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Feudalismo

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Denomina-se feudalismo à organização social, política e económica baseada no feudo que predominó na Europa ocidental entre os séculos IX e XV. Tratava-se de propriedades de terrenos cultivados principalmente por servos , parte de cuja produção devia ser entregue em conceito de censo" (arrendo) ao amo das terras, na maioria dos casos um pequeno nobre (senhor) nominalmente leal a um rei.

Conteúdo

Definição de feudalismo

Existem em general duas definições de feudalismo:

- Definição institucionalista (por F.L. Ganshof): Designa um conjunto de instituições que respaldam compromissos geralmente militares, entre um homem livre, o vassalo (vasallus, vassus) e um homem livre em situação superior. O primeiro recebe do segundo um feudo (feodum, feudum) para sua manutenção.

[P]uede definir-se o feudalismo como um conjunto de instituições que criam e regem obrigações de obediência e serviço –principalmente militar– por parte de um homem livre, chamado vassalo”, para um homem livre chamado senhor”, e obrigações de protecção e sostenimiento por parte do “senhor” respecto do “vassalo”, se dando o caso de que a obrigação de sostenimiento tivesse a maioria das vezes como efeito a concessão, por parte do senhor ao vassalo, de um bem chamado “feudo”.[1]

- Definição marxista: Um modo de produção com umas peculiares formas de relação socioeconómica, situado entre o esclavismo da Antigüedad e o capitalismo moderno. Concretamente, entende-lho como um conjunto de relações de produção e dependência entre o camponês e o senhor, proprietário da terra que aquele usufrui, em um momento de predominio da agricultura como fonte de riqueza.

[Ou]n sistema baixo o qual o status económico e a autoridade estavam associados com a tenencia da terra e no que o produtor directo (que a sua vez era poseedor de algum terreno) tinha a obrigação, baseada na lei ou o direito consetudinario, de dedicar certa parte de seu trabalho ou de sua produção em benefício de seu superior feudal.[2]

- O Feudalismo pode-se entender também como a ruptura de todas as estruturas de poder Antigo, em um sistema de fragmentação da terra onde o Senhor é juiz, administrador e militar da mesma. Todos os senhores respondem ao monarca. Os camponeses oferecem seus serviços e lavram a terra a mudança da protecção do senhor feudal, e entre os senhores formam-se as relações feudovasalláticas dantes mencionadas.

A postura habitual entre os medievalistas distingue dois processos:

- Um complexo de compromissos militares, que, junto com a disgregación do poder político, implica uma privatização de funções públicas em benefício de uma minoria de livres privilegiados.

Uso do termo "feudalismo"

O falhanço do projecto político centralizador de Carlomagno levou, em ausência desse contrapeso, à formação de um sistema político, económico e social que os historiadores tem convindo em chamar feudalismo, ainda que em realidade o nome nasceu como um peyorativo para designar do Antigo Regime por parte de seus críticos ilustrados. A Revolução francesa suprimiu solenemente "todos os direitos feudales" na noite do 4 de agosto de 1789 e "definitivamente o regime feudal", com o decreto do 11 de agosto.

A generalização do termo permite a muitos historiadores aplicar às formações sociais de todo o território europeu ocidental, pertencessem ou não ao Império carolingio. Os partidários de um uso restringido, argumentando a necessidade de não confundir conceitos como feudo, villae, tenure, ou senhorio o limitam tanto em espaço (França, Oeste da Alemanha e Norte da Itália) como no tempo: um "primeiro feudalismo" ou "feudalismo carolingio" desde o século VIII até o ano 1000 e um "feudalismo clássico" desde o ano 1000 até o 1240, a sua vez dividido em duas épocas, a primeira, até o 1160 (a mais descentralizada, em que a cada senhor de castelo podia se considerar independente); e a segunda, a própria da "monarquia feudal"). Teria inclusive "feudalismos de importação": a Inglaterra normanda desde 1066 e os estados latinos de oriente criados durante as Cruzadas (séculos XII e XIII).[3]

