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Fluxo sanguíneo

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Conteúdo

Definição.

O fluxo sanguíneo é a quantidade de sangue que atravessa a secção de um ponto dado da circulação em um período determinado. Normalmente expressa-se em mililitros por minuto ou litros por minuto; no sistema regular expressa-se em litros por segundo (cm3s-1,se abrevia Q).

Introdução

A análise dos factores que determinam o fluxo sanguíneo é relativamente complexo já que é um fluxo pulsátil, que discurre por um circuito fechado de canos distensibles com múltiplas ramificações e de calibre variável. Ademais o fluído circulante, o sangue, é um fluído pseudoplástico com propriedades não lineares e composto de líquido (plasma) e elementos formes (hematíes, leucocitos, plaquetas e outros). Isto explica que se recorra a modelos e simplificações que não sempre se podem aplicar de maneira directa.

Valores normais no humano

O fluxo sanguíneo global da circulação de um adulto em repouso é de 5000 ml min-1, quantidade que se considera igual à despesa cardíaca porque é a quantidade que bombea o coração na aorta na cada minuto. Corresponde ao resultado de multiplicar o volume de eyección que o ventrículo expulsa na cada batido (uns 70 ml) pela frequência cardíaca (uns 70 batidos por minuto). A despesa cardíaca diminui em posição sentado e de pé em frente a seu valor em decúbito , pelo contrário, aumenta de maneira importante com o exercício, com o aumento da temperatura corporal e nos estados de ansiedade. Este aumento produz-se sobretudo pelo aumento da frequência cardíaca mais que pelo do volume sistólico.

Índice cardíaco

A despesa cardíaca depende da talha e peso do indivíduo e para ter valores comparáveis entre diferentes sujeitos utiliza-se o índice cardíaco que se calcula dividindo a despesa cardíaca pela área de superfície corporal. O índice cardíaco em repouso é muito similar no homem e a mulher. O índice cardíaco diminui com a idade desde valores de 4,4 l min-1 m-2 nos adolescentes, até 3.5 l min-1 m-2 no adulto aos 40 anos e 2,4 l min-1 m-2 nos octogenarios.[1]

Função fisiológica

O fluxo sanguíneo é o parámetro mais relevante da função cardiovascular já que esta consiste, essencialmente, em contribuir um fluxo de sangue aos tecidos que permita:

Medida

Historicamente a medida do fluxo sanguíneo não foi coisa fácil e isto explica que o fluxo sanguíneo se utilize menos que outros parámetros cardiovasculares, como a pressão arterial, mais fáceis de medir. Classicamente, o fluxo mediu-se aplicando o princípio de Fick à dilucción de um indicador químico ou térmico. Esta situação está a mudar com a introdução dos medidores electromagnéticos e os de ultrasonidos mediante efeito Doppler que permitem medir o fluxo sem abrir o copo sanguíneo e com as técnicas de imagem com marcadores para medir o fluxo em um determinado território.

Fluxo, pressão e resistência

Se simplifica-se a árvore circulatorio a um cano de paredes lisas e rígidas, de longitude L e de rádio R o fluxo dependerá, entre outras coisas, de algumas propriedades do sangue.

Fluído ideal

Se o sangue comportasse-se como um fluído ideal, isto é sem viscosidade, poder-se-ia utilizar o teorema de Bernouilli e considerar que em qualquer ponto do fluído situado a uma altura h, com velocidade v e com pressão absoluta p cumprir-se-á:

p/ρg + v2/2g + h = constante = ónus do fluído

onde ρ é a densidade do fluído e g é a aceleração da gravidade

Flujotubo.jpg

O perfil da velocidade das partículas será a frente plana mostrado no painel esquerdo da figura no que as velocidades das partículas, em uma determinada secção, A, do cano serão todas iguais e o fluído avança em conjunto no cano. Nestas condições as partículas que se encontrem em um ponto avançarão, no tempo t, uma distância que será v*t e portanto o volume de fluído deslocado terá sido V=A v t e o fluxo, isto é o volume por unidade de tempo será Q= A v . De aqui obtém-se uma primeira conclusão importante já que sendo o sangue um fluído incompresible o princípio de continuidade indica que o volume por uma determinada secção é sempre o mesmo e portanto o produto A v , de onde se deduze que, quando aumenta a secção do copo a velocidade diminui e ao invés. No sistema circulatorio a secção, do conjunto do leito vascular, aumenta progressivamente desde a raiz da aorta até os capilares, portanto, a velocidade do sangue é progressivamente menor. Desde o sistema capilar ao venoso a área de secção volta a diminuir com o consiguiente aumento de velocidade.

