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Economia na Antiga Roma

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A República de Roma dominava uma vasta extensão de terra com enormes recursos naturais e humanos. Como tal, a economia na antiga Roma se manteve concentrada na agricultura e o comércio. O comércio agrícola livre mudou o panorama italiano, e pelo século I a.C., as enormes fazendas dedicadas ao cultivo da vid, dos cereais e da oliva propriedade de grandes terratenientes tinham estrangulado aos pequenos agricultores, que não puderam igualar o preço do grão importado. A anexión do Egipto, Sicília e Cartago (actual Tunísia) proporcionou um fornecimento contínuo de cereais. A sua vez, o azeite de oliva e o vinho foram as principais exportações da Itália. Já por então se praticava a rotação de duas folhas, mas a produtividade agrícola em general foi baixa: ao redor de 1 tonelada por hectare.

Conteúdo

Agricultura

A agricultura era uma actividade que estava muito bem considerada dentro da sociedade romana, ao invés do que sucedia com o artesanato. Roma, em suas origens, tinha sido uma comunidade de pastores e agricultores, pelo que a tradição fazia desta actividade uma profissão quase sagrada. Inclusive os Patricios dedicavam-se ao cultivo da terra e à criança do ganhado: estes patricios eram proprietários de grandes fazendas cuja manutenção e exploração recaía na mão de obra escrava que vivia nestas fincas durante todo o ano ao cuidado de um capataz que, a sua vez, era um escravo de confiança do proprietário. Estas enormes fincas produziam todo o tipo de alimentos. Se dava-se o caso de que a exploração se encontrava cerca de alguma cidade, os frutos da colheita se transladavam diariamente a seu mercado e se vendiam, já que costumavam ser produtos que se estragavam com o passo do tempo, tais como frutas, hortalizas e verduras frescas, que eram muito apreciadas pelas gentes das grandes cidades.
Cena de recolección na época romana

Pelo contrário, se a exploração agrícola encontrava-se muito afastada das urbes, os produtos frescos eram utilizados para o consumo imediato dos proprietários (que costumavam viver nas fincas afastadas, apartados do bullicio das cidades) e trabalhadores livres e, em menor medida, escravos da exploração. Os produtos que se vendiam na civitas (cidade) eram os que não pereciam com o passo do tempo, tais como veio, uvas, azeite, azeitonas, trigo, cebada, avena etc., cultivos aos que se dedicava a maior quantidade de terreno para sua produção.

Existiam também camponeses livres que cultivavam sua própria terra com a ajuda de suas próprias famílias, ou bem os que arrendavam parcelas aos Patricios (cujas posses podiam se estender ininterruptamente durante quilómetros e quilómetros) a mudança de dinheiro ou a mudança de pagamentos em espécie, geralmente uma fracção da colheita que o camponês produzia.

A técnica que os romanos usavam ao cultivar a terra tem perdurado, no essencial, até nossos dias. Em primeiro lugar, como em todos os países mediterráneos da actualidade, se praticava a rotação de duas folhas. Esta rotação consistia, e consiste, em cultivar e deixar em barbecho os campos alternativamente, para manter a fertilidad do solo e acumular humidade. Este tipo de rotação adaptava-se aos solos arenosos e aos verões longos e secos da cuenca mediterránea, ainda que não aos do Noroeste da Europa (na Galia), onde os solos são mais compactos e o arado romano, devido a sua debilidade, não podia levantar a terra. Por isso cultivavam as terras arenosas calizas das lomas, dotadas de sua drenaje natural, e evitavam os solos mais compactos, mas mais fértiles, de vales e mesetas.[1]

O que não tem perdurado até hoje é a técnica que os romanos usavam para arar os campos. Os arados romanos eram muito ligeiros, como se acaba de insinuar. Portanto, ao ser de madeira, não deixavam os característicos surcos que podemos observar hoje em dia nas terras aradas. Em seu lugar, este arado o único que conseguia era arranhar a superfície da terra, pelo que o agricultor tinha que desenhar uma grade por toda a parcela, para aproveitar toda a extensão desta.[2]
Azada romana de ferro, 2000 anos de antigüedad. Pode ser vista no Field Museum of Natural History (Chicago)

A época mais activa no campo era o outono. Para princípios de outubro começava-se a semear o trigo e a cebada, terminando a mediados, ou inclusive a finais, de Novembro. Uma vez finalizada semeia-a, para mediados de Dezembro, tinha que recolher as azeitonas, que posteriormente eram prensadas para obter azeite, o qual se armazenava em tinajas de varro precintadas com brea que eram destinadas à venda ou a seu posterior consumo por parte dos residentes na exploração. Ademais, o outono era o momento da matança do ganhado, com o adobe e o embutido de suas carnes (com as que se fabricavam extraordinários presuntos, lombos adobados, chorizos e uma espécie de mortadela); do esquile das ovelhas e do arado das terras.

