente de antecessores, senão que também reafirmou suas convicções hispanoamericanas, ao igual que seus outros mais dois colegas próximos. Um americanismo mágico foi o resultado, algo que mais tarde evoluiu até gerar a versão mágica do realismo. Isto é indício de que a aceitação de alguns cánones surrealistas obedeceu a estudo crítico, a discernimiento e reflexão. Não foi um simples contágio de modas e modos de escrever. Mais tarde os três escritores -Astúrias, Carpentier, Uslar- foram eliminando a corrente de preconceitos -favoráveis ou adversos- sobre o regionalismo e voltaram os olhos à realidade neocontinental com outra óptica mais moderna, em procura de temas próprios que permitissem um tratamento novo ou maravilhoso do real, como reiteradamente o veio propondo Carpentier.
Os três escritores radicados no Paris de 1931 não estavam alheios, pelo demais, à forte manifestação de um antiimperialismo literário e ideológico que estava vigente entre os escritores de toda a América e que estimulava na Europa a incansable combatividad de Henri Barbusse. A literatura de combate foi mais violenta nas Astúrias, mais doctrinaria em Carpentier, atenuada por uma visão artística do mundo em Uslar. Astúrias tinha fundado em Paris a Associação Geral de Estudantes Latinoamericanos junto com o uruguaio Carlos Quijano. Em diversas formas exteriorizaban sua solidariedade com as lutas antiimperialistas de Sandino na Nicarágua (13). Carpentier funda e é chefe de redacção de revista-a Íman, patrocinada por Elvira de Alvear. Já para então, o novelista cubano escrevia na revista Cartazes de Havana sobre a nova visão -maravilhosa- do americano (14).
Naquele ano de 1931, Uslar Pietri tinha concluído Lança-las coloradas. Viaja a Madri para editar a novela nas imprensas de Zeus. Com ela atingiria consagración no âmbito da língua espanhola. A obra é seleccionada entre melhore-las do mês em Madri, por um júri que integravam Azorín, Ramón Pérez de Ayala, José María Salaverría, Enrique Díez-Canedo, Pedro Sáinz Rodríguez e Ricardo Bajeza.
Nos anos seguintes decorrem entre viagens. Periodicamente vai a Genebra, como delegado de Venezuela ante a Sociedade de Nações. Conhece Marrocos acompanhado por Miguel Ángel Astúrias. Em fevereiro de 1934 empreende regresso a Venezuela.
O país vivia então os estertores da ditadura gomecista. O velho cacique andino tinha reasumido directamente a presidência em 1932. A bonanza fiscal procedente do auge petroleiro tinha permanecido e incrementava-se ano após ano. O país tinha-se remozado materialmente em alguns aspectos.
O 17 de dezembro de 1935 morre «oficialmente» Juan Vicente Gómez. O país grita e desborda seu júbilo. Eleazar López Contreras assume provisionalmente a Presidência. Ficava fechado assim o siniestro período de 27 anos de ditadura, que Eustoquio Gómez -parente do ditador- e o Coronel Tarazona, tinham pretendido alongar mediante a liquidação física de López Contreras, em uma conjura que resultou frustrada. O Presidente de transição termina contando com o apoio da maioria e a adesão quase imediata de numerosos intelectuais.
Uslar incorpora-se, desde o momento de seu regresso, à vida cultural do país. Ingressa na Faculdade de Direito da Universidade Central como professor da primeira cátedra de Economia Política. No literário, já afirmado, tanto pela consagración que lhe valeu As lanças coloradas, como pela tradução de alguns contos seus a outras línguas, rapidamente voltou a entrar em contacto com antigos colegas de lidas intelectuais. Seguido por Pedro Sotillo, Julián Padrón, o fotógrafo Alfredo Boulton (Bruno Pla) funda a revista O Ingenioso Hidalgo. O primeiro número circulou em março de 1935. Ali publicou seu ensaio «Pés furados», onde se interna na reflexão sobre o mito e sua projecção literária. Ideológica e esteticamente, outra revista entrou em polémica com O Ingenioso Hidalgo. Tratava-se da Gaceta da América, dirigida por Inocente Palácios e onde colaboraram, entre outros, escritores marxistas como Miguel Deita Saignes. A Gaceta considerou a revista onde escrevia Uslar, como uma tanta arte-purista em matéria intelectual. O señalamiento originou-se a propósito de certos artigos assinados por Julián Padrón. Uslar sai a responder em uma apostilla titulada «Asteriscos». Ali a prosa mostra-se madura, ponderada na adjetivación. Expõe suas ideias discrepantes com discreta lucidez. No texto volta a insistir sobre a ideia do conhecimento mágico, em tanto categoria válida da arte, para além de sua utilitarismo:
O conhecimento não é senão a noção de novas relações entre as coisas. A ele se chega pelos métodos científicos, mas há certa categoria de fenómenos, de parentescos, de aproximações, aos que o cientista ainda hoje não pode aspirar. Este é o domínio do poeta. Um conhecimento mágico, uma iluminação inesperada; na matéria dos mais belos versos se vislumbra uma noção que ainda não podemos catalogar, nem definir, mas por onde o espírito, em verdadeiro modo, entra em posse de um reino que está quase para além de nossos meios. É neste sentido que todo verdadeiro poeta é metafísico (15).