Fluído newtoniano, fluxo laminar

A ideia de que o sangue é um fluído ideal é pouco realista e é mais razoável a considerar como um fluído newtoniano. Os fluídos newtonianos apresentam uma resistência, que se opõe ao movimento em seu seio de alguma de suas partes e que se denomina viscosidade, cujo valor é constante, independente da velocidade e próprio da cada fluído. O fluído desloca-se como capas concêntricas que se deslizam umas sobre outras o que se denomina regime laminar. Assim a velocidade das partículas pelo cano cresce das paredes ao centro do cano já que as capas que se deslocam são freadas uma por outras devido à viscosidade. Como se representa na figura, no painel direito, o perfil da velocidade das capas de fluído é de forma parabólica com uma capa em contacto com a parede cuja velocidade é nula e se denomina capa limite e uma velocidade máxima no eixo do cano. A equação da velocidade em função da distância o centro do cano é:

v= (p1-p2)(R2-r2)/4Lµ

onde p1-p2 é o gradiente de pressão, R é a rádio do cano, r o da lâmina correspondente, L a longitude do cano e µ a viscosidade do fluído. Para calcular o fluxo há que obter o volume do paraboloide de revolução, o que se faz integrando, com o que se chega à equação de Poiseuille :

Q=(p1-p2)πR4/8Lµ

que também se pode escrever como

Q=(p1-p2)/K

com K=8Lµ/πR4

Resistência vascular

K denomina-se resistência ao fluxo. Como a viscosidade do sangue com um hematocrito de 0,45 a 37 °C de temperatura é de 0,04 poise (1 poise= 1 dina s cm-2), a resistência de um copo de 1 cm de longitude e 1 cm de diâmetro é K= 8*1*0,04/3,14*0,54 = 1,63 din s cm-5, enquanto se o diâmetro é a metade a resistência é K=8*1*0,04/3.14*0,254= 26,08 din s cm-5 (16 vezes maior!). A rádio dos copos não só é importante por seu grande efeito sobre a resistência senão porque, ao invés que a longitude destes, o calibre pode ser modificado. Isto se faz mediante a contracção e relajación da capa de músculo liso dos copos. Graças a isto é possível levar a cabo grandes mudanças de resistência o qual permite que, com o mesmo gradiente de pressão, se possa modificar de maneira importante o fluxo sanguíneo de um determinado território. Habitualmente não se dispõe dos dados sobre calibre e longitude dos copos dos diversos territórios vasculares e a resistência se calcula utilizando à relação:

K==(p1-p2)/Q

Ainda se utiliza para medir a pressão o mmHg e para o fluxo l/min em lugar de din cm-2 e cm3 s-1, respectivamente. Quando se empregam as medidas antigas a resistência se mede em UAR (unidades arbitrárias de resistência) mas é fácil converter o resultado em din s cm-5 multiplicando por 80.

Fluxo turbulento

Quando a velocidade do fluído no cano aumenta, se observa que não se cumpre a equação de Poiseuille. Isto se deve a que o fluxo passa de laminar a turbulento e as partículas em lugar de se deslocar como lâminas concêntricas se deslocam formando torbellinos. Isto aumenta a resistência ao fluxo e modifica a forma da curva de perfil de velocidade que se aplaina pela frente de avanço. Parte da energia dissipa-se como energia acústica provocando sons audibles como os murmullos. O efeito do passo a fluxo turbulento é que a relação Q=(p1-p2)/K passa a ser Qm=(p1-p2)/K com um expoente m entre 1 e 2. Existe uma combinação de factores que determina quando um fluxo passa de laminar a turbulento e que se recolhem no número de Reynolds:

Re=2Rρv

onde R é a rádio do cano, v a velocidade média, e ρ e µ a densidade do fluído e o coeficiente de viscosidade, respectivamente Com um número de Reynolds entre 0 e 2000 o fluxo é laminar, acima de 3000 é turbulento e entre 2000 e 3000 se propõe uma situação instável em que passa de um a outro. O número de Reynolds é da ordem de 4000 em um copo de 3 cm de diâmetro se a velocidade média é 50 cm s-1 para uma densidade do sangue de 1,05 g cm-3 e uma viscosidade de 0,04 poise Em consequência no sistema circulatorio humano podem-se obter números de Reynolds superiores a 2000 em alguns lugares como o tronco da arteria pulmonar e a aorta crescente. Na maior parte do sistema cardiovascular o fluxo séria laminar salvo a nível das válvulas cardíacas, alguma bifurcación de grandes copos ou em lugares com alterações patológicas da parede que suponham obstáculos para o fluxo.

Fluído não newtoniano

O sangue não se comporta exactamente como um fluído newtoniano (uniforme e de viscosidade constante) senão como um fluído pseudoplástico de maneira que a viscosidade aumenta quando diminui a velocidade. Por outra parte a viscosidade depende do hematocrito (proporção de glóbulos vermelhos) aumentando quando aumenta este (policitemia) e também do calibre do copo já que as células tendem a acumular no eixo axial dos copos diminuindo a viscosidade com o calibre destes. No entanto o efeito é pouco importante para copos a mais de 0,5 mm de diâmetro e em general, para as velocidades habituais no sistema cardiovascular, pode-se considerar que a viscosidade se encontra normalmente entre 0,03 e 0,04 poise.

Fluxo pulsátil

Outra complicação para o estudo do fluxo sanguíneo prove do facto de que o gradiente de pressão não é constante senão que depende do tempo. Comporta-se como uma função periódica o que faz que o fluxo seja pulsátil durante o ciclo cardíaco. Ademais a forma em que varia a pressão não é uma função periódica simples pelo que deve ser estudada como a soma de uma série (série de Fourier, normalmente bastam 5 a 10 termos em forma de funções sinusoidais denominadas harmônicos). Nestas condições o fluxo poder-se-ia escrever como:

Q(t)= Qm + Σ Mn sen(nωt+ϕn)

com Qm é o fluxo médio, Σ é o símbolo do sumatorio e para a cada harmônico, Mn é a amplitude da onda, nω sua frequência e ϕ o ângulo de fase. Para a cada harmônico Womersley[2] propôs que para o fluxo sinusoidal o gradiente de pressão teria a forma M cos(ωt-ϕ) onde ω=2πf é a frequência angular (radiano s-1) para a frequência f (ciclos s-1 ou Hz), M é o módulo ou amplitude do gradiente e ϕ é o deslocamento. Então a velocidade viria dada por:

w=(MR2M'/μα2) sen(ωt-ϕ+ε')

onde M'e ε' são parámetros tabulados por Wormersley para a cada valor de α2=R2ωρ/µ que é um número adimensional relacionado com o número de Reynolds. Integrando obtém-se para o fluxo a fórmula:

Q=(πMR4M'/μα2) sen(ωt-ϕ+ε')

Quando ω tende a zero, M'/α2 tende a 1/8 e ε' tende a 90º portanto o fluxo resulta proporcional a M cos(ωt-ϕ) que, como se viu é o gradiente de pressão. O factor de proporcionalidade é a mesma resistência que encontramos na equação de de Poiseuille. O que nos diz este conjunto de relações é que quando o fluxo é pulsátil, não se relaciona de forma linear com o gradiente de pressão, senão que intervêm uma série de parámetros que modificam a forma de áquel e sua relação temporária com a pressão (progresso ou retardo de fase). Ainda que o uso dos computadores simplifica os cálculos necessários neste tipo de análise o verdadeiro é que, salvo experimentalmente, na clínica se razona, frequentemente, sobre a base da análise do harmônico de ordem zero (fluxo médio) que coincide com a equação de Poiseuille.