Outros preferem falar de regime" ou "sistema feudal", para o diferenciar subtilmente do feudalismo estrito, ou de síntese feudal, para marcar o facto de que sobrevivem nela rasgos da antigüedad clássica misturados com contribuições germánicas, implicando tanto a instituições como a elementos produtivos, e significou a especificidad do feudalismo europeu ocidental como formação económico social em frente a outras também feudales, com consequências trascendentales no futuro devir histórico.[4] Mais dificuldades há para o uso do termo quando nos afastamos mais: Europa Oriental experimenta um processo de "feudalización" desde finais da Idade Média, justo quando em muitas zonas da Europa Ocidental os camponeses se libertam das formas jurídicas da servidão, de maneira que costuma se falar do feudalismo polaco ou russo. O Antigo Regime na Europa, o Islão medieval ou o Império bizantino foram sociedades urbanas e comerciais, e com um grau de centralización política variável, ainda que a exploração do campo realizava-se com relações sociais de produção muito similares ao feudalismo medieval. Os historiadores que aplicam a metodología do materialismo histórico (Marx definiu o modo de produção feudal como o estádio intermediário entre o esclavista e o capitalista) não duvidam em falar de economia feudal" para se referir a ela, ainda que também reconhecem a necessidade de não aplicar o termo a qualquer formação social preindustrial não esclavista, já que ao longo da história e da geografia têm existido outros modos de produção também previstos na renderização marxista, como o modo de produção primitivo das sociedades pouco evoluídas, homogéneas e com escassa divisão social -como as dos mesmos povos germánicos previamente às invasões- e o modo de produção asiático ou despotismo hidráulico -Egipto faraónico, reinos da Índia ou Império chinês- caracterizado pela tributación das aldeias camponesas a um estado muito centralizado.[5] Em lugares ainda mais longínquos se chegou a utilizar o termo feudalismo para descrever uma época. É o caso do Japão e o denominado feudalismo japonês, dadas as innegables similitudes e paralelismos que a nobreza feudal européia e seu mundo tem com os samuráis e o seu (se veja também shogunato, têm e castelo japonês). Também se chegou a aplicar à situação histórica dos períodos intermediários da história do Egipto, nos que, seguindo um ritmo cíclico milenario, decae o poder central e a vida nas cidades, a anarquía militar rompe a unidade das terras do Nilo, e os templos e senhores locais que atingem a controlar um espaço de poder governam nele de forma independente sobre os camponeses obrigados ao trabalho.

Antecedentes

O sistema feudal europeu tem seus antecedentes no século V, ao cair o Império romano. O colapso do Império acaeció basicamente por sua extensão e a incapacidade do imperador para controlar todas suas províncias, somado à a cada vez mais numerosas incursões de povos bárbaros que atacavam e saqueavam as províncias mais retiradas do império. Isto provocou que os imperadores precisassem gente para defender seus grandes terrenos e contratassem caballeros ou nobres (precursores do modelo de senhor feudal), estes contratassem vassalos, villanos, etc. Chegou-se inclusive a contratar a chefes e tropas mercenárias dos mesmos povos "bárbaros".

A partir do século X não fica resto de império algum sobre Europa. A realeza, sem desaparecer, tem perdido todo o poder real e efectivo, e só conserva uma autoridade sobrenatural remarcada pelas lendas que lhe atribuem carácter religioso ou de intermediación entre o divino e o humano. Assim, o rei não governa, senão que sua autoridade vem, aos olhos do povo, de Deus, e é materializado e implementado através dos pactos de vasallaje com os grandes senhores, ainda que em realidade são estes quem elegem e depõem dinastías e pessoas. No plano micro, os pequenos nobres mantêm tribunais feudales que na prática compartimentalizan o poder estatal em pequenas células.

Um novo poder

A Igreja Católica abarcadora de todos os bens chamados esmolas, conhecedora da fragilidad dos reinos e do poder que ela mesma tem nessa situação, durante os concilios de Charroux e de Puy consagra aos prelados e senhores como chefes sociais e sanciona com graves penas a desobediencia destas normas. Os senhores, a partir desse momento, "recebem o poder de Deus" e devem tentar a paz entre eles, pacto que devem renovar geração depois de geração.

Conforma-se assim um modelo no que a "gente armada" adquire determinados compromissos sobre a base de juramentos e devem proteger a ordem criada, e os eclesiásticos que formam a moral social e se encontram salvaguardados pelos senhores.

Meio, tarefas e divisão da nova sociedade

O castelo encaramado sobre um alto será a representação do poder e a força. Em princípio, baluarte que se davam as populações para se proteger das depredaciones. Depois, lar do senhor e lugar de protecção dos vassalos nos conflitos. Desde ali administra-se justiça a todos quantos se encontram sujeitos. Em um princípio, as pessoas livres estão submetidas a umas mínimas normas de obediência, defesa mútua e serviços prometidos. Os demais são servos.

