A Idade Média, Medievo ou Medioevo é o período histórico da civilização ocidental compreendido entre o século V e o XV. Seu começo situa-se convencionalmente no ano 476 com a queda do Império romano de Occidente e seu fim em 1492 com a descoberta da América,[1] ou em 1453 com a queda do Império bizantino, data que tem a vantagem de coincidir com a invenção da imprenta (Biblia de Gutenberg) e com o fim da Guerra dos Cem Anos.
Actualmente os historiadores do período preferem enfatizar esta ruptura entre Antigüedad e Idade Média de maneira que entre os séculos III e VIII se costuma falar de Antigüedad Tardia, que teria sido uma grande etapa de transição em todos os âmbitos: no económico, para a substituição do modo de produção esclavista pelo modo de produção feudal; no social, para o desaparecimento do conceito de cidadania romana e a definição dos estamentos medievales, no político para a descomposição das estruturas centralizadas do Império romano que deu passo a uma dispersión do poder; e no ideológico e cultural para a absorción e substituição da cultura clássica pelas teocéntricas culturas cristã ou islâmica (a cada uma em seu espaço).[2]
Costuma dividir-se em dois grandes períodos: Temporã ou Alta Idade Média (século V a século X, sem uma clara diferenciación com a Antigüedad Tardia); e Baixa Idade Média (século XI a século XV), que a sua vez pode dividir em um período de plenitude, a Plena Idade Média (século XI ao século XIII), e os dois últimos séculos que presenciaron a Crise da Idade Média ou do século XIV.
Ainda que há alguns exemplos de utilização prévia,[3] o conceito de Idade Média nasceu como a segunda idade da divisão tradicional do tempo histórico devida a Cristóbal Cellarius (História Medii Aevi a temporibus Constantini Magni ad Constaninopolim a Turcis captam deducta (Jena, 1688),[4] quem a considerava um tempo intermediário, sem mal valor por si mesmo, entre a Idade Antiga identificada com a arte e a cultura da civilização grecorromana da Antigüedad clássica e a renovação cultural da Idade Moderna -na que ele se situa- que começa com o Renacimiento e o Humanismo. A popularización deste esquema, segundo historiadores medievalistas como Lhe Goff ou Eco, tem perpetuado um preconcepto erróneo: o de considerar à Idade Média como uma época escura, sumida no retrocesso intelectual e cultural, e um aletargamiento social e económico secular (que a sua vez se associa com o feudalismo em seus rasgos mais oscurantistas, tal como se definiu pelos revolucionários que combateram o Antigo Regime). Seria um período dominado pelo isolamento, a ignorância, a teocracia, a superstição e o medo milenarista alimentado pela insegurança endémica, a violência e a brutalidad de guerras e invasões constantes e epidemias apocalípticas.[5]
No entanto, neste longo período de mil anos teve todo o tipo de factos e processos muito diferentes entre si, diferenciados temporário e geograficamente, respondendo tanto a influências mútuas com outras civilizações e espaços como a dinâmicas internas. Muitos deles tiveram uma grande projecção para o futuro, entre outros os que sentaram as bases do desenvolvimento da posterior expansão européia, e o desenvolvimento dos agentes sociais que desenvolveram uma sociedade estamental de base predominantemente rural mas que presenció o nascimento de uma incipiente vida urbana e uma burguesía que com o tempo desenvolverão o capitalismo.[6] Longe de ser uma época inmovilista, a Idade Média, que tinha começado com migrações de povos inteiros, e continuado com grandes processos repobladores (Repoblación na Península Ibéria, Ostsiedlung na Europa Oriental) viu como em seus últimos séculos os antigos caminhos (muitos deles vias romanas decaídas) se consertavam e modernizaban com airosos pontes, e se enchiam de toda a classe de viajantes (guerreiros, peregrinos, mercaderes, estudantes, goliardos) encarnando a metáfora espiritual da vida como uma viagem (homo viator).[7]
Também surgiram na Idade Média formas políticas novas, que vão desde o califato islâmico aos poderes universais da cristiandad latina (Pontificado e Império) ou o Império bizantino e os reinos eslavos integrados na cristiandad oriental (aculturación e evangelización de Cirilo e Metodio); e em menor escala, todo o tipo de cidades estado, desde as pequenas cidades episcopales alemãs até repúblicas que mantiveram impérios marítimos como Veneza; deixando na metade da escala à que teve maior projecção futura: as monarquias feudales, que transformadas em monarquias autoritarias prefiguran o estado moderno.
De facto, todos os conceitos associados ao que se veio em chamar modernidad aparecem na Idade Média, em seus aspectos intelectuais com a mesma crise da escolástica.[8] Nenhum deles seria entendible sem o próprio feudalismo, se entenda este como modo de produção (baseado nas relações sociais de produção em torno da terra do feudo) ou como sistema político (baseado nas relações pessoais de poder em torno da instituição do vasallaje), segundo as diferentes interpretações historiográficas.[9]
O choque de civilizações entre Cristiandad e Islão, manifestado na ruptura da unidade do Mediterráneo (meta fundamental da época, segundo Henri Pirenne, em seu clássico Mahoma e Carlomagno[10] ), a Reconquista espanhola e as Cruzadas; teve também sua parte de fértil intercâmbio cultural (escola de Tradutores de Toledo, Escola Médica Salernitana) que ampliou os horizontes intelectuais da Europa, até então limitada aos restos da cultura clássica salvados pelo monacato altomedieval e adaptados ao cristianismo.
Essa mesma Europa Ocidental produziu uma impressionante sucessão de estilos artísticos (prerrománico, románico e gótico), que nas zonas fronteiriças se mestizaron também com a arte islâmica (mudéjar, arte andalusí, arte árabe-normando) ou com a arte bizantino.
A ciência medieval não respondia a uma metodología moderna, mas também não o tinha feito a dos autores clássicos, que se ocuparam da natureza desde sua própria perspectiva; e em ambas idades sem conexão com o mundo das técnicas, que estava relegado ao trabalho manual de artesãos e camponeses, responsáveis por um lento mas constante progresso nas ferramentas e processos produtivos. A diferenciación entre oficios viles e mecânicos e profissões liberais vinculadas ao estudo intelectual conviveu com uma teórica posta em valor espiritual do trabalho no meio dos monasterios benedictinos, questão que não passou de ser um exercício piedoso, ultrapassado pela bem mais trascendente valoração da pobreza, determinada pela estrutura económica e social e que se expressou no pensamento económico medieval.
Medievalismo é tanto a qualidade ou carácter de medieval,[12] como o interesse pela época e os temas medievales e seu estudo; e medievalista o especialista nestas matérias.[13] O descrédito da Idade Média foi uma constante durante a Idade Moderna, na que Humanismo, Renacimiento, Racionalismo, Clasicismo e Ilustração se afirmam como reacções contra ela, ou mais bem contra o que entendem que significava, ou contra os rasgos de seu próprio presente que tentam descalificar como sobrevivências medievales. Não obstante desde fins do século XVI produzem-se interessantes recopilaciones de fontes documentales medievales que procuram um método crítico para a ciência histórica. O Romantismo e o Nacionalismo do século XIX revalorizaron a Idade Média como parte de seu programa estético e como reacção anti-académica (poesia e drama românticos, novela histórica, nacionalismo musical, ópera), além de como única possibilidade de encontrar base histórica às emergentes nações (pintura de história, arquitectura historicista, sobretudo o neogótico -labor restauradora e recreadora de Eugène Viollet-lhe-Duc- e o neomudéjar). Os abusos românticos da ambientación medieval (exotismo), produziram já em meados do século XIX a reacção do realismo.[14] Outro tipo de abusos são os que dão lugar a uma abundante literatura pseudohistórica que chega até o presente, e que tem encontrado a fórmula do sucesso mediático entremezclando temas esotéricos sacados de partes mais ou menos escuras da Idade Média (Arquivo Secreto Vaticano, templarios, rosacruces, masones e o mismísimo Santo Grial).[15] Alguns deles se vincularam ao nazismo, como o alemão Otto Rahn. Por outro lado, há abundância de outros tipos de produções artísticas de ficção de diversa qualidade e orientação inspiradas na Idade Média (literatura, cinema, banda desenhada). Também se desenvolveram no século XX outros movimentos medievalistas: um medievalismo historiográfico sério, centrado na renovação metodológica (fundamentalmente pela incorporação da perspectiva económica e social contribuída pelo materialismo histórico e a Escola dos Annales) e um medievalismo popular (espectáculos medievales, mais ou menos genuinos, como actualização do passado no que a comunidade se identifica, o que se veio em chamar memória histórica).
As grandes migrações da época das invasões significaram paradoxalmente um fechamento ao contacto de Occidente com o resto do mundo. Muito poucas notícias tinham os europeus do milénio medieval (tanto os da cristiandad latina como os da cristiandad oriental) de que, aparte da civilização islâmica, que exerceu de ponte mas também de obstáculo entre Europa e o resto do Velho Mundo,[10] se desenvolviam outras civilizações. Inclusive um vasto reino cristão como o de Etiópia , ao ficar isolado, se converteu no imaginario cultural no mítico reino do Preste Juan, mal distinguible das ilhas atlánticas de San Borondón e do resto das maravilhas desenhadas nos bestiarios e os escassos, rudimentarios e imaginativos mapas. O desenvolvimento marcadamente autónomo da China, a mais desenvolvida civilização da época (ainda que virada para seu próprio interior e ensimismada em seus ciclos dinásticos: Sui, Tang, Song, Yuan e Ming), e a escassez de contactos com ela (a viagem de Marco Pólo, ou a bem mais importante expedição de Zheng Tenho), que destacam justamente pelo incomuns e por sua ausência de continuidade, não permitem denominar aos séculos V ao XV de sua história como história medieval, ainda que às vezes se faça, inclusive em publicações especializadas, mais ou menos impropriamente.[16]
A História do Japão (que durante este período estava em formação como civilização, adaptando as influências chinesas à cultura autóctona e expandindo desde as ilhas meridionales às setentrionais), apesar de sua maior lonjura e isolamento, costuma ser paradoxalmente mais sócia ao termo medieval; ainda que tal denominação é dimensionada pela historiografía, significativamente, a um período medieval que se localiza entre os anos 1000 e 1868, para adecuarse ao denominado feudalismo japonês anterior à era Meiji (se veja também shogunato, têm e castelo japonês).[17]
A História da Índia ou a da África negra a partir do século VII contaram com uma maior ou menor influência muçulmana, mas ateram-se a dinâmicas próprias bem diferentes (Sultanato de Delhi, Sultanato de Bahmani, Império Vijayanagara –na Índia– Império de Malí, Império Songhay –na África negra–). Inclusive chegou a produzir-se uma destacada intervenção sahariana no mundo mediterráneo ocidental: o Império Almorávide.
De um modo ainda mais claro, a História da América (que atravessava seus períodos clássico e postclásico) não teve nenhum tipo de contacto com o Velho Mundo, para além da chegada da denominada Colonização vikinga na América que se limitou a uma reduzida e efémera presença na Gronelândia e a enigmática Vinland, ou a possíveis posteriores expedições de balleneros bascos em parecidas zonas do Atlántico Norte, ainda que este facto tem de entender no contexto do grande desenvolvimento da navegação dos últimos séculos da Baixa Idade média, já encaminhada à Era das Descobertas.
O que sim ocorreu, e pode se considerar como uma constante do período medieval, foi a periódica repetição de pontuas interferências centroasiáticas na Europa e o Próximo Oriente em forma de invasões de povos da Ásia Central, destacadamente os turcos (köktürks, jázaros, otomanos) e os mongoles (unificados por Gengis Kan) e cuja Horda de Ouro esteve presente a Europa Oriental e conformou a personalidade dos estados cristãos que se criaram, às vezes vassalos e às vezes resistentes, nas estepas russas e ucranianas. Inclusive em uma rara ocasião, a primitiva diplomacia dos reinos europeus bajomedievales viu a possibilidade de utilizar aos segundos como contrapeso aos primeiros: a frustrada embaixada de Ruy González de Clavijo ao corte de Tamerlán em Samarcanda , no contexto do assédio mongol de Damasco, um momento muito delicado (1401-1406) no que também interveio como diplomático Ibn Jaldún. Os mongoles já tinham saqueado Bagdá em uma incursão de 1258 .[18]
Ainda que propuseram-se várias datas para o início da Idade Média, das quais a mais estendida é a do ano 476, o verdadeiro é que não podemos localizar o início de uma maneira tão exacta já que a Idade Média não nasce, senão que "se faz" em consequência de todo um longo e lento processo que se estende por espaço de cinco séculos e que provoca mudanças enormes a todos os níveis de uma forma muito profunda que inclusive repercutirão até nossos dias. Podemos considerar que esse processo começa com a crise do século III, vinculada aos problemas de reprodução inherentes ao modo de produção esclavista, que precisava uma expansão imperial contínua que já não se produzia depois da fixação do limes romano. Possivelmente também confluyeran factores climáticos para a sucessão de más colheitas e epidemias; e de um modo bem mais evidente as primeiras invasões germánicas e sublevaciones camponesas (bagaudas), em um período em que se sucedem muitos breves e trágicos mandatos imperiais. Desde Caracalla a cidadania romana estava estendida a todos os homens livres do Império, mostra de que tal condição, dantes tão cobiçada, tinha deixado de ser atraente. O Baixo Império adquire um aspecto a cada vez mais medieval desde princípios do século IV com as reformas de Diocleciano : esmaecimento das diferenças entre os escravos, a cada vez mais escassos, e os colonos, camponeses livres, mas sujeitos a condições a cada vez maiores de servidão, que perdem a liberdade de mudar de domicílio, tendo que trabalhar sempre a mesma terra; herança obrigatória de cargos públicos -dantes disputados em reñidas eleições- e oficios artesanais, submetidos a colegiación -precedente dos grémios-, todo para evitar a evasão fiscal e a despoblación das cidades, cujo papel de centro de consumo e de comércio e de articulação das zonas rurais a cada vez é menos importante. Ao menos, as reformas conseguem manter o edifício institucional romano, ainda que não sem intensificar a ruralización e aristocratización (passos claros para o feudalismo), sobretudo em Occidente, que fica desvinculado de Oriente com a partição do Império. Outra mudança decisiva foi a implantação do cristianismo como nova religião oficial pelo Edicto de Tesalónica de Teodosio I o Grande (380) precedido pelo Edicto de Milão (313) com o que Constantino I o Grande recompensou aos até então subversivos por seu providencialista ajuda na Batalha da Ponte Milvio (312), junto com outras supostas cessões mais temporárias cuja fraudulenta reclamação (Pseudo-doação de Constantino) foi uma constante dos Estados Pontificios durante toda a Idade Média, inclusive depois da evidência de sua refutación pelo humanista Lorenzo Valla (1440).
Nenhum evento concreto -apesar da abundância e concatenación de factos catastróficos- determinou por si mesmo o fim da Idade Antiga e o início da Idade Média: nem os sucessivos saques de Roma (pelos godos de Alarico I no 410, pelos vándalos no 455, pelas próprias tropas imperiais de Ricimero em 472 , pelos ostrogodos em 546 ), nem a pavorosa irrupción dos hunos de Atila (450-452, com a Batalha dos Campos Cataláunicos e a estranha entrevista com o papa León I o Magno), nem o derrocamiento de Rómulo Augústulo (último imperador romano de Occidente, por Odoacro o chefe dos hérulos -476-); foram acontecimentos que seus contemporâneos considerassem iniciadores de uma nova época. A culminación no final do século V de uma série de processos de longa duração, entre eles a grave dislocación económica, as invasões e o assentamento dos povos germanos no Império romano, fez mudar a face da Europa. Durante os seguintes 300 anos, a Europa Ocidental manteve um período de unidade cultural, incomum para este continente, instalada sobre a complexa e elaborada cultura do Império romano, que nunca chegou a se perder por completo, e o assentamento do cristianismo. Nunca chegou a se esquecer a herança clássica grecorromana, e a língua latina, submetida a transformação (latín medieval), continuou sendo a língua de cultura em toda Europa ocidental, inclusive para além da Idade Média. O direito romano e múltiplas instituições continuaram vivas, adaptando-se de um ou outro modo. O que se operou durante esse amplo período de transição (que pode se dar por culminado para o ano 800, com a coronación de Carlomagno ) foi uma sorte de fusão com as contribuições de outras civilizações e formações sociais, em especial a germánica e a religião cristã. Nos séculos seguintes, ainda na Alta Idade Média, serão outras contribuições as que se acrescentem, destacadamente o Islão.
Divisão do Império romano, ano 395. |
Reinos germánicos e Império bizantino para 526. |
O texto refere-se concretamente a Hispania e suas províncias, e os bárbaros citados são especificamente os suevos, vándalos e alanos, que no 406 tinham cruzado o limes do Rin (inhabitualmente gelado) à altura de Maguncia e em torno do 409 tinham chegado à Península Ibéria; mas a imagem é equivalente em outros momentos e lugares que o mesmo autor narra, do período entre 379 e 468.
