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Lamarckismo

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Retrato de Jean-Baptiste Lamarck.

Lamarckismo é o termo utilizado para referir à teoria da evolução formulada por Lamarck . Em 1809 em seu livro Filosofia zoológica propôs que as formas de vida não tinham sido criadas e permaneciam inmutables, como se aceitava em seu tempo, senão que tinham evoluído desde formas de vida mais simples. Descreveu as condições que teriam propiciado a evolução da vida e propôs o mecanismo pelo que teria evoluído. A teoria de Lamarck é a primeira teoria da evolução biológica, adiantando-se em cinquenta anos à formulación de Darwin da selecção natural em seu livro A origem das espécies.[1] [2] [3]

Lamarck em sua teoria propôs que a vida evoluía “por tanteos e sucessivamente”, “que à medida que os indivíduos de uma de nossas espécies mudam de situação, de clima, de maneira de ser ou de hábito, recebem por isso as influências que mudam pouco a pouco a consistência e as proporções de suas partes, de sua forma, suas faculdades e até sua mesma organização”.[4] Seria a capacidade dos organismos de adaptar-nos ao médio ambiente e as sucessivas mudanças que se deram nesses ambientes, o que teria propiciado a Evolução e a actual diversidade de espécies.

Como mecanismo para traduzir esses orçamentos em mudanças evolutivos, propôs o mecanismo conhecido como “herança dos caracteres adquiridos”, se referindo à, até o dia de hoje não demonstrada, capacidade dos organismos de transladar à herança os caracteres adquiridos em vida. Esta herança não seria nem directa nem individual, senão que seria depois de longo tempo de estar submetidos a parecidas circunstâncias e afectariam ao conjunto do os indivíduos do grupo submetido a essas circunstâncias.

A teoria de Lamarck não foi tida em conta no momento de seu formulación, sendo 50 anos mais tarde, com a publicação da origem das espécies, quando os evolucionistas e o próprio Darwin a resgataram para tentar cobrir o vazio que a selecção natural deixava ao não propor a fonte da variabilidad sobre a que actuaria a selecção.

A princípios do século XX, com a formulación da barreira Weismann, que enuncia a imposibilidad de transferência de informação entre a linha somática e a germinal, o lamarckismo foi eliminado o considerando erróneo. Não obstante, durante o século XX têm existido evolucionistas que têm defendido o lamarckismo, existindo na actualidade vozes desde a biologia e o evolucionismo que reivindicam seu reformulación.

Lamarck, sua Filosofia zoológica (actualmente seria teoria zoológica) parece-me o livro mais importante da biologia que se tenha escrito jamais. Lamarck foi o que aplicou o conceito de biologia ao estudo dos seres vivos dotando de uma base teórica para que tivesse consistência. [...] Era uma pessoa que tinha uma capacidade impressionante de compressão da Natureza, tinha uma visão bellísima da Natureza...
Máximo Sandín, A evolução a 150 anos (luz) de Darwin, conferência na Universidade de Oviedo, 16/11/2009.[5]

Na actualidade, o lamarckismo tem ficado simplificado como a teoria da "herança dos caracteres adquiridos". A síntese (neodarwinismo) formulada nos anos trinta do século passado, segundo a qual, a vida evolui em consequência de mutaciones aleatórias no DNA fixadas pela selecção natural, é considerada, pela maioria do estamento académico, satisfatória para descrever a Evolução.

Conteúdo

Contexto histórico

A diferença do pensamento evolucionista de Darwin , ao que se lhe pode atribuir uma influência directa de seu avô Erasmus e do próprio Lamarck,[6] e um ambiente no que a filosofia zoológica teria gerado uma verdadeira inquietude evolucionista,[7] os antecedentes em Lamarck são difusos e teve que elaborar sua teoria em um contexto que a recepção de sua obra demonstrou hostil.

É óbvio que o pensamento evolucionista sozinho foi possível depois de se estabelecer o método científico e seu empenho por descrever o mundo com explicações que o próprio mundo pudesse nos dar, sem recorrer a causas externas a ele. A Ilustração, o espírito de L'Encyclopédie, e o apoio de Buffon fariam possível que Lamarck desenvolvesse seus trabalhos sobre História Natural, botánica e acometesse o estudo dos invertebrados. Também, teriam existido pequenos destellos evolucionistas que questionariam o fijismo em Diderot e Maupertuis e, anteriormente, em Leibniz ;[8] o avanço na geologia teria possibilitado que Lamarck se propusesse a imposibilidad de que a Criação tivesse previsto todas as formas de vida que se observavam na natureza, perfeitamente adaptadas a umas mudanças que ter-se-iam dado anteriormente a essa criação. Em todo o caso, o fijismo estava perfeitamente estabelecido e sua proposta evolucionista teve que se enfrentar ao dogma religioso da Criação e ao pensamento científico do muito influente Cuvier que justificou as descobertas que os fósseis proporcionavam sobre formas de vida diferentes às actuais, como espécies sem conexão com estas, extinguidas pelos sucessivos cataclismos que ter-se-iam produzido ao longo da história geológica.[9] [10]

Lamarck teve que esboçar sua teoria em um tempo no que o estado das ciências naturais era “caótico”, "formuladas em uma época em que nem sequer se podia entrever a possibilidade longínqua das fundar sobre factos evidentes"[11] Momentos nos que se admitia que a vida surgia por geração espontánea e se desconhecia tudo sobre a herança biológica.

A experiência no ensino fez-me sentir de que modo uma filosofia zoológica, isto é, um corpo de preceitos e de princípios relativo ao estudo dos animais e até aplicáveis á as outras partes das ciências naturais, nos séria útil na actualidade, dados os progressos que se realizaram nestes últimos anos em nossos conhecimentos dos factos zoológicos.
Filosofia zoológica, introdução.

Teoria da evolução de Lamarck

O assunto relativo ao exame dos animais não consiste unicamente em conhecer as diferentes raças nem determinar entre elas todas as distinções, fixando seus caracteres particulares, senão também o de chegar a conhecer, ademais, a origem das faculdades de que desfrutam, as causas que os fazem existir e mantêm sua vida., e por último, as da progressão notável que apresentam na ordem de sua organização, e no funcionamento o mesmo que o desenvolvimento daquelas faculdades.
Filosofia Zoológica.

Lamarck lamentou que em seu tempo a história natural se limitasse à classificação das diferentes formas de vida. Esse labor, que considerou importante, deveria fundamentar em uma filosofia” que indagase nestas formas de vida, em sua natureza e suas conexões: “chegar a conhecer bem um objecto, até em seus mais mínimos detalhes, consiste em começar por considerar em sua totalidade, examinando, por de repente, já sua massa, já sua extensão, já o conjunto das partes que o compõem; por indagar qual é sua natureza e sua origem, quais são suas relações com os outros objectos conhecidos; considerar-lhe desde todos os pontos de vista que possam nos ilustrar sobre todas as generalidades que lhe conciernen”. Desse modo, o conhecimento científico estabelecer-se-ia, rectificando-se e ampliando-se; acercando-nos a conhecer o “plano da Natureza” e suas leis.[12]

A observação da grande variedade de espécies existentes e sua “perfeita” adaptação às circunstâncias em que se desenvolviam lhe levou a formular uma disyuntiva: ou todas as espécies se tinham criado adaptadas às diferentes condições existentes na Terra e estas condições não se tinham alterado desde essa criação, como era aceite em sua época, ou as espécies tinham evoluído para se adaptar às diferentes mudanças que teriam experimentado os hábitat nos que se desenvolveram.

tudo demonstra que o conjunto das formas vivas não tem podido se constituir ao mesmo tempo. A cada um dos corpos vivos tem sofrido mudanças mais ou menos grandes no estado de seus órgãos e em suas relações mútuas. Em consequência, a espécie não pode constituir um quadro rígido formado de uma vez para sempre e onde vêm a se instalar os indivíduos das gerações sucessivas. «O que se chama espécie... só tem uma permanência relativa em seu estado, que não pode ser tão antigo como a natureza.»
Jacob citando a Lamarck, Lógica do vivente, Cap. 3-O tempo.

Conceito de evolução

Dobzhansky, um dos fundadores do neodarwinismo, 130 anos após que Lamarck formulasse a teoria da evolução, sem lhe outorgar o devido reconhecimento, definiria a evolução nestes termos:

O estudo científico da diversidade orgânica e adaptação começa pela necessidade de descrição e classificação. Ao princípio de sua existência como uma ciência, a biologia obligadamente se reduziu a constituir um sistema racional sobre a variedade aparentemente ilimitada das formas de vida. No décimo oitavo e décimo nono século, a sistémica e a morfología, duas disciplinas predominantemente descritivas, dominaram as ciências biológicas. Mas a descrição é só o primeiro passo à pergunta científica. No entanto, grande pode ser a satisfação em um pesquisador a observação e a fixação exacta dos factos, mais cedo ou mais tarde sentiu o desejo de inquirir nas conexões causales entre os fenómenos observados. A teoria de evolução levantou-se no décimo nono século através da generalização e inferência de um corpo predominantemente sistémico e dados de morfología. Construindo um armazón racional para o pensamento biológico.

A teoria de evolução afirma que:

  • 1.— os seres que agora vivem têm descido de seres diferentes que viveram no passado;
  • 2.— as mudanças evolutivos são graduais, tanto que se pudéssemos reunir a todos os organismos que têm habitado na terra, reconheceríamos uma série contínua de formas.
  • 3.— as mudanças têm sido predominantemente divergentes, os antepassados das formas viventes actuais eram em general menos diferentes do que hoje são;
  • 4.— todas estas mudanças se levantaram de causas que agora continuam estando em funcionamento, e daí portanto pode se estudar experimentalmente.
    Dobzhansky, Genética e a origem das espécies, 1937

Também destacou a surpreendente adaptação dos organismos a seu médio: “A adaptação de organismos a seus ambientes é surpreendente. As estruturas, funções, e modos de vida da cada espécie são pelo menos toleravelmente consonante com as demandas de seu ambiente. A cada organismo ajusta-se, ocupa e aproveita-se de certos hábitats”, atribuindo a Darwin a observação dessa grande capacidade dos organismos para adaptasse ao médio e sua grande diversidade como resposta a essa adaptação: "Um sempre se fascinou pela grande diversidade de organismos que vivem no mundo [...] Darwin foi o primeiro em inferir que essa diversidade orgânica é uma contestación da matéria vivente à diversidade de ambientes em nosso planeta.[13]

O exposto por Dobzhansky perfeitamente poderia servir para sintetizar o conceito de evolução na teoria de Lamarck:

E pôs especial énfasis na surpreendente adaptação dos organismos a seus ambientes.

À medida que os indivíduos de uma de nossas espécies mudam de situação, de clima, de maneira de ser ou de hábito, recebem por isso as influências que mudam pouco a pouco a consistência e as proporções de suas partes, de sua forma, suas faculdades e até sua mesma organização; de sorte que tudo em tais indivíduos participa, com o tempo, das mutaciones experimentadas. No mesmo clima, situações e exposições muito diferentes fazem por de repente simplesmente aos indivíduos que se encontram expostos a elas; mas com a sucessão dos tempos, a contínua diferença das situações dos indivíduos de quem falo, que vivem e se reproduzem sucessivamente nas mesmas condições, produz neles diferenças que chegam a ser, em verdadeiro modo, essenciais a seu ser; de sorte que se sucederam-se os uns aos outros, estes indivíduos, que pertencem originariamente a outra espécie, se encontram ao fim transformados em uma espécie nova diferente da outra.
Filosofia zoológica, pp. 56-57.

Lamarck formulou que os seres vivos evoluem adaptando às condições, circunstâncias e ambientes nos que se desenvolvem, e a diversidade de situações à que podem estar submetidos teria propiciado a grande diversidade de formas de vida actuais. Contribuiu como prova a existência de fósseis de formas de vida diferentes às actuais, razonando sobre a imposibilidad de que estas não fossem senão formas intermediárias entre as actuais e as primigenias. Baseando, também, sua afirmação no observado na natureza:

sabemos positivamente na actualidade que uma mudança forçada e sustentado nas zonas de habitação e nos hábitos e a maneira de viver dos animais, operam, após um tempo suficiente, uma mutación muito notável nos indivíduos que se encontram submetidos a eles.
Filosofia zoológica, p. 64.