Canos distensibles

A árvore vascular dista muito de comportar-se como um cano rígido e isto acrescenta uma nova dificuldade à análise do fluxo sanguíneo já que a parede dos copos é elástica e se pode distender com a pressão intramural. Quando se considera o fluxo como pulsátil e em canos distensibles a equação para a velocidade é

w=(MR2M*/μα2) sen(ωt-ϕ+ε*)

e então o fluxo em função do gradiente de pressão é:

Q=(πMR4M*/μα2) sen(ωt-ϕ+ε*)

Os termos M* e ε* dependem do parámetro alfa, mas ademais também da espessura relativa do cano (h/R) e da relação entre deformação longitudinal e transversal ou coeficiente de Poisson. Habitualmente o resultado para o mesmo valor de μα2 é que M* é algo maior que M' e ε* é algo menor que ε'. Como resultado se modifica a amplitude e o deslocamento mas a forma da curva de fluxo se mantém similar à que se regista realmente. Aliás o aumento na amplitude do fluxo é o esperable já que, em um cano distensible, o incremento da pressão aumentará o calibre do cano diminuindo, portanto, a resistência.

Fluxo sanguíneo durante o ciclo cardíaco.

Arquivo:Flujopulsatil.jpg

Na figura representa-se a evolução da pressão arterial, o fluxo sanguíneo e o gradiente de pressão (em vermelho, amarelo e verde, respectivamente) em ordenadas, em frente à duração do ciclo cardíaco em graus de arco (1 ciclo=360 graus) em abscisas. Trata-se de uma reconstrução das ondas empregando os seis primeiros harmônicos da série de Fourier o que proporciona uma aproximação razoável da realidade em uma das grandes arterias.

Ao final do período de contracção isométrica do ventrículo a pressão neste excede da pressão na aorta e as válvulas ventrículo arteriales se abrem, este momento é o que corresponde ao começo da gráfica. Então, a pressão ventricular comunica-se à aorta e a pressão nesta aumenta. Para o final da sístole a pressão aórtica supera à ventricular e as válvulas fecham-se de novo, marcando a incisura dícrota. Depois a pressão ventricular cai rapidamente e a aórtica também, mas mais lentamente, até o valor prévio ao do início da sístole ventricular. Normalmente é possível observar uma segunda onda nesta fase que se denomina onda diastólica.

O gradiente de pressão descreve uma primeira onda positiva aumentando desde o início da sístole até atingir seu valor máximo na oitava parte do ciclo e a seguir diminui. Esta onda vai seguida de outra negativa na qual o gradiente de pressão se investe. Em consequência o fluxo primeiro aumenta com um máximo ao que se chega pouco depois do máximo do gradiente de pressão, mas que está adiantado respecto do máximo da onda de pressão. A seguir o fluxo desce até investir-se. A nível aórtico este momento coincide com o fechamento das válvulas aórticas. Em arterias como a femoral ocorre aproximadamente para a metade do ciclo cardíaco. Este período de fluxo retrógrado vai seguida de outro de fluxo anterógrado coincidente com a onda diastólica de pressão e de um aumento do gradiente de pressão ao final do ciclo.

A onda de fluxo sanguíneo desloca-se a uma velocidade da ordem de 100 cm s-1 enquanto a onda de pressão transmite-se pela parede arterial bem mais rápido, a 5 m s-1.

O fluxo sanguíneo nos territórios vasculares.

Fluxo no sistema arterial

Salvo que indique-se o contrário entende-se que se trata do território que riegan a aorta e seus ramos já que o território pulmonar apresenta caracteres particulares que se costumam descrever ao tratar do sistema respiratório.

O valor máximo da onda de pressão denomina-se pressão máxima ou pressão sistólica (normalmente entre 100 e 140 mmHg em varões jovens, 5-10 mmHg menos nas mulheres), o nadir ou mínimo denomina-se pressão mínima ou pressão diastólica (normalmente entre 60 e 90 mmHg), ambos valores tendem a aumentar com a idade. A pressão do pulso é a diferença entre as duas enquanto a pressão média calcula-se integrando a onda de pressão ou bem como a soma da pressão diastólica e um terço da pressão de pulso:

pmédio = pdiastólica + 1/3 ppulso = (2pdiastólica + psistólica)/3

A forma da onda de pressão modifica-se conforme percorre a árvore arterial; perde-se a incisura dícrota e a amplitude do pulso aumenta incrementando-se a pressão sistólica e a pressão de pulso, mas a pressão média decae. Esta mudança de forma explica-se pelo enfraquecimento das altas frequências devida às propriedades viscosas e elásticas do sangue e da parede arterial e pela soma de ondas de pressão refletidas procedentes das ramificações da aorta.