Os povos germánicos procedentes da Europa do Norte e do Leste, encontravam-se em um estádio de desenvolvimento económico, social e cultural obviamente inferior ao do Império romano, ao que eles mesmos percebiam admirativamente. A sua vez eram percebidos com uma mistura de desprezo, temor e esperança (retrospectivamente plasmados no influente poema Esperando aos bárbaros de Constantino Cavafis),[20] e inclusive atribuiu-se-lhes um papel justiciero (ainda que involuntario) desde um ponto de vista providencialista por parte dos autores cristãos romanos (Orosio, Salviano de Marselha e San Agustín de Hipona).[21] A denominação de bárbaros (βάρβαρος) prove da onomatopeya bar-bar com a que os gregos se burlavam dos estrangeiros não helénicos, e que os romanos -bárbaros eles mesmos, ainda que helenizados- utilizaram desde sua própria perspectiva. A denominação invasões bárbaras foi recusada pelos historiadores alemães do século XIX, momento no que o termo barbarie designava para as nacientes ciências sociais um estádio de desenvolvimento cultural inferior à civilização e superior ao salvajismo. Preferiram acuñar um novo termo: Völkerwanderung ("Migração de Povos"),[22] menos violento que invasões, ao sugerir a deslocação completa de um povo com suas instituições e cultura, e mais geral inclusive que invasões germánicas, ao incluir a hunos, eslavos e outros.
Os germanos, que dispunham de instituições políticas peculiares, em concreto a assembleia de guerreiros livres (thing) e a figura do rei, receberam a influência das tradições institucionais do Império e a civilização grecorromana, bem como a do cristianismo (ainda que não sempre do cristianismo católico ou atanasiano, senão do arriano); e foram-se adaptando às circunstâncias de seu assentamento nos novos territórios, sobretudo à alternativa entre impor-se como minoria dirigente sobre uma maioria de população local ou se fundir com ela.
Os novos reinos germánicos conformaram a personalidade da Europa Ocidental durante a Idade Média, evoluíram em monarquias feudales e monarquias autoritarias, e com o tempo, deram origem aos estados-nação que se foram construindo em torno delas. Socialmente, em alguns destes países (Espanha ou França), a origem germánico (godo ou franco) passou a ser um rasgo de honra ou orgulho de casta ostentado pela nobreza como distinção sobre o conjunto da população.
O Império romano tinha passado por invasões externas e guerras civis terríveis no passado, mas no final do século IV, aparentemente, a situação estava baixo controle. Fazia escasso tempo que Teodosio tinha conseguido novamente unificar baixo um sozinho centro ambas metades do Império (392) e estabelecido uma nova religião de Estado, o Cristianismo niceno (Edicto de Tesalónica -380), com a consiguiente perseguição dos tradicionais cultos paganos e as heterodoxias cristãs. O clero cristão, convertido em uma hierarquia de poder, justificava ideológicamente a um Imperium Romanum Christianum e à dinastía Teodosiana como tinha começado a fazer já com a Constantiniana desde o Edicto de Milão (313).
Tinham-se encauzado os afanes de protagonismo político dos mais ricos e influentes senadores romanos e das províncias ocidentais. Ademais, a dinastía tinha sabido encauzar acordos com a poderosa aristocracia militar, na que se enrolaban nobres germanos que iam ao serviço do Império à frente de soldados unidos por laços de fidelidade para eles. Ao morrer em 395 , Teodosio confiou o governo de Occidente e a protecção de seu jovem herdeiro Honorio ao general Estilicón, primogénito de um nobre oficial vándalo que tinha contraído casal com Flavia Serena, sobrinha do próprio Teodosio. No entanto, quando no 455 morreu assassinado Valentiniano III, neto de Teodosio, uma boa parte dos descendentes daqueles nobres ocidentais (nobilissimus, clarissimus) que tanto tinham confiado nos destinos do Império pareceram já desconfiar do mesmo, sobretudo quando no curso de dois decenios se tinham podido dar conta de que o governo imperial enclausurado em Rávena era a cada vez mais presa dos exclusivos interesses e intrigas de um pequeno grupo de altos oficiais do exército itálico. Muitos destes eram de origem germánico e a cada vez confiavam mais nas forças de seus séquitos armados de soldados convencionais e nos pactos e alianças familiares que pudessem ter com outros chefes germánicos instalados em solo imperial junto com seus próprios povos, que desenvolviam a cada vez mais uma política autónoma. A necessidade de acomodar-se à nova situação ficou evidenciada com o destino de Gala Placidia, princesa imperial refém dos próprios saqueadores de Roma (o visigodo Alarico I e seu primo Ataúlfo, com quem finalmente casou-se); ou com o de Honoria , filha da anterior (em segundas nupcias com o imperador Constancio III) que optou por se oferecer como esposa ao próprio Atila se enfrentando a seu próprio irmão Valentiniano.
Precisados de manter uma posição de predominio social e económico em suas regiões de origem, reduzidos seus patrimónios fundiarios a dimensões provinciais, e ambicionando um protagonismo político próprio de sua linhagem e de sua cultura, os honestiores (os mais honestos ou honrados, os que têm honra), representantes das aristocracias tardorromanas ocidentais teriam acabado por aceitar as vantagens de admitir a legitimidade do governo de ditos reis germánicos, já muito romanizados, assentados em suas províncias. Afinal de contas, estes, à frente de seus soldados, podiam lhes oferecer bastante maior segurança que o exército dos imperadores de Rávena. Ademais, o avituallamiento de ditas tropas resultava bastante menos gravoso que o das imperiais, por se basear em boa medida em séquitos armados dependentes da nobreza germánica e alimentados com cargo ao património fundiario provincial da que esta já fazia tempo se tinha apropriado. Menos gravoso tanto para os aristócratas provinciais como também para os grupos de humiliores (os mais humildes, os rebajados em terra -humus-) que se agrupavam hierarquicamente em torno de ditos aristócratas, e que, em definitiva, eram os que tinham vindo suportando o máximo peso da dura fiscalidad tardorromana. As novas monarquias, mais débis e descentralizadas que o velho poder imperial, estavam também mais dispostas a compartilhar o poder com as aristocracias provinciais, máxime quando o poder destes monarcas estava muito limitado no seio mesmo de suas gentes por uma nobreza baseada em seus séquitos armados, desde seu não muito longínqua origem nas assembleias de guerreiros livres, dos que não deixavam de ser primun inter pares.
Mas esta metamorfosis do Occidente romano em romano-germano, não tinha sido consequência de uma inevitabilidad claramente evidenciada desde um princípio; pelo contrário, o caminho tinha sido duro, zigzagueante, com ensaios de outras soluções, e com momentos em que parecia que todo podia voltar a ser como dantes. Assim ocorreu durante todo o século V, e em algumas regiões também no século VI como consequência, entre outras coisas, do telefonema Recuperatio Imperii ou Reconquista de Justiniano.
As invasões bárbaras desde o século III tinham demonstrado a permeabilidad do limes romano na Europa, fixado no Rin e o Danubio. A divisão do Império em Oriente e Occidente, e a maior fortaleza do império oriental ou bizantino, determinou que fosse unicamente na metade ocidental onde se produziu o assentamento destes povos e seu institucionalización política como reinos.
Foram os visigodos, primeiro como Reino de Tolosa e depois como Reino de Toledo, os primeiros em efectuar essa institucionalización, valendo de sua condição de federados, com a obtenção de um foedus com o Império, que lhes encarregou a pacificação das províncias de Galia e Hispania, cujo controle estava perdido na prática depois das invasões do 410 por suevos , vándalos e alanos. Destes, só os suevos conseguiram o assentamento definitivo em uma zona: o Reino de Braga, enquanto os vándalos estabeleceram-se no norte da África e as ilhas do Mediterráneo Ocidental, mas foram ao século seguinte eliminados pelos bizantinos durante a grande expansão territorial de Justiniano I (campanhas dos generais Belisario, do 533 ao 544, e Narsés, até o 554). Simultaneamente os ostrogodos conseguiram instalar-se na Itália expulsando aos hérulos, que tinham expulsado a sua vez de Roma ao último imperador de Occidente. O Reino Ostrogodo desapareceu também em frente à pressão bizantina de Justiniano I.
Um segundo grupo de povos germánicos instala-se na Europa Ocidental no século VI, dentre os que destaca o Reino franco de Clodoveo e seus sucessores merovingios, que desloca aos visigodos das Galias, os forçando a transladar sua capital de Tolosa (Toulouse) a Toledo . Também derrotaram a burgundios e alamanes, absorvendo seus reinos. Algo mais tarde os lombardos se estabelecem na Itália (568-9), mas serão derrotados no final do século VIII pelos mesmos francos, que reinstaurarán o Império com Carlomagno (ano 800).
Em Grã-Bretanha instalar-se-ão os anglos, sajones e jutos, que criarão uma série de reinos rivais que serão unificados pelos dinamarqueses (um povo nórdico) no que terminará por ser o reino da Inglaterra.
A monarquia germánica era em origem uma instituição estritamente temporária, vinculada estreitamente ao prestígio pessoal do rei, que não passava de ser um primus inter pares (primeiro entre iguais), que a assembleia de guerreiros livres elegia (monarquia electiva), normalmente para uma expedição militar concreta ou para uma missão específica. As migrações a que se viram submetidos os povos germánicos desde o século III até o século V (encajonados entre a pressão dos hunos ao este e a resistência do limes romano ao sul e oeste) foi fortalecendo a figura do rei, ao mesmo tempo em que se entrava em contacto a cada vez maior com as instituições políticas romanas, que acostumavam à ideia de um poder político bem mais centralizado e concentrado na pessoa do Imperador romano. A monarquia vinculou-se às pessoas dos reis de forma vitalicia, e a tendência era a fazer-se monarquia hereditaria, dado que os reis (ao igual que tinham feito os imperadores romanos) tentavam se assegurar a eleição de seu sucessor, a maior parte das vezes ainda em vida e associando ao trono. O que o candidato fosse o primogénito varão não era uma necessidade, mas se terminou impondo como uma consequência óbvia, o que também era imitado pelas demais famílias de guerreiros, enriquecidos pela posse de terras e convertidos em linhagens nobiliarios que se emparentaban com a antiga nobreza romana, em um processo que pode se denominar feudalización. Com o tempo, a monarquia se patrimonializó, permitindo inclusive a divisão do reino entre os filhos do rei.
O respeito à figura do rei reforçou-se mediante a sacralización de sua tomada de posse (unción com os sagrados óleos por parte das autoridades religiosas e uso de elementos distintivos como órbita, ceptro e coroa, em decorrência de uma elaborada cerimónia: a coronación) e a adição de funções religiosas (presidência de concilios nacionais, como os Concilios de Toledo) e taumatúrgicas (toque real dos reis da França para a cura da escrófula). O problema suscitava-se quando chegava o momento de justificar a deposición de um rei e sua substituição por outro que não fosse seu sucessor natural. Os últimos merovingios não governavam por si mesmos, senão mediante os cargos de seu corte, entre os que destacava o mayordomo de palácio. Unicamente depois da vitória contra os invasores muçulmanos na batalha de Poitiers o mayordomo Carlos Martel viu-se justificado para argumentar que a legitimidade de exercício lhe dava méritos suficientes para fundar ele mesmo sua própria dinastía: a carolingia. Em outras ocasiões recorria-se a soluções mais imaginativas (como forçar a tonsura -corte eclesiástico do cabelo- do rei visigodo Wamba para incapacitarle).
Os problemas de convivência entre as minorias germanas e as maiorias locais (hispano-romanas, galo-romanas, etc.) foram solucionados com mais eficácia pelos reinos com mais projecção no tempo (visigodos e francos) através da fusão, permitindo os casais mistos, unificando a legislação e realizando a conversão ao catolicismo em frente à religião originaria, que em muitos casos já não era o paganismo tradicional germánico, senão o cristianismo arriano adquirido em seu passo pelo Império Oriental.
Algumas características próprias das instituições germanas conservaram-se: uma delas o predominio do direito consuetudinario sobre o direito escrito próprio do Direito romano. Não obstante os reinos germánicos realizaram algumas codificações legislativas, com maior ou menor influência do direito romano ou das tradições germánicas, redigidas em latín a partir do século V (leis teodoricianas, edicto de Teodorico, Código de Eurico, Breviario de Alarico). O primeiro código escrito em língua germánica foi o do rei Ethelberto de Kent, o primeiro dos anglosajones em converter-se ao cristianismo (começos do século VI). O visigótico Liber Iudicorum (Recesvinto, 654) e a franca Lei Sálica (Clodoveo, 507-511) mantiveram uma vigência muito prolongada por sua consideração como fontes do direito nas monarquias medievales e do Antigo Regime.[23]
A expansão do cristianismo entre os bárbaros, o assentamento da autoridade episcopal nas cidades e do monacato nos âmbitos rurais (sobretudo desde a regra de San Benito de Nursia -monasterio de Montecassino, 529-), constituíram uma poderosa força fusionadora de culturas e ajudou a assegurar que muitos rasgos da civilização clássica, como o direito romano e o latín, pervivieran na metade ocidental do Império, e inclusive se expandisse por Europa Central e setentrional. Os francos converteram-se ao catolicismo durante o reinado de Clodoveo I (496 ou 499) e, a partir de então, expandiram o cristianismo entre os germanos do outro lado do Rin. Os suevos, que se tinham facto cristãos arrianos com Remismundo (459-469), se converteram ao catolicismo com Teodomiro (559-570) pelas predicaciones de San Martín de Dumio. Nesse processo tinham-se adiantado aos próprios visigodos, que tinham sido cristianizados previamente em Oriente na versão arriana (no século IV), e mantiveram durante século e médio a diferença religiosa com os católicos hispano-romanos inclusive com lutas internas dentro da classe dominante goda, como demonstrou a rebelião e morte de San Hermenegildo (581-585), filho do rei Leovigildo). A conversão ao catolicismo de Recaredo (589) marcou o começo da fusão de ambas sociedades, e da protecção regia ao clero católico, visualizada nos Concilios de Toledo (presididos pelo próprio rei). Nos anos seguintes viram um verdadeiro renacimiento visigodo[24] com figuras da influência de san Isidoro de Sevilla (e seus irmãos Leandro, Fulgencio e Florentina, os quatro santos de Cartagena), Braulio de Zaragoza ou Ildefonso de Toledo, de grande repercussão no resto da Europa e nos futuros reinos cristãos da Reconquista (veja-se cristianismo em Espanha, monasterio em Espanha, monasterio hispano e liturgia hispânica). Os ostrogodos, em mudança, não dispuseram de tempo suficiente para realizar a mesma evolução na Itália. Não obstante, do grau de convivência com o papado e os intelectuais católicos foi mostra que os reis ostrogodos os elevavam aos cargos de maior confiança (Boecio e Casiodoro, ambos magister officiorum com Teodorico o Grande), ainda que também do vulnerável de sua situação (executado o primeiro -523- e apartado pelos bizantinos o segundo -538-). Seus sucessores no domínio da Itália, os também arrianos lombardos, também não chegaram a experimentar a integração com a população católica submetida, e suas divisões internas fizeram que a conversão ao catolicismo do rei Agilulfo (603) não chegasse a ter maiores consequências.
O cristianismo foi levado a Irlanda por San Patricio a princípios do século V, e desde ali estendeu-se a Escócia , desde onde em um século mais tarde regressou pela zona norte a uma Inglaterra abandonada pelos cristãos britones aos paganos pictos e escotos (procedentes do norte de Grã-Bretanha) e aos também paganos germanos procedentes do continente (anglos, sajones e jutos). No final do século VI, com o Papa Gregorio Magno, também Roma enviou misioneros a Inglaterra desde o sul, com o que se conseguiu que em decorrência de um século Inglaterra voltasse a ser cristã.
A sua vez, os britones tinham iniciado uma emigración por via marítima para a península de Bretaña , chegando inclusive até lugares tão longínquos como a costa cantábrica entre Galiza e Astúrias, onde fundaram a diócesis de Britonia. Esta tradição cristã distinguia-se pelo uso da tonsura céltica ou escocesa, que rapaba a parte frontal do cabelo em vez da coronilla.
A sobrevivência na Irlanda de uma comunidade cristã isolada da Europa pela barreira pagana dos anglosajones, provocou uma evolução diferente ao cristianismo continental, o que se denominou cristianismo celta. Conservaram muito da antiga tradição latina, que estiveram em condições de compartilhar com Europa continental mal a onda invasora se teve acalmado temporariamente. Depois de sua extensão a Inglaterra no século VI, os irlandeses fundaram no século VII monasterios na França, em Suíça (Saint Gall), e inclusive na Itália, destacando-se particularmente os nomes de Columba e Columbano. As Ilhas Britânicas foram durante uns três séculos o vivero de importantes nomes para a cultura: o historiador Beda o Venerável, o misionero Bonifacio da Alemanha, o educador Alcuino de York, ou o teólogo Juan Escoto Erígena, entre outros. Tal influência chega até a atribuição de lendas como a de Santa Úrsula e as Onze Mil Vírgenes, bretona que teria efectuado uma extraordinária viagem entre Britania e Roma para acabar martirizada em Colónia.[25]
Por sua vez, a extensão do cristianismo entre os búlgaros e a maior parte dos povos eslavos (sérvios, moravos e os povos de Crimea e estepas ucranianas e russas) foi muito posterior, e a cargo do Império bizantino, com o que se fez com o credo ortodoxo (predicaciones de Cirilo e Metodio, século IX); enquanto a evangelización de outros povos da Europa Oriental (o resto dos eslavos -polacos, eslovenos e croatas-, bálticos e húngaros) e dos povos nórdicos (vikingos escandinavos) fez-se pelo cristianismo latino partindo da Europa Central, em um período ainda mais tardio (até os séculos XI e XII).