No inverno, no entanto, as actividades que se realizavam eram menos pesadas, ainda que igualmente importantes. A maioria dos trabalhos invernais eram de índole doméstica, isto é, era a época dos reparos, de tecer cestos de mimbre, de fabricar queijo, ferramentas, tinajas e arados, de tecer a lana das ovelhas e curtir peles etc.

O verão era igual de intenso que o outono, já que, no final de primavera, começava a temporada de recolhida das hortalizas, seguida da siega da cebada e do trigo até quase princípios do outono, já em Setembro, que terminava com a recolhida das uvas, a vendimia, e seu posterior prensado para fazer vinho.

Pode dizer-se que a vida do campesinado em tempos da Antiga Roma era muito dura; ademais, os camponeses costumavam viver em condições muito humildes, rozando a ombreira da pobreza (e traspassando-o, geralmente), e de jeito nenhum chegavam a perceber os mesmos rendimentos que um carpintero ou que um alfarero, por exemplo, que trabalhasse na cidade, já que nesta existia um gradode especialização que não se dava no campo. Mas os camponeses também tinham suas jornadas de descanso. Quatro vezes ao mês, a cada sete dias, os camponeses (livres, isso sim) detinham suas actividades e iam à cidade a vender seus produtos, a comprar simiente e utensilios variados e inclusive a assistir ao circo.

Ademais, para finais do inverno os camponeses realizavam uma série de festas, as Paganalia, mediante as quais por mandato dos deuses então repousava o arado, pois a religião estabelecia o descanso tanto para o criado e o boi como para o labrador e o dono.[3] Habitualmente, estas festas realizavam-se em janeiro, pelo que nem a colheita nem os labores relativos ao ganhado sofriam alteração alguma.

Costumamos pensar que relativo ao campo os romanos não fizeram grandes avanços tecnológicos. Aqui equivocamos-nos, já que, além de generalizar o arrendamento das parcelas de terra (a outros cidadãos ou ao Estado) promoveram o uso de molinos de água e, em menor medida, de vento para poder moler o grão; inventaram uma melhorada imprensa de azeite, inovadoras técnicas de regadío e generalizaram o uso de abonos e outros fertilizantes naturais.

Trabalho na cidade

O trabalho que se realizava nas cidades era muito diferente que o realizado no campo. Para os romanos, ao invés do que sucedia com a agricultura, o comércio e o trabalho manual não gozavam de grande consideração.[4] Era normal deixá-lo em mãos de classes sociais inferiores, de estrangeiros e inclusive de escravos. Isto pode nos fazer pensar que nas cidades romanas tinha muito poucos artesãos e fabricantes de utensilios, mas, em realidade, não foi assim. Inclusive, paradoxalmente, o Direito romano permitia e promovia uma considerável liberdade de empresa e não penalizaba as operações comerciais.[2] Este Direito cuidava do cumprimento estrito dos contratos, de fazer respeitar o direito de propriedade privada e de chegar a um acordo rápido nas disputas. há que dizer, no referente aos contratos, que seu uso era tão comum como hoje em dia. Os contratos que se realizavam com o Estado, geralmente de arrendamento de terras para o pasto do ganhado, podiam ter prendedores (praevides). Também existiam as Tabulae (o contrato de esponsales). Dos contratos exigia-se seu cumprimento, que, caso contrário, supunha o ter que pagar uma indemnização por parte do infractor. Também existiam contratos para as vendas (emancipatio). Estes se realizavam com a entrega do bem e o pagamento correspondente ante testemunhas, sendo então uma venda perfeita. Se incumpriam-se os termos, o infractor devia indemnizar à outra parte como se lhe tivesse roubado o bem. Inclusive também se faziam contratos para o empréstimo de dinheiro. O prestamista entregava a soma de dinheiro ao prestatario ante testemunhas, e este último tinha a obrigação (nexum) de devolver o capital mais os interesses,[5] um 10 % anual, geralmente. Se o prestatario não pagava, o prestamista, após o obrigado processo judicial, podia desposeerle de todas suas propriedades para recuperar o prestado, lhe converter em escravo seu e inclusive o matar, ainda que em tempos mais tardios da história de Roma esta prática caiu em desuso.
O foro romano, centro da actividade económica na Antiga Roma


