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Bico triédrico

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Um bico triédrico ou triedro é um utensilio, talhado em pedra, característico do Paleolítico Inferior e, ocasionalmente, de certas culturas epipaleolíticas (por exemplo o Asturiense, período no que se lhes denomina especificamente bicos asturienses). Esta ferramenta lítica costuma ter uma forma alongada com uma extremidade terminal em forma de grossa ponta, mais ou menos despejada com grandes lascados que lhe proporcionam uma secção habitualmente triangular (isto é, formada por três planos ou caras); ainda que esta é a forma mais repetida —e a que lhe deu a denominação de genérica triedro—, algumas peças podem ter a secção de quatro ou mais caras.

Conteúdo

Determinação tipológica

Suas primeiras notícias vêm de princípios do século XX, quando o pesquisador francês E. Passemard definiu nas Landas uma cultura muito arcaica, contemporânea do Abbevillense, denominada Chalosiense, na que os triedros eram uma porção importante.[1] Actualmente, considera-se que o Chalosiense é um Achelense pleno e que a fabricação de triedros é muito comum em outros lugares do mundo, por exemplo os yacimientos inferopaleolíticos de Sidi Abderrahman em Rabat (Marrocos), ou o de Abbasieh , no Cairo (Egipto).[2] Também são habituais —ainda que quase nunca muito numerosos— no Achelense da Europa ocidental incluindo, por suposto, o espanhol.

A hechura dos triedros costuma ser singela (inclusive somera), sem a habitual rectificação de arestas que costuma acompanhar aos bifaces, com os que está fortemente emparentado;[3] pelo que muitas vezes pode chegar a ser confundido com estes ou com certos cantos talhados de morfología especializada, já que, em muitos casos, a base costuma ser uma zona reservada (isto é, conservando uma grande porção da superfície natural da rocha): para L. Ramendo trata-se, junto ao rosto-carenado, de um tipo diverso de canto talhado[4] ; enquanto François Bordas denomina-os, simplesmente, Bicos, e considera-os uma varidad de bifaces muito alongada, de secção espessa, cuadrangular ou triédrica.[5]

O bico triédrico como indicador cronológico no Achelense

Mais acima explicou-se que as primeiras notícias deste utensilio se associaram a uma facies cultural —que, na França se baptizou como Chalosiense— e que era situada em períodos muito antigos do Paleolítico, anteriores, inclusive ao Achelense. Também se aclarou que, actualmente, estas ideias são de pouca aceitação, considerando aquela indústria como plenamente Achelense.

O verdadeiro é que à medida que se foi conhecendo mais sobre o bico triédrico se apreciou que, efectivamente, aparece em períodos muito antigos, mas persiste ao longo de toda a sequência Achelense, pelo que, não deveria ser considerado indicador crono-cultural.

Apesar de tudo, na África, Ramendo os encontra junto com indústrias antigas de cantos talhados[4] ; Pierre Biberson documenta sua importância nos estádios II e III (relativamente antigos) do Achelense marroquino) perdendo-a a partir do estádio IV,[6] mas Chavaillon[7] e Tixier[8] certificam sua presença em yacimientos de Achelense avançado e final.

Arquivo:Bico triedrico de Touro-Zamora (2).png
Bico triédrico do vale do Duero (terraço a +35 metros)

Em Espanha , o yacimiento achelense escavado mais importante —no referente à presença de Triedros— é Pinedo, na província de Toledo, escavado por Manuel Santonja e María Anjos Querol entre 1972 e 1974.[9] Este yacimiento, situado em um terraço fluvial relativamente baixa do rio Tajo (a +22 metros) converteu-se, pelas características arcaizantes de sua indústria, no modelo do Achelense antigo na península Ibéria. Um dos rasgos que parecem caracterizar este estádio cultural era, justamente, a relativa abundância de bicos triédricos (mais numerosos que os bifaces), além do primitivismo tecnológico geral das peças. No entanto, seu excavación demonstrou, também que estava em posição derivada e que tinha sofrido fortes alterações erosivas. De facto, nas últimas décadas está a questionar-se a validade das conclusões obtidas de Pinedo. Assim, Joaquín González Echegaray e Leslie Gordon Freeman chegam a afirmar que: «Não é, portanto, possível, para a determinação das fases iniciais da ocupação achelense da Península, basear nas séries de peças acumuladas pela erosión em Pinedo».[10] Outros pesquisadores têm percebido que os triedros são abundantes em fases do achelense não precisamente antigas dos terraços médios do Duero:

«Ainda que estamos conveciados do que o Achelense de... [o terraço a + 35 metros sobre o Duero]...não corresponde a momentos iniciais, senão mais bem de mediados da fase cultural. A abundância de triedros induze-nos a associar esta indústria com a de Pinedo, aparecida nos níveis fluviales do terraço cuja nase está a +22 metros e o teto a +30 metros sobre o rio Tajo»
Benito Ávarez e Benito do Rei, página 140.[11]

Um caso similar dá-se na província de Zamora, onde o yacimiento chamado «Os Chanos» (Navianos de Valverde), situado no terraço a +20 metros sobre o rio Tera, se caracteriza por rasgos tecnológicos próprios de «um momento antigo, mas já dentro do Achelense», o que unido a sua posição geomorfológica e à abundância de variedade de triedros tem induzido a pensar que seria a mesma fase de Pinedo. No entanto, como reconhece o autor do estudo, o terraço é baixa, não há dados estratigráficos e é plausible uma mistura de materiais, «por todo isso e porque carecemos, ao menos até agora, da estratigrafía necessária, que seria a prova da validade e firmeza da existência real [...] das fases achelenses dantes citadas, temos de fazer com a máxima prudência, sobretudo nas conclusões que perfilam aspectos concretos».[12]

O único que é possível indicar, no estado actual dos conhecimentos, é que os triedros não podem se usar como indicador cronológico e que é há que eliminar os sistemas de datación relativa baseados na tipología lítica, confiando, em lugar disso, em outros factores como a estratigrafía, a paleofauna ou, melhor ainda, as dataciones absolutas.

Análise e variabilidad

O estudo de referência que costuma se citar ao analisar os triedros paleolíticos é o trabalho de Leroy-Prost, Dauvois e Leroy (1981).[13] Este se baseia na forma em que se fabrica a ponta e se centra em observações sobre instâncias do norte da África, no entanto, como eles mesmos explicam no artigo: «...temos tentado catalogar todas as formas possíveis, ou mais exactamente, todas as fórmulas de talha concebibles. Se não nos limitámos às formas existentes é para oferecer o quadro mais amplo e flexível a um material ainda pouco conhecido» (página 293).

Deste modo, estes autores determinam seis tipos básicos de triedros (em função das direcções de percussão da ponta), dentro dos quais distinguem 15 subtipos e 57 variantes (se baseando nos suportes e planos de percussão). Aqui, para simplificar, dedicar-nos-emos aos padrões fundamentais:

TIPO
Descrição
Tipo 1
Sua ponta triédrica está formada pela interseção de dois planos brutos de talha (ver nota a pé de tabela) com de um plano talhado por percussão monofacial.
Não há subtipos, mas sim 16 variantes.
subtipos
Type 1-1.svg
Tipo 1
Tipo 2
Com a ponta triédrica despejada a partir de um ou dois planos de talha e o resto talhado por golpes bidirecionais. Quando tem uma sozinha cara talhada e dois planos em bruto, a percussão é monofacial enfrentada, em caso de ter duas caras talhadas e um só plano em bruto, a talha pode ser tanto bifacial como monofacial.
Distinguem-se quatro subtipos e 22 variantes.
subtipos
Type 2-1.svg
Tipo 2.1
Type 2-2.svg
Tipo 2.2
Type 2-3.svg
Tipo 2.3
Type 2-4.svg
Tipo 2.4
Tipo 3
A ponta se despeja por médio de uma percussão tridireccional, com um ou nenhum plano de talha. Quando tem duas caras talhadas, uma delas tem golpes enfrentados; no entanto, se tem as três caras talhadas, a cada uma delas em uma sozinha direcção, seja gracioso- ou bifacialmente.
Este grupo tem quatro subtipos e dez variantes.
subtipos
Type 3-1.svg
Tipo 3.1
Type 3-2.svg
Tipo 3.2
Type 3-3.svg
Tipo 3.3
Type 3-4.svg
Tipo 3.4
Tipo 4
Define-se por ter a ponta talhada em quatro direcções de percussão. Às vezes, talham-se duas caras com sendas percussões enfrentadas, deixando uma terça em bruto, mas é também factible que as três caras sejam talhadas de maneira que não fica nenhum plano de talha em bruto.
Tem quatro subtipos e sete variantes.
subtipos
Type 4-1.svg
Tipo 4.1
Type 4-2.svg
Tipo 4.2
Type 4-3.svg
Tipo 4.3
Type 4-4.svg
Tipo 4.4
Tipo 5
É um dos tipos de bico mais sofisticados, ao estar realizada sua ponta com cinco direcções de percussão que forçadamente ocupam todas as caras do triedro. Dois das caras têm direcções de talha enfrentadas e a terça é de direcção única.
Não há subtipos nem variantes.
subtipos
Type 5.svg
Tipo 5
Tipo 6
Ponta despejada por percussões em seis direcções diferentes, com as três caras ocupadas, a cada uma delas, por uma talha bidirecional enfrentada.
Não há subtipos nem variantes.
subtipos
Type 6.svg
Tipo 6
NOTA: Na tabela fala-se de planos brutos de talha, este conceito refere-se a zonas (talhadas ou não) que não pertencem à parte específica da fabricação da ponta, pelo que, de qualquer modo, se consideram superfícies em bruto. Mas servem para estabelecer as variantes. Assim, se podem abarcar quatro opções: as duas primeiras correspondem a qualquer canto-suporte (sensu bato), isto é, corteza natural ou diaclasa; mas, se o suporte é uma lasca (sensu stricto), acrescentam-se outras duas possibilidades, a saber, o negativo de lascado (prévio à extracção do suporte) e o positivo de lascado (isto é, a cara inferior de dita lasca).

Em conclusão, resulta um útil muito específico, caracterizado por sua poderosa ponta, o que permite presumir qual é a parte activa (como ocorre com os hendidores); e, precisamente por isso, a técnica de fabricação tem uma linha clara: a obtenção de uma zona funcional, despejando dita ponta e descuidando o resto (o que induze a usar uma classificação centrada no procedimento de elaboração desta zona da peça). Assim mesmo, essa razão converte-os em úteis someros, com uma evidente economia de gestos e aparência tosca, salvo certas excepções.

Geralmente, a busca do mínimo esforço obriga à eleição de um suporte adequado. O bico triédrico fabricou-se em diversos tipos de rocha de fractura concoidea e em toda a classe de suportes (guijarros, blocos, placas, lascas...). Suporte-los mais propícios são aqueles que têm uma zona de percussão regular, a ser possível, plana, que é tomada como plano de percussão. Por exemplo, cantos bastante alisados, ou rompidos através de uma diaclasa natural, e a cara inferior das lascas; elegendo a zona de rompimento por sua regularidade. Isto permite obter resultados com um mínimo de lascados, resultando peças muito singelas, mas não necessariamente indicando arcaísmo.

A parquedad técnica é, pois, um factor importante da personalidade deste tipo lítico e transmite-se em uma importante presença de reserva, a utilização em massa do percutor duro, ou de pedra (raramente o macio, ou de cuerna) e com arestas sinuosas. Habitualmente, a presença de triedros toma-se como indicador de antigüedad e, ainda que muitas vezes é verdadeiro, os triedros não são uma prova fiável, pelo que se seu aparecimento não vai acompanhada de outros dados complementares, estes não podem se tomar como indicador cronológico.