A maioria destas cristianizaciones levaram-se a cabo entre finais do Século IX e começos do Século XI. No final do Século X, os sacerdotes ortodoxos de bizancio mantinham uma intensa actividade cristianizadora nos povos eslavos, sem ter grande éxtito até o aparecimento da figura do Grande Príncipe Vladimiro I de Kiev quem converteu-se no 988 ao cristianismo baixo o rito de Constantinopla, e com ele grande parte de suas súbditos. Desta maneira foi tomando forma o Estado medieval conhecido como o Grande Principado de Kiev, a partir do qual surgiram posteriormente os demais Estados eslavos russos.
Por outra parte, o papado manteve grande influência na Europa Central e Oriental, extendiendose desde seu vizinho o Reino da Croácia, até o longínquo Ducado da Polónia. No entanto, o mosaico europeu não se completou finalmente senão até o ano 1000, quando os húngaros se converteram ao cristianismo baixo a figura do rei San Esteban I de Hungria. Desta maneira, o pacto surgido entre o Papa Silvestre II e o monarca húngaro, por intervenção do jóven imperador germánico Otón III acabaram com a incertidubre que envolvia a esse basto terreno pagano na Cuenca dos Cárpatos. Desta maneira, cedo Hungria agora convertida em um reino cristão se voltou um dos aliados mais próximos do papado durante vários séculos, servindo de Estado fronteiriço e mediador entre o mundo Oriental Ortodoxo eslavo, e a Europa católica. Igualmente a cristianización do Grande Principado de Hungria e a fundação do Estado húngaro medieval permitiu o surgimiento de inúmeras vias comerciais e de peregrinación que rapidamente interconectaron a Europa. Precisamente este foi o caso da peregrinación a Terra Santa, que até 1018 se fazia em barco, pois San Esteban I permitiu o passo dos fiéis por territórios húngaros neste ano, concretándose a primeira rota terrestre de peregrinaje.[27]
Os jázaros eram um povo turco procedente da Ásia central (onde se tinha formado desde o século VI o império dos Köktürks) que em sua parte ocidental tinha dado origem a um importante estado que dominava o Cáucaso e as estepas russas e ucranianas até Crimea no século VII. Sua classe dirigente converteu-se maioritariamente ao judaísmo, particularidade religiosa que lhe convertia em um vizinho excepcional entre o Califato islâmico de Damasco e o Império cristão de Bizancio.
A divisão entre Oriente e Occidente foi, além de uma estratégia política (inicialmente de Diocleciano -286- e feita definitiva com Teodosio -395-), um reconhecimento da diferença essencial entre ambas metades do Império. Oriente, em si mesmo muito diverso (Tracia -Península Balcánica-, Ásia -Anatolia, Cáucaso, Síria, Palestiniana e a fronteira mesopotámica com os persas- e Egipto), era a parte mais urbanizada e com economia mais dinâmica e comercial, em frente a um Occidente em via de feudalización , ruralizado, com uma vida urbana em decadência, mão de obra escrava a cada vez mais escassa e a aristocracia a cada vez mais alheia às estruturas do poder imperial e enclausurada em suas luxuosas villae autosuficientes, cultivadas por colonos em regime similar à servidão. A lingua franca em Oriente era o grego, em frente ao latín de Occidente. Na implantação da hierarquia cristã, Oriente dispunha de todos os patriarcados da Pentarquía menos o de Roma (Alejandría, Antioquía e Constantinopla, aos que se acrescentou Jerusalém depois do concilio de Calcedonia de 451); inclusive a primacía romana (sede pontificia ou cátedra de San Pedro) era um facto discutido.
A sobrevivência de Roma em Oriente não dependia da sorte de Occidente, enquanto o contrário sim: de facto, os imperadores orientais optaram por sacrificar a cidade de Rómulo e Remo -que já nem sequer era a capital ocidental- quando o consideraram conveniente, abandonando a sua sorte ou inclusive deslocando para ela aos bárbaros mais agressivos, o que precipitou sua queda.
Justiniano I consolidou a fronteira do Danubio e, desde 532 conseguiu um equilíbrio na fronteira com a Persia sasánida, o que lhe permitiu deslocar os esforços bizantinos para o Mediterráneo, reconstruindo a unidade do Mare Nostrum: Em 533 , uma expedição do general Belisario aniquila aos vándalos (batalha de Ad Decimum e batalha de Tricamarum) incorporando a província da África e as ilhas do Mediterráneo Ocidental (Cerdeña, Córcega e as Baleares). Em 535 Mundus ocupou Dalmacia e Belisario Sicília. Narsés elimina aos ostrogodos da Itália em 554 -555. Rávena voltou a ser uma cidade imperial, onde conservar-se-ão os fastuosos mosaicos de San Vital. Liberio só conseguiu deslocar aos visigodos da costa sudeste da Península Ibéria e da província Bética.
Em Constantinopla iniciaram-se dois programas ambiciosos e de prestígio com o fim de assentar a autoridade imperial: um de recopilación legislativa: o Digesto, dirigido por Triboniano (publicado em 533 ), e outro construtivo: a Igreja de Santa Sofía, dos arquitectos Antemio de Tralles e Isidoro de Mileto (levantada entre o 532 e o 537). Um símbolo da civilização clássica foi clausurado: a Academia de Atenas (529).[28] Outro, as carreiras de cuadrigas seguiram sendo uma diversión popular que levantava paixões. De facto, eram utilizadas politicamente, expressando a cor da cada equipo divergências religiosas (um precoz exemplo de mobilizações populares utilizando cores políticos). A revolta de Niká (534) esteve a ponto de provocar a fugida do imperador, que evitou a emperatriz Teodora com sua famosa frase o púrpura é um glorioso sudario.[29]
Nos séculos VII e VIII representaram para Bizancio uma idade escura similar à de ocidente, que incluiu também uma forte ruralización e feudalización no social e económico e uma perda de prestígio e controle efectivo do poder central. Às causas internas somou-se a renovação da guerra com os persas, nada decisiva mas especialmente extenuante, à que seguiu a invasão muçulmana, que privou ao Império das províncias mais ricas: Egipto e Síria. Não obstante, no caso bizantino, a diminuição da produção intelectual e artística respondia ademais aos efeitos particulares da querela iconoclasta, que não foi um simples debate teológico entre iconoclastas e iconódulos, senão um confronto interno desatado pelo patriarcado de Constantinopla, apoiado pelo imperador León III, que pretendia acabar com a concentração de poder e influência política e religiosa dos poderosos monasterios e seus apoios territoriais (pode se imaginar sua importância vendo como tem sobrevivido até a actualidade o Monte Athos, fundado mais de um século depois, em 963 ).
A recuperação da autoridade imperial e a maior estabilidade dos séculos seguintes trouxe consigo também um processo de helenización , isto é, de recuperação da identidade grega em frente à oficial entidade romana das instituições, coisa mais possível então, dada a limitação e homogeneización geográfica produzida pela perda das províncias, e que permitia uma organização territorial militarizada e mais facilmente gestionable: os temas (themata) com a adscripción à terra dos militares neles estabelecidos, o que produziu formas similares ao feudalismo ocidental.
O período entre 867 e 1056, baixo a dinastía macedonia, conhece-se com o nome de Renacimiento Macedónico, em que Bizancio volta a ser uma potência mediterránea e se projecta para os povos eslavos dos Balcanes e para o norte do Mar Negro. Basilio II Bulgaróctono que ocupou o trono no período 976-1025 levou ao Império a sua máxima extensão territorial desde a invasão muçulmana, ocupando parte da Síria, Crimea e os Balcanes até o Danubio. A evangelización de Cirilo e Metodio obterá uma esfera de influência bizantina na Europa Oriental que cultural e religiosamente terá uma grande projecção futura mediante a difusão do alfabeto cirílico (adaptação do alfabeto grego para a representação dos fonemas eslavos, que se segue utilizando na actualidade); bem como a do cristianismo ortodoxo (predominante desde Sérvia até Rússia).
No entanto, a segunda metade do século XI presenciará um novo desafio islâmico, desta vez protagonizado pelos turcos selyúcidas e a intervenção do Papado e dos europeus ocidentais, mediante a intervenção militar das Cruzadas, a actividade comercial dos mercaderes italianos (genoveses, amalfitanos, pisanos e sobretudo venecianos)[30] e as polémicas teológicas do denominado Cisma de Oriente ou Grande Cisma de Oriente e Occidente, com o que a teórica ajuda cristã se demonstrou tão negativa ou mais para o Império Oriental que a ameaça muçulmana. O processo de feudalización acentuou-se ao ver-se forçados os imperadores Comneno a realizar cessões territoriais (denominadas pronoia) à aristocracia e a membros sua própria família.[31]
No século VII, depois das predicaciones de Mahoma e as conquistas dos primeiros califas (ao mesmo tempo líderes políticos e religiosos, em uma religião -o Islão- que não reconhece distinções entre laicos e clérigos), se tinha produzido a unificação de Arabia e a conquista do Império persa e de boa parte do Império bizantino. No século VIII chegou-se à Península Ibéria, a Índia e a Ásia Central (batalha do Devastas -751- vitória islâmica ante Chinesa depois da que não se aprofundou nesse Império, mas que permitiu um maior contacto com sua civilização, aproveitando os conhecimentos dos prisioneiros). No ocidente a expansão muçulmana freou-se desde a batalha de Poitiers (732) ante os francos e a mitificada batalha de Covadonga ante os asturianos (722). A presença dos muçulmanos como uma civilização rival alternativa assentada na metade sul da cuenca do Mediterráneo, cujo tráfico marítimo passam a controlar, obrigou ao fechamento em si mesma da Europa Ocidental por vários séculos, e para alguns historiadores significou o verdadeiro começo da Idade Média.[32]
Desde o século VIII produziu-se uma difusão mais lenta da civilização islâmica por lugares tão longínquos como Indonésia e o continente africano, e desde o século XIV por Anatolia e os Balcanes. As relações com a Índia foram também muito estreitas durante o resto da Idade Média (ainda que a imposição do império mogol não se produziu até o século XVI), enquanto o Oceano Índico se converteu quase em um Mare Nostrum árabe, onde se ambientaron as aventuras de Simbad o marinho (um dos contos das mil e umas noites da época de Harún a o-Rashid).[33] O tráfico comercial das rotas marítimas e caravaneras uniam o Índico com o Mediterráneo através do Mar Vermelho ou o Golfo Pérsico e as caravanas do deserto. Essa chamada rota das especiarias (prefigurada pela rota do incienso na Idade Antiga) foi essencial para que chegassem a ocidente retazos da ciência e a cultura de Extremo Oriente. Pelo norte, a rota da seda cumpriu a mesma função atravessando os desertos e as cordilleras do Turquestán. O ajedrez, a numeração indo-arábiga e o conceito de zero , bem como algumas obras literárias (Calila e Dimna) estiveram entre contribua-los indianas e persas. O papel, o gravado ou a pólvora, entre as chinesas. A função dos árabes, e dos persas, sírios, egípcios e espanhóis arabizados (não só islâmicos, pois teve muitos que mantiveram sua religião cristã ou judia -não tanto a zoroastriana-) distó muito de ser mera transmissão, como testemunha a influência da reinterpretación da filosofia clássica que chegou através dos textos árabes a Europa Ocidental a partir das traduções latinas desde o século XII, e a difusão de cultivos e técnicas agrícolas pela região mediterránea. Em um momento em que estavam praticamente ausentes da economia européia, destacaram as práticas comerciais e a circulação monetária no mundo islâmico, animadas pela exploração de minas de ouro tão longínquas como as da África subsaariana, junto com outro tipo de actividades, como o tráfico de escravos.
A unidade inicial do mundo islâmico, que se tinha questionado já no aspecto religioso com a separação de suníes e chiíes, se rompeu também no político com a substituição dos Omeyas pelos Abbasíes à frente do califato no 749, que ademais substituíram Damasco por Bagdá como capital. Abderramán I, o último sobrevivente Omeya, conseguiu fundar em Córdoba um emirato independente para A o-Ándalus (nome árabe da Península Ibéria), que seu descendente Abderramán III converteu em um califato alternativo no 929. Pouco dantes, no 909 os Fatimíes tinham feito o próprio no Egipto. A partir do século XI produzem-se mudanças muito importantes: o desafio à hegemonía árabe como etnia dominante dentro do Islão a cargo dos islamizados turcos, que passarão a controlar diferentes zonas do Médio Oriente (mamelucos, otomanos), ou de curdos como Saladino; a irrupción dos cristãos latinos em três pontos finque do Mediterráneo (reinos cristãos da Reconquista na o Ándalus, normandos no sul da Itália e cruzados na Síria e Palestiniana); e a dos mongoles desde o centro da Ásia.
Para o século VIII, a situação política européia tinha-se estabilizado. Em oriente, o Império bizantino era forte outra vez, graças a uma série de imperadores competentes. Em ocidente, alguns reinos asseguravam relativa estabilidade a várias regiões: Northumbria a Inglaterra, Visigotia a Espanha, Lombardía a Itália, e o Reino Franco à Galia. Em realidade, o "reino franco" era um composto de três reinos: Austrasia, Neustria e Aquitania.
O Império carolingio surge das bases criadas pelos predecessores de Carlomagno desde princípios do século VIII (Carlos Martel e Pipino o Breve). A projecção de suas fronteiras através de uma grande parte da Europa Ocidental permitiu a Carlos a aspiração de reconstruir a extensão do antigo Império romano Ocidental, sendo a primeira entidade política da Idade Média que esteve em condições de converter em uma potência continental. Aquisgrán (Aachen em alemão, Aix-a Chapelle em francês) foi eleita como capital, em uma situação central e suficientemente afastada da Itália, que apesar de ser liberta do domínio dos longobardos e das teóricas reivindicações bizantinas, conservou uma grande autonomia que chegava à soberania temporária com a cessão de uns incipientes estados papales (o Patrimonium Petri ou Património de San Pedro, que incluía Roma e boa parte do centro da Itália). Como resultado da estreita vinculação entre o pontificado e a dinastía carolingia, que se legitimaban e defendiam mutuamente já por três gerações, o papa León III reconheceu as pretensões imperiais de Carlomagno com uma coronación em estranhas circunstâncias, no dia de Navidad do ano 800.
Criaram-se as marcas para fixar as fronteiras ante os inimigos exteriores (árabes na Marca Hispânica, sajones na Marca Sajona, bretones na Marca Bretona, lombardos -até sua derrota- na Marca Lombarda e ávaros na Marca Ávara; posteriormente também se criou uma para os magiares: a Marca do Friuli). O território interior foi organizado em condados e ducados (união de vários condados ou marcas). Os servidores públicos que os dirigiam (condes, marqueses e duques) eram vigiados por inspectores temporários (os missi dominici -enviados do senhor-), e se tentava que não se herdassem para evitar que ficassem patrimonializados em uma família (coisa, que com o tempo, não pôde se evitar). A consignación de terras junto com os cargos, pretendia sobretudo a manutenção da cara caballería pesada e os novos cavalos de batalha (destreros, introduzidos desde Ásia no século VII, que se empregavam de uma maneira completamente diferente à caballería antiga, com estribos, aparatosas cadeiras e que podiam sustentar armaduras).[35] Tal processo esteve na origem do nascimento dos feudos que tinha que ceder à cada militar de acordo com sua faixa, até a unidade básica: o caballero que exercia de senhor sobre um território, ficava para sua manutenção com uma reserva señorial e deixava os mansos para seus servos, que estavam obrigados a cultivar a reserva com prestações gratuitas de trabalho a mudança da protecção militar e a manutenção da ordem e a justiça, que eram as funções do senhor. Logicamente, os feudos em seus diferentes níveis sofreram a mesma transformação patrimonial que marcas e condados, estabelecendo uma rede piramidal de fidelidades que é a origem do vasallaje feudal.