Como se acaba de mencionar, nas cidades romanas existiam numerosas oficinas e “empresas”. A cada cidadão, fora livre ou escravo, desenvolvia uma actividade, desde a manufactura e o comércio até as profissões de maestro, banqueiro e arquitecto, ainda que estas últimas não tinham a mesma consideração que lhas dá hoje em dia. Tejedores, alfareros, zapateros, ferreiros, tintoreros, vidrieros, orfebres e um longo etcétera ofereciam seus produtos ao público no mesmo lugar onde os fabricavam, atraindo aos possíveis compradores com toda a sorte de artimañas e pregando a vozes a excelencia de seus produtos e o irrisorio de seus preços. Toda rua romana era uma ruidosa mistura de gente, meninos jogando, mendigos e comerciantes dando a conhecer a vozes seus produtos, a cada qual mais alto para tampar à concorrência. Os mais abundantes, e os que mais vociferaban, eram os comerciantes de alimentos, e não existia lugar público onde não se lhes encontrasse, ao igual que aos traficantes de escravos.

Também as obras públicas mobilizavam a infinidad de especialistas: pedreiros, carpinteros, canteros, fontaneros, engenheiros, arquitectos etc. Por sua vez, o Estado mantinha serviços públicos tão importantes como o abastecimento de água, os bombeiros (a célebre militia vigilum, instaurada pelo imperador Augusto no ano 22 a. C.) e as termas, os banhos públicos onde a gente ia regularmente a charlar e a se divertir, atendidas todas elas por mão de obra escrava.

O comércio em Roma

Artigo principal: Comércio na antiga Roma

O comércio romano foi o motor que conduziu à economia de finais da República e princípios do Império. Modas e tendências da historiografía e cultura popular têm tendido a não ocupar da base económica do império em favor da lingua franca que foi o latín e as façanhas das legiones. Tanto a língua como as legiones foram apoiadas pelo comércio, sendo ao mesmo tempo parte de sua espinha dorsal. Os romanos eram homens de negócios e a longevidade de seu império deveu-se a seu comércio.

Como, já no último século da República (e não digamos na época imperial), a península italiana não podia manter a uma população tão numerosa somente com os recursos locais, importar com os produtos necessários para a manutenção e o bom funcionamento da indústria e a vida romana das províncias onde se produziam. Graças à denominada Pax Romana, o comércio desenvolveu-se nas condições mais favoráveis.
Uma das maiores exportações da Itália em tempos da Antiga Roma foram seus excelentes vinhos.

Assim, a piratería e o bandidaje, que tinham suposto sérias ameaças para o comércio, tinham sido eliminados quase por completo.[6] Mas a já citada Pax romana não só fez possível o auge do comércio até cotas nunca dantes vistas, senão que provocou um espectacular crescimento demográfico. Este crescimento foi mais acusado no Mediterráneo ocidental, já que o oriente estava muito povoado. E, como todos os economistas sabem, um aumento da população costuma produzir por um aumento no nível de vida dos cidadãos. Segundo diversas estimativas, a população do Império em tempos de César oscilava em torno dos 60 milhões de pessoas. Parece provável que o número de habitantes do Império à morte de Marco Aurelio (180 d. C.), fosse, ao menos, o duplo que à morte de Julio César (44 a. C.).[2] Estas cifras atestiguan, por si sozinhas, o espectacular aumento demográfico que se produziu, já que em uns 224 anos, a população do Império se multiplicou por dois. E é muito provável que estas pessoas que habitavam o Império estivessem em uma situação económica superior à de milhões de pessoas, tanto de âmbito agrícola como urbano, da Ásia, África e Sur América de hoje em dia.[2]

Geralmente, a via de transporte mais utilizada, apesar das famosas calçadas romanas, era o Mediterráneo, que se converteu na grande via do tráfico comercial, com uma prosperidade que nunca dantes tinha atingido. E, dito seja de passagem, rara vez voltaria a brilhar com tanta luminosidade. Como é fácil imaginar, o próspero comércio arrastava consigo gentes, línguas, costumes, religiões e problemas de mil origens e naturezas, convertendo a Roma em um foro internacional.

