A hechura é uma forma de talha lítica consistente na modificação da morfología geral do suporte —seja este um canto ou uma lasca—, com objecto de conseguir uma silhueta especifica. A forma de muitos dos utensilios tende à simetría, mas, de qualquer modo, o objecto primordial da hechura é criar uma zona funcional, salvo alguma excepção, ou um sistema de fixação a um cabo ou que facilite seu aprehensión.[1] Assim, pois, a hechura corresponde com a expressão francesa façonnage (a mais estendida por ser um conceito criado na escola francesa) e em inglês denominar-se-ia lithic reduction (ainda que, neste caso, a expressão é mais ampla, pois abarca, também, a preparação dos núcleos dantes de começar sua exploração, coisa que não costuma incluir no termo espanhol, nem no francês), também não a palavra pode aplicar aos cantos talhados, mas sim às fases de fabricação dos poliedros. Com frequência, é impossível atribuir uma função determinada, nem sequer um propósito intencionado, aos objectos elaborados por desbastado. Por outra parte, resulta evidente que a função da hechura é dar ao objecto uma forma determinada; por exemplo, uma ponta de seta, cuja utilidade pode ser suspeitada, um bifaz de função desconhecida ou o layout de um machado dantes de ser pulimentada. A hechura é, pois, quase sempre, privativa de úteis nucleares, como os bifaces (e, em general, as peças bifaciales[2] ), hendidores, bicos, poliedros e pontas, entre outros. Distingue-se do lascado ou extracção de lascas (ou folhas) em que o objecto da hechura é o produto nuclear e não as lascas (que são um subproducto (aprovechable ou não).
Pelo geral, a hechura não tem um lugar muito concreto dentro da corrente operativa,[3] senão que depende da cada tipo, da cada cultura ou do nível tecnológico. A grandes rasgos, podem catalogar-se duas grandes modalidades de hechura, a bifacial e a polifacial.[4]
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A talha bifacial é uma dessas raras técnicas que sobrevivem ao longo de toda a prehistoria humana; apareceu no este da África, ao finalizar o período Olduvayense, faz um milhão e médio de anos, e desde então não tem sido abandonado. Os bifaces são muito correntes no Paleolítico Inferior e, ainda que não de um modo absoluto, são um dos tipos mais importantes do Achelense. Em períodos posteriores, o desbastado por talha bifacial aparece e desaparece, dependendo da cultura. Atinge seu apogeo no Paleolítico Superior, durante o Solutrense. Ao mudar os modos de vida, volta a ser muito comum durante o Neolítico, principalmente para fabricar pontas de seta. Apesar de que a expressão pode resultar ambigua, a hechura bifacial também inclui, ocasionalmente, golpes monofaciales, pois desde o ponto de vista mecânico não supõem uma diferença fundamental: quando se dispõe de um suporte adequado (lasca, guijarro…), dantes de começar a hechura, a talha bifacial pode ser substituída por uma monofacial, sendo o produto, morfológica e funcionalmente falando, equivalente. Na hechura bifacial procura-se a simetría com respeito ao plano de aplastamiento (o que se chama equilíbrio bifacial) mas também com respeito ao eixo morfológico (isto é, equilíbrio bilateral). Assim se obtêm umas bordas mais ou menos simétricos que são os que marcam a forma do utensilio, isto é, as arestas, às vezes cortantes, às vezes embotadas. Aparte teria um extremo terminal que, potencialmente, costuma ser a parte funcional da peça. Esta modalidade de hechura é a que se emprega no caso das peças bifaciales, mas também nos bicos, os hendidores as pontas...
Às vezes a hechura bifacial tem várias fases, começando com uma preparação ou desbastado com o que se obtém um bosquejo ou preforma da peça. A talha de preparação ou de layout está destinada à criação, por médio de uma ou mais séries de lascados, de duas superfícies, uma na cada cara, que se cortam em um plano secante. Essas duas caras podem ser mais ou menos convexas e estão delimitadas por duas arestas que definem a morfología do artefacto. Quanto mais difira o suporte da aparência final desejada, maior será a importância desta etapa. Qualquer suporte pode ser transformado em um layout bifacial: um guijarro, um bloco, uma placa, uma lasca, etc. Quanto mais diferente é a morfología do suporte de forma-a final desejada (especialmente na espessura), maior é o trabalho empregado no desbastado: não se precisa muito trabalho para esboçar uma peça bifacial (por exemplo, uma ponta de seta) a partir de uma lasca. Se usa-se uma lasca ou um canto de forma muito apta, esta fase de desbastado pode chegar a ser mínima, inclusive desnecessária e (para o caso das lascas) ser substituída pelo retoque. Pode observar-se, por tanto, que a quantidade de trabalho necessária para esboçar e terminar um artefacto por médio do desbastado varia a relação de uma fase com a outra; ou pode reduzir-se a uma sozinha fase de trabalho. Depende tanto do suporte como do produto desejado.