Carlomagno negociou de igual a igual com outras grandes potências da época, como o Império bizantino, o Emirato de Córdoba, e o Califato Abasida. Ainda que ele mesmo, já em idade adulta, não sabia escrever (coisa habitual na época, em que unicamente alguns clérigos o faziam), Carlomagno seguiu uma política de prestígio cultural e um notável programa artístico. Pretendeu rodear de uma corte de sábios e iniciar um programa educativo baseado no trivium e o quadrivium, para o que mandou chamar à intelectualidad de seu tempo a seus domínios impulsionando, com a colaboração de Alcuino de York, o chamado Renacimiento carolingio. Dentro deste empenho educativo ordenou a seus nobres aprender a escrever, coisa que ele mesmo tentou, ainda que nunca conseguiu o fazer com soltura.[36]
Morto Carlomagno em 814 , toma o poder seu filho Ludovico Pío. Os filhos deste: Carlos o Calvo (França ocidental), Luis o Germánico (França oriental) e Lotario I (primogénito e herdeiro do título imperial), enfrentaram-se militarmente disputando-se os diferentes territórios do império, que, para além das alianças aristocráticas, manifestavam diferentes personalidades, interpretables desde uma perspectiva protonacional (idiomas diferentes -para o sul e oeste se impunham as línguas romances que se começavam a diferenciar do latín vulgar, para o norte e este as línguas germánicas, como testemunhavam os prévios Juramentos de Estrasburgo-, costumes, tradições e instituições próprias -romanas para o sul, germanas para o norte-). Esta situação não concluiu nem sequer no 843 depois do Tratado de Verdún, já que a posterior divisão do reino de Lotario entre seus filhos (a Lotaringia, faixa central desde os Países Baixos até Itália, passando pela região do Rin, Borgoña e Provenza) levou aos tios destes -Carlos e Luis-, a outra partilha (o Tratado de Mersen -870) que simplificava as fronteiras (deixando unicamente Itália e Provenza em mãos de seu sobrinho o imperador Luis II o Jovem -cujo cargo não supunha mais primacía que a honorífica-), mas não conduziu a uma maior concentração de poder em mãos desses monarcas, débis e em mãos da nobreza territorial. Em algumas regiões, o pacto não era mais que uma entelequia, já que a costa do Mar do Norte estava ocupada pelos vikingos. Inclusive nas zonas teoricamente controladas, as posteriores heranças e lutas internas entre os sucessivos reis e imperadores carolingios subdividieron e reunificaron os territórios de maneira quase aleatória.
A divisão, somada ao processo institucional de descentralización inherente ao sistema feudal, em ausência de fortes poderes centrais, e ao debilitamiento preexistente das estruturas sociais e económicas, fez que a seguinte onda de invasões bárbaras, sobretudo as protagonizadas por magiares e vikingos, sumissem de novo a Europa Ocidental no caos de uma nova idade escura.
Carlos o Calvo, rei da França Ocidental. |
Apogeo do Império carolingio para 814. |
Divisões do Império nos tratados de Verdún e Meersen. |
Europa em torno do 998. |
O falhanço do projecto político centralizador de Carlomagno levou, em ausência desse contrapeso, à formação de de um sistema político, económico e social que os historiadores têm convindo em chamar feudalismo, ainda que em realidade o nome nasceu como um peyorativo para designar do Antigo Regime por parte de seus críticos ilustrados. A Revolução francesa suprimiu solenemente "todos os direitos feudales" na noite do 4 de agosto de 1789 e "definitivamente o regime feudal", com o decreto do 11 de agosto.
A generalização do termo permite a muitos historiadores aplicar às formações sociais de todo o território europeu ocidental, pertencessem ou não ao Império carolingio. Os partidários de um uso restringido, argumentando a necessidade de não confundir conceitos como feudo, villae, tenure, ou senhorio o limitam tanto em espaço (França, Oeste da Alemanha e Norte da Itália) como no tempo: um "primeiro feudalismo" ou "feudalismo carolingio" desde o século VIII até o ano 1000 e um "feudalismo clássico" desde o ano 1000 até o 1240, a sua vez dividido em duas épocas, a primeira, até o 1160 (a mais descentralizada, em que a cada senhor de castelo podia se considerar independente, e se produz o processo denominado incastellamento); e a segunda, a própria da "monarquia feudal"). Teria inclusive "feudalismos de importação": a Inglaterra normanda desde 1066 e os estados latinos de oriente criados durante as Cruzadas (séculos XII e XIII).[37]
Outros preferem falar de regime" ou "sistema feudal", para o diferenciar subtilmente do feudalismo estrito, ou de síntese feudal, para marcar o facto de que sobrevivem nela rasgos da antigüedad clássica misturados com contribuições germánicas, implicando tanto a instituições como a elementos produtivos, e significou a especificidad do feudalismo europeu ocidental como formação económico social em frente a outras também feudales, com consequências trascendentales no futuro devir histórico.[38] Mais dificuldades há para o uso do termo quando nos afastamos mais: Europa Oriental experimenta um processo de "feudalización" desde finais da Idade Média, justo quando em muitas zonas da Europa Ocidental os camponeses se libertam das formas jurídicas da servidão, de maneira que costuma se falar do feudalismo polaco ou russo. O Antigo Regime na Europa, o Islão medieval ou o Império bizantino foram sociedades urbanas e comerciais, e com um grau de centralización política variável, ainda que a exploração do campo realizava-se com relações sociais de produção muito similares ao feudalismo medieval. Os historiadores que aplicam a metodología do materialismo histórico (Marx definiu o modo de produção feudal como o estádio intermediário entre o esclavista e o capitalista) não duvidam em falar de economia feudal" para se referir a ela, ainda que também reconhecem a necessidade de não aplicar o termo a qualquer formação social preindustrial não esclavista, já que ao longo da história e da geografia têm existido outros modos de produção também previstos na renderização marxista, como o modo de produção primitivo das sociedades pouco evoluídas, homogéneas e com escassa divisão social -como as dos mesmos povos germánicos previamente às invasões- e o modo de produção asiático ou despotismo hidráulico -Egipto faraónico, reinos da Índia ou Império chinês- caracterizado pela tributación das aldeias camponesas a um estado muito centralizado.[39] Em lugares ainda mais longínquos se chegou a utilizar o termo feudalismo para descrever uma época. É o caso do Japão e o denominado feudalismo japonês, dadas as innegables similitudes e paralelismos que a nobreza feudal européia e seu mundo tem com os samuráis e o seu. Também se chegou a aplicar à situação histórica dos períodos intermediários da história do Egipto, nos que, seguindo um ritmo cíclico milenario, decae o poder central e a vida nas cidades, a anarquía militar rompe a unidade das terras do Nilo, e os templos e senhores locais que atingem a controlar um espaço de poder governam nele de maneira independente sobre os camponeses obrigados ao trabalho.
Duas instituições eram chaves para o feudalismo: por um lado o vasallaje como relação jurídico-política entre senhor e vassalo, um contrato sinalagmático (isto é, entre iguais, com requisitos por ambas partes) entre senhores e vassalos (ambos homens livres, ambos guerreiros, ambos nobres), consistente no intercâmbio de apoios e fidelidades mútuas (dotação de cargos, honras e terras -o feudo- pelo senhor ao vassalo e compromisso de auxilium et consilium -auxilio ou apoio militar e conselho ou apoio político-), que se não se cumpria ou se rompia por qualquer das duas partes dava lugar à felonía, e cuja hierarquia se complicava de forma piramidal (o vassalo era a sua vez senhor de vassalos); e por outro lado o feudo como unidade económica e de relações sociais de produção, entre o senhor do feudo e seus servos, não um contrato igualitario, senão uma imposição violenta justificada ideológicamente como um do ut dês de protecção a mudança de trabalho e sumisión.
Por tanto, a realidade que se enuncia como relações feudo-vasalláticas é realmente um termo que inclui dois tipos de relação social de natureza completamente diferente, ainda que os termos que as designam se empregavam na época (e se seguem empregando) de maneira equívoca e com grande confusão terminológica entre eles:
O vasallaje era um pacto entre dois membros da nobreza de diferente categoria. O caballero de menor faixa convertia-se em vassalo (vassus) do nobre mais poderoso, que se convertia em seu senhor (dominus) por médio da Homenagem e Investidura, em uma cerimónia ritualizada que tinha lugar na torre da homenagem do castelo do senhor. A homenagem (homage) -do vassalo ao senhor- consistia na postración ou humillación -habitualmente de joelhos-, o osculum (beijo), a inmixtio manum -as mãos do vassalo, unidas em posição orante, eram acolhidas entre as do senhor-, e alguma frase que reconhecesse se ter convertido em seu homem. Depois da homenagem produzia-se a investidura -do senhor ao vassalo-, que representava a entrega de um feudo (dependendo da categoria de vassalo e senhor, podia ser um condado, um ducado, uma marca, um castelo, uma população, ou um simples salário; ou inclusive um monasterio se o vasallaje era eclesiástico) através de um símbolo do território ou da alimentação que o senhor deve ao vassalo -um pouco de terra, de erva ou de grão- e do espaldarazo, no que o vassalo recebe uma espada (e uns golpes com ela nos ombros), ou bem um báculo se era religioso.
Encomenda-a , encomendación ou patrocinio (patrocinium, commendatio, ainda que era habitual utilizar o termo commendatio para o acto da homenagem ou inclusive para toda a instituição do vasallaje) eram pactos teóricos entre os camponeses e o senhor feudal, que podiam também ritualizarse em uma cerimónia ou -mais raramente- dar lugar a um documento. O senhor acolhia aos camponeses em seu feudo, que se organizava em uma reserva señorial que os servos deviam trabalhar obrigatoriamente (sernas ou corveas) e no conjunto das pequenas explorações familiares (mansos) que se atribuíam aos camponeses para que pudessem subsistir. Obrigação do senhor era proteger-lhes se eram atacados, e manter a ordem e a justiça no feudo. A mudança, o camponês convertia-se em seu servo e passava à dupla jurisdição do senhor feudal: nos termos utilizados na península Ibéria na Baixa Idade Média, o senhorio territorial, que obrigava ao camponês a pagar rendas ao nobre pelo uso da terra; e o senhorio jurisdiccional, que convertia ao senhor feudal em governante e juiz do território no que vivia o camponês, pelo que obtinha rendas feudales de muito diferente origem (impostos, multas, monopólios, etc.). A distinção entre propriedade e jurisdição não era no feudalismo algo claro, pois de facto o mesmo conceito de propriedade era confuso, e a jurisdição, outorgada pelo rei como graça, punha ao senhor em disposição de obter suas rendas. Não existiram senhorios jurisdiccionales nos que a totalidade das parcelas pertencessem como propriedade ao senhor, sendo muito generalizadas diferentes formas de alodio nos camponeses. Em momentos posteriores de despoblamiento e refeudalización, como a crise do século XVII, alguns nobres tentavam que se considerasse despoblado completamente de camponeses um senhorio para se libertar de todo o tipo de restrições e o converter em coto redondo reconvertible para outro uso, como o ganadero.[40]
Junto com o feudo, o vassalo recebe os servos que há nele, não como propriedade esclavista, mas também não em regime de liberdade; já que sua condição servil impede-lhes abandoná-lo e obriga-lhes a trabalhar. As obrigações do senhor do feudo incluem a manutenção da ordem, ou seja, a jurisdição civil e criminosa (mero e misto império na terminología jurídica reintroducida com o Direito Romano na Baixa Idade Média), o que dava ainda maiores oportunidades para obter o excedente produtivo que os camponeses pudessem obter após as obrigações de trabalho -corveas ou sernas na reserva señorial- ou do pagamento de renda -em espécie ou em dinheiro, de circulação muito escassa na Alta Idade Média, mas mais generalizada nos últimos séculos medievales, segundo foi dinamizándose a economia-. Como monopólio señorial costumavam ficar a exploração dos bosques e a caça, os caminhos e pontes, os molinos, as tabernas e lojas. Todo isso eram mais oportunidades de obter mais renda feudal, incluídos direitos tradicionais, como o ius prime noctis ou direito de pernada, que se converteu em um imposto por casais, boa mostra de que é no excedente de onde se extrai a renda feudal de maneira extraeconómica (neste caso na demonstração de que uma comunidade camponesa cresce e prospera).
Com o tempo, seguindo a tendência marcada desde o Baixo Império romano, que se consolidou na época clássica do feudalismo e que pervivió durante todo o Antigo Regime, se foi conformando uma sociedade organizada de maneira estamental, nos chamados estamentos ou ordines (ordens): nobreza, clero e povo plano (ou terceiro estado): bellatores, oratores e laboratores os homens que guerrean, os que rezam e os que trabalham, segundo o vocabulario da época. Os dois primeiros são privilegiados, isto é, não se lhes aplica a lei comum, senão um fuero próprio (por exemplo, têm diferentes penas para o mesmo delito, e sua forma de execução é diferente) e não podem trabalhar (lhes estão proibidos os oficios viles e mecânicos), já que essa é a condição de não privilegiados. Em época medieval, as ordens feudales não eram estamentos fechados e bloqueados, senão que mantinham uma permeabilidad que permitia em casos extraordinários a ascensão social devido ao mérito (por exemplo, à demonstração de um excepcional valor), que eram tão escassos que não se viviam como uma ameaça, coisa que sim ocorreu a partir das grandes convulsões sociais dos séculos finais da Baixa Idade Média, em que os privilegiados se viram obrigados a institucionalizar sua posição tentando fechar o acesso a seus estamentos dos não privilegiados (no que também não tiveram uma eficácia total). Completamente impropia seria a comparação com a sociedade de castas da Índia, em que guerreiros, sacerdotes, comerciantes, camponeses e parias pertenciam a castas diferentes entendidas como linhagens desligadas cuja mistura se proibia.
As funções das ordens feudales estavam fixadas ideológicamente pelo agustinismo político (Civitate Dei -426-), em busca de uma sociedade que, ainda que como terrena não podia deixar de ser corrupta e imperfecta, podia aspirar a ser ao menos uma sombra da imagem de uma "Cidade de Deus" perfeita de raízes platónicas[41] em que todos tivessem um papel em sua protecção, sua salvação e sua manutenção. Esta ideia foi reformulada e perfilada ao longo da Idade Média, sucessivamente por autores como Isidoro de Sevilla (630), a escola de Auxerre (Haimón de Auxerre -865- na abadia borgoñona na que trabalhavam Erico de Auxerre e seu discípulo Remigio de Auxerre, que seguiam a tradição de Escoto Eriúgena), Boecio (892), Wulfstan de York (1010), Gerardo de Cambrai (1024) ou Adalberón de Laon; e utilizada em textos legislativos como a chamada Compilação de Huesca dos Fueros de Aragón (Jaime I), e o Código das Sete Partidas (Alfonso X o Sabio, 1265).[42]
Os bellatores ou guerreiros eram a nobreza, cuja função era a protecção física, a defesa de todos ante as agressões e injustiças. Estava organizada piramidalmente desde o imperador, passando pelos reis e descendo sem solução de continuidade até o último escudero, ainda que atendendo a sua faixa, poder e riqueza pode classificar-se em duas partes diferenciadas: alta nobreza (marqueses, condes e duques) cujos feudos têm o tamanho de regiões e províncias (ainda que a maior parte das vezes não em continuidade territorial, senão repartido e difuso, cheio de enclaves e exclaves); e a baixa nobreza ou caballeros (barones, infanzones), cujos feudos são do tamanho de pequenas comarcas (a escala municipal ou inferior à municipal), ou directamente não possuem feudos territoriais, vivendo nos castelos de senhores mais importantes, ou em cidades ou populações nas que não exercem jurisdição (ainda que sim podem exercer sua regimiento, isto é, participar em seu governo municipal em representação do estado nobre). No final da Idade Média e na Idade Moderna, quando a nobreza já não exercia sua função militar, como era o caso dos hidalgos espanhóis, que alegavam seus privilégios estamentales para evitar o pagamento de impostos e obter alguma vantagem social, alardeando de ejecutoria ou de blasón e casa solariega, mas que ao não dispor de rendas feudales suficientes para manter a maneira de vida nobiliaria, corriam o perigo de perder sua condição por contrair um casal desigual ou se ganhar a vida trabalhando:
e a linhagem e a nobreza
tão crescida,
por quantas vias e modos
se perde seu grand alteza
nesta vida!