A moeda romana

Artigo principal: Moeda na antiga Roma

O movimento de mercadorias pelo Império romano era, além de muito antigo, muito fluído. Como todos os economistas sabem, para que o comércio seja fluído deve existir uma “mercadoria” cujo valor unifique o de todos os demais produtos. Isto é, deve ter algo que possa ser utilizado como padrão para “medir” o valor das coisas.

Em suas origens, como nos de todas as civilizações, o comércio romano não precisava da utilização da moeda, já que se utilizava comummente o trueque como médio para realizar as transacções. Isto fica demonstrado, inclusive, no Direito romano mais primitivo, o qual estabelece que as multas e sanções se devem pagar com as cabeças de ganhado correspondentes. Mas quando Roma começou a se expandir por Itália e a conquistar a outros povos, sobretudo aos helenos que estavam assentados na Campania, penetrou em um sistema de estados constituídos à maneira grega. Assim, Roma adoptou o sistema monetário dos helenos.[7] Como os romanos precisavam importar metais para fabricar instrumentos para o cultivo ou bem para fabricar armas, o cobre e o bronze constituíram muito cedo outro artigo de mudança.[2] Assim, as primeiras moedas romanas, pelo menos das que temos constancia, foram de cobre , ainda que seu valor se media com respeito ao lingote de bronze (Aes) e tomaram o nome deste metal. Por suposto, estamos a referir-nos ao “as” romano.

Com suas moedas de cobre , o comércio romano muito cedo estendeu-se por todo o Lacio, por Etruria e chegou até o sul da Itália. Mas aqui aos romanos apresentou-se-lhes um problema, já que os gregos que estavam assentados no sul da Itália utilizavam moedas de prata, de modo que tiveram que realizar uns primitivos “tipos de mudança”.[2]

Quando, depois da guerra contra o rei Pirro do Epiro (280-275 a. C.), Roma conquistou o sul da Itália e, com ele, todas suas cidades gregas, entre elas a actual Tarento, o Senado romano, para o 268 a. C., não tolerou a diversidade de moedas nada mais que para as fracções em grandes quantidades. Assim se adoptou um tipo de moeda comum para toda a Itália e se centrou seu acuñación em Roma.[8] Esta nova moeda foi acuñada em prata e teve por base o valor legal relativo dos dois metais, isto é o tipo de mudança existente entre o bronze e a prata. Esta base foi a peça de dez ases, já que dez ases equivaliam a uma moeda de prata de Tarento. Assim, o novo “dinheiro” romano, ou denarius, acuñado, como acabamos de dizer, em prata, pesava pouco mais que o dracma de Atenas. Seu peso nominal era de 4,58 gramas, ainda que no ano 217 a. C. se rebajó a 3,9 gramas. Se na moeda aparecia o símbolo X ou ж significava que tinha um valor equivalente a dez ases, isto é, que pesava exactamente o peso estabelecido por lei.

Não se deve pensar que, com a fabricação da nova moeda, os ases de cobre deixaram de existir. Os denarios utilizavam-se só nas médias e grandes transacções, deixando o uso geral do as de cobre para as pequenas. Mas muito cedo resultou evidente que o as era demasiado pequeno para ditas transacções (já que, com a chegada do denario de prata, se transformou em pouco mais que calderilla, ao ser uma moeda fracionária), de modo que se acuñó outra moeda em prata. Esta moeda tinha menos quantidade de prata (pesava menos) que o denario. Assim, se fixou que a nova moeda, à que se chamou “sestercio”, equivaleria a ¼ de denario e a 2,5 ases. Isto é, o denario, a moeda principal, estaria dividida em quatro sestercios e/ou em dez ases.

