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A Etnoarqueología é uma disciplina que se encarrega de realizar estudos de cultura material de comunidades preindustriales contemporâneas, com uma visão eminentemente arqueológica. Diferencia-se, pois da Etnografía ou a Antropologia por seu enfoque, métodos e propósitos, unidos à Arqueologia.
Jesse W. Fewkes em 1900 foi o primeiro usar a palavra para referir a suas tentativas de identificar nos yacimientos Hopi sócios pelos Hopi actuais a determinados ritos (Stiles, 1977). Simultaneamente, os etnógrafos começaram a interessar pelos objectos quotidianos das sociedades nooccidentales. Entre estes, Pitt Rivers foi um dos impulsores em dar cabida à cultura material nos estudos antropológicos a princípios de século (Oswalt, 1974). Também Marcel Mauss teve um papel importante pois pôs aos estudos de cultura material em um plano central da investigação etnográfica; quando se referiu às dificuldades da encuesta etnográfica, propôs à colecção de objectos como um das maneiras das superar: "O objecto é em muitos casos, a prova melhor de um facto social; e um catalogo de instrumental mágico é um dos melhores médios para elaborar uma boa classificação de ritos" (Mauss, 1971, p. 15) Em América do Sul outros pesquisadores também o fizeram muito cedo como por exemplo Theodoro Koch-Grünberg em suas investigações entre os indígenas Amazónicos durante 1902 e 1903 (Koch-Grünberg, 1995).
Oswalt e VanStone (1967) usaram novamente o nome Etnoarqueología para referir à informação oral sobre a cultura material em um yacimiento esquimal ocupado entre 1840 e 1910. Em general entre 1956 e fins dos 60' observa-se um crescente uso da informação etnográficas com fins de interpretar melhor o registo material do passado e começam-se a efectuar as primeiras recolecciones de dados actuais desde uma mirada arqueológica (David; Kramer, 2001). Neste tempo ainda não tinha pesquisadores que se chamassem a si mesmos etnoarqueólogos.
Com a chegada da chamada "arqueologia procesual" foi Binford (1967) quem começou a interessar no tema de maneira sistémica na analogia etnográfica em seu trabalho pioneiro Smudged pit and hide smoking: the use of analogy in the archaeological reasoning. Posteriormente, Binford (1978) desenvolveu teórica e conceitualmente seu enfoque etnoarqueológico em Nunamiut Ethnoarchaeology. Estes contribuas junto com os de Yellen (1977) e Gould (1978a, 1980) sentaram as bases metodológicas da Etnoarqueología dentro do paradigma procesual e transformaram à subdisciplina em uma das produtoras mais importantes de modelos para alimentar a "teoria de faixa médio".
A Etnoarqueología contemporânea surgiu como resultado directo da valoração dos estudos actualísticos e do optimismo no potencial destes para explicar o registo arqueológico. É por isso que partir de finais do '70 e sobretudo, desde os '80 começaram os estudos específicos sobre sociedades vivas efectuados por arqueólogos (Kent, 1984; Watson, 1979). Desta forma propunha-se algo inovador que era procurar princípios gerais que ligassem o comportamento humano com a cultura material e obter conclusões que não dependessem exclusivamente do campo teórico da antropologia sócio-cultural. O optimismo inicial da arqueologia procesual na crença de que a conduta humana estava sujeita a leis (mas ou menos similares às da biologia) impregnou à Etnoarqueología e dirigiu o debate conceptual desta nos anos 70'. Durante estes primeiros anos da subdisciplina, também existia o convencimiento subjacente de que poder-se-iam gerar leis universais que relacionassem a conduta humana com os restos materiais (Yellen, 1977) e de facto se supôs que junto com a arqueologia experimental seria a principal fonte para a produção destas leis (Schiffer, 1978).
A começos dos 80', a Etnoarqueología ampliou seu enfoque e começou também a ser desenvolvida desde o postprocesualismo, mas de maneira diferente (David; Sterner; Gavua, 1988; Hodder, 1982, 1991). Em parte, estes novos desenvolvimentos já tinham sido antecipados por Gould (1978b). Desde o postprocesualismo expande-se a faixa de interesse da Etnoarqueología sobretudo por que amplia sua orbita mas lá dos aspectos tecnoeconómicos e aponta ao entendimento de níveis maiores de complexidade, tentando discernir os correlatos materiais dos aspectos cognitivos. sociais e ideológicos. Dentro deste novo marco conceptual a Etnoarqueología não se interessa por "explicar" no sentido procesual do termo (ou seja entender a observação ou processo como resultado de uma lei ou a algum outro modelo teórico universal) senão que trata de interpretar o significado para a sociedade que o produziu.
Já na década dos 90' os estudos etnoarqueológicos se multipli-caron e abordaram o estudo de todo o tipo de sociedades (Kramer, 2001). As perguntas diversificaram-se e em todas as grandes regiões do mundo se montaram projectos etnoarqueológicos de longo alcance. Nesta década se evidencian claramente as duas posições das décadas anteriores e ainda que os enfoques postprocesuales vão-se popularizando, um importante número de etnoarqueólogos considera que a produção de leis ou "lawlike propostions" são objectivos possíveis e necessários para a arqueologia e a Etnoarqueología (Kuznar, 1995; Ou'Connell, 1995).