Nos países onde a dominación romana durou mais tempo (Itália, Hispania, Provenza), as cidades se conservam, conquanto com menor importância numérica, mas a salvo de senhorios. Nos países, mais ao norte, onde os romanos se assentaram menos tempo ou com menor intensidade, a redução da população nas cidades chegou a fazer desaparecer os poucos núcleos importantes que tinha e o feudalismo se implanta com mais força.

A sociedade encontra-se então com três ordens que, segundo a própria Igreja, são mandatos de Deus e, por tanto, fronteiras sociais que ninguém pode cruzar. A primeira classe ou ordem é a dos que servem a Deus, cuja função é a salvação de todas as almas e que não podem encomendar seu tempo a outra tarefa. A segunda classe é a dos combatentes, aqueles cuja única missão é proteger à comunidade e conservar a paz. A terceira classe é a dos que laboram, que com seu esforço e trabalho devem manter às outras duas classes.

O vasallaje e o feudo

Um vassalo ajoelhado realiza a inmixtio manum durante a homenagem a seu senhor, sentado. Um escribiente toma nota. Todos estão sonrientes.

Duas instituições eram chaves para o feudalismo: por um lado o vasallaje como relação jurídico-política entre senhor e vassalo, um contrato sinalagmático (isto é, entre iguais, com requisitos por ambas partes) entre senhores e vassalos (ambos homens livres, ambos guerreiros, ambos nobres), consistente no intercâmbio de apoios e fidelidades mútuas (dotação de cargos, honras e terras -o feudo- pelo senhor ao vassalo e compromisso de auxilium et consilium -auxilio ou apoio militar e conselho ou apoio político-), que se não se cumpria ou se rompia por qualquer das duas partes dava lugar à felonía, e cuja hierarquia se complicava de forma piramidal (o vassalo era a sua vez senhor de vassalos); e por outro lado o feudo como unidade económica e de relações sociais de produção, entre o senhor do feudo e seus servos, não um contrato igualitario, senão uma imposição violenta justificada ideológicamente como um quid pró quo de protecção a mudança de trabalho e sumisión.

Por tanto, a realidade que se enuncia como relações feudo-vasalláticas é realmente um termo que inclui dois tipos de relação social de natureza completamente diferente, ainda que os termos que as designam se empregavam na época (e se seguem empregando) de forma equívoca e com grande confusão terminológica entre eles:

O vasallaje era um pacto entre dois membros da nobreza de diferente categoria. O caballero de menor faixa convertia-se em vassalo (vassus) do nobre mais poderoso, que se convertia em seu senhor (dominus) por médio da Homenagem e Investidura, em uma cerimónia ritualizada que tinha lugar na torre da homenagem do castelo do senhor. A homenagem (homage) -do vassalo ao senhor- consistia na postración ou humillación -habitualmente de joelhos-, o osculum (beijo), a inmixtio manum -as mãos do vassalo, unidas em posição orante, eram acolhidas entre as do senhor-, e alguma frase que reconhecesse se ter convertido em seu homem. Depois da homenagem produzia-se a investidura -do senhor ao vassalo-, que representava a entrega de um feudo (dependendo da categoria de vassalo e senhor, podia ser um condado, um ducado, uma marca, um castelo, uma população, ou um simples salário; ou inclusive um monasterio se o vasallaje era eclesiástico) através de um símbolo do território ou da alimentação que o senhor deve ao vassalo -um pouco de terra, de erva ou de grão- e do espaldarazo, no que o vassalo recebe uma espada (e uns golpes com ela nos ombros), ou bem um báculo se era religioso.

A homenagem e a investidura

Torre da Homenagem do Castillo de Olbrueck na Alemanha.

A homenagem era um ritual pelo que um senhor concedia um feudo a outro homem da classe privilegiada a mudança de uns serviços e prestações, geralmente de ordem militar.

A figura da Homenagem adquire maior relevância entre os séculos XI ao XIII, destinando-se a parte mais nobre do castelo para isso, a torre, e no ceremonial participavam dois homens: o vassalo que, ajoelhado, destocado e desarmado em frente ao senhor[6] com as mãos unidas em prova de humildad e sometimiento, espera que este lhe recolha e o alce, se dando ambos um reconhecimento mútuo de apoio e um juramento de fidelidade. O senhor entregar-lhe-á o feudo em pagamento por seus serviços futuros, que geralmente consistia em bens inmuebles: Grandes extensões de terreno, quase sempre de labranza. O juramento e o vasallaje será de por vida.