E, ao igual que ocorreu com o sestercio, à longa o estado romano se viu obrigado a admitir a necessidade de outra moeda, já em tempos do imperador Nerón, que pudesse ser utilizada pelo Estado em suas enormes transacções, já que o emprego de milhões de denarios ou sestercios era algo engorroso. Assim se acuñó, de novo, outra moeda, desta vez em ouro. O aparecimento desta moeda de ouro fez necessária a especificação de denarius argentus para o denario original de prata e [[denarius aureus]] para o de ouro, já que assim se chamava esta nova moeda, que foi acuñada com um peso equivalente a 1/40 da libra romana (8,18 gr.), com a intenção, além da já mencionada, de substituir às estateras de Filipo II de Macedonia (que circulavam com profusión em Roma) por uma moeda que ao mesmo tempo guardasse uma relação singela com as de prata. Um denario áureo equivalia a 25 denarios argénteos ou a 100 sestercios de prata. Mas a partir do ano 60 d. C., tanto a lei do metal como o peso foram baixando gradualmente, até chegar, nos tempos de Caracalla, apesar 6,55 gr.

Assim, depois do mandato de Nerón , existiam quatro tipos de moedas romanas principais que, como é de supor, circulavam por todo o mediterráneo:

Impostos em Roma

Ainda que o estado romano, obviamente, não pode se comparar, quanto a instituições, despesa social e desenvolvimento, aos modernos países de hoje em dia, estes últimos e o primeiro tinham algo em comum: precisam dinheiro para cobrir as despesas. Mas, a diferença do que ocorre hoje em dia, onde a maioria das despesas estão destinadas ao que se denomina a “despesa social” (Previdência, Educação, Subvenciones, Subsídios…), em Roma a maior parte, por não dizer a totalidade, das despesas estatais estavam destinados a cobrir as necessidades militares. Conquanto é verdadeiro que o governo de Roma mantinha certas despesas que hoje poderíamos considerar como sociais (distribuição gratuita de grão, polícia urbana, termas, jogos, abastecimento de água…) a maior parte do dinheiro que possuía o fisco ia parar às legiones.

Em Roma, ainda que a escola era uma instituição reconhecida pelo Estado, não era pública, pelo que o governo não se fazia cargo de sua manutenção. E quanto à Previdência, somente podemos dizer que não existia tal e como a conhecemos hoje em dia. Sim, é verdadeiro que tinha médicos, mas, no melhor dos casos, atendiam aos doentes nos próprios lares destes e cobravam pelos serviços prestados.

Fossem as despesas que fossem, o governo romano devia lhes fazer frente e, por tanto, também tinha necessidade de perceber os rendimentos correspondentes. As arcas do Estado foram contínuos bicos à alça e à baixa, dependendo da boa ou má administração do Senado, em tempos da República, ou do imperador, em tempos do Império. No caso destes últimos, os imperadores, uns se caracterizaram por sua boa gestão das finanças e pelos superávit que acumularam (como Augusto ou Trajano); outros, pelo austeros e “tacaños” que eram no tema da despesa pública (como Tiberio ou Claudio); e os demais por derrochar os superávit que os “tacaños” e os “bons administradores” conseguiram na realização de caros espectáculos públicos, grandes obras monumentales e/ou para dar gosto a sua opulencia, se construindo suntuosos palácios com todo o luxo imaginable (como Calígula, Nerón, Domiciano, Cómodo, Caracalla…).

Raramente o governo cobria as despesas só com os impostos que cobrava, de modo que, quando tinha que realizar grandes desembolsos, Roma recorria à guerra para sacar um sustancioso botim dos países conquistados, que se utilizava para cobrir as despesas restantes. Aqui temos uma das possíveis causas da queda de Roma, já que, quando o Império passou a estar à defensiva, se lhe fez quase impossível cobrir suas próprias despesas, se derivando disso uma monumental crise fiscal, monetária, económica e, portanto, política que sacudiu os alicerces do estado romano, propiciando seu desplome.

Um dos primeiros impostos que se impuseram aos cidadãos de Roma, e do que temos notícias, foi a Moenia, em tempos dos reis. Este imposto consistia em prestações nas fincas reais, em edifícios da cidade e em obras públicas.[9]

Outro dos mais antigos impostos era o Sacramentum, o qual era pago pela pessoa que perdia um julgamento. Este imposto consistia em que, à vista de um julgamento, as duas partes litigantes depositavam um fundo, que perdia aquela parte que perdia o litigio, o qual era adjudicado aos sacerdotes para que o empregassem nos sacrifícios públicos.[2]

Inclusive desde os tempos dos reis, Roma era já um conglomerado de gentes. Também se gravou um imposto para os residentes em Roma que não possuíam a cidadania romana, os chamados aeraii, quem pagavam uma renda. Inclusive o pastoreo do ganhado nos domínios de terra pública (Ager Publicus) estava gravado mediante a Scriptura, a qual tinha que desembolsar. E adquiria também o arrendo de terras estatais (do Ager Publicus) mediante um imposto chamado Vectigalia.