Estes factos têm sido, posteriormente, sobradamente demonstrados.

Sobre a forma em que se evolui

A Natureza teria feito produzindo as formas mais simples (a crença geral naquela época era que a vida surgia por geração espontánea, sendo Pasteur quem, em meados do século XIX, refutara tal crença) e a evolução teria actuado complicando sucessivamente a organização destas formas, as diversificando e as dotando de órgãos que em princípio seriam rudimentarios, até a complexidade que apresentam os organismos na actualidade. A cada espécie “tem recebido da influência das circunstâncias nas quais se encontrou, os hábitos que conhecemos e as modificações em suas partes que nos mostra a observação”.[14] A forma em que isto teria sucedido seria “por tanteos e sucessivamente”.[15] Resumindo-se sua teoria em: as circunstâncias criam a necessidade, essa necessidade cria os hábitos, os hábitos produzem as modificações como resultado do uso ou desuso de determinado órgão e os meios da Natureza se encarregam de fixar essas modificações.

Descreveu esta evolução como consequência de seis pontos:

Formulando duas leis, o que hoje se conhece como “herança dos caracteres adquiridos”:

Assim, para chegar a conhecer as verdadeiras causas de tantas formas diversas e de tantos hábitos diferentes como nos oferecem os animais, é preciso considerar que as circunstâncias infinitamente diversificadas, nas quais se encontraram os seres da cada raça, têm produzido para a cada um deles necessidades novas e mudanças em seus hábitos necessariamente. Reconhecida esta verdade, que ninguém poderá negar, será fácil perceber como as novas necessidades têm podido ser satisfeitas e os novos hábitos adquiridos, se se presta alguma atenção às duas seguintes leis da Natureza, que sempre tem comprovado a observação:

Primeira lei: Em todo o animal que não tem traspassado o termo de seus desenvolvimentos, o uso frequente e sustentado de um órgão qualquer o fortifica pouco a pouco, lhe dando uma potência proporcional à duração deste uso, enquanto o desuso constante de tal órgão o debilita e até lhe faz desaparecer.

Segunda lei: Todo o que a Natureza fez adquirir ou perder aos indivíduos pela influência das circunstâncias em que sua raça se encontrou colocada durante longo tempo, e consequentemente pela influência do emprego predominante de tal órgão, ou pela de sua desuso, a Natureza o conserva pela geração nos novos indivíduos, contanto que as mudanças adquiridas sejam comuns aos dois sexos, ou aos que têm produzido estes novos indivíduos.
Lamarck, Filosofia zoológica, pp. 175-176.

Para Lamarck, a adaptação dos organismos ao ambiente no que vivem é fundamental para sua evolução."Esta interferência, que se produz constantemente entre as faculdades mesmas do vivente e as circunstâncias exteriores, deriva do que Lamarck considera uma das propriedades mais indiscutibles dos seres: a adaptação a suas condições de vida, a concordancia entre o organismo e seu meio".[17] Lamarck entende que esse ambiente compreende todas as circunstâncias às que os organismos se encontrem expostos.

Para que um ser viva, para que respire e se alimente, é necessário que se estabeleça um acordo entre os órgãos encarregados destas funções e as condições exteriores. É necessário que a organização reaja ante o que Lamarck chama «as circunstâncias». Por circunstâncias entendem-se os hábitats da terra ou da água, os solos, os climas e as outras formas viventes que rodeiam aos organismos, em soma toda «a diversidade dos meios nos que habitam».
Jacob, Lógica do vivente, Cap. 3-O tempo.

A ordem geral da natureza manter-se-ia, “a multiplicação das pequenas espécies de animais é tão considerável, que elas fariam o balão inhabitable para as demais, se a Natureza não tivesse oposto um termo a tal multiplicação. Mas como servem de presa a uma multidão de outros animais, e como a duração de sua vida é muito limitada, sua quantidade se mantém sempre em justas proporções para a conservação de suas raças [...] e isso conserva a seu respecto a espécie de equilíbrio que deve existir”.[18]

Ciência e religião

Sem entrar em valorizar as possibilidades que Lamarck tivesse tido em sua época de protagonizar com sucesso um confronto directo com a Igreja e a crença em um ser todopoderoso, Lamarck não questionou a existência de Deus, nem que todo fosse sua “Obra”; mas encontrou uma via para poder expor seu pensamento evolucionista, tentando evitar esse confronto.

Nada existe, efectivamente, senão por sua vontade; mas podemos atribuir-lhe regras na execução dela e fixar o modo que tem seguido a este respecto? Seu poder infinito não pôde criar uma ordem de coisas que desse sucessivamente a existência a todo o que vemos como a todo o que existe e não conhecemos? Certamente, qualquer que tenha sido sua vontade, a imensidão de sua poder é sempre o mesmo, e de qualquer maneira que se tenha executado esta vontade suprema, nada tem podido diminuir sua grandeza. Respeitando, pois, os decretos desta sabedoria infinita, eu me circunscribo a encerrar nos limites de um simples observador da Natureza. Em isto caso, se chego a vislumbrar alguma coisa na marcha que ela tem seguido para operar suas produções, direi, sem temor de me equivocar, que plugo a seu Autor que a Natureza tenha esta faculdade e este poder.
Filosofia zoológica, pp. 52-52

Lamarck, sem questionar a existência de Deus, delimitou as crenças religiosas pessoais, separando-as do que ele considerou seria espaço reservado à ciência, afirmando poder provar que “a Natureza possui os meios e as faculdades que lhe são necessários para produzir por si mesma o que admiramos em ela”.[19]

A complexidade crescente dos organismos

Tratarei de demonstrar, citando em apoio disso factos conhecidos em todas partes, que ao compor e complicar a cada vez mais a organização animal, a Natureza tem criado progressivamente os diferentes órgãos especiais, bem como as faculdades de que os animais desfrutam.
Filosofia Zoológica, introdução.

Um problema para a correcta interpretação do lamarckismo consistiria em que os termos utilizados por Lamarck pudessem ter um significado diferente em sua época ao que poderíamos atribuir na actualidade. Assim passa com o termo «filosofia», assim poderia passar com outros muitos termos usados por ele e este poderia ser o caso de termo «perfección», profusamente utilizado por Lamarck. Fala de animais menos perfeitos», de «perfeccionamiento de órgãos e espécies»,... que na natureza podemos observar «a organização animal mais simples até a do ser humano, que é a mais complexa e a mais perfeita».

Desde a formulación da teoria da evolução por Lamarck, o termo «perfección» tem sido o principal cavalo de batalha das posições creacionistas, argumentando que a perfección da natureza unicamente poderia se faz de um ser superior.[20] Hoje admite-se que a evolução não é um processo que tenha como fim a perfección, também se admite que o termo «perfección» é inadequado para descrever a organismos ou tratar temas evolutivos. Não se considera à espécie humana a mais «perfeita». Provavelmente o termo «complexo» seja o mais adequado para referir às diferenças entre organismos, poderíamos falar de organismos simples, ou menos complexos, e organismos complexos.[21]

«Conquanto é verdadeiro que todos os corpos vivos constituem produtos da natureza, não pode se negar que esta os produziu de maneira sucessiva e não todos ao mesmo tempo em um tempo sem duração; mas se a natureza formou-os sucessivamente, cabe pensar que tem começado pelos mais simples, deixando para o final as organizações mais complexas.» Em consequência, menos perfeccionado significa também menos complexo e anterior. Tenho aqui a relação que permite a transformação da série de organizações no espaço em uma série isomorfa de transformações no tempo. Percorrer a corrente contínua dos seres, do mais simples ao mais complexo, equivale exactamente a seguir a marcha da natureza através do tempo, a reconstruir a sucessão de transformações que tem originado as diferentes formas de vida. Na escala dos seres, as formas mais rudimentarias passam então a ocupar um lugar privilegiado, pois nelas deu começo a organização. Em consequência, é nos organismos mais simples, nos «animais sem vértebras», onde podem discernirse com maior clareza as variações e se analisar mais facilmente as exigências da organização.
Jacob citando a Lamarck, Lógica do vivente, Cap. 3-O tempo.

Lamarck utiliza o termo «perfeito» em contraposição a «simples» e em seus escritos pode ler-se: «Disso se segue que se uma das extremidades da ordem apresenta os corpos viventes mais perfeitos, aqueles cuja organização é mais composta, a outra extremidade da mesma ordem deverá necessariamente oferecer os corpos viventes mais imperfectos, isto é, aqueles cuja organização é mais simples». Em Ayala(1994) pode ler-se: «Segundo Lamarck, os organismos evoluem necessariamente através do tempo em um processo que passa de maneira contínua de formas mais simples a outras mais complexas»[22] Em todo o caso, Lamarck utiliza o termo perfeito como um «curinga» para se referir às complexas espécies actuais em contraposição às primigenias que ele sustentou surgiram em um estado de simpleza ou “imperfección”, se referindo a «os mais imperfectos dos animais», para se referir aos mais simples; e os «mais perfeccionados», para referir-se aos mais complexos e actuais. Esta abundante utilização do termo «perfección» tem levado a que recurrentemente se considere o lamarckismo uma teoria finalista; isto é, uma teoria segundo a qual a evolução responderia a um «fim» preestablecido. Se interpretamos a observada por Lamarck, tendência dos organismos a aumentar sua complexidade e «perfección», não como a tentativa de sistematizar um facto supostamente constatado, senão como um destino final da evolução, deveremos considerar o lamarckismo uma teoria finalista. Não obstante, esse suposto finalismo, nunca enunciado por Lamarck, levar-se-ia mau com a que ele propõe causa da evolução segundo a qual a Natureza teria feito por «tanteos e sucessivamente».[23]

quando depois vemos que, desde que o animal mais imperfecto, que não tem nenhum órgão particular, e consequentemente nenhuma outra faculdade que aquelas peculiares da vida, até o animal mais perfeito e mais rico em faculdades, a organização se complica gradualmente, de tal modo que todos os órgãos, inclusive os mais importantes, nascem os uns após os outros na extensão da escala animal, perfeccionándose em seguida sucessivamente pelas modificações que sofrem, e que os acomodam ao estado de organização de que fazem parte.
Filosofia zoológica, p. 75.

Lamarck, para percorrer a evolução da vida efectua um estudo inverso ao que hoje é costume.[24] Hoje estuda-se a Evolução desde sua origem até nossos dias. Em tempos de Llamarck, nos que não se reconhecia a evolução da vida, teria sido impossível realizar o estudo desde sua origem (origem que não se reconhecia como tal). Lamarck parte do actual estado das espécies e organismos, e desde esse estado postula que segundo vamos descendo até a origem destas espécies e organismos observar-se-á uma degradação em seus órgãos e suas faculdades até seu desaparecimento, momento que suporia a origem destes órgãos e faculdades:

Em seguida observamos que, salvo as anomalías, cuja causa determinaremos, rainha, de um extremo a outro desta corrente, uma degradação surpreendente na organização dos animais que a compõem e uma diminuição proporcionada no número das faculdades destes animais. De sorte que se em uma das extremidades da corrente de que se trata, se encontram os mais perfeitos dos seres, se vê necessariamente na outra extremidade os mais simples e os mais imperfectos.

Por último, um se convence por este exame de que todos os órgãos especiais se simplificam progressivamente de classe em classe, se alteram, se empobrecen e se atenuam pouco a pouco, até que perdem sua concentração local, se eles resultam de primeira importância, e que acabam por se aniquilar completa e definitivamente dantes de ter atingido a extremidade oposta da corrente. […]

A progressão na composição da organização sofre aqui e lá, na série geral dos seres, anomalías operadas pela influência das circunstâncias de habitação [hábitat] e pela de seus hábitos adquiridos.
Filosofia zoológica, pp. 106-107.
Aplicando a metodología de Lamarck, descobertos diferentes restos de nossos ancestros, se ordenamo-los atendendo à «escala gradual» por ele postulada, deveria, como assim ocorre, nos proporcionar a ordem no que têm evoluído, se reconhecendo neles suas «conexões».[25] (Representação esquemática ideal).