A onda de fluxo diminui em amplitude conforme progride na árvore arterial, o reflujo mantém-se ainda a nível da arteria femoral mas é pouco aparente na aorta abdominal. A onda diastólica vai-se progressivamente transformando em um fluxo estacionário nos ramos da aorta descendente. A elasticidade da parede das grandes arterias converte-as em reservorios elásticos que se distienden durante a sístole cardíaca actuando como copos de capacidade o que permite devolver, durante a diástole, a energia potencial armazenada durante a sístole, contribuindo assim a manter o fluxo sanguíneo no sistema arterial durante todo o ciclo.

Distribuição do fluxo

O fluxo sanguíneo distribui-se pelos diversos territórios do organismo mediante as diversas ramificações do sistema arterial. Em alguns territórios o fluxo é relativamente constante como no território cerebral (13% do fluxo total) e o renal (19%), em outros é dependente da actividade funcional como no território coronario (4%, que aumenta com a frequência cardíaca), o esplácnico (24% nos períodos interdigestivos, aumentando nos períodos digestivos), o território muscular (21% em repouso e muito maior durante o exercício) e o território cutáneo (9% normalmente, aumentando com o calor e diminuindo com o frio)[3]

Nos territórios em que o fluxo se mantém constante existem mecanismos de autorregulación de maneira que ocorre assim ainda que varie a pressão arterial dentro de uma ampla faixa, isto se consegue modificando a resistência de maneira semelhante à mudança de pressão de forma que, aparentemente, o fluxo parece independente da pressão. A distribuição do fluxo pelos diversos territórios depende dos valores da resistência vascular na cada território e naturalmente, implica uma redistribución do fluxo, de maneira que aumenta nos territórios onde diminui a resistência e diminui nos restantes, até inclusive superar os mecanismos de autorregulación Isto explica os efeitos que pode ter uma onda de calor que, ao provocar uma vasodilatación do território cutáneo, diminui a resistência neste, como resultado o sangue se redirige para a pele, o que permite perder calor ao organismo mas, ao mesmo tempo, pode ocasionar uma diminuição do fluxo em outros territórios como o cerebral e causar perda de consciência.

A zona da árvore vascular onde se produz a máxima queda de pressão média é a que corresponde às arterias de menos de 0,5 mm de diâmetro e as arteriolas, que têm um diâmetro de 0,2 mm ou menos e por isso se chamam copos de resistência.

A existência de uma capa de músculo liso na parede destes copos permite a regulação do fluxo mudando o calibre do copo e portanto a resistência. Em alguns territórios, mediante os esfínteres pré-capilares pode-se conseguir uma fina regulação permitindo o fluxo por uns capilares e fechando outros ao passo de sangue.

Conforme o fluxo sanguíneo distribui-se ao território capilar a pressão cai rapidamente e ao fluxo vai-se transformado em um fluxo estacionário com um carácter a cada vez menos pulsátil. À entrada do território capilar a pressão média tem caído até uns 30 mmHg.

Para um volume de sangue de uns 5 litros, no sistema arterial encontra-se só a décima parte, 500 ml. Esta quantidade é similar à que há nos pulmões e no coração o que explica a distribuição de 1,500 ml do total.

Fluxo sanguíneo no território capilar

O território capilar é o lugar em onde se levam a cabo as funções mais importantes da circulação. Quando se trata de território capilar se sobreentiende que se trata do território da circulação sistémica, se exclui, portanto, o território pulmonar que tem características peculiares e se estuda com a função pulmonar.

Ainda que pode ficar uma pulsação residual o fluxo capilar é praticamente estacionário. No sistema capilar o volume de sangue é, tão só, de uns 300 ml mas por ele passa a totalidade do fluxo sanguíneo.