Uns, por pouco valer,
por cuán baxos e abatidos
que os têm;
outros que, por non ter,
Além da legitimación religiosa, através da cultura e a arte laicos (a épica de cantare-los de gesta e a lírica do amor cortês dos trovadores provenzales) difundia-se socialmente a legitimación ideológica da forma de vida, a função social e os valores da nobreza.[44]
Os oratores ou clérigos eram o clero, cuja função era facilitar a salvação espiritual das almas imortais: alguns formavam uma elite poderosa telefonema alto clero (abades, bispos), e outros mais humildes, o baixo clero (curas de povo ou os irmãos legos de um monasterio). A extensão e organização do monacato benedictino através da Ordem de Cluny, estreitamente vinculado à organização da rede episcopal centralizada e jerarquizada, com cúspide no Papa de Roma, estabeleceu a dupla pirâmide feudal do clero secular, destinado à administração os de sacramentos (que controlavam toda a trajectória vital da população, desde o nascimento até morte); e o clero regular, apartado do mundo e submetido a uma regra monástica (habitualmente a regra benedictina). Os três votos monásticos do clero regular: pobreza, obediência e castidade; bem como o celibato eclesiástico que se foi impondo ao clero secular, funcionaram como um eficaz mecanismo de vinculação dos dois estamentos privilegiados: os filhos segundones da nobreza ingressavam no clero, onde eram mantidos sem estrecheces graças às numerosas fundações, doações, dotes e mandas testamentarias; mas não disputavam as heranças a seus irmãos, que podiam manter concentrado o património familiar. As terras da Igreja ficavam como mãos morridas, cuja função era a de garantir as missas e orações previstas pelos donadores, de modo que os filhos rezavam pelas almas dos pais. Todo o sistema garantia a manutenção do prestígio social dos privilegiados, assistindo a missa em lugares destacados enquanto viviam e enterrados em lugares preeminentes de igrejas e catedrais quando morriam.[45] Não faltaram os confrontos: a evidência de simonía e nicolaísmo (nomeações de cargos eclesiásticos interferidos pelas autoridades civis ou seu pura compra) e a utilização da principal ameaça religiosa ao poder temporário, equivalente a uma morte civil: a excomunión. O Papa atribuía-se inclusive a autoridade de eximir ao vassalo da fidelidade devida a seu senhor e reivindicá-la para si mesmo, o que foi utilizado em várias ocasiões para a fundação de reinos que passavam a ser vassalos do Papa (por exemplo, a independência que Afonso Henriques obteve para o condado convertido em reino de Portugal em frente ao reino de León).
Os laboratores ou trabalhadores, eram o povo plano, cuja função era a manutenção dos corpos, a função ideológicamente mais baixa e humilde -humiliores eram os próximos ao humus, a terra, enquanto seus superiores eram honestiores, os que podiam manter a honra ou honra-.[46] Necessariamente os mais numerosos, e a imensa maioria deles dedicados a tarefas agrícolas, dado a bajísima produtividade e rendimento agrícola, próprios da época preindustrial e do muito escasso nível técnico (daí a identificação em castelhano de laborator com labrador). Pelo comum estavam submetidos aos outros estamentos. O povo plano estava composto em sua grande maioria por camponeses , servos dos senhores feudales ou camponeses livres (villanos), e por artesãos , que eram escassos e viviam, bem nas aldeias (aqueles de menor especialização, que costumavam compartilhar as tarefas agrícolas: ferreiros, talabarteros, alfareros, sastres) ou nas poucas e pequenas cidades (os de maior especialização e de produtos de necessidade menos apremiante ou de demandada das classes altas: joyeros, orfebres, cereros, toneleros, tejedores, tintoreros). A autosuficiencia dos feudos e os monasterios limitava seu mercado e capacidade de crescer. Os oficios da construção (cantería, albañilería, carpintería) e a mesma profissão de maestro de obras ou arquitecto são uma notável excepção: obrigados pela natureza de seu trabalho à deslocação ao lugar onde se constrói o edifício, se transformaram em um grémio nómada que se deslocava pelos caminhos europeus se comunicando novidades técnicas ou ornamentales transformadas em segredos de oficio, o que está na origem de sua longínqua e mitificada vinculação com a sociedade secreta da masonería, que desde sua origem os considerou como os primitivos masones.[47]
As zonas sem dependência intermediária de senhores nobres ou eclesiásticos denominavam-se realengo e costumavam prosperar mais, ou ao menos costumavam considerar como uma desgraça o passar a depender de um senhor, até o ponto de que em algumas ocasiões conseguiam o evitar com pagamentos ao rei, ou se incentivava a repoblación de zonas fronteiriças ou despobladas (como ocorreu no reino astur-leonés com a despoblada Meseta do Duero) onde podiam aparecer figuras mistas, como o caballero villano (que podia manter com sua própria exploração ao menos um cavalo de guerra e se armar e se defender a si mesmo) ou as behetrías, que elegiam a seu próprio senhor e podiam mudar de um ou a outro se lhes convinha, ou com a oferta de um fuero ou carta povoa que outorgava a uma população seu próprio senhorio colectivo. Os privilégios iniciais não foram suficientes para impedir que com o tempo a maior parte deles caíssem na feudalización.
As três ordens feudales não eram na Idade Média ainda uns estamentos fechados: eram consequência básica da estrutura social que se tinha ido criando lenta mas inexoravelmente com a transição do esclavismo ao feudalismo desde a crise do século III (ruralización e formação de latifundios e villae, reformas de Diocleciano , descomposição do Império romano, as invasões, o estabelecimento dos reinos germánicos, instituições do Império carolingio, descomposição deste e nova onda de invasões). Os senhores feudales eram continuação das linhas clientelares dos condes carolingios, e alguns podem se remontar aos latifundistas romanos ou os séquitos germanos, enquanto o campesinado provia dos antigos escravos ou colonos, ou de camponeses livres que se viram forçados a se encomendar, recebendo às vezes uma parte de suas antigas terras próprias em forma de manso "concedido" pelo senhor. O camponês herdava sua condição servil e sua fixação à terra, e rara vez tinha oportunidade de ascender de nível como não fora por sua fuga a uma cidade ou por um facto ainda mais extraordinário: seu ennoblecimiento por um destacado facto de armas ou serviço ao rei, que em condições normais lhe estavam completamente vedados. O mesmo pode dizer do artesão ou o mercader (que em alguns casos podia acumular fortuna, mas não alterar sua origem humilde). O nobre o era geralmente por herança, ainda que em ocasiões podia alguém ennoblecerse como soldado de fortuna, após uma vitoriosa carreira de armas (como foi o caso, por exemplo, de Roberto Guiscardo). O clero, por sua vez, era recrutado por cooptación , com um acesso diferente segundo a origem social: assegurado para os segundones das casas nobres e restringido aos níveis inferiores do baixo clero para os do povo plano; mas em casos particulares ou destacados, a ascensão na hierarquia eclesiástica estava aberto ao mérito intelectual. Tudo isto lhe dava ao sistema feudal uma extraordinária estabilidade, em onde tinha "um lugar para a cada homem, e a cada homem em seu lugar", ao mesmo tempo em que uma extraordinária flexibilidade, porque permitia ao poder político e económico atomizarse através de toda a Europa, desde Espanha até Polónia.
O legendario ano mil, final do primeiro milénio, que se utiliza convencionalmente para o passo da Alta à Baixa Idade Média, em realidade tão só é uma cifra redonda para o cómputo da era cristã, que não era de universal utilização: os muçulmanos utilizavam seu próprio calendário islâmico lunar que começa na Hégira (622); em algumas partes da Cristiandad utilizavam-se eras locais (como a era hispânica, que conta desde o 38 a. C.). Mas certamente, o milenarismo e os prognósticos do final dos tempos estavam presentes; inclusive o próprio papa durante a mudança de milénio Silvestre II, o francês Gerberto de Aurillac, interessado em todo o tipo de conhecimentos, ganhou-se uma reputação esotérica.[48] A astrología sempre pôde encontrar fenómenos celestes extraordinários nos que apoiar seu prestígio (como os eclipses), mas certamente outros eventos da época estiveram entre os mais espectaculares da história: o cometa Halley, que se acerca à Terra periodicamente a cada oito décadas, atingiu sua brilho máximo na visita de 837,[49] despediu no primeiro milénio em 989 e chegou a tempo da batalha de Hastings em 1066; bem mais visíveis ainda, as supernovas SN 1006 e SN 1054, que recebem o número do ano em que se registaram, foram mais detalhadamente refletidas em fontes chinesas, árabes e inclusive indoamericanas que nas escassas européias (apesar de que a de 1054 coincidiu com a batalha de Atapuerca).
Todo o século X, mais bem pelas condições reais que pelas imaginarias, pode se considerar parte de uma época escura, pessimista, insegura e presidida pelo medo a todo o tipo de perigos, reais e imaginarios, naturais e sobrenaturales: medo ao mar, medo ao bosque, medo às bruxas e os demónios e a todo o que, sem entrar dentro do sobrenatural cristão, ficava relegado ao inexplicable e ao conceito do maravilhoso, atribuído a seres de dudosa ou quiçá possível existência (dragões, duendes, hadas, unicornios). O facto não tinha nada de único: mil anos mais tarde, no século XX fez nascer medos comparáveis: ao holocausto nuclear, à mudança climática (versões contemporâneas do fim do mundo); ao comunismo (a caça de bruxas com a que se identificou ao macarthismo), à liberdade (Medo à Liberdade é a base do fascismo na interpretação de Erich Fromm), comparação que tem sido posta de manifesto pelos historiadores[50] e interpretada pelos sociólogos (Sociedade do risco de Ulrich Beck).
Na coyuntura histórica do ano mil, as estruturas políticas mais fortes do período anterior estavam a demonstrar-se muito débis: o Islão decompôs-se em califatos (Bagdá, O Cairo e Córdoba), que para o ano 1000 se estavam a demonstrar incapazes de conter aos reinos cristãos na península Ibéria (fracasso final de Almanzor ) e ao Império bizantino no Mediterráneo Oriental. Também sofre a expansão bizantina o Império Búlgaro, que fica destruído. Os particularismos nacionais francês, polaco e húngaro desenham fronteiras protonacionales que, curiosamente, são muito similares às do ano 2000. Em mudança, o Império carolingio tinha-se dissolvido em principados feudales ingobernables, que os Otónidas se propunham incluir em uma segunda Restauratio Imperii (Otón I, no 962), desta vez sobre bases germanas.[52]
| Nel mezzo do cammin dei nostra vita meu ritrovai per uma selva escura chè a diritta via era smarrita. | No médio do caminho de nossa vida encontrava-me em um bosque escuro porque o recto caminho tinha extraviado. |
Os medos e a insegurança não acabaram com o ano mil, nem também não teve que esperar para voltar aos encontrar à terrível Peste Negra e aos flagelantes do século XIV. Inclusive no óptimo medieval do expansivo século XIII o mais habitual era encontrar textos como o de Dante, ou como estes:
Este hino de autor desconhecido, atribuído a muito diversas personagens (o papa Gregorio -que pudesse ser Gregorio Magno, a quem também se atribui o canto gregoriano, ou outro dos desse nome-, ao fundador do Cister San Bernardo de Claraval, aos monges dominicos Umbertus e Frangipani e ao franciscano Tomás de Celano) e incorporado à liturgia da missa:
|
|
Mas também participa da mesma concepção pessimista do mundo este outro, proveniente de um ambiente totalmente oposto, recolhido em uma colecção de poemas goliardos (monges e estudantes de vida desordenada):[53]
O sobrenatural estava presente à vida quotidiana de todos como um constante lembrete da brevedad da vida e a inminencia da morte, cujo radical igualitarismo se aplicava, em contrapunto com a desigualdade das condições, como um cohesionador social, ao igual que a promessa da vida eterna. A imaginación excitava-se com as imagens mais morbosas do que ocorreria no julgamento final, os tormentos do inferno e dos méritos que os santos tinham obtido com sua vida ascética e seus martírios (que bem administrados pela Igreja podiam poupar as penas temporárias do purgatorio). Isto não só operava nos amedrentados iletrados que unicamente dispunham do evangelho em pedra das igrejas; a maior parte dos leitores cultos davam todo o crédito às cenas truculentas que enchiam os martirologios e às inverosímiles histórias da Lenda Áurea de Jacopo dá Vorágine.
O medo era inherente à violência estrutural permanente do feudalismo, que ainda que se encauzara por mecanismos aceitáveis socialmente e estabelecesse uma ordem estamental teoricamente perfeito, era uma permanente lembrança da possibilidade de subversión da ordem, periodicamente renovado com guerras, invasões e sublevaciones internas. Em particular, as sátiras contra o rústico eram manifestações da mistura de desprezo e desconfiança com que clérigos e nobres viam ao servo, reduzido a um monstro deforme, ignorante e violento, capaz das maiores atrocidades, sobretudo quando se agrupava.[54]
| A fúria rusticorum liberta nos, Domine | Da fúria dos camponeses, livra-nos Senhor. |
Mas ao mesmo tempo, sustentava-se, como parte essencial do edifício ideológico (era a justificativa da eleição papal) que a voz do povo era a voz de Deus (Vox populi, vox Dei). O espírito medieval devia assumir a contradição de impulsionar manifestações públicas de piedade e devoción e ao tempo permitir generosas concessões ao pecado. Os carnavais e outras paródias grotescas (a festa do asno ou o charivari) permitiam todo o tipo de licenças, inclusive a blasfemia e burla-a ao sagrado, investindo as hierarquias (elegiam-se reis dos tontos meninos bispos ou bispos da festa) fazendo triunfar todo o que o resto do ano estava proibido, era considerado feio, desagradable ou dava medo, como reacção saudável ao terror quotidiano ao para além e garantia de que, passados os excessos da festa, voltar-se-ia docilmente ao trabalho e a obediência. Seriedade e tristeza eram prerrogativas de quem praticava um sagrado optimismo (há que sofrer pois depois nos aguarda a vida eterna), enquanto o riso era a medicina do que vivia com pesimismo uma vida miserável e difícil.[56] Em frente ao maior rigorismo do cristianismo primitivo, os teólogos medievales especulavam sobre se Cristo riu ou não (a Epístola de Léntulo, um dos evangelhos apócrifos sustentava que não; enquanto alguns pais da igreja defendiam o direito a uma santa alegria), o que justificava textos cómicos eclesiásticos, como a Coena Cypriani e a Joca monachorum.[57]
A Baixa Idade Média é um termo que às vezes produz confusão, pois procede de um equívoco etimológico entre alemão e castelhano: baixa não significa decadente, senão recente; por oposição à alta da Alta Idade Média, que significa antiga (em alemão alt: velho, antigo). Não obstante, é verdadeiro que desde alguma perspectiva historiográfica pode ver ao conjunto do período medieval como o ciclo de nascimento, desenvolvimento, auge e inevitável queda de uma civilização, modelo interpretativo que iniciou Gibbon para o Império romano (onde é mais óbvia a oposição entre Alto Império e Baixo Império) e que se aplicou com maior ou menor fortuna a outros contextos históricos e artísticos.[58] Assim se entende que se atribua o nome de Plenitude da Idade Média ao período da História da Europa que ocupa nos séculos XI ao XIII. Essa Plena Idade Média terminaria na crise do século XIV ou crise da Idade Média, na que sim se podem apreciar processos decadentes, e é habitual a qualificar de ocaso ou outono. Não obstante, nos últimos séculos medievales estão cheios de factos e processos dinâmicos, com enormes repercussões e projecções no futuro, ainda que logicamente são os factos e processos que podem se entender como "novos", que prefiguran os novos tempos da modernidad. Ao mesmo tempo, os factos, processos, agentes sociais, instituições e valores caracterizados como medievales têm entrado claramente em decadência; sobrevivem, e sobreviverão por séculos, em boa medida graças a sua institucionalización (por exemplo, o fechamento dos estamentos privilegiados ou a adopção do mayorazgo), o que não deixa de ser um sintoma de que é então, e não dantes, que se considerou necessário os defender tanto.
A justificativa dessa denominação é o excepcional do desenvolvimento demográfico, económico, social e cultural da Europa que tem lugar nesse período, coincidente com um clima muito favorável (se falou do "óptimo medieval") que permitia cultivar vides na Inglaterra.
No simbólico ano mil (cujos terrores milenaristas são um mito historiográfico frequentemente exagerado) não significa nada por si mesmo, mas a partir de então se dá por terminada a Idade Escura das invasões da Alta Idade Média: húngaros e normandos estão já assentados e integrados na cristiandad latina. A Europa da Plena Idade Média é expansiva também no terreno militar: as cruzadas no Próximo Oriente, a dominación angevina de Sicília e o avanço dos reinos cristãos na península Ibéria (desaparecido o Califato de Córdoba) ameaçam com reduzir o espaço islâmico à ribera sul da cuenca do Mediterráneo e o interior da Ásia.
O modo de produção feudal desenvolve-se sem encontrar por enquanto limites a sua extensão (como ocorrerá com a crise do século XIV). A renda feudal distribui-se pelos senhores fosse do campo, onde se origina: as cidades e a burguesía crescem com o aumento da demanda de produtos artesanais e do comércio a longa distância, nascem e desenvolvem-se as feiras, as rotas comerciais terrestres e marítimas e instituições como a Hansa. Europa Central e Setentrional entram no coração da civilização Ocidental. O Império bizantino mantém-se entre o islão e os cruzados, estendida sua influência cultural pelos Balcanes e as estepas russas onde se resiste o empurre mongol.
A arte románico e o primeiro gótico são protegidos pelas ordens religiosas e o clero secular. Cluny e o Císter enchem a Europa de monasterios . O caminho de Santiago articula a península Ibéria com Europa. Nascem as Universidades (Bolonha, Sorbona, Oxford, Cambridge, Salamanca, Coímbra). A escolástica chega a sua cimeira com Tomás de Aquino, depois de receber a influência das traduções do árabe (averroísmo). O direito romano começa a influir nos reis que se vêem a si mesmos como imperadores em seu reino.
Os conflitos crescem simultaneamente que a sociedade: herejías, revoltas camponesas e urbanas, a selvagem repressão de todas elas e as não menos selvagens guerras feudales são constantes.