Uslar estava, pois, insiro já na nova tradição de uma estética do mito e do mágico, cujas elaborações posteriores ao surrealismo invadiam o palco intelectual da Europa e América Latina. Não é fortuito que o próprio Galegos, tão aferrado ao realismo, produzisse e editasse naquele ano uma novela arraigada na substância mítica de nossa região guayanesa: Canaima (1935); como também não o que a atmosfera literária venezuelana se fosse impregnando de ares metafísicos abrevados nos poetas alemães -particularmente Hölderlin e Novalis- cujas leituras estão presentes no grupo Sexta-feira, que irromperá com clara atitude surrealista a partir de 1936.
Em agosto do mesmo 1935 circulou o terceiro e último número do Ingenioso Hidalgo. Nele aparece outro ensaio importante de Uslar: «Interludio à novela». Sua teoria do conhecimento mágico fica reiterada: «...a arte é muito outra coisa que uma receita eficaz, é mais bem um equilíbrio inverosímil, uma qualidade que se revela à intuición, um conhecimento adventicio e inesperado, uma relação mágica» (16). Por isso estima que a novela dificilmente consegue essa hierarquia artística. Seu conceptualización aponta, possivelmente a um facto: sua inclinação dominante para o conto, vocação inicial ratificada com os anos e de cuja produção sua novelística chega a distar abismos em qualidade e elaboração. Transcribo suas ideias por parecer-me de enorme vigência, próximo de quanto naqueles anos propunha Malraux, a propósito da novela e das formulaciones teóricas de Vladimir Weidlé -Lhes abeilles d'Aristée (1935)- a propósito do realismo mágico ou realismo do mito. São propostas que numerosos teóricos têm reactualizado em nossos dias.
Na novela cabem, e sobretudo devem caber, todas as partes e maneiras do homem: o sexo e o sonho, o lirismo e a matemática, o estudo e a aventura, a construção e o delírio. Tem de seu avô o poema épico a manía de relatar alguma instância aventura; da ciência, sua colega e instigadora, o prurito da observação da realidade; da vida, sua matéria, o risco de cair no trivial ou no absurdo; da palavra, seu veículo, o perigo de estancar-se em literatura vacua. Por todo isso se não é o género mais artístico, é, sem dúvida, o género mais difícil de conseguir artisticamente.
Segundo tal concepção, a arte introduz-se na novela «subrepticiamente» por caminhos «ordinários», como uma carnada que o leitor deve aceitar dentro do jogo que se lhe propõe. O sentido lúdico da arte é talvez o de maior originalidad naquela breve nota:
Toda a obra de arte inicia-se com um gesto que tem muito de pueril. O autor propõe-se e propõe a sabiendas ou não, armar momentaneamente um jogo que distraia ao espectador da circunstância viva que o rodeia naturalmente. Sua glória e sua desgraça residem nesse jogo que tem de fazer aceitar para o tornar depois em mais que vida. Muitos se lhe rezagan no embobamiento infantil que cobre o profundo da obra. Para o novelista essa condição é bem mais cruel e precisa por estar mais unido ao ordinário e absurdo que nenhum outro, e por ter que alçar o voo com maior lastre de realidade.
Quando o país superava a médias as convulsões sociais surgidas a raiz da morte de Gómez e o regime de López Contreras, já afianzado, se orientava para uma perseguição sistémica contra organizações populares de esquerda, Uslar desempenhou modestos cargos no Ministério de Relações Exteriores, enquanto dedicava a maior parte de seu tempo à docencia universitária.
Em 1938 figura, ao lado de outros catedráticos, entre os fundadores da Faculdade de Economia da Universidade Central. Para então era Director de Política no Ministério de Relações Exteriores, cargo que deixa para desempenhar o de Director do Instituto de Imigração e Colonização. Tinha ingressado na vida pública. E também na política. No seio do poder alternavam posições paradójicas. De uma parte tinha-se configurado um sector eminentemente fechado, proclive a um gomecismo residual. Da outra, um sector liberal mais progressista. O segundo aglutinou-se em torno do Partido Agrário Nacional, que proclamava pequenas reformas. Entre os fundadores estava o nome de Arturo Uslar Pietri, ao lado de personalidades políticas relevantes que desempenhariam, após López Contreras, funções de importância. Entre elas destacavam Manuel R. Egaña, J. González Gorrondona, e intelectuais como Ramón Díaz Sánchez, Manuel Felipe Rugeles, Julio Morais Lara e o eminente pediatra Pastor Oropeza. Representavam todos inteligências da burguesía progressista liberal. Suas boas intenções duraram pouco.