«É porque Lamarck segue vendo uma série linear no mundo vivo pelo que pode ver nele o resultado de uma série cronológica de eventos. É porque a natureza não dá saltos pelo que as relações de vecindad podem se ligar com as de descendencia. “A natureza segue uma ordem fácil de reconhecer, porque é exactamente o inverso do que observamos ao percorrer os seres desde o mais perfeito até o mais simples”».[26] Lamarck teve que se enfrentar, não só ao fijismo religioso, senão também ao fijismo científico. Cuvier, desde sua posição de autoridade como grande anatomista, formulou que a vida estava constituída por grandes grupos perfeitamente diferenciados, sem possibilidade de que desde um grupo se pudesse chegar a outro.[27] Lamarck considerou fundamental "ligar" todas as espécies entre si. Devia convencer a seus contemporâneos da evolução da vida auxiliado unicamente da observação das espécies então conhecidas e muito escassos dados paleontológicos. Desconhecendo-se tudo sobre a herança biológica e em ausência de argumentos empíricos, teve que articular regras que refutaran o figismo de Cuvier. Devia «ligar» todas as espécies sem excepção, ou justificar sua falta de conexão. A constatación de uma espécie que não pudesse ligar com o resto questionaria o facto da evolução. Daí seu obsesión em demonstrar a gradación contínua entre todas as espécies e, essa gradación, transladar a sua evolução no tempo.

Não obstante, sobretudo no reino animal, muitas destas divisões parecem realmente formadas pela própria Natureza, e é indudable que durante longo tempo custará muito trabalho o achar que os mamíferos, que as aves, não resultem classes bem isoladas constituídas pela Natureza. Pois isto não é mais que uma ilusão e ao mesmo tempo um resultado dos limites de nossos conhecimentos a respeito dos animais que existem ou têm existido, porque à medida que avançam nossos conhecimentos de observação, mais provas adquirimos de que os limites das classes, até as daquelas que parecem mais isoladas, resultam apagados por novas descobertas. Já os ornitorincos e os equídeos parecem indicar a existência de animais intermediários entre as aves e os mamíferos.
Filosofia zoológica, p. 32.

Lamarck postuló que a vida experimenta em sua evolução um incremento em sua complexidade e que esta complexidade está condicionada pelas diferentes circunstâncias às que os organismos têm estado expostos.[28] o correcto ou incorreto deste postulado de Lamarck dependerá de que aceitemos ou não que a evolução dos organismos tenha tendido à complexidade, que possa se inferir que essa tendência se mantém para explicar uma provável evolução da vida em um futuro. Gould (2002), para obviar no incremento da complexidade dos organismos uma tendência innata destes, consequência de sua vontade, que ele considera desprender-se-ia do lamarckismo,[29] o que significaria em verdadeiro modo um finalismo, confere uma propriedade meramente mecânica a essa tendência, visualizando na metáfora do bêbado e o bordillo da acera: um bêbado iria dando tumbos de um lado a outro da acera até ultrapassar o bordillo e atingir a calçada. Uma vez ocorrido isto, ao bêbado resultar-lhe-ia difícil voltar a retomar a acera. Os organismos iriam «dando tumbos» adquirindo diferentes graus de complexidade (baixando bordillos) que posteriormente ser-lhes-ia difícil voltar a subir. Esta metáfora fraterniza a constatada tendência da vida à complexidade com uma visão azarosa darwinista de sua evolução. Essa tendência não teria por que supor nenhum tipo de finalismo.[30]

Se certos tipos de organizações assemelham-se, isto já não sucede em virtude de uma pretendida harmonia preestablecida para além do conhecimento humano, senão devido ao facto de que têm atravessado uma ou mais etapas comuns no processo de transformação. Para classificar os seres naturais já não basta, portanto, com reconhecer as similitudes no espaço; é necessário estabelecer qual tem sido a sucessão no tempo.
Jacob citando a Lamarck, Lógica do vivente.

Desde o Lamarckismo, uma crescente complexidade da vida poderia entender-se como uma consequência mecânica da adaptação dos organismos às «circunstâncias», não como algum tipo de finalismo.[31] O símil do desenvolvimento de sistemas e programas informáticos pode servir para explicar como uma tendência à complexidade pode ser meramente mecânica. Existe uma tendência destes sistemas e programas a «crescer»; parece inevitável que as versões que remplazan a outras anteriores se componham de um código mais extenso. No entanto, não existe nestes sistemas a finalidade de crescer. Em verdadeiro modo, os programas adaptam-se constantemente às novas «circunstâncias» e seu crescimento em complexidade não é um fim, nem sequer é desejável, mas parece inevitável. Hæckel entendeu assim o pensamento de Lamarck:

Todos os fenómenos vitais [em sua teoria] são devidos a causas mecânicas, já físicas, já químicas, que têm sua razão de ser na constituição da matéria orgânica. […] A obra de Lamarck é verdadeiramente, plenamente e estritamente monística, isto é, mecânica.
Ernesto Hæckel, Prólogo de Filosofia zoológica.

Ainda que autores têm querido ver no pensamento de Lamarck uma espécie de vitalismo que seria o que propiciaria esse aumento da complexidade: «Essa força innata postulada por ele não tem sido validada pela ciência experimental e não constitui uma contribuição científica empírica».[32]

A herança dos caracteres adquiridos

Superficialmente, as gerações sucessivas dos corpos de insectos-pau parecem constituir uma linhagem de réplicas. Mas se modifica-se experimentalmente a um membro de dito linhagem (por exemplo, tirando-lhe uma pata), a mudança não passa à seguinte geração.
Dawkins, O gene egoísta.

Estritamente não pode falar da herança dos caracteres adquiridos» já que naquele tempo se desconheciam os mecanismos da herança biológica, e porque o postulado de Lamarck, exactamente, foi que as transformações que operam as diferentes circunstâncias às que estão submetidos os organismos, os meios da Natureza se encarrega de fixar no grupo que se encontra submetido a estas circunstâncias, contanto que se mantenham no tempo. Em nenhum caso pode considerar-se lamarckismo que uma característica contraída em vida por um organismo, passe directamente a seu descendente. É óbvio que se se circuncida a alguém, isto não significará que seus descendentes nasçam circuncidados. Lamarck falou de certos fluídos que encarregar-se-iam de fixar essas adaptações,[33] o que permite pensar que supunha nos organismos a capacidade de fixar evolutivamente as soluções encontradas aos problemas propostos pelas circunstâncias. «Todo a mudança de um ser que o transforma em outro ser, implica […] satisfazer uma necessidade concreta, uma maior capacidade de resposta às exigências vitais».[34] Quiçá, mais correcto seria dizer que se durante gerações todos ou a maioria dos indivíduos de um grupo se vissem submetidos a um traumatismo como a amputação de um membro, com o decorrer de sua evolução, tal circunstância seria menos traumática e as soluções encontradas para sobreviver em tais circunstâncias, com o passo do tempo, poderiam encontrasse presentes no pool genético do grupo. Ou, também, se tivessem conseguido eludir a amputação, estandarizándose uma estratégia, igualmente ter-se-ia fixado. Hoje em dia isto não é aceite; mas, para resolver casos parecidos a este, nos que fica demonstrado uma resposta da espécie ao ambiente, se aceita como possível solução o “efeito Baldwin”, mediante o qual, a selecção natural fixaria essas respostas adaptativas.[35]

«Tomemos dois exemplos chocantes: o álcool e o leite. A habilidade para digerir grandes quantidades de álcool depende em certa medida da excessiva produção de umas enzimas chamadas álcool deshidrogenasas levada a cabo por um conjunto de genes do cromosoma 4».[36] Existe uma relativa tolerância ao álcool nos indivíduos das sociedades ocidentais que deve se supor produto de seu contacto com o álcool e que não se dá nos nativos da América do norte e da Austrália. Desde o lamarckismo, a explicação seria que sendo o álcool uma circunstância à que têm estado submetidos os organismos, com o tempo, estes organismos teriam adquirido uma maior tolerância. os organismos ter-se-iam habituado ao consumo de álcool e esta característica, com o tempo iria fixando no grupo de indivíduos que tem estado em contacto com o álcool. A explicação darviniana seria que em decorrência dos anos que temos estado separados geneticamente (entre 35.000 – 15.000 anos),[37] aproximadamente 800 gerações, os indivíduos com maior tolerância ao álcool teriam adquirido a suficiente vantagem biológica como para impor no pool genético essa característica de sua genoma. Cabe também supor, dado que em ocidente a tolerância ao álcool pode representar mediante um sino de Gauss, que se produziram sucessivos erros genéticos no sentido de aumentar a tolerância ao álcool que restaurasse a variabilidad inicial, deslocando o sino a posições de maior tolerância. Como desde o darwinismo não se pode supor tal direccionalidad, o "efeito Baldwin" viria a auxiliar à selecção natural para salvar este escollo, a selecção natural teria favorecido os hábitos adquiridos.

Algo similar ocorre com um gene do cromosoma 1, o gene da lactasa. Esta enzima é necessária para a digestión da lactosa, um açúcar que abunda no leite. Quando nascemos todos temos este gene activado em nosso sistema digestivo, mas em grande parte dos mamíferos —e portanto em grande parte das pessoas— se desactiva durante a infância. […] No entanto, de vez em quando o gene que controla a desativação do gene da lactasa sofre uma mutación e a produção de lactasa não se detém ao final da infância. Esta mutación permite a seu portador beber e digerir o leite ao longo de toda sua vida. Os factos indicam que, em primeiro lugar, tais pessoas empreenderam uma vida de pastoreo e posteriormente desenvolveram uma capacidade para digerir o leite em resposta a ela, não que empreendessem uma vida de pastoreo porque estivessem geneticamente dotadas para isso.[38] Este é uma descoberta significativa, um exemplo de mudança cultural que conduz a uma mudança evolutivo e biológico. Podem-se induzir mudanças nos genes voluntária e conscientemente. Ao empreender o estilo de vida razoável dos pastores de ganhado lechero, os seres humanos criaram suas próprias forças evolutivas. Soa quase como a grande herejía lamarckiana que confundiu o estudo da evolução durante tanto tempo: a ideia de que um ferreiro que ao longo de sua vida tem adquirido uns braços musculosos tinha filhos com braços musculosos. Não é isso, mas é um exemplo de como a acção voluntária e consciente pode modificar as forças evolutivas sobre uma espécie, concretamente sobre nossa espécie.
Matt Ridley, Genoma, pp.220-221.

Lamarck formulou, como mecanismo pelo que as espécies se adaptavam às circunstâncias, a transferência das modificações experimentadas pelos organismos em vida ao conjunto da espécie mediante um processo lento e sustentado. Sustentou que se uma «raça» (isto é, um grupo de organismos) estava submetida às mesmas condições ambientais e estas condições se prolongassem durante muito tempo, transformar-se-iam adaptando a esse ambiente. Como mecanismo, propôs que as trasformaciones que os organismos experimentamos em vida submetidos aos diferentes ambientes, com o tempo fixar-se-iam em seu descendencia, o que hoje conhecemos como transferência horizontal. Advertiu que esse processo é um processo tão lento que desde nossa capacidade de observação passaria inadvertido. Segundo as duas leis que formulou, as mudanças se produzem não no indivíduo senão na população (não em um ou vários indivíduos, senão no conjunto de indivíduos do grupo) e não são mudanças imediatos senão que fixar-se-iam ao longo de um prolongado processo.[39]

As variações nas circunstâncias para os seres viventes, e sobretudo para os animais, produzem mudanças em suas necessidades, em seus hábitos e no modo de existir, e se estas mudanças dão lugar a modificações ou desenvolvimentos nos órgãos ou na forma de suas partes, deve-se induzir que insensivelmente todo corpo vivente qualquer deve variar em suas formas ou seus caracteres exteriores, ainda que semelhantes variações não chegassem a ser sensíveis mais que após um tempo considerável. […] Na cada lugar onde os seres podem habitar, as circunstâncias que estabelecem nele uma ordem de coisas permanecem longo tempo sendo as mesmas e não mudam em realidade mais que com uma lentidão tão grande, que o homem não pode as advertir directamente. Está obrigado a consultar os monumentos para reconhecer que na cada um daqueles lugares a ordem de coisas estabelecido não tem sido sempre o mesmo. As raças de animais que vivem na cada um deles devem conservar nele longo tempo seus hábitos. De aqui para nós a aparente constancia das raças que chamamos espécies, constancia que fez nascer em nosso pensamento a ideia de que as raças são tão antigas como a Natureza.
Lamarck, Filosofia zoológica, pp. 69, 174.