Longe de ser um sistema social anquilosado (o fechamento do acesso aos estamentos é um processo que se produz como reacção conservadora dos privilegiados, depois da crise final da Idade Média, já no Antigo Regime), o feudalismo medieval demonstrou suficiente flexibilidade como para permitir o desenvolvimento de dois processos, que se retroalimentaron mutuamente favorecendo uma rápida expansão. Por uma parte, o atribuir um lugar à cada pessoa dentro do sistema, permitiu a expulsión de todos aqueles para quem não tinha lugar, os enviando como colonos e aventureros militares a terras não ganhadas para a Cristiandad Ocidental, expandindo assim brutalmente seus limites. Pela outra, o assegurar uma verdadeira ordem e estabilidade social para o mundo agrário depois do fim do período das invasões; ainda que nem muito menos acabaram-se as guerras -consustanciales ao sistema feudal- o nível habitual de violência em períodos bélicos tendia a controlar-se pelas próprias instituições -código de honra, trégua de Deus, acogimiento a sagrado - e em períodos normais tendia a ritualizarse -desafios, duelos, rieptos, justas, torneios, passo honroso-, ainda que não desaparecia nem nas relações internacionais nem dentro dos reinos, com umas cidades que baseavam sua segurança e pax urbana em suas fortes muralhas, seus toques de recolher e seu expeditiva justiça, e uns inseguros campos nos que senhores de horca e faca impunham suas prerrogativas e inclusive abusavam delas (malhechores feudales), não sem encontrar a resistência antiseñorial dos servos,[59] às vezes mitificada (Robin Hood). A diferença do modo de produção esclavista (e do modo de produção capitalista), o modo de produção feudal punha no produtor -camponês- o interesse no aumento da produção, já que beneficiava-se directamente dele: se a colheita é má, não por isso não paga renda, se a colheita é boa, se beneficia dessa vantagem. É por isso que o sistema por si só estimula o trabalho e a incorporação do que a experiência demonstre como boas práticas agrícolas, inclusive a incorporação de novas técnicas que melhorem o rendimento da terra. Se o aumento da produção é permanente e não coyuntural (uma sozinha boa colheita por causas climáticas), quem começará a receber estímulos será o senhor feudal, que detectará esse aumento dos excedentes cuja extracção é a base de sua renda feudal (maior uso do molino, maior circulação pelos caminhos e pontes, maior consumo em lojas e tabernas; de todos os quais cobra impostos ou aspirará ao fazer), inclusive ver-se-á impulsionado a subir a renda. Quando o que ocorre é que os camponeses, empurrados pelo aumento de suas famílias, pressionam os limites dos mansos roturando terras dantes incultas (eriales, pastos, bosques, humedales desecables), o senhor poderá impor novas condições, e inclusive o impedir, porque fazem parte de sua reserva ou de seus usos monopolísticos (caça, alimento de seus cavalos).
Essa dinâmica luta de classes entre servos e senhores dinamizaba a economia e fazia possível o início de uma concentração de riquezas acumuladas a partir das rendas agrícolas; mas nunca de maneira comparável ao agregado de capital própria do capitalismo, pois não se fazia com elas investimento produtivo (como tivesse ocorrido de dispor os camponeses do uso do excedente), senão atesoramiento em mãos de nobreza e clero. Tal coisa, em última instância, através dos programas de construção (castelos, monasterios, igrejas, catedrais, palácios) e a despesa suntuario em produtos de luxo -cavalos, armas sofisticadas, jóias, obras de arte, teias de qualidade, tintes, sedas, tapices, especiarias- não pôde deixar de estimular o rudimentario comércio a longa distância, a circulação monetária e a vida urbana; em definitiva, o resurgimiento económico da Europa Ocidental. Ironicamente, ambos processos terminariam por minar as bases do feudalismo, e levar para sua destruição.[60] Não obstante, não há que imaginar que se produziu nada parecido à revolução agrícola prévia à revolução industrial: o facto de que nem camponeses nem senhores pudessem converter em capital o excedente (uns porque lho extraíam e outros porque sua posição social era incompatível com as actividades económicas) fazia lenta e cara qualquer inovação, além do facto de que qualquer inovação chocava com preconceitos ideológicos e uma mentalidade fortemente tradicionalista, ambas coisas próprias da sociedade preindustrial. Só em decorrência de séculos, e devido ao ensaio e erro do bom fazer artesanal de anónimos ferreiros e talabarteros sem nenhum tipo de conexão com a investigação científica, se produziu a incorporação de escassas mas decisivas melhoras técnicas como a collera (que possibilita o aprovechamiento eficaz da força dos cavalos de tiro, que começam a substituir aos bois) ou o arado de vertedera (que substitui ao arado romano nas terras húmidas e pesadas do norte da Europa, não assim nas secas e ligeiras do sul). O barbecho de ano e vez seguiu sendo o método de cultivo mais utilizado; a rotação de cultivos era desconhecida, o abonado era um recurso excepcional, dada a escassez de animais, cujo estiércol era o único abono disponível; o regadío estava limitado a algumas das zonas mediterráneas de cultura islâmica; se escatimaba a utilização de ferro em ferramentas e aperos de labranza, dado seu custo inasumible pelos camponeses; o nível técnico, em general, era precário. O molino de vento foi uma transferência tecnológica que, como tantas outras em outros campos (pólvora, papel, bússola, gravado), provia da Ásia. Ainda com seu alcance limitado, o conjunto de inovações e mudanças se concentrou especialmente em um período que alguns historiadores têm vindo em chamar o "Renacimiento" do século XII ou a Revolução do século XII, momento no que o dinamismo económico e social, a partir do motor principal, que é o campo, produz o acordar de um mundo urbano até então marginal na Europa Ocidental, e o surgimiento de fenómenos intelectuais como a universidade medieval e a escolástica.
Seguindo o precedente da organização carolingia das escolas palatinas, catedralicias e monásticas (devida a Alcuino de York -787-), mais que o de outras instituições semelhantes existentes no mundo islâmico,[61] as primeiras universidades da Europa cristã foram fundadas para o estudo do direito, a medicina e a teología. A parte central do ensino envolvia o estudo das artes preparatorias (denominadas artes liberais porquanto eram mentais ou espirituais e libertavam do trabalho manual próprio dos artesanatos, consideradas oficios viles e mecânicos); estas artes liberais eram o trivium (gramática, retórica e lógica) e o quadrivium (aritmética, geometria, música e astronomia). Depois, o aluno entrava em contacto com estudos mais específicos. Além de centros de ensino, eram também o lugar de investigação e produção do saber, e foco de vigorosos debates e polémicas, o que às vezes requereu inclusive as intervenções do poder civil e eclesiástico, apesar dos fueros dos que estavam dotadas e que as convertiam em instituições independentes, bem dotadas economicamente com uma base patrimonial de terras e edifícios. A transformação cultural gerada pelas universidades tem sido resumida deste modo: Em 1100, a escola seguia ao maestro; em 1200, o maestro seguia à escola.[62] As mais prestigiosas recebiam o nome de Studium Generale, e sua fama estendia-se por toda a Europa, requerendo a presença de seus maestros, ou ao menos a comunicação epistolar, o que iniciou um fecundo intercâmbio intelectual facilitado pelo uso comum da língua culta, o latín.
Entre 1200 e 1400 foram fundadas na Europa 52 universidades; 29 delas de fundação papal, as demais de fundação imperial ou real. A primeira foi possivelmente Bolonha (especializada em Direito, 1088), à que seguiu Oxford (dantes de 1096), da que se escindió seu rival Cambridge (1209), Paris, de mediados do século XII (um de cujos colégios foi a Sorbona, 1275), Salamanca (1218, precedida pelo Estudo Geral de Palencia de 1208), Padua (1222), Nápoles (1224), Coímbra (1308, transladada desde o Estudo Geral de Lisboa de 1290), Alcalá de Henares (1293, refundada pelo Cardeal Cisneros em 1499), a Sapienza (Roma, 1303), Valladolid (1346), a Universidade Carolina (Praga, 1348), a Universidade Jagellónica (Cracovia, 1363), Viena (1365), Heidelberg (1386), Colónia (1368) e, já ao final do período medieval, Lovaina (1425), Barcelona (1450), Basilea (1460) e Uppsala (1477). Em medicina gozava de um grande prestígio a Escola Médica Salernitana, com raízes árabes, que provia do século IX; e em 1220 começou a rivalizar com ela a Faculdade de Medicina de Montpellier.
A escolástica foi a corrente teológico-filosófica dominante do pensamento medieval, depois da patrística da Antigüedad tardia, e baseou-se na coordenação de fé e razão (em princípio a identificação de ambas), que em qualquer caso sempre supunha a clara sumisión da razão à fé (Philosophia ancilla theologiae -a filosofia é escrava da teología-). Mas também é um método de trabalho intelectual: todo o pensamento devia submeter ao princípio de autoridade (Magister dixit -disse-o o Maestro-), e o ensino podia-se limitar em princípio à repetição ou glosa dos textos antigos, e sobretudo da Biblia, a principal fonte de conhecimento, pois representa a Revelação divina; apesar de todo isso, a escolástica incentivou a especulação e o razonamiento, pois supunha se submeter a um rígido armazón lógico e uma estrutura esquemática do discurso que devia se expor a refutaciones e preparar defesas. Desde o começo do século IX ao fim do XII os debates centraram-se na questão dos universais, que opõe aos realistas encabeçados por Guillermo de Champeaux, aos nominalistas representados por Roscelino e aos conceptualistas (Pedro Abelardo). No século XII tem lugar a recepção de textos de Aristóteles dantes desconhecidos em Occidente, primeiro indirectamente através dos filósofos judeus e árabes, especialmente Avicena e Averroes, mas em seguida directamente traduzido do grego ao latín por san Alberto Magno e por Guillermo de Moerbeke, secretário de santo Tomás de Aquino, verdadeira cimeira do pensamento medieval e elevado à faixa de Doutor da Igreja. O apogeo da escolástica coincide com o século XIII, em que se fundam as universidades e surgem as ordens mendicantes: dominicos (que seguiram uma tendência aristotélica -os anteriormente citados-) e franciscanos (caracterizados pelo platonismo e a tradição patrística -Alejandro de Hales ou san Buenaventura-). Ambas ordens coparán as cátedras e a vida dos colégios universitários, e delas procederão a maioria dos teólogos e filósofos da época.
No século XIV representará a crise da escolástica através de duas franciscanos britânicos: o doutor subtilis Duns Scoto e Guillermo de Occam. Precedente de ambos seria a Escola de Oxford (Robert Grosseteste e Roger Bacon) centrada no estudo da natureza, defendendo a possibilidade de uma ciência experimental apoiada na matemática, contra o tomismo dominante. A polémica dos universais terminou-se decantando pelos nominalistas, o que deixava um espaço à filosofia para além da teología.
| Ergo Domine, qui dás fidei intellectum, dá mihi, ut, quantum scis expedire, intelligam, quia é sicut credimus, et hoc é quod credimus. Et quidem credimus te esse aliquid quo nihil maius cogitari possit. An ergo non est aliqua talis natura, quia "dixit insipiens in corde suo: non est Deus" ? | Depois Senhor, tu que dás o entendimento à fé, me dá de entender, tanto como consideres bom, que tu és como cremos e o que cremos. E bem, achamos que tu és algo maior que o qual não pode se pensar coisa alguma. Agora, talvez não existe esta natureza, porque "disse o néscio em seu coração: não há Deus" ? |
| Dicitur Exodi III, ex pessoa Dei, ego sum qui sum. Deum esse quinque viis probari potest... Quinta via sumitur ex gubernatione rerum. Videmus enim quod aliqua quae cognitione carent, scilicet corpora naturalia, operantur propter finem, quod apparet ex hoc quod semper aut frequentius eodem modo operantur, ut consequantur vão quod est optimum; unde patet quod non a casu, sejam ex intentione perveniunt ad finem. Ea autem quae non habent cognitionem, non tendunt in finem nisi directa ab aliquo cognoscente et intelligente, sicut sagitta a sagittante. Ergo est aliquid intelligens, a quo omnes rês naturais ordinantur ad finem, et hoc dicimus Deum. | Diz-se em Éxodo 3,14 da pessoa de Deus: "Eu sou o que é." A existência de Deus pode ser provada de cinco maneiras diferentes... A quinta deduze-se a partir do ordenamento das coisas. Pois vemos que há coisas que não têm conhecimento, como são os corpos naturais, e que fazem por um fim. Isto se pode comprovar observando como sempre ou com frequência fazem igual para conseguir o melhor. De onde se deduze que, para atingir seu objectivo, não fazem a esmo, senão intencionadamente. As coisas que não têm conhecimento não tendem ao fim sem ser dirigidas por alguém com conhecimento e inteligência, como a seta pelo arqueiro. Portanto, há alguém inteligente pelo que todas as coisas são dirigidas ao fim. Chamamos-lhe Deus. |
A burguesía é o novo agente social formado pelos artesãos e mercaderes que surgem no meio das cidades, bem nas antigas cidades romanas que tinham decaído, bem em novos núcleos criados em torno de castelos ou cruzes de caminhos -os propriamente chamados burgos-. Muitas destas cidades incorporaram esse nome -Friburgo, Estrasburgo; em Espanha Burgo de Osma ou Burgos-.
A burguesía estava interessada em pressionar ao poder político (império, papado, as diferentes monarquias, a nobreza feudal local ou instituições eclesiásticas -diócesis ou monasterios- das que dependessem suas cidades) para que se facilitasse a abertura económica dos espaços fechados das urbes, se reduzissem os tributos de portazgo e se garantissem formas de comércio seguro e uma centralización da administração de justiça e igualdade das normas em amplos territórios que lhes permitissem desenvolver seu trabalho, ao mesmo tempo em que garantias de que os que vulnerassem ditas normas seriam castigados com igual dureza nos diferentes territórios.
Aquelas cidades que abriam as portas ao comércio e a uma maior liberdade de circulação, viam incrementar a riqueza e prosperidade de seus habitantes e as do senhor, pelo que com reticencias mas de maneira firme se foi difundindo o modelo. As alianças entre senhores eram mais comuns, não já tanto para a guerra, como para permitir o desenvolvimento económico de seus respectivos territórios, e o rei foi o elemento aglutinador dessas alianças.
Os burgueses podem considerar-se como homens livres assim que estavam parcialmente fosse do sistema feudal, que literalmente os asediaba -se comparou às cidades com ilhas em um oceano feudal-,[66] porque não participavam directamente das relações feudo-vasalláticas: nem eram senhores feudales, nem camponeses submetidos a servidão, nem homens de igreja. A fixação como súbdito do poder político era semelhante a um laço de vasallaje, mas mais bem como senhorio colectivo que fazia que a cidade respondesse como um tudo às demandas de apoio militar e político do rei ou do governante à que estivesse vinculada, e que a sua vez participasse na exploração feudal do campo circundante (alfoz em Espanha).
A expressão alemã Stadtluft macht frei "Os ares da cidade dão liberdade", ou "fazem-te livre"[67] (paráfrasis da frase evangélica "a verdade fá-vos-á livres"),[68] indicava que quem podiam radicarse nas cidades, às vezes fugindo literalmente da fixação da servidão,[69] tinham todo um novo mundo de oportunidades que explodir, ainda que não em regime de liberdade, entendida esta em sua forma contemporânea. A fixação às normas gremiales e às leis urbanas podia ser mais dura inclusive que as do campo: a pax urbana significava a rigidez na aplicação da justiça, que mantinha os caminhos e as portas primeiramente flanqueados com cadáveres de ajusticiados e um severo toque de recolher, com fechamento de portas ao anochecer e rodadas de vigilância. Isso sim: concedia aos burgueses a oportunidade de exercer parcela de poder, incluindo o uso das armas na milícia urbana (como as Hermandades castelhanas que se unificaram na Santa Hermandad já no século XV), que em não poucas ocasiões se utilizaram na contramão das hostes feudales, com o beneplácito das emergentes monarquias autoritarias. No caso mais precoz e espectacular foram as comunas italianas, que se independizaron de facto do Sacro Império Romano Germánico a partir da batalha de Legnano (1176).
Nos burgos surgiram muitas instituições sociais novas. O desenvolvimento do comércio levou aparejado consigo o do sistema financeiro e a contabilidade. Os artesãos uniram-se em associações chamadas grémios, unes, corporaciones, cofradías, ou artes, segundo o lugar geográfico. O funcionamento interno das oficinas gremiales implicava uma aprendizagem de vários anos do aprendiz a cargo de um maestro (o dono da oficina), que implicava o passo daquele à condição de oficial quando demonstrasse conhecer o oficio, o que implicava sua consideração como trabalhador assalariado, uma condição de por si alheia ao mundo feudal que inclusive se transladou ao campo (em princípio de maneira marginal) com os jornaleros que não dispunham de terras próprias nem concedidas pelo senhor. A associação das oficinas nos grémios, funcionava de maneira completamente contrária ao mercado livre capitalista: tentava-se evitar todo rasgo possível de concorrência fixando os preços, as qualidades, os horários e condições de trabalho, e inclusive as ruas onde podiam radicarse. A abertura de novas oficinas e o passo da faixa de oficial ao de maestro estavam muito restringidos, de maneira que na prática incentivavam-se as heranças e os enlaces matrimoniales endogámicos dentro do grémio. O objectivo era conseguir a sobrevivência de todos, não o sucesso do melhor.