A entrega do feudo ou algum elemento que o represente constitui a investidura e se realizava imediatamente após a homenagem. O regime jurídico de entrega é, de forma geral, um usufructo vitalicio, ainda que também podia ser em bens materiais, mas que com o tempo se converteu em uma ligazón de famílias entre o senhor e seus vassalos, podendo se herdar o feudo sempre que os herdeiros renovassem seus votos com o senhor. No entanto, o senhor feudal tinha direito a revogar o feudo a seu vassalo se este não se comportava como tal, ou demonstrava algum signo de deslealtad, como conspirar contra ele, não cumprir entregando as tropas de sua feudo em caso de guerra, etc., já que cometia o delito de felonía. A um felón considerava-se-lhe um mau vassalo e uma pessoa da que desconfiar. No sistema feudal, a felonía era uma terrível mancha de por vida na reputação de um caballero.

Encomenda-a. A organização do feudo

Encomenda-a , encomendación ou patrocinio (patrocinium, commendatio, ainda que era habitual utilizar o termo commendatio para o acto da homenagem ou inclusive para toda a instituição do vasallaje) eram pactos teóricos entre os camponeses e o senhor feudal, que podiam também ritualizarse em uma cerimónia ou -mais raramente- dar lugar a um documento. O senhor acolhia aos camponeses em seu feudo, que se organizava em uma reserva señorial que os servos deviam trabalhar obrigatoriamente (sernas ou corveas) e no conjunto das pequenas explorações familiares (mansos) que se atribuíam aos camponeses para que pudessem subsistir. Obrigação do senhor era proteger-lhes se eram atacados, e manter a ordem e a justiça no feudo. A mudança, o camponês convertia-se em seu servo e passava à dupla jurisdição do senhor feudal: nos termos utilizados em Espanha na Baixa Idade Média, o senhorio territorial, que obrigava ao camponês a pagar rendas ao nobre pelo uso da terra; e o senhorio jurisdiccional, que convertia ao senhor feudal em governante e juiz do território no que vivia o camponês, pelo que obtinha rendas feudales de muito diferente origem (impostos, multas, monopólios, etc.). A distinção entre propriedade e jurisdição não era no feudalismo algo claro, pois de facto o mesmo conceito de propriedade era confuso, e a jurisdição, outorgada pelo rei como graça, punha ao senhor em disposição de obter suas rendas. Não existiram senhorios jurisdiccionales nos que a totalidade das parcelas pertencessem como propriedade ao senhor, sendo muito generalizadas diferentes formas de alodio nos camponeses. Em momentos posteriores de despoblamiento e refeudalización, como a crise do século XVII, alguns nobres tentavam que se considerassem despoblados completamente de camponeses um senhorio para se libertar de todo o tipo de restrições e o converter em coto redondo reconvertible para outro uso, como o ganadero.[7]

Junto com o feudo, o vassalo recebe os servos que há nele, não como propriedade esclavista, mas também não em regime de liberdade; já que sua condição servil impede-lhes abandoná-lo e obriga-lhes a trabalhar. As obrigações do senhor do feudo incluem a manutenção da ordem, ou seja, a jurisdição civil e criminosa (mero e misto império na terminología jurídica reintroducida com o Direito Romano na Baixa Idade Média), o que dava ainda maiores oportunidades para obter o excedente produtivo que os camponeses pudessem obter após as obrigações de trabalho -corveas ou sernas na reserva señorial- ou do pagamento de renda -em espécie ou em dinheiro, de circulação muito escassa na Alta Idade Média, mas mais generalizada nos últimos séculos medievales, segundo foi dinamizándose a economia-. Como monopólio señorial costumavam ficar a exploração dos bosques e a caça, os caminhos e pontes, os molinos, as tabernas e lojas. Todo isso eram mais oportunidades de obter mais renda feudal, incluídos direitos tradicionais, como o ius prime noctis ou direito de pernada, que se converteu em um imposto por casais, boa mostra de que é no excedente de onde se extrai a renda feudal de forma extraeconómica (neste caso na demonstração de que uma comunidade camponesa cresce e prospera).

Os estamentos sociais

Veja-se também: Estamento

A divisão em três ordens se subdividía a sua vez em estamentos compactos e perfeitamente delimitados.