No meio de uma nova conmoción bélica que pôs em expectativa ao mundo inteiro, a situação política de Venezuela se complicava. A ilegalización das forças de esquerda e o clima geral de descontentamento ocupavam o palco nacional. No poder, o gabinete de Eleazar López Contreras fazia crise. O afamado científico venezuelano, Enrique Tejera, renunciou ao Ministério de Educação. Foi substituído por Uslar Pietri, quem converteu-se no ministro mais jovem da nova equipa executiva. Sua actuação foi brilhante e reconheceu-se-lhe uma vontade de modernizar as antiquadas estruturas pedagógicas do país, apesar de que ainda eram exiguos os recursos atribuídos a esta área vital da nação. No desempenho de suas funções redigiu uma Lei de Educação conhecida como Lei Uslar Pietri ou Lei do 40, cuja modernidad foi indiscutible.
Em 1941 assume a Presidência da República o general Isaías Medina Angarita. Há unanimidade em admitir que se tratou de um regime de amplas liberdades, caracterizado pelo livre jogo de opiniões e de organizações políticas. No gabinete do novo governante, Arturo Uslar Pietri teve figuración desde o começo. Primeiro, foi Secretário da Presidência da República e atribuíram-se-lhe condições de ser o grande conselheiro presidencial nas medidas de distensión política. Depois actuou como Ministro de Fazenda e, finalmente, para o momento em que foi derrocado aquele militar admirável em seu sentido libertario, Uslar seria seu Ministro de Relações Interiores.
Medina introduziu medidas de liberalização ideológica, legalizou as organizações de esquerda, manteve um amplo clima de amnistia. No momento de ser derrocado não tinha um sozinho prisioneiro político nos cárceres venezuelanos. A importância de Uslar como figura descollante nesses momentos em que se liquidavam as ejecutorias do caudillismo andino em nossa política, a significa Ramón J. Velásquez na seguinte forma:
Por outra parte, Arturo Uslar Pietri já para 1942 se converteu na grande figura do regime. A Uslar Pietri atribui-se-lhe então o papel de sumo inspirador das grandes mudanças de estilo no governo, ao mesmo tempo em que seus inimigos acusam-no de atizar a divisão entre os generais López Contreras e Medina Angarita. Para os já reduzidos grupos regionalistas, Uslar é antiandino e para os conservadores é um perigoso aliado dos comunistas. Correspondam ou não estes elogios e estas acusações à verdade, é o verdadeiro que Uslar Pietri, desde Miraflores, tendeu uma ponte entre a maioria dos escritores, poetas e artistas e o governo, e abriu o caminho dos representativos da geração do ano 28 que não quiseram aceitar a jefatura de Rómulo Betancourt (17).
Em realidade, a partir daquela época, a equidad demonstrada por Uslar Pietri em matéria política tem-lhe granjeado respeito até de seus mais encarnizados adversários.
O 18 de outubro de 1945, Medina Angarita foi derrocado por um golpe cívico-militar ao que se lhe quis plotar novamente o sentido de uma «Revolução». Nele se tinham confabulado políticos como Rómulo Betancourt, Raúl Leoni, Gonzalo Bairros, Luis Beltrán Prieto Figueroa, Luis Augusto Dubuc, Luis Lander, Alejandro Ávila Chacín, em connivencia com militares de graduación intermediária: Mario Vargas, Carlos Delgado Chalbaud, Luis Felipe Llovera Páez, Marcos Pérez Jiménez e outros. Constituiu-se em seguida uma junta «Revolucionária» de Governo presidida por Rómulo Betancourt. Os servidores públicos do medinismo são feitos prisioneiros. Entre eles Arturo Uslar Pietri, quem compartilha uma cela da Escola Militar com o general Eleazar López Contreras. Então o escritor sabe do exílio, da perseguição, da enajenación de seus bens, medida esta adoptada por um Júri de Responsabilidade Civil e Administrativa que gozava de poderes extraordinários outorgados pela Junta Revolucionária de Governo.
A fins de novembro Uslar é estranhado» do país com os ex presidentes López Contreras, Medina Angarita e outros altos representantes do regime deposto. Reside nos Estados Unidos. Em ausência julga-se-lhe baixo acusação de ter-se apropriado 1.400.000 bolívares. São-lhe confiscados seus bens (18). Desde Nova York, em março de 1946, escreve uma carta pública a Rómulo Betancourt, onde se defende pelo atropello contra sua dignidade, posta em entredicho em um julgamento que, pelo demais, foi arbitrário, como o demonstrou o tempo.