Mais abertura demonstrou o comércio. Os buhoneros que iam de aldeia em aldeia, e os escassos aventureros que se atreviam a fazer viagens mais longos eram os mercaderes mais habituais da Alta Idade Média, dantes do ano 1000. Em três séculos, para começos do século XIV, as feiras de Champaña e de Medina tinham criado rotas terrestres estáveis e mais ou menos seguras que (a lombos de mulas ou com carretas no melhor dos casos) percorriam a Europa de norte a sul (no caso castelhano seguindo as cañadas trashumantes da Mesta, no caso francês enlaçando os emporios flamenco e norte-italiano através das prósperas regiões borgoñonas e renanas, todas elas salpicadas de cidades). A Hansa ou une hanseática estabeleceu a sua vez rotas marítimas de uma estabilidade e segurança similar (com maior capacidade de ónus, em barcos de tecnologia inovadora) que uniam o Báltico e o Mar do Norte através dos estreitos escandinavos, ligando territórios tão longínquos como Rússia e Flandes e rotas fluviales que ligavam todo o norte da Europa (rios como o Rin e o Vístula), permitindo o desenvolvimento de cidades como Hamburgo, Lübeck e Danzing, e estabelecendo consulados comerciais denominados kontor.[70] No Mediterráneo chamaram-se Consulado do Mar: o primeiro em Trani em 1063 e depois Calca, Mesina, Chipre, Constantinopla, Veneza, Montpellier, Valencia (1283), Mallorca (1343) e Barcelona (1347).[71] Quando o estreito de Gibraltar foi seguro, se puderam ligar maritimamente ambas Europas, com rotas entre as cidades italianas (sobretudo Génova), Marselha, Barcelona, Valencia, Sevilla, Lisboa, os portos do Cantábrico (Santander, Laredo, Bilbao), os do Atlántico francês e os do Canal da Mancha (ingleses e flamencos, sobretudo Bruxas e Amberes). O contacto a cada vez mais fluído de gentes de diferentes nações (como começaram a chamar aos agrupamentos de comerciantes de próxima origem geográfica que se entendiam na mesma língua vulgar, ao igual que ocorria nas secções das ordens militares) terminou produzindo que ambas instituições funcionassem de facto, como primitivas organizações internacionais.
Todo isso desenvolveu um incipiente capitalismo comercial (se veja também História do capitalismo) com o incremento ou surgimiento ex novo da economia monetária, a banca (crédito, empréstimos, seguros, letras de mudança), actividades que mantiveram sempre recelos morais (pecado de usura para todas as que significasse lucro indebido, e em que unicamente podiam incurrir os judeus quando prestavam a outros que não fossem de sua religião, oficio proibido tanto aos cristãos como aos muçulmanos). O aparecimento de burgueses ricos e de uma plebe urbana pobre originou um novo tipo de tensões sociais, que produziram revoltas urbanas.[72] Quanto aos aspectos ideológicos, a expressão do inconformismo burgués com seu posto marginal na sociedade feudal está na origem das herejías ao longo de toda a Baixa Idade Média (cátaros, valdenses, albigenses, dulcinianos, hussitas, wycliffianos). As tentativas de responder a essas demandas do mundo urbano por parte da Igreja, bem como de controlá-las e se for o caso reprimí-las, produziram o aparecimento das ordens mendicantes (franciscanos e dominicos) e da Inquisición. Às vezes, a imposibilidad de conseguir o controle fez optar pelo exterminio, como ocorreu em Beziers em 1209, seguindo a resposta do legado pontificio Arnaud Amaury:[73]
| As catedrais e a busca da altura |
Na Idade Média, a oposição entre o alto e o baixo "projecta-se no espaço": constroem-se torres e muralhas muito elevadas, muito visíveis, para manifestar que se quer escapar do "baixo"... o alto e a altura designam o que é grande e formoso... expressa-se na construção dos castelos e as catedrais... Essa oposição é o correlato da que existe entre o céu e a terra.
(...) Depois, procurou-se a luz, e inclusive acabou-se por identificar a Deus com a luz. Os progressos técnicos, a busca de espaços abertos e o uso a cada vez mais sofisticado do ferro e os diversos metais deram nascimento, entre os séculos XI e XIII às grandes catedrais.[74]A rivalidad entre castelos señoriales teve seu correlato urbano na rivalidad entre casas fortificadas, com torres desafiantes, que têm sobrevivido nos espectaculares conjuntos de San Gimignano ou de Cáceres . Bem mais estendida esteve a rivalidad das catedrais, cuja construção se demorava por séculos, desenvolvendo de um modo orgânico, sem que os planos originarios se terminassem, fazendo que o resultado final fora habitualmente a soma de estilos muito diferentes. Chegaram-se a produzir verdadeiras carreiras de prestígio, como a que se prolongou por centos de anos entre as de Siena e Florencia. As dimensões extraordinárias de ambas fizeram impossível que se terminassem dantes da crise bajomedieval, o que determinou que os sieneses (esquerda: Catedral de Siena Duomo dei Santa María) optassem por conformar-se com o construído até então (para que pudesse utilizar desde seus inícios, sempre se começavam as obras pelo ábside, permitindo consagrar o altar e dar culto enquanto continuavam as obras). O que se pretendia era converter o actual braço maior no menor, e construir um braço maior verdadeiramente descomunal (projecto de 1339 que teve que se abandonar; o desenho inicial era de 1215-1263). Enquanto, os florentinos (direita: Catedral de Florencia Duomo dei Santa María dei Fiori), humilhados por não ser capazes de cobrir o gigantesco espaço central do cruzeiro (um desproporcionado tambor octogonal sobreelevado), tiveram que esperar a que Filippo Brunelleschi conseguisse resolver o desafio técnico com uma impressionante cúpula que abre a época do Renacimiento (concurso de 1419 e construção entre 1420 e 1436). Veja-se também catedrais de Espanha. |
Na Plena Idade Média observou-se uma grande divergência na escala a que se exercia o poder político: os poderes universais (Pontificado e Império) seguiam reivindicando seu primacía em frente às Monarquias feudales, que na prática funcionavam como estados independentes. Ao mesmo tempo, entidades bem mais pequenas em extensão demonstravam ser muito dinâmicas nas relações internacionais (as cidades-estado italianas e as cidades livres do Império Germánico), e o municipalismo demonstrou ser uma força muito a ter em conta em todos os territórios da Europa.[75]
O redescubrimiento do Digesto justinianeo (Digestum Vetus) permitiu o estudo autónomo do Direito (Pepo e Irnerio) e o surgimiento da Escola dos Glosadores e da Universidade de Bolonha (1088). Esse acontecimento, que permitirá o redescubrimiento paulatino do Direito romano, levará à formação do chamado Corpus Iuris Civilis e à possibilidade de propor um Ius commune (Direito comum), e justificar a concentração de poder e capacidade regulamentar na instituição imperial, ou nos monarcas, a cada um dos quais começará a se considerar como imperator in regno suo (imperador em seu reino).
A difícil convivência de Pontificado e Império (regnum et sacerdocium) ao longo dos séculos deu origem entre 1073 e 1122 à querela das investiduras. Diferentes formulaciones ideológicas (teoria das duas espadas, Plenitudo potestatis, Dictatus papae, condenações da simonía e o nicolaísmo) constituíam um edifício levantado durante séculos pelo que o Papa pretendia marcar a supremacía da autoridade religiosa sobre o poder civil (o que se veio denominando agustinismo político), enquanto o Imperador pretendia fazer valer a legitimidade de seu cargo, que pretendia derivar do antigo Império romano (Translatio imperii), bem como o facto material de sua capacidade militar para impor seu poder territorial e inclusive tutelar a vida religiosa (tanto nos aspectos institucionais como os dogmáticos), a semelhança de seu equivalente em Oriente. O acesso de diferentes dinastías à dignidade imperial debilitou o poder dos imperadores, sujeitos a um sistema de eleição que lhes fazia dependentes de um delicado jogo de alianças entre os dignatarios que atingiram o título de príncipe eleitor, uns laicos (príncipes territoriais, independentes na prática) e outros eclesiásticos (bispos de cidades livres). Não obstante, periodicamente assistia-se a tentativas de recuperar o poder imperial (Otón III e Enrique II entre os últimos otónidas), que em ocasiões chegavam a confrontos espectaculares (Enrique IV, da dinastía Salia, ou Federico I Barbarroja e Federico II da dinastía Hohenstaufen). A oposição entre güelfos e gibelinos, a cada um sócio a um dos poderes em liza (papa e imperador), presidiu a vida política da Alemanha e Itália desde o século XII até bem entrada a Baixa Idade Média.
Ambas pretensões distaron muito de se fazer efectivas, esgotadas em seu próprio debate e superadas pela maior eficácia política das entidades urbanas e os reinos do resto da Europa.[77]
Apareceu o parlamentarismo, uma forma de representação política que com o tempo se converteu no precedente da divisão de poderes consustancial à democracia da Idade Contemporânea. A primacía no tempo tem-a o A oþingi islandés (930), que seguia o modelo dos thing ou assembleias de guerreiros germanos; mas desde finais do século XI foi-se gestando um novo modelo institucional, derivado da obrigação feudal de consilium , que implicava às três ordens feudales, e se generalizou por Europa ocidental: os Cortes de León (1188), o Parlamento inglês (1258) -previamente as relações de poder entre rei e nobreza tinham sido reguladas na Carta Magna, 1215, ou as Provisões de Oxford, 1258- e os Estados Gerais franceses (1302).
Hildebrando de Toscana, já desde sua posição baixo os pontificados de León IX e Nicolás II, e mais tarde como papa Gregorio VII (com o que cobre toda a segunda metade do século XI), empreendeu um programa de centralización da Igreja, com a ajuda dos benedictinos de Cluny , que se estenderam por toda Europa Ocidental implicando às monarquias feudales (destacadamente nos reinos cristãos peninsulares, através do Caminho de Santiago).
As seguintes reformas monásticas, como a cartuja (San Bruno) e sobretudo a cisterciense (San Bernardo de Claraval) significarão novos fortalecimientos da hierarquia eclesiástica e sua implantação dispersa em todo o território europeu como uma impressionante força social e económica unida às estruturas feudales, vinculada às famílias nobres e às dinastías regias e com uma base de riqueza territorial e imobiliária, à que se acrescentava a cobrança dos direitos próprios da Igreja (diezmos, primicias, direitos de estola, e outro ónus locais, como o voto de Santiago no noroeste de Espanha).
O fortalecimiento do poder papal intensificou as tensões políticas e ideológicas com o Império Germánico e com a Igreja oriental, que neste caso terminarão levando ao Cisma de Oriente.
As Cruzadas trouxeram como consequência a criação de um tipo especial de ordens religiosas, que, além de submeter a uma regra monástica (habitualmente a cisterciense, incluindo o cumprimento teórico dos votos monásticos) exigiam a seus componentes uma vida castrense mais que ascética: foram as ordens militares, fundadas depois da tomada de Jerusalém em 1099 (caballeros do Santo Sepulcro, templarios -1104- e hospitalarios -1118-). Também se constituíram em outros contextos geográficos (ordens militares espanholas e caballeros teutónicos).
A adaptação à pujante vida urbana dos séculos XII e XIII será missão de um novo ciclo de fundações no clero regular: as ordens mendicantes, cujos membros não eram monges, senão frailes (franciscanos de San Francisco de Asís e dominicos de Santo Domingo de Guzmán, às que seguiram outras, como os agustinos); e de novas instituições: as Universidades e a Inquisición.
A partir do século XI e no século XII, introduziram-se no cristianismo latino inovações dogmáticas e devocionales de grande trascendencia:
A imposição do rito romano em frente à anterior multiplicidad de liturgias (rito hispânico, rito bracarense, rito ambrosiano, etc.)
A imposição do celibato sacerdotal no Concilio de Letrán (1123).
O achado do papel do purgatorio como estádio intermediário das almas entre céu e inferno, que intensificará a função intermediadora da Igreja através das orações e missas e os méritos da Comunión dos Santos por ela administrados.
A intensificação do papel da Virgen María, que passa a ser uma corredentora com atributos pesquisados pela mariología e ainda não dogmatizados (Imaculada Concepção, Assunção da Virgen), com novas devociones e orações (Avemaría -yuxtaposición de textos evangélicos que se introduz em ocidente no século XI-, Salve adoptada por Cluny em 1135-, Rosario -introduzido por Santo Domingo contra os albigenses-), uma febre de fundações de igrejas em seu nome, e com um amplísimo tratamento artístico. Na época do amor cortês a devoción à Virgen mal podia se distinguir, ao menos nas formas, da que o caballero sentia por seu dama.[79]
A mariología tinha nascido na Antigüedad tardia com a patrística, e o culto popular da virgen foi um dos factores finque da suave transição do paganismo ao cristianismo, que costuma se interpretar como uma adaptação do patriarcal monoteísmo do judaísmo ao matriarcal panteón das deusas-vírgenes-mãe do Mediterráneo clássico: a cananea Astarté, a babilonia Istar, as gregas Rea e Gaia, a frigia Cibeles, a Artemisa de Éfeso, a Deméter de Eleusis, a egípcia Isis, etc.[80] A controvérsia Cristotokos-Theotokos (María como "Mãe de Cristo" ou "Mãe de Deus"), e o amplo tratamento desta na arte bizantino tinham caracterizado à igreja oriental. O protagonismo da Virgen ficava amplamente compensado com a misoginia do tratamento de outras figuras femininas, destacadamente Eva, a Magdalena e Santa María Egipcíaca. A renúncia ao corpo (a carne inimiga da alma) e às riquezas, que dá oportunidade ao arrepentimiento e a redenção (e confia sua gestão à Mãe Igreja) costumava ser o aspecto mais destacable também nas vidas de outras santas e mártires.[81]
Por último, a institucionalización dos sacramentos, especialmente a penitência e a comunión pascual que se propõem como trámites anuais que o fiel tem de cumprir ante seu párroco e confesor. A vivência comunitária dos sacramentos, sobretudo os que significam mudanças vitais (baptismo, casal, extrema unción), e os rituales funerarios, cohesionaban fortemente às sociedades locais tanto aldeanas como urbanas, sobretudo quando se enfrentavam à convivência com outras comunidades religiosas -judeus em toda a Europa e muçulmanos em Espanha-.
A celebração das festividades em dias diferentes (sextas-feiras os muçulmanos, sábados os judeus, domingos os cristãos), os diferentes tabus alimentários (porco, álcool, rituales de matança que obrigam a separar os talhos) e a separação física das comunidades -guetos, aljamas ou juderías e morerías- propunham uma situação que, inclusive com tolerância religiosa, distaba muito de ser um trato igualitario. Os judeus cumpriram uma função social de bode expiatório que deu saída às tensões sociais em determinados momentos, com o estallido de pogromos (revoltas antijudías, que depois das conversões em massa deram passo a revoltas anticonversas) ou com as políticas de expulsión (Inglaterra -1290-, França -1394- e Espanha -1492- e Portugal em 1496). A existência de minorias religiosas dentro do cristianismo, em mudança, não podia ser aceite, já que a comunidade política se identificava com a unidade na fé. Os definidos como hereges, por tanto, eram perseguidos por todos os meios.
Quanto aos desvios do comportamento que não supusessem desafios de opinião senão delitos ou pecados (conceitos identificables e de impossível deslindamiento), seu tratamento era objecto das jurisdições civil (que aplicava o fuero correspondente, a legislação do reino ou o direito comum) e religiosa (que aplicava o Direito Canónico em questões ordinárias, ou o procedimento inquisitorial em caso necessário), cuja coordenação era às vezes complexa, como ocorria com os desvios da conduta sexual considerada correcta (masturbación, homosexualidad, incesto, estupro, amancebamiento, adultério e outros assuntos matrimoniales).[82] Em qualquer caso, a vivência da sexualidad e a desnudez do corpo teve tratamentos muito diferentes na cada época e lugar; e diferentes expectativas para a cada nível social (considerava-se que era próprio dos camponeses um comportamento animal, isto é, natural, e se pretendia que os nobres e clérigos tivessem mais vontade para controlar seus instintos).