Em uma primeira divisão, encontra-se o grupo dos privilegiados, todos eles senhores, eclesiásticos ou caballeros. Na cúspide achava-se o Rei, depois o Alto Clero integrado por arcebispos , bispos e abades e o Baixo Clero formado pelos curas e sacerdotes, e por último a nobreza. É este grupo de privilegiados o que forma os senhores e os caballeros, e estes últimos a sua vez podiam ser senhores de outros caballeros, dependendo de seu poder e da capacidade de subinfeudar suas terras. O Alto Clero, além das tarefas que dentro das três ordens lhe tinham sido encomendadas, a guia espiritual e sustentar a doutrina moral que mantinha o feudalismo, podiam ser a sua vez senhores e entregar parte de seus bens para a defesa de sua comunidade. Os privilegiados não pagavam impostos.

Os não privilegiados eram a burguesía, os artesãos, os serventes e os camponeses, que se subdividían a sua vez em colonos e aldeanos. A estes correspondia o sometimiento à terra e, por tanto, a quem dela dependesse, a trabalhando e entregando uma parte de seus frutos ao senhor, ou bem, no caso de artesãos e burgueses, deviam obediência a quem lhes garantia a defesa da cidade e a entrega de bens ou dinheiro.

Os eclesiásticos

Veja-se também: Clero
Cruz de Calatrava, emblema da Ordem de Calatrava, organização religioso-militar fundada em 1158 em Castilla .

O Alto Clero esteve sempre dominado pelo episcopado, cujos poderes terrenales eram equiparables aos de qualquer senhor laico. Em um primeiro momento, os monges, todos pertencentes ao Baixo Clero, ficavam dentro do âmbito de poder dos bispos; mais tarde, seriam os abades quem terminariam por delimitar sua autoridade sobre os membros das ordens monásticas, ficando os sacerdotes no âmbito da diócesis episcopal.

Nas abadias, foram-se perfilando modelos diferentes: por um lado, aquelas que não eram poseedoras de grandes propriedades e que dependiam para sua sobrevivência das esmolas dos fiéis, e de alguns predios entregados pelos senhores do lugar para garantir o sustento da comunidade religiosa. A necessidade de dinheiro favorece que seja neste instante no que a figura da esmola é engrandecida como dever fundamental para o crente e caminho para a salvação da alma.

Outros monasterios possuíam extensas propriedades e o abad actuava como um senhor feudal, em alguns casos inclusive nomeando caballeros que lhe protejam ou favorecendo a criação de ordens religioso-militares de grande poder. Seja como for, nestes o dinheiro prove das rendas que são entregues pelos servos, geralmente em espécie, bem como das contribuições, muitas delas generosas, e às vezes interessadas, de outros senhores. A necessidade de manter uma boa relação com o abad de um monasterio poderoso favorecerá que outros senhores entreguem oferendas de alto valor e ajudem à construção e embellecimiento de igrejas e catedrais que simbolizavam o poder.

O diferente destino dos eclesiásticos vinha determinado por sua ascendência social. Trata-se do estamento social mais aberto, pois qualquer pessoa livre pode incorporar-se ao mesmo pagando uma quantidade de dinheiro dote. Este será o elemento que determine dentro do estamento a posição que, efectivamente, vai ocupar a cada um. Os filhos dos senhores que se integram dentro da igreja contribuirão cuantiosas somas que garantem, não só sua sobrevivência de por vida, senão um incremento patrimonial notável para o cabildo catedralicio ou monasterio no que se integram, e uma faixa alta dos doadores dentro do sistema. São estes os que ocuparão mais tarde os cargos obispales. Por outro lado, os clérigos serão os filhos dos camponeses e, em general, dos não privilegiados, e cujas funções, além das religiosas, estarão limitadas ao ora et labora. Esta prática degenerou na prática de compra de cargos eclesiásticos telefonema simonía.

A caballería

Armadura e armas dos caballeros, geralmente contribuídas pelo senhor na Investidura.

A obrigação primordial do vassalo era cumprir com os deveres militares, sobretudo a defesa do senhor e seus bens, mas também a defesa do próprio feudo e dos servos que nele se encontravam. Uma obrigação casal era contribuir uma parte mínima dos tributos arrecadados ao senhor para engrandecer suas propriedades. O caballero não tinha em realidade um dono, nem estava submetido a poder político algum, daí que se encontrassem caballeros que lutavam nas bichas de um rei em um dia, e ao seguinte nas de outro. Seu dever real era para com o senhor a quem unia-lhe um espírito de camaradería.