De facto, as últimas fases da hechura, destinadas a perfeccionar a preforma, rectificando pequenos defeitos, parecem-se muito ao retoque —sendo difícil definir os limites entre ambos conceitos (estamos, pois, ante uma falha básica do conceito, que precisa ser refinado)—, já que se trata de modificações muito leves das bordas, para conseguir uma zona funcional mais eficaz. Em determinadas culturas prehistóricas renunciava-se a esta fase de correcção e acabamento, provavelmente por economia de gestos; mas em outras culturas, a hechura chega a ser de um refinamiento extraordinário.
A morfología dos objectos desbastados bifacialmente pode ser muito variável. A distribuição do volume da peça ao longo da fase de esboçado, mencionada mais acima, tende à simetría em qualquer cara à cada lado do plano secante, salvo que a disimetría seja intencionada. A vista frontal pode possuir uma simetría bilateral perfeita, ou ser asimétrica ou em hombrera, etc. Algumas peças são mofológica e tecnicamente estáveis através de longos períodos, como o bifaz achelense. Ainda que as investigações trazalógicas não podem, ainda, as razões funcionais do sucesso do bifaz, parece que seu desenvolvimento está estreitamente unido à ideia de simetría (bem dominada durante o Achelense), inclusive se está longe de ser perfeita. Este desenvolvimento pode, também, estar unido à possibilidade de trabalhar grandes suportes usando o desbastado bifacial, quando a matéria prima não é muito apta para a talha. Outras morfologías bifaciales têm surgido de concepções com uma existência limitada tanto no tempo como no espaço, como a folha de laurel solutrense, algumas pontas de proyectil da Norteamérica precolombina, como as pontas Clovis ou Folsom ou as facas do Calcolítico, que, sem dúvida é a idade de ouro da talha lítica.
A hechura polifacial refere-se ao desbastado poliédrico da rocha, que costuma ser mais rara e privativa de instrumentos muito específicos. O desbastado polédrico aparece muito cedo, no período Olduvayense, mas só com a chegada do Achelense pode se utilizar a expressão “método polédrico”. Parte-se de um suporte grosso, globular já que procura-se uma forma redondeda ou oblonga. Pelo comum, os produtos obtidos com a talha poliédrica carecem de plano de aplastamiento ou de eixo de simetría, que é sustutido pela simetría cilíndrica (em sentido estrito) ou pela simetría esférica: um ponto central ao redor do qual o volume se distribui mais ou menos equitativamente, procurando a esfericidad. A técnica que se usa quase sempre é a percussão directa com percutor duro, obtendo, assim, os característicos poliedros paleolíticos. Outras vezes há uma fase extra de martilleado ou abujardado, que consiste em esmagar as arestas e outras formas salientes, arrendondando a maior parte da peça, como ocorre com as mãos molenderas de molinos e morteiros neolíticos e inclusive com os machados pulimentadas que dantes do alisado têm sido configuradas por talha polifacial e martilleado.
Os produtos manufacturados na maneira descrita, por médio de um desbastado bi ou polifacial, não são, com frequência, mais que layouts. Estes layouts são, simplesmente, um estádio de uma longa corrente operativa, inclusive no caso de que tenha uma clara separação espaço temporal entre a manufactura da forma baseie e a última fase de fabricação. O acabamento é, com frequência, levado a cabo usando uma técnica diferente da utilizada no desbastado da preforma. Esta pode ser, no caso de várias peças bifaciales, a pressão; o martilleado para fazer uma bola; o pulimento, para os machados e azuelas pulimentadas. Pode dar-se uma fase adiccional, a melhora da resposta à talha por médio do tratamento térmico, esta técnica está situada na corrente operativa entre o desbastado e o acabamento, permitindo que este último seja mais singelo.