Também costumes como os banhos (conhecidos desde as termas romanas e reintroducidos pelos árabes) e práticas como a prostituição foram objecto de críticas morais e regulamentações mais ou menos permisivas, chegando no caso dos banhos progressivamente até a proibição (se lhes acusava de inmorales e de produzir o afeminamiento dos guerreiros), e no da prostituição ao confinamiento em determinados bairros, a obrigação de levar determinadas prendas e a detenção de suas actividades em determinadas datas (Semana Santa). A erradicación da prostituição não se concebia possível, dado o inevitável do pecado, e seu papel de mau menor que evitava que o desejo irrefrenable dos varões fora na contramão da honra das donzelas e as mulheres respetables. Pelo geral, os historiadores costumam coincidir que o período da Plena Idade Média foi uma etapa de maior liberdade de costumes que não teve que esperar ao Decamerón (1348), e que em algumas questões, como a condição feminina, significou uma verdadeira promoção, tanto em frente à Alta Idade Média como em frente à Idade Moderna;[83] ainda que o estendido mito de que se chegasse a duvidar se a mulher tinha alma é um erro filológico.[84]
A expansão geográfica levou-se a cabo, ou tentou-se levar a cabo, ao menos, em várias direcções, seguindo não tanto um propósito determinado por concepções nacionalistas inexistentes na época, senão a dinâmica própria das casas feudales. Os normandos, vikingos assentados em Normandía , deram origem a uma das casas feudales mais expansivas da Europa, que se estendeu por França, Inglaterra e Itália, enlaçada com as de Anjou-Plantagenet e Aquitania. As casas de Navarra e Castilla (dinastía Jimena), França, Borgoña e Flandes (Capetos, Casa de Borgoña -estendida pela Península Ibéria-, Valois) e Áustria (casa de Habsburgo) são outros bons exemplos, e todas elas se viram vinculadas por alianças, enlaces matrimoniales e confrontos sucesorios ou territoriais, consustanciales às relações feudo-vasalláticas e expressão da violência inherente ao feudalismo.[85] No contexto espacial da Europa Nórdica e Centro-Oriental tiveram um desenvolvimento similar a Casa de Sweyn Estridsson dinamarquesa, a Bjälbo noruega e os Sverker e Erik suecos; e mais tarde a Dinastía Jogalia ou Jagellón (Hungria, Bohemia, Polónia e Lituânia).
Em Espanha , simultaneamente à dissolução do Califato de Córdoba (em guerra civil desde o 1010 e extinguido o 1031), criou-se um vazio de poder que os reinos feudales cristianohispánicos de Castilla , León, Navarra, Portugal e Aragón (fundido dinasticamente com o condado de Barcelona) tentaram aproveitar, expandindo em frente aos reinos de taifas muçulmanos no telefonema Reconquista. Nas Ilhas Britânicas, o reino da Inglaterra tentou repetidas vezes invadir a Gales , Escócia e Irlanda, com maior ou menor sucesso.
Na Europa do Norte, acabadas as invasões dos vikingos, as riquezas saqueadas por estes serviram para adquirir produtos e serviços ocidentais, criando no Mar Báltico uma próspera rede comercial que atraiu aos escandinavos à civilização ocidental, enquanto sua expansão para o oeste pelo Atlántico (Islândia e Gronelândia) não passou da mítica Vinlandia (assentamento fracassado na América do Norte, em torno do ano 1000). Os vikingos orientais (varegos), chegaram até Constantinopla, e fundaram os reinos da Ucrânia e Rússia. Os vikingos meridionales (normandos) instalaram-se em Normandía , Inglaterra, Sicília e o sul da Itália, criando reinos centralizados e eficientes (Rolón, Guillermo o Conquistador e Rogerio I de Sicília). No este, no ano 955, Otón o Grande bateu aos magiares na Batalha do Rio Lech e reincorporou Hungria a Occidente, ao mesmo tempo em que começava a "germanización" da Polónia, até então pagana. Posteriormente, desde tempos de Enrique o León (século XII), os alemães foram-se abrindo passo através das terras dos vendos, até o Mar Báltico, em um processo de colonização conhecido como Ostsiedlung (que será mitificado posteriormente com o romântico nome de Drang nach Osten, ou Afán de ir para o Leste, o que serviu para justificar a teoria nazista do espaço vital alemão Lebensraum). Mas sem lugar a dúvidas, o movimento de expansão mais espectacular, ainda que finalmente frustrado, foram as Cruzadas, em onde selectos membros da nobreza guerreira ocidental cruzaram o Mar Mediterráneo e invadiram o Médio Oriente, criando reinos de efémera duração.
As Cruzadas foram expedições empreendidas, em cumprimento de um solene voto, para libertar Terra Santa da dominación muçulmana. A origem da palavra remonta à cruz feita de teia e usada como insígnia na roupa exterior dos que tomaram parte nessas iniciativas, a partir da petição do Papa Urbano II e as predicaciones de Pedro o Ermitaño. As sucessivas cruzadas tiveram lugar entre os séculos XI e XIII. Foram motivadas pelos interesses expansionistas da nobreza feudal, o controle do comércio com Ásia e o afán hegemónico do papado sobre as igrejas de Oriente.
O balanço desta expansão foi espectacular, por comparação à vulnerabilidad da escura época anterior: Depois de meio século de instituições carolingias, para 843 (Tratado de Verdún), os territórios que podiam se identificar mais ou menos proximamente com elas (o que poderia se denominar uma formação social cristão ocidental) se estendiam por França, o oeste e sul da Alemanha, o sul de Grã-Bretanha, as montanhas setentrionais de Espanha e o norte da Itália. Em um século depois, na época de Batalha do Rio Lech (955), não tinha região da Europa Ocidental a salvo das novas ondas de invasores bárbaros, que pareciam conduzir a uma nova crise de civilização.[86]
No entanto, nos dois séculos seguintes ao fatídico ano mil o panorama tinha mudado completamente: para a época da Batalha de Navas de Tolosa (1212), tinham sido incorporadas à civilização européia toda a Itália até Sicília, a Grã-Bretanha não inglesa (Escócia e Gales), Escandinavia (que se expandia pelo Atlántico Norte até Gronelândia), boa parte da Europa Oriental (Polónia, Bohemia, Moravia e Hungria, ficando os povos eslavos dos Balcanes e Rússia na órbita do cristianismo oriental e institucionalizando seus próprios reinos) e meia Península Ibéria (em decorrência do século XIII o seria toda excepto o tributário reino nazarí de Granada, ficando marcado definitivamente o predominio cristão sobre o estreito de Gibraltar com a batalha do Salgado -1340-). Outros territórios periféricos (como Lituânia ou Irlanda) estavam submetidos a uma pressão militar a cada vez maior por parte dos reinos centrais da cristiandad latina. Para além dos limites da Europa Ocidental, as incursões militares de hostes latinas de muito variada composição tinham posto em suas mãos lugares tão longínquos como Constantinopla e os ducados de Atenas e Neopatria ou Jerusalém e os Estados Cruzados.
Europa na década de 1430. |
Europa na década de 1470. |
O símil astronómico de ocaso, que Johan Huizinga converte em outono, é utilizado com muita frequência na historiografía, com um valor analógico que mais que uma decadência no económico ou o intelectual reflete um claro agotamiento dos rasgos especificamente medievales em frente a seus substitutos modernos.[87]
O final da Idade Média chega com o começo da transição do feudalismo ao capitalismo, outro período secular de transição entre modos de produção que não finalizará até o final do Antigo Regime e o começo da Idade Contemporânea, com o que tanto este último período medieval como a Idade Moderna inteira cumprem um papel similar e cobrem uma similar extensão temporária (500 anos) ao que significou a Antigüedad Tardia para o começo da Idade Média.
A lei de rendimentos decrecientes começou a mostrar seus efeitos à medida que o dinamismo dos camponeses forçou a roturación de terras marginales e as lentas melhoras técnicas não podiam suceder a um ritmo semelhante. A coyuntura climática mudou, acabando com o denominado óptimo medieval que permitiu a colonização da Gronelândia e o cultivo de vides na Inglaterra. As más colheitas conduziram a fomes que debilitaram fisicamente às populações, preparando o terreno para que a Peste negra de 1348 fosse uma catástrofe demográfica na Europa. A repetição sucessiva de epidemias caracterizou um ciclo secular.
As consequências não foram negativas para todos. Os sobreviventes acumularam inesperadamente capital em forma de heranças, que pôde em alguns casos se investir em empresas comerciais, ou acumularam inesperadamente patrimónios nobiliarios. As alterações dos preços de mercado dos produtos, submetidos a tensões nunca vistas de oferta e demanda mudou a forma de perceber as relações económicas: os salários (um conceito, como o de circulação monetária já de por sim disolvente da economia tradicional) cresciam ao mesmo tempo em que as rendas feudales passaram a ser inseguras, obrigando aos senhores a decisões difíceis. Alternativamente primeiro tenderam a ser mais comprensivos com seus servos, que às vezes estiveram em situação de impor uma nova relação, libertados da servidão; enquanto em um segundo momento, sobretudo depois de algumas rebeliões camponesas fracassadas e duramente reprimidas, impuseram em algumas zonas uma nova refeudalización, ou mudanças de estratégia produtiva como o passo da agricultura à ganadería (expansão da Mesta).[6]
O negócio lanero produziu curiosas alianças internacionais e interestamentales (senhores ganaderos, mercaderes da lana, artesãos de paños) que suscitaram verdadeiras guerras comerciais (nesse sentido se pôde interpretar as cambiantes alianças e divisões internas Inglaterra-França-Flandes durante a Guerra dos Cem Anos, na que Castilla se implicou em sua própria guerra civil).[88] Unicamente os nobres com mais capacidade (demonstrada a maior parte das vezes pelo despojo de nobres com menos capacidade) puderam converter-se em uma grande nobreza ou aristocracia de grandes casas nobiliarias, enquanto a pequena nobreza se empobrecía, reduzida à mera sobrevivência ou à busca de novos tipos de rendimentos na crescente administração das monarquias, ou aos tradicionais da Igreja.
Nas instituições do clero também se vai abrindo um abismo entre o alto clero de bispos, canónigos e abades e os curas de parroquias pobres; e o baixo clero de frailes ou clérigos vagabundos, de opiniões teológicas difusas, ou bem sobreviventes materialistas na prática, goliardos ou estudantes sem oficio nem benefício.
Nas cidades, a alta burguesía e a baixa burguesía vivem um similar processo de separação de fortunas, que faz impossível manter que um aprendiz ou inclusive um oficial ou um maestro de oficina pobre tenha algo que ver com um mercader enriquecido pelo comércio a longa distância da Hansa ou as feiras de Champaña e de Medina, ou um médico ou um letrado saídos da universidade para entrar na alta sociedade. Vai-se abrindo passo a possibilidade (dantes inaudita) de que a condição social dependa mais da capacidade económica (não necessariamente unida sempre à terra) que da origem familiar.
Em frente ao mundo medieval das três ordens, baseado em uma economia agrária e firmemente unida à posse da terra, emerge um mundo de cidades baseado em uma economia comercial. Os centros de poder deslocam-se para os novos burgos. Estes reequilibrios viram-se refletidos nos campos de batalha, já que os caballeros feudales começaram a ser superados pelo desenvolvimento de técnicas militares como o arco de tiro longo,[89] arma que os ingleses usaram para varrer aos franceses na Batalha de Agincourt, em 1415 , ou a pica, usada pela infantería de mercenários suíços. É nesta época quando aparecem os primeiros exércitos profissionais, compostos por soldados aos que não lhes une um pacto de vasallaje com seu senhor senão a paga. A partir do século XIII registam-se em Occidente os primeiros usos da de pólvora , invenção chinesa estendida desde a Índia pelos árabes, mas de forma muito discontinua. Roger Bacon descreve-a em 1216 ) e há relatos do uso de armas de fogo na defesa muçulmana de Sevilla (1248) e Nevoeiro (1262, veja-se O canhão na Idade Média). Com o tempo, o oficio militar se envilece, devaluando as funções da nobreza com as da caballería e os castelos, que ficam obsoletos. O aumento dos custos e as tácticas de batalhas e assédios trará como consequência o aumento do poder do rei em frente à aristocracia. A guerra passa a depender não das hostes feudales, senão dos crescentes impostos, pagos pelos não privilegiados.
As novas ideias religiosas -que se adaptam melhor à forma de vida da burguesía que à dos privilegiados- já estiveram no fermento das herejías que se tinham produzido previamente, a partir do século XII (cátaros, valdenses), e que tinham encontrado eficaz resposta nas novas ordens religiosas mendicantes, inseres no meio urbano; mas nos últimos séculos medievales o husismo ou o wycliffismo têm uma maior projecção para o que será a Reforma protestante do século XVI. O milenarismo dos flagelantes convivia com o misticismo de um Tomás de Kempis e com as desordens e corrupção de costumes na Igreja que culminaram no Cisma de Occidente. Foi devastador o impacto que teve na cristiandad ocidental o espectáculo de dois (e até três) papas excomulgándose mutuamente (e a imperadores, reis e bispos, e com eles a todos seus sacerdotes e fiéis), um no telefonema cautividad de Aviñón à que lhe submetia o rei da França (fille ainée de l'Eglise -filha maior da Igreja-), outro em Roma e um terceiro eleito pelo Concilio de Calca (1409). A situação não se recondujo totalmente nem sequer com o Concilio de Constanza (1413), que se tivessem prosperado as teses conciliaristas ter-se-ia convertido em uma espécie de parlamento europeu supranacional, cuasi-soberano e competente em toda a classe de temas. Até a humilde Peñíscola chegou-se a converter por algum tempo no centro do mundo cristão -para os escassos seguidores do Papa Lua-.
As tentativas de plotar maior racionalidad ao catolicismo já vinham estando presentes desde a cimeira da escolástica dos séculos XII e XIII com Pedro Abelardo, Tomás de Aquino ou Roger Bacon; mas agora essa escolástica se enfrenta a sua própria crise e questionamento interno, com Guillermo de Ockham ou Duns Scoto. A mentalidade teocéntrica ia lentamente dando passo a uma nova antropocéntrica, em um processo que culminará com o humanismo do século XV, no que já pode se denominar Idade Moderna. Essa mudança não se limitou unicamente às elites intelectuais: personalidades extravagantes, como Juana de Arco, se convertem em heróis populares (com o contrapunto de outras terríveis, como Gilles de Rais -Barba Azul-);[90] a mentalidade social vai afastando-se do conformismo temeroso para acolher outras concepções que implicam uma nova forma de enfrentar o futuro e as novidades:
O anonimato conscientemente procurado no que viveram silenciosamente gerações durante séculos
| Non nobis, Domine, non nobis, sejam nomini tuo dá gloriam | Não a nós, Senhor, não a nós, senão a teu nome dá a glória! |
e que seguirá sendo a situação dos humildes durante os séculos seguintes, dá passo à busca da fama e da glória pessoal, não só entre os nobres, senão em todos os âmbitos sociais: os artesãos começam a assinar seus produtos (desde as obras de arte às marcas artesanas), e a cada vez é menos excepcional que qualquer acto da vida deixe sua impressão documental (livros parroquiales, registos mercantis, escribanos, protocolos notariales, actos jurídicos).
O desafio ao monopólio económico, social, político e intelectual dos privilegiados, criava lentamente novos espaços de poder em benefício dos reis, bem como um lugar a cada vez mais amplo para a burguesía. Ainda que a maior parte da população seguiu sendo camponesa, o verdadeiro é que o impulso e as novidades já não proviam do castelo ou o monasterio, senão do Corte e a cidade. Entre tanto, o amor cortês (procedente da Provenza do século XI) e o ideal caballeresco se revitalizaron e passaram a converter em uma ideologia justificativa do modo de vida nobiliario justo quando este começava a estar em questão,[92] vivendo uma época dourada, obviamente decadente, localizada no período de esplendor do ducado de Borgoña, que refletiu Johan Huizinga em seu magistral O outono da Idade Média.
Enquanto para o Mediterráneo Oriental o fim da Idade Média supôs o avanço imparable do islâmico Império otomano, no extremo ocidental, os expansivos reinos cristãos da Península Ibéria, depois de um período de crise e ralentización do avanço secular para o sul, simplificaram o mapa político com a união matrimonial dos Reis Católicos (Fernando II de Aragón e Isabel I de Castilla), os acordos destes com o de Portugal (Tratado de Alcáçovas, que supunham a partilha de influências sobre o Atlántico) e a conquista de Granada. Navarra, dividida em uma guerra civil entre bandos orientados e intervindos por franceses e aragoneses, seria anexada em sua maior parte à crescente Monarquia Católica em 1512.
Capilla do Condestable na Catedral de Burgos, gótico final (1482). |
Os Reis Católicos, por Fernando Galego (para 1490). |
Portada manuelina da igreja de Golega . O retorcimiento das colunas imita o das grossas maromas dos barcos, em uma nação marinera virada em era-a das descobertas. |
Decreto da Alhambra pelo que se expulsa aos judeus de Espanha, no mesmo ano que se conquista Granada, se descobre América e Nebrija publica sua Gramática Castelhana: 1492. É o final da Idade Média e o começo da Idade Moderna, com uma unidade religiosa que acompanhou à união dos reinos da Monarquia Católica. |
Centros de investigação
Artehistoria
Biblioteca Gonzalo de Berceo
Liceus
Foros e blogs
| Predecessor: Idade Antiga | Idade Média 476-1492 | Sucessor: Idade Moderna |
mwl:Eidade Média