No século IX ainda se usava o termo milites para fazer referência aos caballeros, ainda que cedo os idiomas locais foram gestando termos próprios que se agrupavam em ginetes" ou "caballeros". Sua importância foi em aumento ao prescindirse a cada vez mais da infantería. O caballero devia proveerse de cavalo, armadura e armas, e dispor de tempo de lazer para cumprir sua missão.

Ainda que aberto ao princípio, o estamento dos caballeros tendeu a fechar-se, convertendo-se em hereditario. Com o tempo, os caballeros eram ordenados ao terminar a adolescencia por um colega de armas em uma cerimónia singela. Neste momento já não importa a fortuna, senão a ascendência, se criando diferenças notáveis entre os mesmos. Os mais pobres dispõem de um pequeno terreno, e ocupam seu tempo entre os labores próprios do camponês e a guerra. Os mais poderosos, que dispõem de terras e fortuna, começarão a formar a autêntica nobreza, concentrando poder económico e militar.

A caballería nos reinos de Hispania

Nos reinos peninsulares, os reis, sempre precisados de tropa para se enfrentar aos moros, promovem a caballería entre suas súbditos de modo muito singelo: Denominava-se caballero aquele capaz de manter um cavalo, coisa para a que se requeria uma mínima fortuna, pois o cavalo não serve para as tarefas do campo. Ao cabo de três ou quatro gerações, mantendo um cavalo, adquiria-se a qualidade de hidalgo (filho de alguém). Esta é a razão pela que Alonso Quijano, dom Quijote, tivesse um cavalo magro: para seguir chamando-se hidalgo e o facto de que quisesse ser armado "caballero", uma burla mais de Cervantes que entendiam quem, na época, sabiam que hidalgo era mais que caballero.

Ter um cavalo supunha poder participar nas guerras do rei e, comportando-se valentemente, optar à possibilidade de que o rei lhe concedesse graças.

Esta organização, bem mais permeable socialmente, teve duas consequências: fortalecer o poder real em frente aos nobres, já que o rei tinha exércitos sem precisar sua ajuda, e fazendo mais forte o poder real, fazer mais poderoso o país, como assim ocorreu. Vejam-se as guerras civis entre Pedro I de Castilla e sua hermanastro Enrique, como o primeiro se apoia nas cidades e o segundo nos nobres, mas muda de bando para as cidades quando derrota e mata a Pedro.

Os não privilegiados

Veja-se também: Senhorio

O conjunto de laicos livres que não pertencem à reduzida categoria caballeresca são os não privilegiados em cujo trabalho descansa a ordem económica do feudalismo.

O mais numeroso grupo formam-no os camponeses livres, que trabalham a terra, geralmente alheia, ou pequenas parcelas próprias. Entre estes segue tendo diferenças, segundo se seja labrador que dispõe de uma yunta de bois ou mero peón. Em algum caso singular, camponeses livres chegam a possuir grandes extensões que permitir-lhes-ão mais tarde chegar à condição de terratenientes e, daí, a nobres, mas serão situações excepcionais.

Em qualquer caso, o que lhes distingue como estamento, como servos, é sua situação de dependência em frente a um senhor que não têm elegido e que tem sobre eles o poder de distribuir a terra, administrar justiça, determinar os tributos, lhes exigir obrigações militares de custodia e protecção do castelo e os bens do senhor e se apropriar como renda feudal de uma parte substancial do excedente, em trabalho, em espécie (percentagens da colheita) ou dinheiro.


Os villanos

Recebiam este nome os habitantes das villas dedicados à agricultura. Distinguiam-se duas classes: os servos (servo) e os camponeses livres. Os servos não eram donos de suas terras. Faziam parte da terra, pelo qual se lhes chamava servos da gleba. Não podiam abandonar a terra sem consentimento do senhor, o mesmo para contrair casal. Podia-se-lhes vender junto com a terra. Tinham, ademais, que pagar pela terra que cultivavam e servir grátis ao senhor. Os camponeses livres podiam mudar de lugar, contrair casal, transmitir seus bens. No entanto, estavam obrigados ao serviço militar e a pagar ao senhor impostos em dinheiro ou em espécie pelo uso da terra. A vida dos villanos era muito dura. Com frequência viam-se acossados pela fome e a peste. O sistema feudal, desde o ponto de vista político, inicia sua decadência ao começar as Cruzadas. Ainda que desde o ponto vista social e económico em alguns países persiste até nossos dias. O predominio absolutista dos reis e com a aquisição de liberdades por parte das cidades termina de pôr fim ao sistema.