Lamarck, para explicar essa consolidação das modificações que experimentavam os organismos, falou de uma espécie de “fluído” presente a eles. Não existindo naqueles momentos nenhum tipo de conhecimento sobre os mecanismos da herança, sobre genética; esta parte da teoria carece de interesse; e poderia dizer-se que ficou inexplicado como poderia transferir à herança tais caracteres adquiridos.

O problema para aceitar a herança dos caracteres adquiridos segue sendo o mesmo, oferecendo ainda mais dificuldades desde a genética de Mendel e desde o actual paradigma genético, onde um carácter seria a expressão de um gene ou um conjunto de genes. Essa transferência difusa que operaria durante longo tempo, não se contempla. A herança dos caracteres de Lamarck suporia para as espécies a resposta que com o tempo dar-se-ia na Amazonía como consequência da combustão de milhares e milhares de automóveis funcionando na Europa, simultaneamente e de forma sustentada no tempo. Estes automóveis, por si sozinhos não modificariam substancialmente as condições na Amazonía, mas o efeito conjunto e sustentado sim fá-se-ia sentir nela. Desde nosso actual paradigma genético isto é impossível, não se contempla esta acção difusa. Teria que recorrer a explicações holísticas como a esboçada por Casilda Rodrigáñez se baseando na Simbiogénesis postulada por Lynn Margulis e que existisse a possibilidade de que nessas interacções participassem os mecanismos da herança, possibilidade não aceitada na actualidade desde o estamento académico:

O processo evolutivo que deu lugar aos organismos vivos complexos se chamou simbiogénesis.[40] Uma simbiosis quer dizer que duas formas de vida autónomas, com sua capacidade de autorregulación e sua ecosistema próprio, se unem promovendo uma autorregulación conjunta e um ecosistema comum no que ambas ficam englobadas, mantendo a cada qual seu próprio funcionamento autorregulador. Isto explica que uma célula não deixa de ser uma célula porque faça parte de um tecido. Isto é, a simbiogénesis explica que em um organismo hipercomplejo a cada sistema que o forma tem uma capacidade de autorregulación própria, e por isso se diz que é um ‘sistema fechado’ em sua organização, e ao mesmo tempo “aberto” em sua relação ‘informacional’ com os outros sistemas. Tão importante é que se mantenha o fechamento organizativo de um sistema (seu autorregulación), como sua abertura informacional e relação com os demais (autorregulación comum). Os sistemas orgânicos estão continuamente enviando-se sinais entre si e em todos os sentidos e direcções, e a cada vez se encontram mais enzimas, fijadores, moduladores, etc. que fazem parte dos processos, bem como os ‘receptores’ dos sinais…
Casilda Rodrigáñez, Sobre a função orgânica e social da sexualidad.

Não sendo aceitável a simplificação da herança dos caracteres em «o braço do ferreiro», não se corresponde com o mecanismo formulado por Lamarck; também não este mecanismo pode considerar-se viável desde o actual paradigma da genética.[41]

Adaptação ao médio

Para Lamarck, a adaptação das espécies ao meio é fundamental em sua evolução. Conquanto desde o darwinismo também se aceita a estreita relação entre espécies e ambiente, uma diferença substancial entre lamarckismo e darwinismo é a forma em que os organismos se adaptam a essas diferentes circunstâncias. No lamarckismo, primeiro são as mudanças nos hábitos forçados pelas circunstâncias e, posteriormente, a resposta a essas novas necessidades implicaria uma lenta adaptação dos organismos que, com o passo do tempo, ficaria fixada geneticamente. O que um grupo de animais ou plantas se vissem obrigados a mudar seus hábitos, forçaria mudanças orgânicos para se adaptar às novas circunstâncias. Pelo contrário, no darwinismo, e concretamente no neodarwinismo, é um erro genético anterior o que possibilita a adaptação às novas circunstâncias; posteriormente, enfrentado o grupo a essas novas circunstâncias, a descendencia do indivíduo portador da mutación adequada, proliferaría em detrimento do resto do grupo (o darwinismo baseia-se nessa capacidade diferencial de reproduzir desse indivíduo portador da mutación). O darwinismo implica que os mais aptos deslocam ao resto do grupo e o lamarckismo implicaria a evolução conjunta do grupo que paulatinamente iria se adaptando às novas circunstâncias.

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Não são os órgãos, isto é, a natureza e a forma das partes do corpo de um animal, os que têm dado lugar a seus hábitos e a suas faculdades particulares, senão que pelo contrário, seus hábitos, sua maneira de viver e as circunstâncias nas quais se encontraram os indivíduos de que prove, são os que com o tempo têm constituído a forma de seu corpo, o número e estado de um órgão, e as faculdades, em soma, de que goza. […] Sabe-se que este animal [a jirafa], o mais alto dos mamíferos, vive no interior da África, onde a região árida e sem praderas lhe obriga á ramonear as árvores. Deste hábito, sustentado após muito tempo, em todos os indivíduos de sua raça, resultou que suas patas delanteras se voltaram mais longas que as de atrás, e que seu pescoço se alongou de tal maneira, que o animal, sem se alçar sobre as patas traseras, levanta sua cabeça e atinge com ela a seis metros de altura.
Filosofia zoológica, pp. 187-188.

A culebra Thamnophis elegans desenvolve-se em dois diferentes hábitats, estando os diferentes grupos de tal modo adaptados a seus hábitats que a cada grupo mostra preferências alimenticias innatas coincidentes com as presas que se encontram nesses diferentes hábitats. Um dos grupos se alimenta habitualmente de babosas. Em experimentos com instâncias jovens de ambos grupos, sem que nenhum deles tivesse entrado em contacto com babosas, mediante algodones impregnados com aroma dessas babosas, ficou demonstrado que as culebras do grupo que se alimentava com babosas tinham adquirido uma conduta específica, só estas instâncias mostraram interesse pelos algodones.[42]

A explicação Lamarckiana é que ao ter evoluído estas culebras em um hábitat com diferentes recursos, teriam aprendido a explodir esses diferentes recursos e com o passo do tempo esta aprendizagem ter-se-ia fixado no genoma do grupo. A explicação darviniana seria que um erro genético teria possibilitado às culebras explodir esse novo recurso, e a descendencia do indivíduo que sofreu esse erro, com o tempo, ter-se-ia imposto sobre o resto.

Este postulado de Lamarck, segundo o qual, os organismos adaptar-nos-íamos ao meio, parece inevitável inclusive desde o darwinismo. O darwinismo, segundo o qual, primeiro seriam as mudanças genéticas e posteriormente a ocupação de novos espaços ou a aquisição de novos hábitos, se vê superado por diversos aspectos da evolução. Assim, desde o darwinismo se chegou a aceitar o postulado lamarckista, o adaptando a seu paradigma seleccionista. Para isso, se considera plausible o conhecido como «efeito Baldwin», um efeito que simularia a herança dos caracteres lamarckiana.[43]

Em princípio, o efeito Baldwin explicaria como a aprendizagem levaria a fixar geneticamente o aprendido mediante um processo de selecção natural. Admite-se que a aprendizagem pode chegar a fixar na herança, mas seria mediante um erro genético e, posteriormente, a descendencia desse indivíduo imporia esse erro adaptativo no grupo. Aceita-se que a vantagem de não ter que aprender algo e nascer com esse conhecimento já aprendido, adquirido mediante um erro genético, é suficiente vantagem para que os descendentes deste indivíduo desloquem ao resto do grupo e o que até então se adquiria por aprendizagem, ter-se-ia fixado geneticamente. Este efeito explicaria desde o darwinismo os demonstrados casos nos que comportamentos, em princípio aprendidos, passassem à herança.[44]

Não obstante, como existiriam outros casos nos que a ordem de acontecimentos postulado pelo darwinismo são difíceis de modelar, o efeito Baldwin se estendeu a outros aspectos da evolução. Assim, por exemplo, para explicar as callosidades presentes nos indivíduos de numerosas espécies se recorre ao efeito Baldwin. As linhas das palmas de nossas mãos, e que aparentan ser dobras produto de seu movimento, não podem explicasse mediante a prelación de factos darviniana, não pode considerar nessas linhas um efeito que produza uma vantagem reproductiva ao portador que mediante um erro genético as tivesse adquirido. Assim teria que supor, como no caso das callosidades, que foi primeiro o uso das mãos e depois essas marcas. Desde o darwinismo, auxiliado pelo efeito Baldwin, essas linhas teriam sido posteriores ao uso das mãos, produzidas por erros genéticos que viriam a facilitar sua mobilidade e portanto, seus portadores adquiriram a suficiente vantagem biológica como para impor estes genes no pool genético do grupo.[45]

A jirafa é prisioneira de sua história evolutiva. Seu morfología, segundo Lamarck, seria depoimento dessa história. Descendente de um grande altílope, herda a conformación de suas extremidades, comprometendo sua evolução em altura. Sem um potente e especializado sistema de bombeo do riego sanguíneo não teria podido atingir seus actuais desenvolvimentos.[46]

O lamarckismo oferece uma única explicação para todos estes fenómenos: desde o pescoço da jirafa, passando pelas mudanças em seu sistema bascular, a fortaleza de seu coração, sua própria estrutura,... mudanças sem os que seria impossível adquirir um longo pescoço, ou o rabo, sua forma e seu tamanho, ou aquela parte de seu comportamento que estivesse fixada geneticamente,... tudo seria produto da adaptação paulatina dos organismos aos diferentes ambientes. Em nosso caso, as linhas de expressão, as linhas da palma das mãos,[47] em general tudo em nós, segundo a teoria de Lamarck, seria depoimento do "uso" que lhe demos a nosso corpo ao longo de nossa história evolutiva.

Gradualismo e lamarckismo

Darwin chegou a dizer que a validade de sua teoria sobre a selecção natural dependia de que as mudanças fossem graduais.[48] Este facto entende-se já que para o darwinismo estas mudanças são aleatórias. Desde o darwinismo, a variabilidad sobre a que actuaria a selecção natural deve se gerar por pequenas mudanças, únicos verosímiles se são considerados mudanças aleatórias.

«Goldschmidt (1878-1958) publicou em 1940 um livro, titulado The Material Basic of Evolution, no que punha de relevo que as numerosas variações pequenas de Darwin propunham imensas dificuldades. Em primeiro lugar, existe uma tendência a voltar a uma população média, ainda que tenham aparecido mutaciones. Em segundo lugar, em todos os experimentos de selecção, nos encontramos com a grande dificuldade de corrigir mudanças para além de lodos limites definidos: as tentativas de ir para além levam quase invariavelmente à esterilidad e a extinção».[49] Não obstante essas dificuldades, as dificuldades propostas pelos «monstros esperanzados» postulados por Goldschmidt[50] são ainda maiores: a possibilidade de que reordenaciones ou mudanças complexas e aleatórios no já complexo DNA sejam mudanças viables para os organismos, é despreciable. Tais mudanças poderiam explicar um acontecimento único e insólito, mas não um processo guiado por acontecimentos deste tipo; motivo pelo que tal teoria foi eliminada, inclusive ridiculizada.

Assim, o gradualismo para o darwinismo é um requisito indispensável e a apreciação de Darwin pode se considerar vigente. A resistência desde o neodarwinismo a aceitar o equilíbrio puntuado seria a constatación de sua vigência.

Lamarck, para descrever o modo no que se tinham formado as espécies, postuló «que com a ajuda de um tempo suficiente, das circunstâncias que têm sido necessariamente favoráveis, das mudanças que todos os pontos do balão têm sofrido em seu estado; em uma palavra, do poder que têm as novas situações e o novos hábitos para modificar os órgãos dos corpos dotados de vida, todos os que existem na actualidade foram insensivelmente formados tal como os vemos». E também, que o que «sigam uma ordem semelhante de coisas, os corpos viventes, experimentando mudanças mais ou menos grandes no estado de sua organização e de suas partes» demonstraria que «o que se chama espécie entre eles tem sido sucessiva e insensivelmente assim formada, não tendo, portanto, mais que uma constancia relativa em seu estado, e não pode ser tão antiga como a Natureza».[51] De maneira que para Lamarck o gradualismo é uma observação de como teria trascurrido a evolução da vida e sua constatación serviria para refutar o fijismo das espécies.[52]

Para Lamarck, o gradualismo é um facto constatado na Natureza, desde nossa visão antropocéntrica a evolução passaria inadvertida, produzindo-se as mudanças quando os organismos se vêem submetidos a novas circunstâncias, sendo essas circunstâncias as que determinariam o ritmo e a característica destas mudanças.