A Etnoarqueología tem sido entendida e definida de várias maneiras e propuseram-se também outros vocablos como sinónimos tais como "arqueologia viva", "etnografía arqueológica" ou "arqueoetnografía". As primeiras definições consideravam-na como a comparação entre os dados arqueológicos e etnográficos (Gould, 1978; Stiles, 1977). Para Stanislawsky (1977), a Etnoarqueología é a colecção de informação etnográfica original para ajudar interpretar à informação arqueológica e para Steensberg (1980; Ravn, 1993) é o uso controlado da informação etnográfica para explicar o registo arqueológico. Actualmente conta-se com uma variedade de definições; entre as mas simples estão a de MacEachern (1996, p. 245) que propõe que é "... a intesección de gente vivente e as construções arqueológicas" ou à de Hanks (1983, p. 351) que expressa que é "a aplicação de métodos arqueológicos aos dados etnográficos". Entre as definições mais complexas destaca-se a de David
"A Etnoarqueología inclui o campo de estudo da produção, tipología, distribuição, consumo, e descarte da cultura material, com especial referência aos mecanismos que relacionam variabilidad e a variação ao contexto sociocultural e à inferência dos mecanismos de processos do mudo cultura" (1992)
Outra definição interessante é a de Sillar quem propõe que a Etnoarqueología deve ser
"The study of how material culture is produz, used and deposit by contemporary societies in relation to the wider social, ideological, economic, environmental and/or technical aspects of the society concerned, and with specific reference to the problems of interpreting archaeological material" (2000, p. 6)
Em general, a Etnoarqueología é entendida hoje em dia como uma subdisciplina da arqueologia (David; Kramer, 2001), ao que eu agregaria também da antropologia sociocultural. Ambas disciplinas podem ser consideradas "mães" da Etnoarqueología, ainda que é óbvio que o desenvolvimento desta se dá quase exclusivamente dentro do campo da arqueologia. Isto não só este relacionado a que os arqueólogos são quem fazem Etnoarqueología, senão que são quase os únicos que a consomem.
Em seu uso corrente é considerada como uma metodología de obtenção de dados de sociedades vivas, mas desde uma perspectiva arqueológica e sobretudo, prestando especial atenção aos derivados materiais das condutas humanas. Portanto, esta estratégia de investigação implica trabalho de campo, fundamentalmente (ainda que não exclusivamente) mediante a observação participante. Esta condição seria importante para discernir entre o que se chama actualmente Etnoarqueología e o que seria outro tipo de estratégia de investigação, tal como o uso de dados etnográficos ou etnohistóricos em algum passo da interpretação do registo arqueológico. Ainda que as fronteiras entre estas duas estratégias não formam uma linha sólida, eu creio junto com outros etnoarqueólogos (David; Kramer, 2001) que a segunda deve ficar por agora fosse do campo da Etnoarqueología já que não implica trabalho de campo com sociedades vivas. Sem dúvida, os dados provenientes de investigações etnográficas (stricto sensu) e dos documentos históricos são de grande utilidade para a interpretação arqueológica e podem servir para a formulación e o testeo de hipótese bem como para proveer fontes de analogia, mas na quase totalidade dos casos carecem de informação sistémica e controlada sobre os produtos materiais das condutas à que fazem referência. A estratégia de investigação utilizada é o uso complementar de fontes etnohistóricas e de informação arqueológica mas não a geração de modelos que articulem as condutas de sociedades contemporâneas com seus derivados materiais e com a interpretação do registo arqueológico.
Há pelo menos três campos em onde a etnoaqueología tem utilidade para interpretação arqueológica. Por suposto, estes campos não são compartimentos fechados já que se encontram interconectados com amplas interfaces. Estes são:
Além destes três campos de aplicação, que não se comportam como campos isolados, um serviço principal da etnoarqueología é sensibilizar aos arqueólogos (os quais pertencem a nossa sociedade ocidental e desenvolvem sua vida quotidiana em um médio urbano) para outras formas de pensamento e de conceptualización da realidade, que ainda que diferentes, têm alguns elementos comuns com as sociedades indígenas do passado. Desta maneira, para além da informação etnoarqueológica que um pesquisador possa obter no campo, a experiência etnográfica permite ampliar o horizonte criativo do arqueólogo, o qual se constitui em uma ferramenta poderosa para interpretar o registo arqueológico. Este serviço da arqueologia tem sido já reconhecido por vários pesquisadores (David, 1992) e muito recentemente tem sido também remarcado, com um alto grau de optimismo para a arqueologia andina
Por último, um serviço significativo da Etnoarqueología tem sido o de contribuir à reconceptualización da cultura material. Este contribua, junto com a importante produção francesa em teoria social têm sido os pilares que fundaram os enfoques modernos da arqueologia postprocesual.