Economia feudal

As invasões que sofre a Europa durante mais de cem anos (normandos, muçulmanos, eslavos) com a queda do Império romano e o posterior debilitamiento do Império carolingio frearão a actividade económica até as portas do ano 1000.

É neste momento quando se estendem modernas técnicas agrícolas que, existindo anteriormente, tinham ficado reduzidas a poucos espaços territoriais. Entre eles cabe destacar o aumento no uso dos molinos de água como força motriz e das acequias para riego, estendendo os cultivos e libertando mão de obra. Ademais, melhoram os métodos de enganche dos animais, especialmente o cavalo e o boi, cuja criança aumenta de maneira notável e permitirá dispor de animais de tiro em abundância. Os instrumentos de uso agrícola, como o arado ou a azada, geralmente de madeira, são substituídos por outros de ferro.

A exploração agrária feudal era de subsistencia. Os servos cultivavam o suficiente para manter-se a si mesmos e para pagar os diezmos à Igreja e a renda ao senhor. De colecta-a separavam-se também as sementes necessárias para a seguinte semeia. Os mercados urbanos abasteciam-se com as porções dos diezmos e a renda.

Os cultivos organizavam-se em torno das populações em três anéis. O primeiro e mais próximo à população dedicava-se às frutas e hortalizas. O segundo era para os cereais, principal sustento da época. O terceiro núcleo eram terras de pasto e monte explodidas de forma comunal. Os pastos comunales limitavam por tanto a expansão das terras de cereais e impediam ampliar a extensão cultivada segundo a demanda da população.

A rotação de cultivos era o principal sistema utilizado para evitar o deterioro da terra. Este método consiste em deixar em barbecho (isto é, sem cultivar) uma parte da terra a cada ano para permitir sua regeneração. Nas regiões mediterráneas usava-se a rotação bienal, segundo o qual a metade das terras ficava em barbecho a cada ano. Nas regiões européias atlánticas usava-se a rotação trienal: um terço da terra para cereal de ciclo longo -de inverno-, outro terço para cereal de ciclo curto -verão- e o último terço em barbecho. A terra que ficava sem cultivar se dedicava a uso comunal, permitindo que os animais pastasen nela (prática conhecida como derrota das mieses).

O aumento da produção como consequência das inovações supõe já no século XI uma redução das prestações pessoais dos servos a seus senhores quanto a horas de trabalho, substituindo pelo pagamento de uma quantia económica ou em espécie. Reduzem-se as terras do senhor e aumentam os arrendamentos. Ao mesmo tempo, os camponeses aumentam suas rendas disponíveis e ganham em independência.

Incrementa-se o número de terras roturadas e começa o período de eliminação dos bosques europeus, drenaje das terras empantanadas, a extensão dos terrenos arados longe das aldeias e a construção dispersa de casas camponesas. Melhore-las terras atraem a uma maior massa de população e produzem-se migrações em todo o centro da Europa. O crescimento da população é notável a partir de 1050, chegando-se a duplicar a população da Inglaterra em 150 anos e se triplicará para o final da Idade Média. No século XI as fomes têm desaparecido.

A partir do século XII, a existência de excedentes incrementa o comércio para além das fronteiras do senhorio. As actividades comerciais permitem que surja uma incipiente burguesía, os mercaderes, que deve realizar seu trabalho pagando igualmente uma parte de seus benefícios em forma de tributos aos senhores, que a sua vez incrementam com isso seus recursos. As rotas de peregrinaje são os novos caminhos por onde se abre o comércio. Roma, Jerusalém ou Santiago de Compostela são os destinos, mas as comunidades situadas em suas vias de acesso florescem. As cidades, burgos, são ao mesmo tempo espaços de defesa e de comércio conforme avança o tempo e vai-se gestando uma nova sociedade que descolará nos séculos XIII e XIV.

Queda do feudalismo

A partir do século XIII, a melhora das técnicas agrícolas e o consiguiente incremento do comércio fez que a burguesía fosse pressionando pára que se facilitasse a abertura económica dos espaços fechados das urbes, se reduzissem os tributos de portagem e se garantissem formas de comércio seguro e uma centralización da administração de justiça e igualdade das normas em amplos territórios que lhes permitissem desenvolver seu trabalho, ao mesmo tempo em que garantias de que os que vulnerassem ditas normas seriam castigados com igual dureza nos diferentes territórios.