Entre as considerações que interessam à filosofia zoológica, uma das mais importantes é aquela que concierne à degradação e à simplificação que se observa na organização dos animais, percorrendo de um extremo a outro a corrente dos seres, desde os mais perfeitos até os que resultam mais simplesmente organizados. Pois trata-se de saber se este facto pode ser realmente comprovado. Em tal caso aclarar-nos-á muito respecto do plano que tem seguido a Natureza, pondo sobre o caminho de descobrir muitas de suas leis que importa conhecer.
Filosofia zoológica, p 105.
A degradação de que falo não é sempre enfatizada nem regular em sua progressão. Com frequência tal órgão falta ou muda subitamente, e em suas mudanças adquire algumas vezes formas singulares que não se unem com nenhuma outra por graus perceptibles. […] Se a causa que tende sem cessar a compor a organização fosse a única que tivesse influência sobre a forma e os órgãos dos animais, a composição crescente da organização estaria em progressão muito regular por todas partes. Mas não há nada disto; a Natureza encontra-se obrigada a submeter suas operações às influências das circunstâncias que fazem sobre elas, e em todas partes estas circunstâncias fazem variar os produtos. Tenho aqui a causa particular que ocasiona cá e lá, no curso da degradação que vamos comprovar, os desvios muitos vezes insólitas que nos oferecem em sua progressão.
Filosofia zoologica, p 106.

O lamarckismo, ao não fundamentar a novidade biológica em mudanças aleatórios, não requer um estrito gradualismo.

Os organismos, agentes de sua própria evolução

Admitir que os organismos propiciem sua própria evolução não é intuitivo. Conquanto poderíamos assumir essa capacidade nos animais superiores, encontramos dificuldades em admitir parecidas capacidades em organismos como amebas ou bactérias. Entende-se essa capacidade como produto da vontade dos organismos.[53] Associada «a vontade» ao sistema nervoso, a pergunta seria como, então, teria surgido o sistema nervoso? Os organismos carentes desse sistema nervoso ficariam fora de uma possível evolução lamarckiana.[54] [55]

São muitos os historiadores do evolucionismo que têm visto como causa da evolução postulada por lamarck, a «vontade» dos organismos. Para explicar o lamarckismo faz-se questão dessa «vontade» como força que conduziria sua evolução: «Lamarck defende com reiteración que as circunstâncias ambientais produzem necessidades novas, e que a estas o organismo responde com novas acções. Mas o que não sempre formula é sua pretensão da vontade do animal cumpre uma função primária nesse encadenamiento de causas».[56] Lamarck postuló que as diferentes faculdades dos organismos são o produto de seus diferentes órgãos;[57] considerando a «vontade» como a faculdade que emana do sistema nervoso, negou tal vontade às plantas, para só a admitir em determinados animais. Dificilmente, Lamarck, pôde fundamentar sua teoria, que abarca a animais e plantas, na vontade de uns organismos aos que em sua maioria lhes nega tal faculdade:[58]

As acções dos animais não se executam mais que por movimentos excitados e não por movimentos comunicados de impulsão. Só a irritabilidad é para eles uma faculdade geral, exclusiva e fonte de suas acções. Não é verdadeiro que todos os animais gozem do sentimento, bem como da faculdade de executar actos de vontade.
Filosofia zoológica, p. 71.

A plasticidade dos organismos e a interacção entre organismos e ambiente estão perfeitamente documentadas, já se trate de animais superiores ou bactérias. Não se considera que essa plasticidade dos organismos seja produto de sua vontade. Também não vê-se nesta plasticidade algum tipo de intencionalidad ou vitalismo. Aceita-se que os organismos, como resposta aos estímulos externos, experimentamos mudanças, nosso sistema inmunológico seria uma boa prova disso, sendo esta uma qualidade puramente orgânica.[41] O que resta é que essa plasticidade atinja aos mecanismos da herança; algo que, ao dia de hoje, não se admite desde o dogma da genética.[59]

O lamarckismo não contempla o protagonismo do genoma na evolução. Actualmente admite-se que os erros na replicação do DNA são a causa de novidade biológica, sendo este o paradigma neodarwinista aceitado pela maioria do estamento académico. Para o lamarckismo são o organismo os que, directa ou indirectamente, têm ido plotando e ampliando o DNA. A bióloga Lynn Margulis assegura, sem que se lhe tenha contestado desde o neodarwinismo, que não existe prova, nem de laboratório nem pela observação da natureza que tenha surgido uma sozinha espécie produto de mutaciones a esmo. Neste caso, o neodarwinismo e seu dogma segundo o qual o DNA seria o principal agente da evolução estaria fundamentado sobre uma especulação e "sem evidência não há ciência".[60]

O Lamarckismo, no entanto, fundamentar-se-ia na transferência horizontal, transferência que a cada vez conta com maiores evidências.[61] O passo de procariotas a eucariotas mediante sucessivos processos simbióticos de bactérias de vida livre (endosimbiosis seriada) possibilitou um dos mais importantes metas na evolução da vida e, actualmente, se contempla ao vírus como agentes de transferência genética.[62]

Deste modo seriam os organismos os que propiciariam sua própria evolução e o produto dessa evolução ficaria plasmado no genoma. A mutaciones no DNA, que são depoimento de que os organismos sofrem modificações de geração em geração, não seriam aleatórias. Uma metáfora para visualizar a diferença entre lamarckismo e darwinismo poderia ser Wikipedia e uma enciclopedia tradicional. O lamarckismo seria Wikipedia, evolui mediante múltiplas contribuições dos consultores que a vão modificando, os wikipedistas representaríamos aos organismos que iriam modificando o DNA e os casos de vandalismo poderiam assimilar aos erros genéticos. As enciclopedias clássicas representariam o darwinismo sempre que ficassem desatendidas e evoluíssem mediante os erros que se produzissem ao as plotar; a selecção natural encarregar-se-ia de eliminar todos os erros e manteria os aciertos, aqueles erros que em lugar de supor uma ilegibilidad, supusessem uma mais adequada e mais extensa definição dos conceitos.[63]

Ao igual que o disco duro do computador, a molécula de DNA armazena informação evolutiva mas não a cria. Já que não são entidades" em um sentido coerente, os genes egoístas podem ser comparados a invenções de uma imaginación hiperactiva, inicialmente anglófona. O verdadeiro ser é a célula viva, entidade que não pode evitar criar cópias de si mesma. Ela é a personagem central. O motor da evolução move-se graças a seres diminutos de cuja existência mal somos conscientes.
Margulis, Captando genomas, p. 20

Recepção e alcance da teoria

As ideias de Lamarck não foram tidas em conta em sua época, ainda que seu livro filosofia zoológica, onde plasmó sua teoria, circulou por França e também por Inglaterra , obra à que teve acesso o próprio Darwin.[64]

Foi após formulada a teoria da Selecção Natural quando os evolucionistas retomaram o pensamento de Lamarck tentando suplir o esvaziou que a Selecção Natural deixava ao não explicar a fonte da variabilidad sobre a que tal selecção actuava. O próprio Darwin, ao mesmo tempo em que denostaba a teoria de Lamarck, tentou cobrir esse vazio postulando a «pangénesis», um mecanismo de transferência horizontal lamarkiano.[65] E seria a princípios do século XX quando Weismann o refutara com a formulación da conhecida como «barreira Weismann» pela que se considerava que existindo duas linhas, a germinal e a somática, não caberia a possibilidade de transferência de informação entre a uma e a outra. Malinterpretando a Lamarck desenvolveu um experimento que supostamente refutaba sua teoria: cortou o rabo a sucessivas gerações de ratos para demonstrar que seus descendentes não nasciam com o rabo cortado.[66]

Desde então, o Lamarckismo simplificou-se com argumentos que vêm a caricaturizarlo: «Em povos onde o ferreiro herda o oficio de seu pai, seu avô e seu avô, se pensava que herdava também uns músculos bem desenvolvidos. só os herdava senão que os desenvolvia mais com o exercício, e passava estas melhoras a seu filho».[67] [68] [69] Já em vida, Lamarck ter-se-ia que defender de argumentos parecidos:

Não obstante, se objeta ainda que todo o que se vê anuncia, relativamente ao estado dos corpos viventes, uma constancia inalterable na conservação de sua forma, e se pensa que todos os animais cuja lembrança nos transmitiu a história realçam sempre os mesmos e não têm peerdido nem adquirido nada no perfeccionamiento de seus órgãos e na forma de suas partes. [...]

«Não se pode por menos —dizem os autores— de conter os voos da imaginación, quando ainda se vê conservado com seus menores ossos, seus menores cabelos e seus menores detalhes tal animal que dantes tinha em Tobas ou em Menfis sacerdotes e altares. Mas sem extraviar-nos em todas as ideias que fazem nascer semelhantes aproximações, limiténse a expor que estes animais são perfeitamente semelhantes á os actuais» (Anales do Museu de História Natural.) [...]

Nada existe, por tanto, na observação que acaba de ser citada que resulte contrário às considerações que levo expostas sobre este assunto, nem que prove que os animais de que se trata tenham existido em todo o tempo na Natureza, pois demonstra somente que viviam no Egipto faz duas ou três mil anos. E todo o homem que possui o hábito de reflexionar e de observar ao próprio tempo os documentos da enorme antigüedad que mostra a Natureza, aprecia em seu verdadeiro valor a insignificante cifra de três mil anos com relação às épocas geológicas.
Lamarck, Filosofia zoológica.

Durante o século XX o lamarckismo tem sido defendido por diferentes evolucionistas,[70] [71] e o conhecido como “efeito Baldwin” (enunciado por James Marck Baldwin e C. Loyd Morgan no final do século XIX), uma versão edulcorada de lamarkismo segundo a qual os hábitos sustentados das espécies, por selecção natural, fixar-se-iam na herança, se mantém como plausible para resolver algumas dificuldades do neodarwinismo.[72] [73]

Avançado no século XX, a “barreira Weismann” mostrou-se franqueable, sem poder-se provar que os caracteres adquiridos não possam chegar a ser heredables.[74] [75] A transferência horizontal demonstrou-se em casos, e vê-se no vírus, com sua capacidade de intercâmbio genético, aos possíveis actores de tais transferências. Também, na simbiosis, se demonstrou a existência de transferência genética, e em seu grau de máxima integração, a simbiogénesis, tem demonstrado a eclosión de novas individualidades, quimeras que integram a suas simbiontes. O passo de procariotas a eucariotas , descrito na endosimbiosis seriada, foi consequência destes processos simbiogenéticos; ainda que Mayr e Maynard Smith nos anos 90 opinavam que estes processos nada têm que ver com o Lamarckismo. Gould (1977) diria: «Duvido que o lamarckismo possa voltar a experimentar um resurgimiento como teoria viável da evolução».[76]

Ao dia de hoje (2009), em maioria, a comunidade científica considera o paradigma neodarwinista satisfatório para explicar a evolução biológica, não considerando válido o lamarckismo. Não obstante, Lynn Margulis, entre outras e outros, considera que «uma sugestão principal para o novo século em biologia é que o difamado eslogan do lamarckismo, “a herança dos caracteres adquiridos” não deve ser ainda abandonado: tão só deve ser refinado cuidadosamente»”.[77]

Também, há que citar a Margulis na revolução silenciosa que encabeça[78] quando assegura que "na evolução não há casualidade, como disse Darwin, senão adaptação ao médio ambiente [...] Um organismo por si mesmo não evolui, só se desenvolve. A evolução é uma mudança em populações de indivíduos através do tempo. Não é selecção natural em um indivíduo por si mesmo, nunca".[79]