Na tabela resumem-se uma série de parámetros relacionados com a microcirculación, calculados a partir do calibre e velocidade do sangue em um capilar média para um indivíduo de 70 kg de importância e 5 l/min de despesa cardíaco

circulação capilar
parámetro valor unidade método cálculo
diâmetro 8 µ directo
longitude 750 µ directo
velocidade 200 µs-1 directo
área de secção 50,3 µ² πr2
área de revolução 18,8 103 µ² 2πrl
volume 37,7 103 µ³ πr2l
superfície secção total 4,17 103 cm² Q/v
número de capilares 8,29 109 S total / área secção
volume total 313 cm³ S total * longitude
capilares / g peso 118 103 número total /peso
tempo circulação 3,75 s l/v


A mudança de pressão entre o extremo arterial e o venoso do capilar varia territorialmente mas em média é de 10 a 20 mmHg, com uma longitude do capilar de 0,75 mm o gradiente de pressão é 20 mmHg mm-1. A razão de que no sistema capilar, apesar do baixo calibre da cada copo, a resistência seja relativamente baixa é que, em contrapartida, a superfície de secção é 25 vezes superior à das arteriolas. As pressões capilares mais baixas encontram-se no território pulmonar e as mais altas encontram-se a nível do riñón.

A pressão média no território capilar, Pcap depende da pressão arterial, Pa; da pressão venosa, Pv e da relação entre as resistências vasculares de arteriolas e vénulas RR = Rv/Ra segundo a relação:

Pcap =(Pa*RR +Pv) / (1+RR)

para o mesmo valor de Pa e Pv (por exemplo 100 e 5 mmHg, respectivamente), Pcap varia entre 18 mmHg e 28 mmHg para valores de Rv/Ra de 1/6 ou 1/3 respectivamente.

Difusão

A parede dos capilares carece de músculo liso e está formada por um endotelio cuja estrutura influi na facilidade para o intercâmbio de substâncias (copos de intercâmbio) entre o interior do capilar e o líquido intersticial que os rodeia. Como medida desta facilidade para a difusão se utiliza o coeficiente de difusão que é característico da cada substância (geralmente diminui à medida que aumenta o peso molecular). A lei de difusão de Fick permite quantificar a quantidade de substância deslocada:

J = -D A dC/dx

onde J é a quantidade deslocada, D é o coeficiente de difusão, A é a superfície de intercâmbio e dC/dx é o gradiente de concentração, o signo menos indica que a substância se desloca desde onde há mais concentração a onde esta é menor. A complexidade da estrutura da rede capilar impede fazer uma análise cuantitativo preciso já que o próprio processo de difusão modifica o gradiente de concentração. Para uma substância como a glucosa, se considera que difunde do plasma para os tecidos uma quantidade da ordem de 20000 g/dia.

Filtración e reabsorción

Por outra parte a pressão no capilar e no intersticio intervém no movimento de liquido entre ambos.

De acordo com a hipótese de Starling no capilar há duas forças que favorecem a filtración, isto é o passo de líquido do capilar ao intersticio, que são a pressão hidrostática do capilar e a pressão osmótica das proteínas do intersticio. Por sua vez outras duas forças favorecem o movimento de liquido em sentido contrário ou reabsorción e são a pressão hidráulica do intersticio e a pressão osmótica das proteínas do plasma (pressão oncótica). A pressão hidrostática do intersticio e a pressão oncótica das proteínas intersticiales têm um valor baixo e é razoável admitir que similar, portanto se tratando de forças opostas se cancelam e a pressão efectiva será a diferença entre a pressão hidrostática do capilar e a pressão oncótica das proteínas do plasma. Ficando:

ϕ= k (Pcapilarcapilar)

onde ϕ é o fluxo por unidade de área de intercâmbio, Pcapilar e πcapilar as pressões hidrostática e oncótica, respectivamente e k um coeficiente que se denomina conductancia hidráulica da parede capilar.

No extremo arterial do capilar predominan as forças favoráveis à filtración e o líquido (plasma) sai do capilar, isto provoca, no capilar, a diminuição da pressão hidráulica e um discreto aumento da oncótica e no intersticio um aumento discreto da pressão hidráulica e diminuição da oncótica o que faz que se invista o processo e no extremo venoso predomine a reabsorción. O resultado final depende também da conductancia, que é muito maior nos capilares discontinuos e fenestrados que nos capilares contínuos. Considerando em conjunto o processo, o resultado neto é uma situação quase de equilíbrio de maneira que predomina a filtración mas, já no próprio capilar, se reabsorbe o 80% do filtrado e o 20% restante passa aos copos linfáticos. Ainda que só se filtra o 0,5% do plasma que passa pelos capilares a cifra é importante ao cabo do dia já que, com um fluxo sanguíneo de 5 litros por minuto, pelos capilares passam ao cabo do dia 7200 litros de sangue, isto é uns 4000 L de plasma (o plasma é o 55% do sangue) e portanto se filtram uns 20 litros diários. Se reabsorben 16 litros passando aos capilares linfáticos 4 litros que drenaran pelos ganglios linfáticos ao conduto torácico e por este à veia subclavia. Isto explica a importância que podem ter os transtornos do sistema linfático no agregado de líquido intersticial.