Nos Estados Unidos, Uslar Pietri dedica-se ao exercício da docencia na Universidade de Columbia. Ensina nossa literatura aos estudantes de espanhol. Produto de seus cursos é o volume Letras e homens de Venezuela. Colabora, ademais, semanalmente no diário O Nacional de Caracas, actividade que mantém em forma ininterrumpida até hoje. Por aqueles anos sustenta uma valente posição crítica sobre assuntos políticos e económicos, desde sua perspectiva ideológica.
Enquanto, Venezuela se abocaba a um processo de eleições populares directas, as primeiras do presente século, a única reivindicação permanente concedida pela Junta de Rómulo Betancourt. Rómulo Galegos é eleito Presidente da República. Seu mandato será efémero. Os mesmos militares que tinham jogado do poder a Medina Angarita, espreitavam na sombra. O 24 de novembro o novelista foi derrocado, posto em prisão e lançado fora do país. Conjura-a expandia-se em um curto mandato de Carlos Delgado Chalbaud, quem seria assassinado por seus próprios colegas para abrir cauce sangrento a outra ditadura: a de Marcos Pérez Jiménez.
Em Norteamérica, a actividade intelectual de Uslar intensifica-se. Conclui sua segunda novela: O caminho do Dourado (1948) com a qual lhe é concedido em Venezuela o Prêmio Arístides Vermelhas. Era o reconhecimento nacional a um grande ausente. Ademais termina e publica um terceiro volume de contos: Trinta homens e suas sombras (1949), conjunto de extraordinária qualidade renovadora. Por último, conclui e edita em Chile uma série de ensaios baixo o título das nuvens, cujas páginas estão carregadas de inquietantes reflexões sobre nosso devir cultural. A plenitude chegava.
Em julho de 1950 regressa a Caracas. Integra-se na docencia superior, na Universidade Central de Venezuela e o Instituto Pedagógico Nacional. A brillantez de suas exposições sobre literatura venezuelana não demoraram em granjearle prestígio e simpatia. Combina este labor com actividades da empresa privada. Com seu amigo de infância, Carlos Eduardo Frias, trabalha em uma companhia publicitária, que dirige até 1963. Dirige também o Papel Literário do Nacional, em cuja tarefa destacou por sua receptividad e amplitude em frente a novos valores literários.
O assassinato de Carlos Delgado Chalbaud, perpetrado em 1950, tinha sumido a Venezuela em umbrosa situação política. Gradualmente cessou o livre jogo dos partidos. Os sindicatos, clausurados primeiro, se oficializaron baixo o controle da ditadura. Uma imigração anárquica provoca o desemprego e o descontentamento geral. A cidade sofre uma metamorfosis endemoniada dentro de uma improvisación arquitectónica que desfigura sua já maltrecho rosto. Uslar mantém uma conduta mesurada.
Não obstante, em sua coluna jornalística deixa traslucir, entre linhas, observações críticas valiosas. A censura de imprensa não permitia que ninguém fosse mais explícito. Quem tentava-o estava exposto a sofrer a mesma sorte de uma figura que, pela valentia de suas mensagens, deveu sair expulsada e terminou padecendo atropellos físicos no exílio: Mario Briceño Iragorry.
O processo repressivo se agudizó a partir do desconocimiento de eleições livres convocadas e realizadas em novembro de 1952. O ganhador tinha sido o partido URD, onde convergía todo o descontentamento e a rejeição unânime contra o regime de Pérez Jiménez.
Os campos de concentração e os cárceres, a tortura e a perseguição, os atentados e as liquidações físicas de dirigentes democráticos campean novamente na cena venezuelana.
O labor cultural de Uslar Pietri começa a difundir-se desde 1952 através de um programa de televisão denominado Valores Humanos». Seu marginamiento da vida política do país será prolongado, quase até vésperas da queda de Pérez Jiménez. O regime dictatorial entra em descomposição e crise em meados de 1957. A resistência clandestina organiza-se de maneira unitária. Insurge uma Junta Patriótica onde convergen sectores políticos e classes sociais sem excepção. Os protestos estudiantiles e sindicais intensificam-se. O 1 de janeiro de 1958 emerge um primeiro movimento militar da Força Aérea. Os grupos económicos e religiosos apoiam as sacudidas que desde diferentes ângulos cristalizam em um grande movimento nacional. O 10 de janeiro aparece na imprensa um manifesto assinado por numerosos intelectuais. Entre eles está Uslar Pietri. Os firmantes são detidos no Cárcere Modelo de Caracas. O 23 de janeiro desse ano o país fica libertado do ditador e restituem-se as liberdades públicas.