Referências

  1. Entrevista com Lynn Márgulis, Muitas das coisas que ninguém sabe de Darwin têm passado em Chile, SINC, 27/11/2009
  2. A primeira teoria integral da evolução foi apresentada a começos do século XIX por Jean-Baptiste de Monet de Lamarck, quem, em boa medida, era um produto da Ilustração, tanto por sua determinação de oferecer uma explicação naturalista da evolução como por seu enfoque sistémico. Dominou acabadamente a física, a química e a geologia dantes de embarcar na busca de evidência de que a evolução biológica tinha ocorrido realmente. Também sugeriu um mecanismo da evolução, pelo qual podiam surgir novas espécies através de mudanças na relação entre o organismo e seu ambiente durante a busca do primeiro por satisfazer suas necessidades básicas, e a produção em consequência de novas modificações em suas características, as que se voltam hereditarias depois de muitas gerações.
    Mae-Wan Ho, 1988, «Genetic engineering», p. 90.
  3. Menção aparte merece o naturalista francês Jean Baptiste Antoine Pierre de Monet, conde de Lamarck (1744-1829). Ainda que denostado pelo darwinismo por sua teoria dos rasgos adquiridos, foi um dos maiores defensores e divulgadores das ideias evolucionistas dantes de Darwin. Foi dos primeiros que explicou a variedade e mudanças morfológicos nos organismos: a função cria o órgão, através do tempo e as condições oportunas. Acuñó o termo Biologia e estabeleceu a diferença básica entre vertebrados e invertebrados.
    Eugenia Ramírez Goicoechea, Evolução, Cultura e complexidade.
  4. Filosofia zoológica, p. 56.
  5. Máximo Sandín, A evolução a 150 anos (luz) de Darwin. Conferência na Universidade de Oviedo, 16/11/2009. Uma visão crítica da teoria de Darwin. (formato vídeo), 13:15
  6. Acho que Lamarck teve muita mais influência sobre Darwin do que reconhece a tradição (um ponto avançado também por outros historiadores da ciência: veja-se Corsi, 1978; Mayr, 1972, pág. 90)[…] Darwin disse pouco de Lamarck em suas publicações. A única referência explícita à teoria lamarckiana na Origem é um cicatero elogio no prefacio histórico acrescentado às edições posteriores à primeira. Mas sabemos que Darwin estudou a Lamarck intensamente e não gostou o que leu. Tinha uma instância da edição de 1830 da Phiiosophie zoologique (veja-se Hull, 1985, pág. 802) que leu ao menos duas vezes e do que tomou grande quantidade de notas. O que quiçá seja mais importante é que Lamarck proporcionou a Darwin uma introdução ao tema da evolução através da imparcial mas crítica exégesis de Lyell em suas Principies of Geology.
    Goul, 2002, p. 219-221
  7. "A teoria da transmutación de espécies [a teoria de Lamarck], considerada no último capítulo, tem encontrado alguns apoios em muitos naturalistas". Charles Lyell, Principles Of Geology, Volume II, The University of Chicago Press, Ltd., London, Originally published in 1832 by John Murray, London, University of Chicago Press edition 1991, p.18.
  8. Além da Ilustração, também foi importante para o desenvolvimento do evolucionismo na França o pensamento de Gottfríed Wilhelm Leibniz. De facto, inclusive o próprio Liebniz tinha especulado em um trabalho seu pouco conhecido, Protogaea (1691), que talvez em algum momento ou em algum lugar do universo, as espécies de animais estejam ou estiveram ou estarão, mais submetidas à mudança do que no momento o estão no nosso; e vários animais que têm algo do gato, como o leão, o tigre e o lince, fossem faz tempo da mesma raça e constituíssem hoje novas subdivisiones da antiga espécie dos gatos. Por tanto, sempre regresso ao que já mais de uma vez tenho dito, que nossa determinação das espécies físicas é provisória e proporcional a nossos conhecimentos.
    Harris, 1981, Evolução. Génesis e revelações.
  9. Desgraçadamente, o contexto social que rodeava a Lamarck não era o adequado para que sua teoria tivesse uma grande acolhida. A princípios do século XIX as Ciências Naturais estavam lideradas na França por Georges Cuvier, quem tinha elaborado, sobre um enorme volume de concienzudos dados, sua teoria dos cataclismos e sucessivas criações para explicar as mudanças observadas nas faunas fósseis. Lamarek, idoso e só, foi vapuleado cientificamente por um jovem e brilhante Cuvier, catedrático de História Natural, de Anatomía Comparada e secretário da Academia de Ciências de Paris.
    Sandín, Lamarck e os mensageiros, p. 31.
  10. A ideia de que os seres vivos actuais são o resultado de um processo evolutivo de transformação no tempo, em oposição ao conceito de inmutabilidad ou fijismo das espécies, não é totalmente intuitiva e tem tido que ser descoberta.
    Antonio Fontdevila, Andrés Moya, 2003, p. 58.
  11. As opiniões expressadas por Lamarck, em 1809, nestas teorias, são assombrosamente atrevidas; são, ademais, amplas, grandiosas, e foram formuladas em uma época em que nem sequer se podia entrever a possibilidade longínqua das fundar sobre factos evidentes, como podemos fazer hoje. Já o veis; a obra de Lamarck é verdadeiramente, plenamente e estritamente monística, isto é, mecânica; assim a unidade das causas eficientes na natureza orgânica e anorgánica, a base fundamental destas causas atribuída á as propriedades físicas e químicas da matéria; a ausência de uma força vital especial ou de uma causa final orgânica; a procedência de todos os organismos de um curto número de formas antepassadas, saídas por geração espontánea da matéria; a perpetuidad não interrompida da evolução geológica; a ausência de revoluções e especialmente a inadmisibilidad de todo o milagre; em uma palavra, todas as proposições mais importantes da biologia monística estão já formuladas na FILOSOFIA ZOOLÓGICA. Ernesto Hæckel. Filosofia zoológica, (prólogo).
  12. Se não se obstinassem em não ver nos objectos observados mais que sua forma, sua dimensão, suas partes externas, sua cor, etc., e se os que se entregam a semelhante tarefa não desdenhassem se elevar a considerações superiores, como indagar qual é a natureza dos objectos de que se ocupam, quais são as causas das modificações ou das variações às quais estes objectos estão sujeitos, quais são as analogias entre si e com os outros que se conhecem, etc., etc. […] Porque aqueles que não se consagraram mais que ao estudo das espécies não percebem senão muito confusamente as conexões gerais entre os objectos, nem percebem de nenhum modo o verdadeiro plano da Natureza nem nenhuma de suas leis.
    Filosofia zoológica, Introdução, p. XXII
  13. Dobzhansky, Genética e a origem das espécies, 1937, (3ª edição, 1951).
  14. Filosofia zoológica, p. 175.
  15. "Com relação aos corpos viventes, a Natureza tem procedido por tanteos e sucessivamente". Filosofia zoológica, introdução, p. XVIII
  16. Lamarck, Filosofia Zoológica.
  17. Jacob, Lógica do vivente.
  18. Filosofia zoológica, pp. 83-84.
  19. Filosofia zoológica, p. 61.
  20. As posições de Chambers não podem considerar creacionistas, mas ainda que admitia a evolução da vida proposta por Lamarck, achacaba essa evolução à intervenção de um ser superior.
    A princípios deste século, M. Lamarck, um naturalista do mais alto carácter, sugeriu a hipótese de progressos orgânicos que merecidamente recebeu burlas, apesar de que continha um vislumbre da verdade. Ele conjeturó, e se esforçou, com uma grande quantidade de talento, para demonstrar que um tem avançado no curso das gerações, de outro; em consequência, só sua experiência e o exercício de suas faculdades em uma direcção particular, pela que se levou a cabo os novos desenvolvimentos dos órgãos, propondo que estas variações são suficientes para constituir uma nova espécie.

    Assim, pensava que um pássaro seria impulsionado pela necessidade de procurar seu alimento na água, e que, em seus esforços para nadar, teria despregando suas garras e daria lugar à expansão da substância intermediária de membranas, e converter-se-á assim em palmípedas. É possível que a vontade e o exercício das faculdades têm entrado de alguma maneira na produção dos fenómenos que temos estado considerando, mas sem dúvida não na maneira proposta por Lamarck, cuja noção é obviamente insuficiente para dar conta do aparecimento dos reinos orgânicos, que só se pode colocar com piedade entre as loucuras dos sábios.

    Se tivessem-se conhecido as leis do desenvolvimento orgânico em seu tempo, sua teoria poderia ter sido de natureza mais importante. Hipótese actualmente estabelecida. Aproveitando os meios naturais existentes, é possível produzir todos os organismos existentes com a ajuda simples e fácil de uma lei superior, que quiçá ainda esteja a operar em uma escala limitada. Também vai para além do filósofo francês em um ponto muito importante, a concepção divina original de todas as formas da vida, que esta lei natural era único instrumento em sua elaboração e realização. A realidade de tal concepção está demonstrada com as descobertas de Macleay, Vigors, e Swainson, com respeito às afinidades e as analogias dos animais (e por envolvimento, dos vegetales) e os organismos. Esta regularidade na estrutura, como podemos a chamar, da classificação dos animais, como se mostra nos sistemas, é totalmente incompatível com a ideia de que seja meramente consequência das necessidades e desejo dos próprios animais. Se tal tivesse sido o caso, todo teria sido irregular, como as coisas arbitrárias necessariamente o são. Mas, tenho aqui, todo o plano da vida é como simétrico como o plano de uma casa, ou o traçado de um antigo jardim. Isto deve necessariamente ter sido desenhado e preparado de antemão. E o que observamos é uma previsão dantes da concepção. Observemos só por um momento como as diferentes condições físicas em que vivem os animais de clima,

