Civilização, utilizando o termo em um sentido restringido, é uma sociedade complexa.[1] As civilizações diferenciam-se das sociedades tribales baseadas no parentesco pelo predominio do modo de vida urbano (a cidade, que impõe relações sociais mais abertas) e o sedentarismo (que implica o desenvolvimento da agricultura e a partir dela o desenvolvimento económico com a divisão do trabalho, a comercialização de excedentes e, mais tarde, a industrialización e a terciarización). Com poucas excepções, as civilizações são históricas, isto é, utilizam a escritura para o registo de sua legislação e sua religião (aparecidas com o poder político -reis, estados- e religioso -templos, clero-) e para a perpetuación da memória de seu passado (incluindo o aparecimento dos conceitos de tempo histórico e calendário).
Se utiliza-se em um sentido amplo, civilização passa a ser sinónimo de Cultura (englobando as visões do mundo ou ideologias, as crenças, os valores, os costumes, as leis e instituições); que se costuma aplicar com carácter mais geral.
Deriva indirectamente do latín civis (cidadão) através de civil e civilizar
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Civilização, um conceito fundacional das ciências sociais, é entendido: bem em singular, como grau superior de desenvolvimento da sociedade humana; ou bem em plural, como equivalente à cada uma das civilizações, entendidas geográfica, temporária, religiosa ou culturalmente (civilização micénica, civilização peruana, civilização grecorromana, civilização chinesa, civilização islâmica etc.). Esta diferenciación em seu uso pode fazer-se intencionalmente, implicando uma concepção oposta do termo.[2]
A descrição tradicional da evolução cultural da humanidade incluía seu passo por três estádios: salvajismo, barbarie e civilização. O predominio europeu desde era-a das descobertas (século XV); mas sobretudo desde a Revolução industrial (século XVIII) e a partilha colonial da África (século XIX), parecia fazer evidente para os contemporâneos a supremacía de todas suas particulares formas de organização: fossem económicas, sociais, políticas, inclusive suas crenças e sua raça (misionerismo e racismo). Desde esse ponto de vista, o conceito ilustrado de civilização universal passa a impor-se como um esquema particular ao que todas as partes do mundo devem amoldarse por seu próprio bem, baixo a protecção do que se baptiza como Civilização Ocidental, na fase do capitalismo que se conhece como Imperialismo (definição de Lenin ).
O surgimiento de dúvidas neste esquema é paralelo a sua própria formulación, e podem rastrearse desde a Junta de Burgos e a Junta de Valladolid, em que se realizou o debate dos justos títulos no que Bartolomé das Casas tomou partido pelos conquistados em vez de por seus colegas de conquista (ainda que desde depois pensava em sua religião como única verdadeira). O relativismo cultural que se faz cientista com a antropologia moderna (Bronislaw Malinowski) se vai ampliar ao conceito de civilização, que começa a se usar em plural, e em pé de igualdade relativa, para definir à cada uma das organizações humanas, vinculadas a uma forma de entender a vida, para além inclusive do conceito de Religião ou de Cultura.
Entendido deste modo, em plural, a cada civilização é uma entidade cultural que aglutina um sentido semiinconsciente de unidade, e que agrupa em seu seio a várias nações e povos diferentes.
Determinadas sociedades, por seus especiais lucros culturais e pela capacidade destes de se impor como comuns a um espaço mais ou menos amplo, são consideradas pelos historiadores como civilizações independentes. Um exemplo claro dá-lo-ia a anfictionía que unificava a todas as poleis gregas em torno de determinados lugares de culto (o oráculo de Delfos), festividades (as Olimpiadas) ou textos (as obras de Homero ) e que as opunha ao que consideravam bárbaro (estrangeiro, que fala com sons ininteligibles: bar-bar) e não helénico, como os persas.
Capacete proveniente de Sumeria , a zona de Mesopotamia onde os rios Tigris e Éufrates depositam seus depósitos aluviales ganhando lentamente terreno ao Golfo Pérsico, proporcionando um meio favorável à agricultura no meio de vastas zonas desérticas; e onde, na coyuntura do IV milénio a. C., desencadeiam-se os processos económicos, sociais, políticos e ideológicos que supõem a origem da civilização e começa a história.[4] |
Pirâmide em Teotihuacan . As construções deste tamanho requerem a organização social que encontramos nas civilizações. O impacto que a descoberta deste tipo de construções junto às complexas sociedades que se lhes associavam, teve nos conquistadores espanhóis e nos teóricos que reflexionaram sobre os justos títulos de domínio sobre elas; está na origem das diferentes considerações e descrições dos indígenas americanos (de bom selvagem a canibal despiadado), do debate intelectual que fundou o direito de gentes e da reflexão européia sobre o conceito mesmo de civilização. Também na Grécia clássica, o contacto com outros povos de diferentes línguas e culturas tinha sido o desencadenante que estimulou o surgimiento da reflexão crítica indispensável para o nascimento da filosofia e a história (Tais de Mileto, Heródoto). |
Frankfurt, centro financeiro da União Européia (um exitoso exemplo de integração supranacional no continente mais devastado pelas guerras até a primeira metade do século XX), ejemplifica a moderna sociedade postindustrial ou da informação, fruto da evolução tecnológica em sua última fase (aplicação em massa da informática e as telecomunicações). |
A perspectiva histórica utilizada para classificar a uma civilização (mais que a um país) como uma unidade, é de origem relativamente recente. A partir da Idade Média, a maior parte dos historiadores adoptaram um ponto de vista religioso ou nacional. O ponto de vista religioso prevaleceu até o século XVIII entre os historiadores europeus, que consideravam a revelação cristã como o acontecimento histórico mais importante, o tomando como referência para sua classificação. Os primeiros historiadores europeus não estudaram outras culturas mais que como curiosidades ou como áreas potenciais de actividade misionera.
O ponto de vista nacional, a diferença do religioso, desenvolveu-se a princípios do século XVI a partir da filosofia política do estadista e historiador italiano Nicolás Maquiavelo, quem sustentava que o objecto adequado de estudo histórico era o Estado. O espanhol Francisco de Vitoria, fundador do Direito internacional, abordou o tema dos direitos da Coroa de Espanha na conquista da América. No entanto, os múltiplos historiadores que mais tarde realizaram a crónica dos estados nacionais da Europa e América só estudaram as sociedades à margem da cultura européia, para descrever sua sumisión às potências européias, a sua entender mais progressistas. Caso aparte é o dos misioneros e teólogos espanhóis que aprofundaram no conhecimento e análise das civilizações recém descobertas, às vezes de difícil caracterização.