No quinquénio de 1952 a 1957 a tarefa de escritura é fecunda para Uslar. Desde 1950 em que editou De uma a outra Venezuela, suas ideias liberais, proclives à defesa da livre empresa, são discutidas com calor mas também com respeito para um homem consolidado já de maneira indiscutible na história intelectual. Alterna a crítica com os ensaios de temas económicos, sociais ou literários. Assim vão se sucedendo ininterruptamente seus livros: Apontes pára retratos (1952), Arístides Vermelhas (1953), Breve história da novela hispanoamericana (1954), O outono na Europa (1954), Pizarrón (1955). As academias incorporam-no como Indivíduo de Número: em 1955, a de Ciências Políticas e Sociais. Seu discurso relativo ao problema petroleiro faz recordar ao homem que muitos anos dantes tinha acuñado uma frase: «Há que semear o petróleo». A polémica não se faz esperar. Em 1958 é sucessivamente recebido pelas Academias da Língua e da História.
A volta à normalidade política do país insere-o novamente em actividades públicas. Em 1958 é eleito Senador Independente. Chegou a constituir a inteligência parlamentar chamada à tomada de grandes decisões. É a década dos 60, de turbulência política inusitada. Efectivamente, entre 1959 e 1964, durante o exercício presidencial de Rómulo Betancourt, Venezuela vive uma de suas mais tremendas crise político-sociais. A divisão de Acção Democrática e o aparecimento do Movimento de Esquerda Revolucionária como desprendimiento daquela organização no poder, assinalam uma tormenta política iminente. Em 1961, o Partido Comunista de Venezuela emite, através de seu Secretário Geral, Jesús Faría, a tese de que há que preparar para a tomada do poder por qualquer via, sem descartar a luta armada. A Revolução cubana alumia esperanças revolucionárias com seu exemplo insoslayable. Via-se então a via armada como saída para solucionar os problemas sociais e económicos, a dependência económica e política, vigentes ao longo de todo o século. A resposta oficial do partido de governo foi a perseguição e as provocações contra os grupos de esquerda. Aquilo gerou uma corrente de convulsos movimentos que culminaram com o allanamiento de inmunidad parlamentar exercida contra os líderes do Partido Comunista e do Movimento de Esquerda Revolucionária. As guerrilhas proliferaron na cidade e o campo. Dois levantamentos armados de carácter militar tiveram como palco as cidades de Carúpano e Porto Cabelo.
Em 1963, dentro de um clima de grande agitación, o país preparava-se para uma nova contenda eleitoral. As coalizões de partidos e as frentes originam numerosas fórmulas. O nome de Arturo Uslar Pietri, respaldado por seu enorme prestígio intelectual e por seu irreductible oposição contra Acção Democrática participará na campanha como candidato à Presidência da República. Inicialmente considerou-se-lhe como o mais chamado a constituir uma candidatura de unidade nacional. Ramón J. Velásquez refere assim aquela circunstância:
Além de seu nome como literato e humanista, tinha sido a principal figura política no governo de Medina Angarita. (...) Ademais tinha sido o primeiro político que utilizou a televisão como médio para chegar ao grande público com o sistema semanal de charlas sobre as grandes personagens do mundo. E era um vocero do mais duro e intransigente antiacciondemocratismo. O AVI desilusionado pela resposta de Acção Democrática poderia respaldar ou empresa, bem como os numerosos sectores nacionais que simpatizaron com Medina Angarita e também o Partido Comunista que recordava as excelentes relações mantidas durante sua gestão como conselheiro político do Presidente Medina. Em sua primeira apresentação como possível candidato presidencial da oposição, Uslar criticou severamente ao governo de Betancourt por «não ter sabido libertar ao país do processo de divisionismo e violência imperante e por não resolver nenhum dos problemas nacionais, pondo em perigo a estabilidade do sistema democrático» (19).
O sectarismo de uns, a soberbia de outros e o señalamiento das esquerdas de que Uslar Pietri era um representante das oligarquías financeiras nacionais e multinacionais fizeram fracassar a possibilidade de um entendimento em torno de uma candidatura unificadora dos sectores mais progressistas do país, naquelas circunstâncias de uma democracia que, de representativa se tinha ido tornando repressiva.
Frustrada a ideia de uma candidatura única de oposição, coyuntura propícia à derrota de Acção Democrática, Uslar mantém sua condição de candidato respaldado por um movimento que organizasse Ramón Escovar Salom baixo o nome de Frente de Unificação Nacional (FUN), de onde sairia mais tarde o partido FDN (Frente Democrático Nacional). Sectores independentes, o movimento Agrarista de Ramón Quijada (grupo dissidente de Acção Democrática e de uma subdivisión telefonema ARS) e alguns outros grupos reiteraram o apoio a Uslar Pietri.