Mas, conforme foi passando o tempo e o estado romano foi fazendo-se mais e maior, alguns dos impostos foram desaparecendo, como a Moenia. Inclusive os cidadãos romanos tiveram o privilégio de estar exentos dos impostos directos, já que só contribuíam com as rendas do Ager Publicus (Scriptura e Vectigalia) e com alguns outros como o Sacramentum; situação de privilégio que depois da denominada Guerra Social ou dos aliados (91 a. C.-89 d. C.) estendeu-se a toda a Itália, já que depois desta guerra todos os cidadãos da Itália foram reconhecidos como cidadãos romanos. Assim, com o tempo, a maior parte dos impostos a tiveram que pagar os provincianos, que era nos que realmente se depositavam quase todas as contribuições ao fisco. Nas províncias estabeleceram-se duas classes de impostos, um imposto territorial (Tributum Soldi) e um imposto por cabeça (Tributum Capitis).[10]
Era das Províncias de onde Roma sacava a maior parte de seus rendimentos. No mapa, Províncias do Império romano no momento de sua máxima extensão, para o 117 d.C.

O Tributum Soldi pagavam-no todos aqueles que eram proprietários de bens raízes, todos os provincianos e todos os cidadãos romanos que viviam fora da Itália. Somente estavam exentas de pagar este imposto as cidades que possuíam o Ius Italicum, isto é, as cidades da Itália. Pelo contrário, o Tributum Capitis pagavam-no só os provincianos, já que os cidadãos romanos estavam exentos. Este imposto gravava-se sobre o capital e os bens inmuebles e deviam tributarlo os homens e as mulheres, excetuando os meninos menores de doze anos e os idosos. Ademais, para os provincianos ampliaram-se os Vectigalia, que recolhiam, além do arrendo de terras do Ager Publicus, alguns impostos indirectos arrecadados por companhias de publicani (publicanos), entre os que se encontravam os direitos de aduana (Portoria), o imposto sobre manumisiones ou libertação de escravos (5%), o imposto sobre a venda de escravos (4%) e o imposto sobre o transporte de grão.

Todos estes impostos indirectos eram recolhidos pelas cidades, quem o enviavam a Roma. Todas as cidades deviam enviar a Roma o dinheiro recolhido dos impostos (Stipendium). Mas estas também cobravam certa quantidade para a manutenção de suas vias e de seus edifícios públicos, ainda que esta quantidade “municipal” era cobrada aparte dos “impostos estatais”. Também existiam algumas tarifas nas pontes, nos passos de montanha, e para a navegação fluvial que eram recolhidos por publicanos e que engrossavam as arcas das cidades. Inclusive dispôs-se uma taxa que gravava o consumo de água pública (a que traziam os acueductos), que tinha que abonar a cada vez que se sacava água de uma fonte pública.

Se toda esta salva de impostos nos parecem demasiados, não devemos passar por alto os impostos extraordinários que, geralmente, se realizavam em forma de requisas e eram cobrados pela administração militar. Os cidadãos das províncias estavam obrigados a contribuir, entre outras coisas, uma habitação temporária para os soldados (até que se construía o acampamento estável); todo o tipo de ferramentas; lenha, trigo e, em algumas ocasiões, os barcos das populações marítimas ou dos portos fluviales; os adinerados também não livravam-se do ónus, devendo contribuir escravos, teias, couros, prata e outros objectos de valor.

Se tudo isto não nos basta, durante a República a conduta dos governadores das províncias não foi do todo “correcta”. Mais bem, não foi correcta nem dos governadores nem dos Publicani que recolhiam os impostos.