    solo, temperatura, terra, água, ar, as particularidades dos alimentos, e as diversas formas nas que se que se pretende; as peculiares circunstâncias nas que o negócio da reprodução e o cuidado de com o que os jovens têm que ser atendidos, todas estas devem de se ter em conta, e milhares de animais que se formaram adequados na organização e carácter mental das preocupações de que estes tenham com suas diferentes condições e circunstâncias –este é o caso de um dente preparado para aplastar frutos de casca, uma garra equipada para servir como um gancho para a suspensão;… […]- Todos estes animais seriam produto de um plano levado a cabo. A cada um como a cada uma das partes dessa grande variedade, em seu conjunto rigorosamente regular, só deve se considerar estas coisas para decretar que as leis que implicam tal grau da sabedoria só pode atribuir à grandeza eterna. Como uma tímida reflexão filosófica pode nos fazer retroceder ante a investigação das obras de Deus, nos fazer infravalorar sua grandeza e esquecer seu carácter paternal? Não lhes parece que nossas ideias da Divinidad só podem ser dignas dele avançando no conhecimento de suas obras e as formas, e que a aquisição deste conhecimento é portanto, um médio a disposição nosso a cada vez mais em um respeito genuino por ele?
    Robert Chambers, Vestiges of the Natural History of Creation (1844)
  21. Lamarck proclamou aos quatro ventos que era mecanicista estrito e que se propunha o explicar tudo em termos de causas e forças mecânicas; e no entanto, o leitor moderno não pode evitar interpretar sua teoria de que a mudança evolutivo leva inevitavelmente à perfección como uma adesão subconsciente ao princípio (não mecanicista) do perfeccionamiento.
    Mayr, Assim é a biologia.
  22. p. 25.
  23. No entanto, os factos seguem sendo tozudos. Apesar de que o argumento básico para explicar o aparecimento das espécies filhas é a casualidade, as tendências evolutivas para uma maior complexidade, eficácia ou diversidade, são evidentes nas sequências de sucessão
    Sandín, Lamarck e os mensageiros, p. 31.
  24. Percorrer a corrente contínua dos seres, do mais simples ao mais complexo, equivale exactamente a seguir a marcha da natureza através do tempo, a reconstruir a sucessão de transformações que tem originado as diferentes formas de vida.
    Jacob citando a Lamarck, Lógica do vivente, Cap. 3-O tempo.
  25. Desde que em nossas distribuições das produções da Natureza temos experimentado a necessidade de tomar em conta as conexões, não somos já donos de dispor a série geral como nos plazca, e o conhecimento que adquirimos de dia em dia da marcha da Natureza nos força e nos arrasta a conformar com sua ordem. O primeiro resultado obtido pelo emprego das conexões na colocação das massas para formar uma distribuição geral é que as duas extremidades da ordem devem oferecer os seres mais desemejantes, porque são os mais afastados.
    Filosofia zoológica, pp.92-93.
  26. Jacob, Lógica do vivente, Cap. 3 - O tempo.
  27. Cuvier foi ainda mais longe em seu invalidación da escala da natureza. Usando sua grande habilidade como anatomista, descrivió quatro planos anatómicos generais diferentes para todos os animais que denominou Vertebrata (vertebrados), Mollusca (moluscos), Articulata(antrópodos) e Radiata (animais com simetría radiada). A escala natural estava rompida e era impossível passar de um eslabón a outro por mudanças adaptativas.
    Antonio Fontdevila, Andrés Moya, 2003, p. 31.
  28. Esta interferência, que se produz constantemente entre as faculdades mesmas do vivente e as circunstâncias exteriores, deriva do que Lamarck considera uma das propriedades mais indiscutibles dos seres: a adaptação a suas condições de vida, a concordancia entre o organismo e seu meio.
    Jacob, Lógica do vivente, Cap. 3-O tempo.
  29. Depois ascende uma escala de complexidade, motivada por «uma força que tende incessantemente a complicar a organização». Esta opera através da resposta criativa dos organismos a «necessidades sentidas».
    Gould, O polegar do panda, pp.67-68.
  30. O olho possui uma finalidade de facto, sua função consiste em ver, mas ignoramos se tem-se suo construído ou se formou-se ele mesmo para ver. A distinção é clara, sem ambages.[…] Comprovar que no mundo vivente a presença de uma finalidade inmanente não conduz obligatóriamente a reconhecer a existência de causas finais. […] Mas no fundo, a finalidade, pelo que se refere à ordem da Natureza, é um problema secundário, porque a existência de uma ordem não impõe ipso facto a de um fim.
    Grassé, O homem esse deus em miniatura, pp. 43-44, 36.
  31. Negando-se em redondo a ver no mundo vivo o resultado de uma intenção, a realização de uma meta por uma potência suprema, Lamarck atribui à vida animal uma «causa primeira e predominante» que lhe outorga o poder de complicar e perfeccionar gradualmente a organização.
    Jacob, Lógica do vivente.
  32. Antonio Fontdevila, Andrés Moya, 2003, p. 30.
  33. Somente fala-nos de «fluídos internos» que actuam sobre «os constituintes plásticos do animal» para traçar canais, deslocar massas e construir inclusive órgãos. Em poucas palavras, para modelar pouco a pouco a forma dos corpos.
    Jacob, Lógica do vivente, Cap. 3 - O tempo.
  34. Jacob citando a Lamarck, Lógica do vivente, Cap. 3 - O tempo.
  35. Tenho aqui o que se perguntou a si mesmo [Balwin]: como pode ser que os animais individuais, resolvendo problemas durante toda sua vida, possam mudar as condições de competição para seus próprios descendentes, fazendo que estes problemas sejam mais fáceis de resolver no futuro?
    Dennett, A perigosa ideia de Darwin, p.1177.
  36. Matt Ridley, Genoma, p. 220.
  37. A ocupação das duas américas, cuja data ainda não está clara, mas pode se situar quase com segurança faz entre 35.000 e 15.000 anos.
    Luca e Francesco Cavali-Storza, Quem somos? História da diversidade humana, p. 143.
  38. De dez mil anos cá o homem começou a produzir seu próprio alimento, cultivando vegetales e criando animais.[…] durante as 400 ou 500 gerações que se sucederam neste período, a população mundial tem aumentado mil vezes ou mais.
    Luca e Francesco Cavali-Storza, Quem somos? História da diversidade humana, p. 143.
  39. Para que esta série de transformações tenha podido se efectuar, tem que se ter desenvolvido ao longo de períodos muito longos. Todo o que se encontra sobre a superfície do balão muda progressivamente de forma e estado. Todos os corpos deste planeta sofrem «mutaciones» mais ou menos rápidas de acordo com sua natureza e segundo as forças exercidas sobre eles. A estabilidade que vê o homem na natureza é só aparente. A razão disto é que o ser humano tende a referir todos os eventos à duração de sua própria vida, de maneira que uns quantos milhares de anos lhe parecem um período imenso, quando em realidade não permitem contemplar mais que estados estacionários, intervalos entre as mudanças que afectam ao mundo vivo. No entanto, ainda que as modificações que sofrem os seres nos resultem imperceptibles, ainda que as formas que encontrar no Egipto de hoje não se diferenciem em nada das que viviam faz três mil anos, a lentidão do processo de transformação é compensada por sua enorme duração. Para que possa nascer toda a diversidade do mundo vivo a partir de eventos tão lentos, é necessário e suficiente que se acumule o tempo. «Em comparação com as durações que se nos antojan grandes em nossos cálculos ordinários, sem dúvida foi necessário um tempo enorme e uma variação considerável das circunstâncias que se sucederam, para que a natureza tenha podido levar a organização animal ao grau de complicação e desenvolvimento que observamos.»
    Jacob, Lógica do vivente, Cap. 3-O tempo.
  40. Margulis, L, Sagan, D. Que é a vida?, Tusquets, 1996.
  41. a b.
    Os efeitos do uso e desuso significam simplesmente que, se o organismo faz uso habitual de uma parte de seu corpo, essa parte desenvolver-se-á e funcionará melhor; pelo contrário, toda a parte subutilizada se atrofiará ou encolherá. Por exemplo, as pessoas que se treinam para correr maratonas terão fortes músculos nas pernas e não se fatigam facilmente. De modo inverso, os astronautas não podem tolerar por muito tempo baixas condições de gravidade sem que seus músculos comecem a sofrer uma degeneração devida ao desuso. Os efeitos do uso e desuso encontram-se bem documentados na actualidade; mas não se sabe ainda se seus efeitos se herdam.
    Mae-Wan Ho, 1988, Genetic engineering
  42. As culebras americanas recém nascidas mostram marcadas diferenças específicas em suas respostas a diversos alimentos que estão em linha com as preferências dos adultos. Inclusive no Seio de uma mesma espécie, as populações podem diferir. As populações de Thamnophis elegans que vivem cerca do mar em Califórnia se especializam em comer babosas, enquanto as de terra adentro comem ranas e peixes. É possível provar as preferências alimentadas nas serpentes recém nascidas comprovando quantos movimentos da língua produzem-se ante extractos impregnados em algodón.
    P. J. B. Slater, O comportamento animal, p. 107
  43. Efeito Baldwin / Waddington proposto pela primeira vez por Spalding em 1873. Processo evolutivo em grande parte hipotético (também chamado assimilação genética) pelo qual a selecção natural pode criar uma ilusão da herança de características adquiridas. Selecção em favor de uma tendência genética a adquirir uma característica em resposta a estímulos ambientais conduz à evolução da maior sensibilidade aos próprios estímulos do médio ambiente, e a emancipación da eventual necessidade deles.
    Dawkins, The estendam phenotype, p. 284.
  44. O psicólogo James Mark Baldwin tinha proposto que a aprendizagem podia guiar a evolução precisamente do modo em que Hinton e Nowlan propunham, e criar assim uma ilusão de evolução lamarckiana sem que realmente fosse uma evolução de tipo lamarckiano. Com tudo, ninguém tinha demonstrado que essa ideia, conhecida como efeito Baldwin, em realidade funcionasse. Hinton e Nowlan demonstraram por que podia funcionar. A aptidão para aprender altera o problema evolutivo no ponto que, de procurar uma agulha em um pajar, passa a procurar a mesma agulha com alguém que nos diz quando estamos mais cerca da encontrar.
    Pinker, Como funciona a mente.
  45. Outro fenómeno que leva toda uma série de nomes incluído o de efeito Baldwin» e o de assimilação genética», parece ostentar um carácter mais lamarckista, mas encaixa igualmente bem em uma perspectiva darwinista. Por eleger a ilustração clássica: os avestruces têm callosidades nas patas onde costumam ajoelhar sobre um solo duro; mas as callosidades desenvolvem-se já dentro do ovo, dantes de que possam ser usadas. Talvez não requer isto um palco lamarckista? Uns antepassados de patas lisas começaram a ajoelhar-se e a adquirir callosidades como adaptação não genética, do mesmo modo que nós, segundo nossa profissão, desenvolvemos callosidades de escritor, ou plantares. Estas callosidades foram seguidamente herdadas como adaptações genéticas, se formando muito tempo dantes de ser utilizadas.
    Gould, O polegar do panda, p 171.
  46. Neste ponto coincidem lamarckismo e darvinismo. Gould chamou a estas limitações que impõe a constituição dos organismos «constricciones históricas». Gould, 2004, Cap.: 10.
  47. Darwin já falou das linhas de expressão que são produto da expressão de nossas emoções. «deixou bem sentado» que se deviam a três princípios: «Habitos úteis sócios [...], princípio de antítese, [...] acções devidas ao sistema nervoso com independência de sua vontade e em certa medida independentes também do hábito». Charles Darwin, A expressão das emoções nos animais e no homem, Aliança Editorial, 1984, 1998, edição de bolsillo Nº 1011.
  48. A simbiogénesis é a fonte de inovação na evolução, entrevista de Xavier Pujol Gebellí a Lynn Margulis (junho de 2009)
  49. Popper, 1972, p. 257.
  50. A explicação ortodoxa consiste em dizer que, se tomamos períodos muito grandes, então, é possível acumular variações pequenas e que, sobretudo, a separação geográfica costuma impedir a restauração de uma população média. Goldschmidt considerava que estas ideias eram insuficientes e, sem romper com a ideia da selecção natural, abandonou a ideia de que toda mudança revolucionada tivesse de ser explicado em termos de um número ingente de variações muito pequenas. Supôs que, de vez em quando, aparecem mutaciones grandes que, ainda que em sua maioria sejam letais, pelo que se vêem eliminadas, algumas vezes sobrevivem. Deste modo, explicava tanto o carácter genuino das diferenças como também o carácter óbvio de parentesco entre as diversas formas vivas. Considerava essas grandes mutaciones como «monstros prometedores».
    Popper, 1972, p. 257.
  51. Filosofia zoológica, p. 59.
  52. Sempre que o homem pretende estudar a Natureza encontra-se obrigado á empregar meios particulares. Em primeiro termo, para pôr ordem entre os objectos infinitos e variados que trata de examinar, depois para distinguir sem confusão, entre a imensa multidão destes objectos, já os grupos daqueles que deseja conhecer, já a cada um destes grupos em particular; e por último, para comunicar e transmitir á seus semelhantes todo o que tem visto, observado e pensado em tal estudo. Pois os meios que o homem emprega nestas perspectivas científicas constituem o que eu chamo as partes da arte nas ciências naturais, partes que há que se guardar muito de confundir com as leis e os actos mesmos da Natureza.
    Filosofia zoológica, Em relação ao estudo das espécies.
  53. Esta regularidade na estrutura, como podemos a chamar, da classificação dos animais, como se mostra nos sistemas, é totalmente incompatível com a ideia de que seja meramente consequência das necessidades e desejo dos próprios animais