Nesse mesmo ano, dentro das acções insurreccionales, um grupo guerrilheiro urbano assalta o Museu de Belas Artes. Rouba uns valiosos quadros que faziam parte da exposição «Cem anos de pintura francesa». A acção, que tentava efeitos publicitários para o diezmado movimento guerrilheiro venezuelano, manifestou a vontade de entregar ditas obras em mãos de uma pessoa de comprovada honradez. Elegeu, justamente, a Arturo Uslar Pietri. Aquele gesto deixou dissipada, de uma vez por todas, qualquer suspeita de apropiación indebida com que se lhe tinha acusado a raiz do derrocamiento de Medina Angarita.
Concluídas as eleições do 1 de dezembro de 1963, Uslar Pietri resultava favorecido com uma alta cifra de votos (469.240), por sobre a figura de Wolfgang Larrazábal, quem tinha sido o carismático líder da volta à democracia em 1958. Atingiu, pois, um quarto lugar, superado só pelo candidato triunfante -Raúl Leoni-, Rafael Caldera e Jóvito Villalba. Era ademais um tenso processo onde as esquerdas insurrectas tinham proclamado uma frustrada política de abstenção militante. Pelo demais, Uslar conseguiu aglutinar eleitores de classes contrapostas: os sectores marginales da capital, a classe média e os grupos economicamente mais fortes de Caracas.
Triunfante Raúl Leoni, para o exercício de seu mandato procurou e conseguiu uma aliança triplo no poder: Acção Democrática -seu partido-, URD e os sectores que tinham apoiado a Uslar Pietri. Este fenómeno conhece-se historicamente como governo de Ampla Base. Uslar convida aos diferentes grupos que o tinham secundado em sua campanha eleitoral para que se unifiquem. Funda um novo partido, do qual será presidente: Frente Nacional Democrático. Pela primeira vez seu nome assume publicamente uma connotación de líder partidária. Esta atitude foi-lhe recriminada pelo facto de que sua candidatura presidencial tinha nascido com signo independente. Seu comportamento amplo e tolerante, seus esforços por conseguir uma política de pacificação e de volta à legalidade para os grupos de esquerda, foram o balanço em favor daquela participação breve no governo de ampla base. Isto lhe foi reconhecido unanimemente, ao igual que seus sinceras gestões por conseguir a imediata liberdade dos numerosos prisioneiros políticos que Betancourt tinha legado ao governo de Leoni como lastre muito incómodo. Solicitava, ademais, a revisão de cuantiosos julgamentos militares seguidos a civis que tinham participado nas lutas insurreccionales. Pouco sucesso teriam de obter suas propostas. As guerrilhas prosseguiram suas actividades, pelo menos em três estados do país: Lara, Falcón e Trujillo. Do lado oficial, as torturas e a repressão mantiveram-se inmodificadas; o enorme aparelho repressivo montado por Betancourt permaneceu incólume. Só a fins de 1964 se atenuou o confronto com a medida de conmutación de penas de prisão por exílio, para os dirigentes revolucionários em armas.
Aquele experimento tripartita de governo durou pouco tempo. Em março de 1966 Uslar Pietri anuncia publicamente o retiro de seu partido político, em carta ao presidente Leoni. Razões? O pouco sucesso atingido no cumprimento do programa comum e a carência de consenso nas decisões políticas. Em realidade, seu próprio partido estava comovido por contradições e divergências internas que teriam de concluir na dissolução da militancia em vários grupos. O primeiro deles acompanhou a Ramón Escovar Salom. Se avecinaba um novo processo eleitoral. Uslar entra em aliança com outras forças dentro de um Amplo Frente de Oposição promovido por Miguel Ángel Capriles, secundado por Wolfgang Larrazábal e Jorge Dáger, entre outros. O amplo frente resultou estreito. Um sector era partidário de lançar a candidatura presidencial de Miguel Ángel Capriles. O outro, dentro do qual se inseriu Uslar, propunha respaldar a candidatura de Rafael Caldera, quem teria de resultar o novo triunfador. Posteriormente, Uslar, Miguel Otero Silva e outros integraram um novo frente chamado da vitória, que respaldou a candidatura de Miguel Ángel Burelli Rivas. Eram momentos dramáticos para o partido de governo, que novamente se escindió por divergências na eleição de seu candidato. De um lado afloró o Movimento Eleitoral do Povo, cujo candidato presidencial foi Luis Beltrán Prieto Figueroa. O que restava de Acção Democrática acompanhou na derrota a candidatura de Gonzalo Bairros. As novas eleições expressaram o eclipse político de Arturo Uslar Pietti. Voltaria a ser eleito ao Congresso Nacional, mas seu partido entrava em franco declive até a dissolução posterior. Uslar renuncia à Secretaria Geral de seu grupo, cargo que entrega a Pedro Segnini A Cruz. Fica como assessor político, somente. Retorna de maneira predominante a seu labor intelectual que, pelo demais, nos últimos cinco anos, tinha ficado reduzida a uma mínima produção. Efectivamente, se revisa-se seu bibliografía entre 1962 e 1967, observar-se-á que publica duas novelas integrantes de uma trilogía titulada O laberinto de fortuna. Elas foram: Um retrato na geografia (1962) e Estação de máscaras (1964). Ambas novelas deixaram muito que desejar em leitores acostumados à impecable escritura literária do autor. Não ocorreu assim, em mudança, com o quarto volume de contos, Passos e passageiros (1966) de excelente elaboração.