A República sempre recorreu ao sector privado para que contribuísse a necessária experiência recaudatoria.[11] Este “sector privado” recolhia os impostos directos e indirectos e bastava-se por si só para provocar o desespero dos pobres provincianos. O sistema de arrecadação consistia em que se subastaban publicamente os contratos de arrecadação de impostos, e aqueles que ganhavam avançavam ao Estado o total do imposto que deviam arrecadar.[2] Com o tempo, os multimillonarios viram o negócio e associaram-se em empresas que inclusive emitiam acções, celebravam juntas gerais e elegiam directores que lideravam o conselho de administração.[2] Obviamente, toda a empresa tem o direito de sacar benefício a raiz de suas actividades. Mas é que os Publicani não tinham nenhum pudor à hora de recuperar seu investimento. Não só arrecadavam a multimillonaria quantidade que tinham avançado ao estado, senão que também tinham como objectivo o forçar aos provincianos a pagar um extra pelo privilégio de ser desplumados.[2] Os Publicani não conheciam limites. Nem conheciam-nos nem lhos auto impunham. Pode-se pensar que os governadores estavam obrigados a manter a justiça e a paz entre suas súbditos. Ao menos isso diziam os máximos ideais republicanos. Mas o verdadeiro é que os subornos que se ofereciam a estes governadores eram tão enormes que inclusive os princípios mais severos acostumavam a se dissolver e se converter em pó.[2]

Naturalmente, ainda que os provincianos seguiram estando baixo uma tremenda pressão fiscal, toda esta corrupção cessou, ou ao menos se aminoró em grande parte, com o estabelecimento do regime Imperial. Durante a República, os governadores das províncias eram os mesmos senadores, os Patres que dirigiam o Estado. Estes Patres não tinham que render contas a ninguém sobre sua gestão, a não ser que alguém lhes denunciasse publicamente e o caso entrasse a fazer parte dos tribunais. Mas, normalmente, os senadores eram as pessoas mais influentes, ricas e poderosas de Roma, de modo que, bem ajudados por seus inumeráveis clientes, bem utilizando sua enorme fortuna, na maioria das ocasiões conseguiam corromper aos tribunais e sair assim airosos do problema. E, como isto ocorria quase continuamente, quem se atrevia a denunciar publicamente as irregularidades cometidas por um governador cavava, literalmente, sua própria tumba. Mas com a chegada do Império os governadores [que, por outra parte, já não eram senadores, senão influentes personagens de outro grupo social, os caballeros ([[Equites]], que eram os acomodados mas sem faixa senatorial)] si que tinham que render contas de sua gestão ante um superior, o Imperador, que não consentia a mais mínima discórdia civil em suas províncias. E o abuso na cobrança de impostos podia ser um motivo muito propício para causar uma sedición entre os súbditos de Roma, de modo que os governadores provinciais preferiram salvar dantes seus pescoços que se enriquecer mais ainda, mas isto último, ainda que “a escondidas”, o seguiram fazendo. Não obstante, baixo a férrea tutela dos Césares, a corrupção desceu de tal modo que ao povo não se importou com o recorte de liberdades que sofreram depois da “abolição” do governo República romana|republicano, já que todos os cidadãos do Império
"recelaban do governo do Senado […] por causa da avaricia dos magistrados, resultando-lhes ineficaz o auxilio das leis, que eram distorsionadas pela força, o suborno e, afinal de contas, pelo dinheiro".
Cornelio Tácito, Anales, I,2.

Referências

  1. Rondo Cameron, História Económica Mundial, cap. III, 3ª ed.
  2. a b c d e f g h i j k Idem.
  3. Theodor Mommsen, História de Roma, Livro I, cap. XIII.
  4. Rondo Cameron, História económica mundial (3ª Edição), Cáp. II.
  5. Theodor Mommsen, História de Roma, Livro I, cap. XI.
  6. Rondo Cameron, História Económica Mundial (3ª ed.), cap. II.
  7. Theodor Mommsen, História de Roma, Livro II, cap. VIII.
  8. Idem, Livro II, Cáp. VIII. O primeiro denario do que temos notícias foi encontrado nas cercanias de Capua e data de 268 a. C. É possível que o Senado romano adoptasse dantes desta data a moeda de prata, mas como nossas conclusões devem estar apoiadas em provas, só podemos dizer que a moeda de prata começou a se usar em Roma, ao menos, a partir do já referido 268 a. C. Todo o demais, até o momento, são puras conjecturas.
  9. Theodor Mommsen, História de Roma, Livro I, Cáp. XI.
  10. Flavio Josefo, Guerras dos Judeus, II, 8,1.
  11. Tom Holland, Rubicón: Auge e queda da República romana, Cáp. II.

Bibliografía

Obtido de http://ks312095.kimsufi.com../../../../articles/c/ou/m/Comunicações_de_Andorra_46cf.html"