As cidades que abriam as portas ao comércio e a uma maior liberdade de circulação, viam incrementar a riqueza e prosperidade de seus habitantes e as do senhor, pelo que com reticencias mas de maneira firme se foi diluyendo o modelo. As alianças entre senhores eram mais comuns, não já tanto para a guerra, como para permitir o desenvolvimento económico de seus respectivos territórios, e o rei foi o elemento aglutinador dessas alianças. O feudalismo atingiu o ponto culminante de seu desenvolvimento no século XIII; a partir de então iniciou sua decadência. O subenfeudamiento chegou a tal ponto que os senhores tiveram problemas para obter as prestações que deviam receber. Os vassalos preferiram realizar pagamentos em metálico (scutagium, ‘taxas por escudo’) a mudança da ajuda militar devida a seus senhores; a sua vez estes tenderam a preferir o dinheiro, que lhes permitia contratar tropas profissionais que em muitas ocasiões estavam melhor treinadas e eram mais disciplinadas que os vassalos. Ademais, o resurgimiento das tácticas de infantería e a introdução de novas armas, como o arco e a pica, fizeram que a caballería não fora já um factor decisivo para a guerra. A decadência do feudalismo acelerou-se nos séculos XIV e XV. Durante a guerra dos Cem Anos, as caballerías francesa e inglesa combateram duramente, mas as batalhas ganharam-se em grande parte pelos soldados profissionais e em especial pelos arqueiros da pé. Os soldados profissionais combateram em unidades cujos chefes tinham prestado juramento de homenagem e fidelidade a um príncipe, mas com contratos não hereditarios e que normalmente tinham uma duração de meses ou anos. Este ‘feudalismo bastardo’ estava a um passo do sistema de mercenários, que já tinha triunfado na Itália dos condotieros renacentistas.

Veja-se também

Enlaces externos

Bibliografía

Notas

  1. Ganshof, “Introdução”, no feudalismo, Editorial Ariel, Barcelona, 1975, p. 17.
  2. Dobb, M., Estudos sobre desenvolvimento do capitalismo, p. 465-466. Buenos Aires, Século XXI, 1971.
  3. Guy Fourquin (1977), Senhorio e feudalismo na idade média, Madri: EDAF. ISBN 84-7166-347-3
  4. É a tese principal de Perry Anderson op. cit.. É comentada e criticada por Gregory Elliott (2004) Perry Anderson: O laboratório implacable da história Universitat de Valencia, ISBN 84-370-5935-6 pg. 144. A expressão síntese feudal é utilizada habitualmente nesse sentido: Bisso e outros Occidente e seu legado. Uma história. Volume I. Desde as primeiras civilizações à crise do mundo medieval ISBN 987-9164-80-6 reseña
  5. Witold Kula Teoria económica do sistema feudal; Perry Anderson, op. cit.
  6. Quem jure fidelidade a seu senhor deve ter sempre presente as seis palavras seguintes: incolume, tutum, honestum, utile, facile, possibile. São e salvo para que não cause dano algum ao corpo de seu senhor. Seguro, para que não prejudique a seu senhor revelando seu segredo ou entregando as praças fortes que garantem sua segurança. Honesto, para que não atente aos direitos de seu senhor ou bem a outras prerrogativas inseres no que considera sua honra. Útil, para que não danifique suas posses. Singelo e possível, para que não faça difícil a seu senhor o bem que poderia fazer facilmente, e a fim de que não faça impossível o que tivesse sido possível a seu senhor. É justo que o vassalo se abstenha deste modo de prejudicar a seu senhor. Mas com só isto não se faz digno de seu feudo, pois não basta com se abster de fazer o mau, senão que é necessário fazer o bem. Importa, pois, que nos seis aspectos indicados proporcione fielmente a seu senhor consilium et auxilium, se quer aparecer como digno de seu benefício e provar a fidelidade jurada. Também o senhor deve, em todos seus domínios, pagar com a mesma moeda ao que lhe jurou fidelidade. Se não o fizer, seria considerado de má fé com pleno direito, ao igual que o vassalo que fosse surpreendido faltando a seus deveres, por acção ou por omisión, seria culpado de perfidia e perjurio. Carta de Fulberto de Chartres a Guillermo, Duque de Aquitania (h. 1020) em Ganshof, F.L., O Feudalismo, op. cit.
  7. Vozes coto redondo, senhorio e serna, em Dicionário Temático da Enciclopedia de história de Espanha, Miguel Artola (dir.), pgs. 370-371 e 1086-1089

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