Na ensayística, entre 1958 e 1962, contribuiu três livros de importância: Venezuela, um país de transformação (1958), Materiais para a construção de Venezuela (1959), Do fazer e desfazer de Venezuela (1962). Publicou ademais uma série de textos sobre a educação, baixo título A universidade e o país (1961) destinado a acender polémicas um tanto ácidas. Como se vê, nos anos de maior actividade na vida política foram de escasso incremento literário para sua obra.
Em 1969, Caldera toma posse da Presidência da República. Uslar actua como parlamentar. A política de pacificação do novo governante foi recebida com alguma reticencia por certos sectores parlamentares, especialmente o derrotado partido Acção Democrática. A legalización dos partidos de esquerda começa com a volta à vida aberta de um maltrecho Partido Comunista. O MIR propõe acolher à legalidade e pede que seja Uslar Pietri o vocero de sua decisão ante o governo. Novamente seu nome está assinalado pelo respeito a sua amplitude de ideias e à tolerância de pontos de vista contrários ao seu.
No mesmo período de governo de Rafael Caldera, Uslar Pietri passa da vida política ao jornalismo, como director do diário O Nacional. Mantém o prestigioso periódico em uma linha de eclecticismo e objetividad informativa e continua escrevendo semanalmente sua coluna. Desse labor só teria de retirar com outra mudança de poder, operado com o triunfo aplastante de Carlos Andrés Pérez para a Presidência da República. Nesse mesmo tempo retira-se do Congresso com um memorable discurso. Publica dois novos volumes de ensaios: Em procura do novo mundo (1969) e A volta ao mundo em dez trancos (1971). Durante o governo de Carlos Andrés Pérez é designado representante de Venezuela ante a UNESCO, um organismo onde sua clareza de ideias, a espantosa cultura e, sobretudo, sua grande ponderação o levaram a desempenhar altísimas responsabilidades até agora, quando regressa ao país, para continuar incansavelmente seu trabalho de escritor, sem separar da instituição internacional onde têm decorrido em seus últimos anos.
Desde o ponto de vista da evolução de suas ideias literárias, aquele jovem escritor que tinha convulsionado o ambiente intelectual venezuelano dos anos 20 com seus textos doctrinarios sobre a vanguardia, particularmente através de válvula e de seu muito meditado ensaio de 1927, manteve ao longo do tempo uma definida vontade de universalizar nossos temas contextuais. Não foi a sua um prolongamento de cosmopolitismos assimilados da estética modernista. A diferença entre ambos conceitos foi aprendida por Uslar em suas leituras de Guillermo de Torre, quem dedicou umas linhas de clarificación do problema em suas Literaturas européias de vanguardia:
Enquanto o cosmopolita é somente geral, o universal é geral e local; e esta característica é o que faz (...) que uma obra literária (...) de valor universal possa ser gostada com plenitude de entusiasmo tanto em seu médio nativo, por virtude das qualidades locais que possui, como por um médio exótico, graças ao valor de ampla universalidade que irradia (20).
Essa consciência de universalidade permitiu-lhe reelaborar a matéria local para projectá-la para além de seu âmbito, especialmente em seus contos e em Lança-las coloradas. A difusão que sua obra narrativa chegou a atingir entre os países da América Latina e a grande acolhida que tem tido em Espanha, se complementa com as numerosas traduções a outras línguas, que essas obras têm conquistado por direito próprio. Não obstante, no momento em que aquelas ideias e propósitos incursionaban no estreito cauce literário do país, soaram a provocação e irreverencia contra a mitificación do criollismo. Até seu terceiro livro de contos, essa posição ideológico-estética regeu a escritura narrativa de Uslar. A mudança de perspectiva teve de produzir pela década dos 60.