Enlaces externos

Rereferencias

  1. Passemard, E. (1924). «[Expressão errónea: operador < inesperado Lhe Chalossien]». Bulletin da Société Préhistorique Française Tome 21 (páginas 148-152). ISSN 0249-7638. 
  2. Brézillon, Michel (1969). Dictionnaire da Préhistoire, Librairie Larousse, Paris. ISBN 2-03-075437-4. Páginas 65-66. Outras estações que poderiam se citar são Ternifine e Aïn Anech (Argélia), ou as canteras S.A.E.R. e S.T.I.C. em Rabat (Marrocos)
  3. Por exemplo, Jacques Tixier, ao princípio referia-se a eles como bifaces triédriques: Tixier, Jacques (1960). «Lhes industries lithiques d'Aïn Fritissa (Maroc Oriental)», Bulletin d'Archéologie marocaine, tomo 3, Páginas 107-244. Página 130.., ainda que, mais adiante separou-os em uma categoria específica: Balout, Lionel, Bibersion, Pierre e Tixier, Jacques (1967). «[Expressão errónea: operador < inesperado L'Acheuléen de Ternifine (Algérie), gisement de l'Atlanthope]». L'Anthropogie Tome 71 (Número 3-4). ISSN 0003-5521.  Páginas 217-238.
  4. a b Ramendo, L. (1963). «[Expressão errónea: operador < inesperado Lhes galets aménagés de Reggan (Sahara)]». Lybica Tome 11  (A.A.P.). Página 58.. 
  5. Bordas, François (1961). «Bifaces non classiques: Pics», Typologie du Paléolithique ancien et moyen, Impriméries Delmas, Burdeos. Página 69..
  6. Biberson, Pierre (1961). Lhe Palélithique Inférieur du Maroc atlantique, Service dês Antiquités de Maroc, Rabat. Páginas 149, 174 e 203.
  7. Chavaillon, Jean (1964). «[Expressão errónea: operador < inesperado Etude stratigraphique dês formations quaternaires du Sahara nord-ocidental (Colomb-Béchar à Reggan)]». Publications du Centre de Recherches sul lhes zones arides, CNRS Série Géologie (volume V). Paris. 
  8. Tixier, Jacques (1960). «Lhes industries lithiques d'Aïn Fritissa (Maroc Oriental)», Bulletin d'Archéologie marocaine, tomo 3, Páginas 107-244. Página 130..
  9. Santonja, Manuel e Querol, Mª Anjos (1979). O yacimiento achelense de Pinedo (Toledo), Série Excavaciones Arqueológicas em Espanha. Ministério de Cultura, Madri. ISBN 84-7483-054-0.
  10. González Echegaray, Joaquín e Freeman, Leslie Gordon (1998). Lhe Paléolithique inférieur et moyen em Espagne, Éditeur: Jérôme Millon. Collection L'homme dês origines, Série «Préhistoire d'Europe», nº 6. ISBN 2-84137-064-X. Página 50.
  11. Benito Álvarez, José-Manuel e Benito do Rei, Luis (2000). «[Expressão errónea: operador < inesperado Sequências inferopaleolícas na cuenca média do Duero]». SPAL - Revista de Prehistoria e Arqueologia da Universidade de sevilla Volume 9 (Homenagem a Vallespí). ISSN 1133-4525. 
  12. Benito do Rei, Lui (1989). «[Expressão errónea: operador < inesperado O Paleolítico Inferir na província de Zamora]». Primeiro congresso de História da província de Zamora Tomo 2 (Prehistoria - Mundo Antigo). ISBN 84-86873-14-2. 
  13. Leroy-Prost, Christiane; Dauvois, Michel e Leroy, Jean-Pierre (1981). «[Expressão errónea: operador < inesperado Projet pour um F.T.A. du groupe dês trièdres de l'Acheuléen nord-africain]». Préhistoire Africaine. Melanges offerts au doyen Linel Balout  (Réunis par Colette Roubet, Henri-Jean Hugot et Georges Souville). Editions ADPF, Paris.. 
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