A importância da filtración para o intercâmbio de solutos é muito menor que para a difusão, assim para a glucosa o filtrado não chega aos 20 g/dia (e quase tudo é reabsorbido). É evidente que para o intercâmbio de solutos o mecanismo essencial é o de difusão. No caso do oxigénio a difusão é praticamente o único mecanismo para o transporte para os tecidos já que a hemoglobina, normalmente, não passa a membrana capilar.

Ambos processos, difusão e filtración, variam de forma importante segundo os territórios que se considerem (por exemplo no riñón se filtram uns 170 l/dia e se reabsorben 168 l/dia). A sua vez na cada território dependem dos mecanismos de regulação do fluxo no próprio território e de factores segregados localmente que podem modificar os coeficientes de conductancia e permeabilidad (como a bradiquinina ou a histamina).

Fluxo no sistema venoso

A parede das veias tem poucas fibras elásticas e é mais fina que no território arterial por isso resulta fácil manter distendidas as veias e assim actuam como reservorio de sangue (copos de capacitancia).

O número de veias é similar ao de arterias mas seu calibre é superior ao destas, em consequência a velocidade do sangue é menor (de 10 a 20 cm s-1 nas cavas) e o fluxo é de tipo newtoniano. A resistência que depende, inversamente, da quarta potência do rádio é claramente menor que no sistema arterial e em mudança o volume do conteúdo é superior em proporção ao quadrado da rádio. O volume de sangue no sistema venoso é de 3,5 litros (70%). Pode-se modificar mudando o tom venomotor mediante a contracção e relajación do músculo liso da parede.

Na posição de decúbito a pressão sanguínea decae desde uns 15 mmHg nas vénulas, até valores de 5 mmHg na veia cava inferior e chega a equilibrar-se com a atmosférica na aurícula direita.

Quando se descansa de pé a estes valores há que acrescentar a pressão correspondente ao peso da coluna de sangue e no caso das veias intratorácicas o efeito sobre a pressão intramural da pressão torácica subatmosférica e suas modificações com o movimento respiratório. Assim quando passa de decúbito à bipedestación a pressão nas veias do pé é de 90 mmHg, o sangue se acumula nas veias das extremidades inferiores, diminui a volta venoso e em consequência o volume sistólico o qual ocasiona uma diminuição, transitória, da pressão arterial que se denomina hipotensión postural ou hipotensión ortostática. Este efeito pode evitar mediante a acção de bomba muscular que realiza a contracção dos músculos das pernas comprimindo as paredes das veias, o sangue flui assim para o coração graças a que umas estruturas próprias das veias, que são as válvulas venosas, impedem o fluxo retrógrado.

Também pode se favorecer o fluxo para o coração mediante a inspiração já que o aumento de pressão negativa intratorácica expande as veias e por sua vez, o aumento de pressão intraabdominal pode favorecer o movimento de sangue para o coração. O contrário ocorre na espiración.

O fluxo no sistema venoso não é pulsátil salvo nas grandes veias em sua chegada ao coração às quais se transmite de forma retrógrada a pulsação da aurícula direita. Em muitas pessoas quando estão deitadas é fácil observar esta pulsação na veia yugular, a nível do pescoço.

Referências

  1. Philippe Meyer. Physiologie Humaine. 1977. Flammarion. Paris
  2. D.A. McDonald. Blood flow in arteries. 2nd edition. 1974. Edward Arnold Ltd. London
  3. V.B. Mountcastle. Medical Physiology. 13ª edição. 1974. Mosby Co. Saint Louis.

Best e Taylor. Bases fisiológicas da prática médica. 10ª ED. 1982. Editorial Médica Panamericana. Buenos Aires.

Veja-se também

Obtido de http://ks312095.kimsufi.com../../../../articles/c/ou/m/Comunicações_de_Andorra_46cf.html"