Em 1967, Caracas congregó um numeroso conjunto de escritores e críticos. Reuniam-se em um Congresso do Instituto Internacional de Literatura Iberoamericana, convocado na capital venezuelana com motivo de ser concedido pela primeira vez o Prêmio Internacional de Novela «Rómulo Galegos» ao escritor peruano Mario Vargas Llosa. Por esses dias, Uslar é centro de polémica literária por duas propostas, um sobre «A morte da crítica»; outro, relativo ao «vasallaje intelectual» de Venezuela, onde pareceu que regressava intencionalmente a um nacionalismo estético, antítese conceptual de suas posições ao longo de todo um caminho luminoso de criação universalista. No entanto, a repercussão em sua obra narrativa não foi tão absoluta. Seu livro Passos e passageiros (1966) mantinha a mesma linha de expansão temática e expresiva onde habilmente se escamotea o localismo. Não é que a matéria estivesse localizada em um âmbito geográfico diferente ao nacional. Pelo contrário: seu arraigo histórico e espacial continuava bem fincado em nossos contextos. Mas a destreza do narrador soube localizar o desenvolvimento em uma dimensão válida para qualquer marco referencial de seus leitores e esse é um dos grandes segredos de seu sucesso internacional como cuentista.
Em 1931 , publicou sua primeira novela Lança-las coloradas, relato histórico situado durante a independência de Venezuela. A obra foi muito bem acolhida e supôs o começo de uma fructífera carreira literária.
Em 1936 , Uslar Pietri voltou-se muito activo no debate político com a morte do ditador Juan Vicente Gómez. Em 1939 , com 33 anos, casou-se com Isabel Braun Kerdel, com a que teve dois filhos: Arturo e Federico Uslar Braun (ambos falecidos). Nesse mesmo ano, converteu-se em Ministro de Educação. Fundou o Partido Democrático Venezuelano e foi deputado do Congresso a partir de 1944 . Em 1945 foi nomeado Ministro de Relações Interiores pelo presidente Isaías Medina Angarita.
O golpe de Estado do 18 de outubro de 1945 obrigou-o a abandonar o país e mudar-se a Nova York. Durante sua permanência em Nova York deu classes na Universidade de Columbia. Cinco anos depois voltou a Venezuela. Entre 1950 e 1958 trabalhou na agência de publicidade ARS e como professor de literatura na Universidade Central de Venezuela. Foi eleito em 1958 senador pelo Distrito Federal nas listas de União Republicana Democrática. Em 1963 , foi candidato pelo partido Frente Democrático Nacional para a presidência de Venezuela, mas foi derrotado por Raúl Leoni. Após sua derrota, seguiu activo como senador mas se foi distanciando pouco a pouco da vida política.
Converteu-se em director do diário O Nacional desde 1969 até 1974, ano em que se transladou a Paris como embaixador venezuelano para a Unesco. Quando voltou em 1979 , se concentrou em trabalhar em seus escritos e na educação, deixando a política activa.
Uslar Pietri foi uma figura muito familiar da televisão devido ao programa televisivo semanal chamado Valores humanos, enfocado na História e as Artes que começou a se emitir em 1953.
A morte surpreendeu a Uslar Pietri em sua casa, localizada no sector da Flórida, Caracas, o 26 de fevereiro do ano 2001 aos 94 anos de idade.[1] Lúcido até o último momento de sua vida, Uslar Pietri não perdeu oportunidade de fazer sentir seu peso intelectual à hora de alertar sobre o rumo que levava seu país.
Uslar Pietri escreveu durante toda sua vida sobre o desenvolvimento político de seu país. Desde as páginas dos diários nacionais foi um duro crítico, em especial desde sua conhecida coluna O Pizarrón (do jornal O Nacional), a qual deixou de escrever em 1998 .
O 14 de julho de 1936 publicou no diário Agora um artigo titulado "Semear o petróleo".[2] [3] Neste artigo expunha a crescente dependência de Venezuela do petróleo e propôs que tinha que sair desse esquema. Uslar Pietri declarou que tinha que utilizar o petróleo não para pagar mais importações, senão para procurar novas fontes de rendimento para o país e criar fontes de produção que contribuíssem a um desenvolvimento sustentado.
Em seu artigo "O banquete de Baltasar", Uslar Pietri menciona o episódio bíblico do banquete do rei Baltasar, quando Daniel tem que decifrar as palavras escritas no muro do palácio. Uslar Pietri escreveu:
Efectivamente, a palavra "mene" significava petróleo" na língua dos indígenas dessa zona tão rica em yacimientos petrolíferos. Uslar escreveu:
Mais adiante escreveu:
Sua ideia de "semear o petróleo" como fonte de rendimento de Venezuela foi exposto pelo escritor em numerosas ocasiões, expondo suas razões da utilização racional de dita fonte energética.
Alguns dos prêmios[4] mais destacados obtidos pelo autor são os seguintes:
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