    Robert Chambers, Vestiges of the Natural History of Creation (1844)
  54. É pura retórica ou para valer pode achar-se que as amebas, os hongos, as bactérias ou as plantas (por não falar das esponjas ou dos corais), por médio de suas «eleições» são responsáveis de sua evolução? Ou a teoria da «pressão de mutación» aplica-se só aos animais «superiores», aos que têm um sistema nervoso central bem desenvolvido?; e se só se refere a estes, que «pressão de mutación» tem produzido esse sistema nervoso?
    Arsuaga, O enigma da esfinge, Debolsllo, 2002, ISBN 84-9759-157-7 p, 452.
  55. O requerimiento lamarckista de que os caracteres têm de ser adquiridos com fins adaptativos, porque o lamarckismo é uma teoria da variação dirigida. Eu não tenho notícia de que nenhum destes mecanismos bioquímicos leve à incorporação preferencial de informação genética favorável.[…] Mas, até o momento, não temos achado nada no funcionamento do mendelismo ou na bioquímica do DNA que nos anime a achar que os ambientes ou as adaptações requeridas sejam capazes de fazer mutar as células sexuais em direcções específicas. Como poderia um clima mais frio «lhe dizer» aos cromosomas de um óvulo ou um espermatozoide que produzam mutaciones para uma maior longitude do cabelo?
    Gould, 1980, p. 69-70.
  56. José Luis González Recio, 2004.
  57. Os diferentes animais que existem estão evidentemente distinguidos uns de outros, não só pelas particularidades de sua forma exterior, da consistência de seu corpo, de sua talha, etcétera., senão ademais pelas faculdades de que estão dotados. […] Estes factos espantosos cessam de surpreender-nos quando antes de mais nada reconhecemos que a cada faculdade obtida é o resultado de um órgão especial ou de um sistema de órgãos que dá lugar á ela.
    Filosofia zoológica, p. 75.
  58. Todos os fenómenos vitais [em sua teoria] são devidos a causas mecânicas, já físicas, já químicas, que têm sua razão de ser na constituição da matéria orgânica. […] A obra de Lamarck é verdadeiramente, plenamente e estritamente monística, isto é, mecânica.
    Ernesto Hæckel, Prólogo de Filosofia zoológica.
  59. O dogma central parece ser uma justificativa directa da teoria do germoplasma de Weismann, que desde então se conhece como a «barreira de Weismann». Supõe-se que esta barreira proíbe estritamente que as influências ambientais, ou qualquer experiência durante a vida do organismo, afecte em forma directa (isto é, predeciblemente) seus genes, em especial nas células germinales, pelo que as «características adquiridas» não se herdam.
    Mae-Wan Ho, 1988, p 123.
  60. Suplemento cultural, A neva Espanha, entrevista com Lynn Margulis
  61. Recentemente realizaram-se descobertas nas bactérias que têm provocado certa inquietude porque podem «acordar os velhos fantasmas da evolução lamarckiana»: as mutaciones dirigidas e a herança de caracteres adquiridos. Pôde-se comprovar como determinadas bactérias, ante uma fonte de alimento que não podiam utilizar, sofriam mutaciones (neste caso dois independentes que por si sozinhas não conferiam nenhum benefício) que faziam possível esta assimilação. A probabilidade de que se produzissem conjuntamente (simultaneamente) de forma espontánea seria praticamente nula. Isto é, com toda a probabilidade, é uma resposta às condições do médio, isto é, uma mutación postadaptativa.
    Sandín, Lamarck e os mensageiros, p. 31.
  62. Em definitiva, trata-se de um modelo no que os processos mais trascendentales têm um claro conteúdo lamarckiano, tanto nos aspectos concretos da herança de caracteres adquiridos (mediante vírus como veículo) e de mutaciones como resposta a estímulos ambientais (só constatables experimentalmente em bactérias e, ao que parece, também em fermentos), como na interpretação que o conjunto sugere, de uma tendência na evolução para uma maior complexidade biológica, na que o cérebro humano (cujas capacidades são inexplicables como resultado da Selecção Natural) seria, pelo momento, o ponto culminante.
    Sandín, Lamarck e os mensageiros, p. 31.
  63. Fundação Cristóbal Gabarrón
  64. Acho que Lamarck teve muita mais influência sobre Darwin do que reconhece a tradição (um ponto avançado também por outros historiadores da ciência: veja-se Corsi, 1978; Mayr, 1972, pág. 90)[…] Darwin disse pouco de Lamarck em suas publicações. A única referência explícita à teoria lamarckiana na Origem é um cicatero elogio no prefacio histórico acrescentado às edições posteriores à primeira. Mas sabemos que Darwin estudou a Lamarck intensamente e não gostou o que leu. Tinha uma instância da edição de 1830 da Philosophie zoologique (veja-se Hull, 1985, pág. 802) que leu ao menos duas vezes e do que tomou grande quantidade de notas. O que quiçá seja mais importante é que Lamarck proporcionou a Darwin uma introdução ao tema da evolução através da imparcial mas crítica exégesis de Lyell em suas Principies of Geology.
    Goul, 2002, p. 219-221
  65. A teoria de Lamarck foi amplamente malinterpretada como tão só a herança de caracteres adquiridos, ou caricaturizada como mudanças resultantes da vontade de realização dos organismos. Meio século mais tarde, no entanto, Charles Darwin incluiria algumas das ideias de Lamarck em sua própria teoria da evolução por selecção natural, sem o correspondente reconhecimento.
    Mae-Wan Ho 1988.
  66. Uma ideia bastante simplista que veremos proposta por “outro autor” mas adiante, senão aos efeitos, em longo prazo, das circunstâncias ambientais naturais que produzam uma resposta do organismo (e cortar a bicha a centos de ratos, a suposta demonstração de Weissman da falsidade do lamarckismo, não só não é uma influência ambiental, senão que é uma simpleza cruel e inútil).
    Sandin, 2006, Cap. Uma nova biologia para uma nova sociedade.
  67. Dawkins, O relojero cego.
  68. Baste, por exemplo, com assinalar que se, em realidade, se pudessem herdar os caracteres adquiridos, o facto de ter aplicado a várias centenas de gerações a circuncisión teria feito que os meninos judeus nascessem hoje em dia sem prepucio. Com tudo, o problema mais profundo é que a teoria lamarckiana, ainda que, em general, tivesse resultado ser correcta, não seria capaz de explicar a complexidade adaptativa. Em primeiro lugar, o facto de usar um órgão não faz, por si mesmo, que o órgão funcione melhor.
    Pinker, 1995
  69. E daí dizer de outra notoria herejía, o lamarckismo, isto é, a crença no carácter hereditario das características adquiridas. Aqui a situação é bastante mais interessante.[…] Vejamos um exemplo. A violinista desenvolve com asiduidad um magnífico vibrato, obrigado fundamentalmente aos ajuste conseguidos nos tendones e ligamentos de sua boneca esquerda completamente diferentes dos que possuem sua boneca direita, a da mão que apanha o arco. A receita para fazer uma boneca no DNA humano produz ambas bonecas a partir de um sozinho conjunto de instruções que se aproveita da reflexão especular (a isso se deve que as bonecas sejam tão parecidas) de modo que não teria um modo simples de mudar a receita da boneca esquerda sem fazer a mesma mudança (não desejado) na boneca direita.
    Dennett, 1999, pp.529-533.
  70. Neste sentido, o lamarckismo seguiu sendo uma teoria popular até bem entrado em nosso século. Darwin ganhou a batalha em favor do facto da evolução, mas sua teoria a respeito do mecanismo (a selecção natural) não obteve uma popularidade ampla até a fusão das tradições da história natural e a genética mendeliana nos anos da década de 1930. Mais ainda, o próprio Darwin jamais recusou o lamarckismo, ainda que o considerava subsidiario à selecção natural como mecanismo evolutivo. Inclusive já em 1938, por exemplo, o paleontólogo de Harvard Percy Raymond, escrevendo (suspeito) sobre esta mesma mesa que estou a utilizar agora, disse a respeito de seus colegas: «Provavelmente a maior parte deles sejam lamarckistas de alguma maneira; ao crítico pouco caritativo poder-lhe-ia parecer que há muitos que são mais lamarckistas que Lamarck». Temos de reconhecer a continuada influência do lamarckismo para compreender uma boa parte das teorias sociais. Sombras de Lamarck de um passado imediato, ideias que se voltam incomprensibles se as encaixamos à força dentro do marco darwinista que com frequência damos por suposto que têm.
    Goul, O polegar do panda, p.69.
  71. Às vezes, a distância nos julgamentos contribui mais clareza. A rejeição do darwinismo e o apoio ao lamarckismo por parte de pensadores como o físico Arthur Kostler, o psicólogo Jean Piaget, o escritor G. Bernard Shaw ou o filósofo Henri Bergson, depende muito provavelmente mais de uma atitude filosófica ou moral baseada nos valores implicados nestas teorias (competição em frente a coexistencia) que de seus conhecimentos em genética. Mas também biólogos prestigiosos, como Waddington ou M.F. Burnet, têm sido partidários, desde um ponto de vista estritamente científico, da ideia lamarckiana da evolução. Na actualidade parece existir entre alguns biólogos uma sensação crescente de que não só é possível aceitar as ideias de uma tendência na evolução para a complexidade e de que esta é, ao menos em parte, uma resposta aos estímulos ambientais, senão de que a transmissão genética de caracteres adquiridos é bem mais que provável.
    Sandín, Lamarck e os mensageiros, p. 32.
  72. Outro fenómeno que leva toda uma série de nomes incluído o de efeito Baldwin» e o de assimilação genética», parece ostentar um carácter mais lamarckista, mas encaixa igualmente bem em uma perspectiva darwinista. Por eleger a ilustração clássica: os avestruces têm callosidades nas patas onde costumam ajoelhar sobre um solo duro; mas as callosidades desenvolvem-se já dentro do ovo, dantes de que possam ser usadas. Talvez não requer isto um palco lamarckista? Uns antepassados de patas lisas começaram a ajoelhar-se e a adquirir callosidades como adaptação não genética, do mesmo modo que nós, segundo nossa profissão, desenvolvemos callosidades de escritor, ou plantares. Estas callosidades foram seguidamente herdadas como adaptações genéticas, se formando muito tempo dantes de ser utilizadas.
    Stephen Jay Goul, O polegar do panda, 1980, p.74.
  73. De modo similar podemos dizer que o lamarekismo, especialmente a doutrina segundo a qual os órgãos evoluem baixo a influência de seu uso e degeneram baixo o influjo de seu desuso, se viu explicado, em verdadeiro sentido, em termos de selecção natural graças a J. M. Baldwin (um filósofo de Princeton), a Waddigton, a Simpsom e a Frwin Schródinger. […] Têm mostrado de que modo a evolução lamarckista, mediante a instrução, pode ser simulada pela evolução darwinista mediante selecção natural. […] A dificuldade real do darwinismo é o problema, de sobra conhecido, de explicar os desenvolvimentos evolucionistas que aparentemente estão dirigidos a um fim, como nossos olhos, recorrendo a um número de passos muito pequenos, pois, segundo o darwinismo, a cada um destes passos é o resultado de uma mutación puramente acidental. É difícil explicar que todas essas mutaciones acidentais e independentes tenham tido um valor de sobrevivência. É, especialmente, o caso da conduta herdada de Lorena. O “efeito-Baldwin” —isto é, a teoria de um desenvolvimento puramente darwinista que simula o lamarckismo— me parece um passo importante para a explicação de tais desenvolvimentos.
    Karl R. Popper, 1972, pp. 245-249
  74. "O reverso da moeda é que também não há nenhuma prova genética fehaciente da imposibilidad da herança dos caracteres adquiridos. Adriá Casinos, prologo de Filosofia zoológica.
  75. "Não é possível provar que as características adquiridas não se herdem Pela mesma razão, não podemos provar que não existem as hadas". Dawkins, O relojero cego.
  76. As teorias lamarckistas perderam aceitação quando os genetistas demonstraram que a herança de caracteres adquiridos («herança macia») era impossível, já que as características adquiridas pelo fenotipo não se podem transmitir à seguinte geração. A queda definitiva da herança macia no século XX provocou-a a biologia molecular, ao demonstrar que a informação contida nas proteínas (fenotipo) não se pode transmitir aos ácidos nucleicos (genotipo). O chamado dogma central da biologia molecular privou aos lamarckistas de seus últimos restos de credibilidade. Existe uma verdadeira possibilidade de que alguns microorganismos (pode que inclusive protistas) tenham a capacidade de mutar em resposta a condições externas, mas inclusive se se confirmasse, nunca poderia ocorrer em organismos complexos, onde o DNA do genotipo está muito separado do fenotipo.
    Mayr, 1995.
  77. Como se traspassou a criatividade microbiana às formas de vida de maior tamanho? Uma sugestão principal para o novo século em biologia é que o difamado eslogan do lamarckismo, “a herança dos caracteres adquiridos” não deve ser ainda abandonado: tão só deve ser refinado cuidadosamente. Ninguém, animal ou planta, adquire novos caracteres heredables crescendo, comendo, ejercitándose, se juntando e demais. Pelo contrário, baixo condições de estrés, diferentes tipos de indivíduos associam-se fisicamente. Mais adiante, alguns incorporar-se-ão aos outros e alguns destes inclusive chegarão a fundir seus sistemas genéticos. Há muitos modos de fusão, incluindo as infecções víricas.
    Margulis, Planeta simbiótico, p. 32.
  78. A microbióloga Lynn Margulis é uma dos muitos que considera o conceito darwiniano da adaptação demasiado restringido para poder explicar todas as características da evolução.
    Gianfranco Spavieri, Os Fragmentos do arco íris. O mito da física, Universidade de Ande-los – Conselho de Publicações, Mérida-Venezuela 2005, ISBN 980-11-0166-0 Vista parcial em Livros Google
  79. O mercurio, 27/10/2009, Reseña das conferências de Lynn Margulis em universidades de Chile.

Bibliografía

Enlaces externos

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