Materialismo histórico
A concepção materialista da história (também conhecida como materialismo histórico, termo inventado pelo marxista russo Georgi Plejánov), é um marco teórico criado por Karl Marx e aplicado originalmente por ele e por Friedrich Engels para analisar cientificamente a história humana.[1]
Ainda que o materialismo histórico em bloco é inseparável do comunismo marxista, historiadores, sociólogos e intelectuais não unidos ao comunismo marxista têm tomado elementos do materialismo histórico para elaborar sistemas e enfoques materialistas para o estudo da história humana.
Definição
...na produção social de sua vida os homens estabelecem determinadas relações necessárias e independentes de sua vontade,
relações de produção que correspondem a uma fase determinada de desenvolvimento de suas
forças produtivas materiais. O conjunto destas relações de produção forma a estrutura económica da sociedade, a base real sobre a que se levanta a superestructura jurídica e política e à que correspondem determinadas formas de consciência social. O
modo de produção da vida material condiciona o processo da vida social política e espiritual em general. Não é a consciência do homem a que determina sua ser senão, pelo contrário, o ser social é o que determina sua consciência.
Karl Marx, Prólogo à Contribuição à Crítica da Economia Política (1859)
Antecedentes
A teoria materialista de Marx reconhece múltiplas influências intelectuais:[2]
A génesis do materialismo histórico
Marx mesmo detalhou, em seu Prólogo à Contribuição à Crítica da Economia Política (1859),[6] o itinerario de seus estudos que lhe levaram a formular sua concepção da história e a desenvolver com seu amigo e camarada Engels.
O primeiro trabalho empreendido para resolver as dúvidas que me açoitavam, foi uma revisão crítica da filosofia hegeliana do direito, trabalho cuja introdução apareceu em 1844 nos “Anales francoalemanes”, que se publicavam em Paris. Minha investigação levou-me à conclusão de que, tanto as relações jurídicas como as formas de Estado não podem se compreender por si mesmas nem pela chamada evolução geral do espírito humano, senão que, pelo contrário, radican nas condições materiais de vida cujo conjunto resume Hegel seguindo o precedente dos ingleses e franceses do século XVIII, baixo o nome de sociedade civil”, e que a anatomía da sociedade civil há que procurar na economia política.
Em Bruxelas a onde me transladei em consequência de uma ordem de desterro ditada pelo senhor Guizot prossegui meus estudos de economia política começados em Paris.
Marx também detalha, no mesmo texto, o desenvolvimento desta nova concepção da história a partir de sua cooperação intelectual com Engels. Cita como textos que utilizam esta concepção a:
- O bosquejo de Engels sobre a crítica das categorias da economia política (publicado nos Anales franco-alemães).
- O livro de Engels A situação da classe operária na Inglaterra (1845).
- A ideologia alemã, primeiro texto de Marx e Engels, inédito (1846).
- O Manifesto do Partido Comunista, de 1847, junto com Engels.
- Discursos sobre o librecambio.
- Miséria da Filosofia, obra polémica publicada em 1847 e dirigida contra o livro de Proudhon Filosofia da Miséria.
Entre as categorias teóricas centrais do materialismo histórico encontram-se: forças produtivas, relações de produção, modo de produção, exploração, alienación, luta de classes, plusvalor, e fetichismo da mercadoria.
A aplicação científica e política
O materialismo histórico marxista pesquisa a sociedade humana sem orçamentos ideológicos, partindo dos indivíduos empíricos e as relações que estabelecem entre eles.[7] A diferença dos enfoques que mostram ao capitalismo como um sistema estático ou como o produto de uma evolução "natural" do ser humano, a investigação histórico-materialista revela seu carácter histórico e portanto transitório no desenvolvimento da humanidade.
Marx e Engels aplicaram esta nova concepção da história à análise dos factos políticos e sociais do passado e de sua época e à criação de uma nova corrente do socialismo, que à tomada de partido pelo comunismo e a luta de classes proletaria somava o estudo científico da sociedade burguesa e da transição desta à sociedade comunista.[8] Ao explicar as revoluções políticas e sociais pela contradição entre as forças produtivas e as relações de produção e pela luta de classes, Marx e Engels combateram tanto a visão burguesa da história baseada na história das ideias e dos "grandes homens" como as correntes socialistas que deduziam a luta pelo socialismo dos ideais abstratos de Justiça, Liberdade e Igualdade.[9] O desenvolvimento revolucionário das forças produtivas baixo o capitalismo fazia possível que todas as necessidades humanas fossem satisfeitas, e que o desenvolvimento da produção prescindiera da divisão da sociedade entre classes explotadoras (poseedoras dos meios de produção sociais) e classes explodidas (obrigadas a manter às classes explotadoras mediante o plustrabajo). Com este proponho, o comunismo podia se conceber como necessidade histórica em vez de como aspiração utópica, já que as mesmas contradições internas do capitalismo geravam a necessidade de revolucionar as relações de produção burguesas e criavam ao sujeito histórico capacitado para tal missão: o proletariado.[10]
Desta maneira, o materialismo histórico tal como o formulou Marx se encontra indissoluvelmente vinculado à luta da classe proletaria pelo comunismo.[11] Isto não significa que suas conclusões (sobretudo no campo económico) não sejam científicas, senão que não estão dirigidas a constituir uma ciência positiva "neutra", senão um conhecimento científico útil para a emancipación proletaria.[12]
O devir posterior do materialismo histórico no marxismo
Engels e o materialismo histórico
Depois da morte de Marx, Engels prosseguiu com sua actividade política na socialdemocracia e com sua actividade intelectual na aplicação e a divulgação da concepção da história desenvolvida por Marx e ele. Em sua obra Do socialismo utópico ao socialismo científico de 1880,[13] diz:
A concepção materialista da história parte da tese de que a produção, e depois dela a mudança de seus produtos, é a base de toda ordem social; de que em todas as sociedades que desfilam pela história, a distribuição dos produtos, e junto a ela a divisão social dos homens em classes ou estamentos, é determinada pelo que a sociedade produz e como o produz e pelo modo de mudar seus produtos. Segundo isso, as últimas causas de todas as mudanças sociais e de todas as revoluções políticas não devem procurar nas cabeças dos homens nem na ideia que eles se forjem da verdade eterna nem da eterna justiça, senão nas transformações operadas no modo de produção e de mudança; têm de procurar-se não na filosofia, senão na economia da época de que se trata. Quando nasce nos homens a consciência de que as instituições sociais vigentes são irracionais e injustas, de que a razão se tornou em sinrazón e a bênção em plaga, isto não é mas que um indício de que nos métodos de produção e nas formas de mudança se produziram caladamente transformações com as que já não concorda a ordem social, cortado pelo padrão de condições económicas anteriores. Com isso fica que nas novas relações de produção têm de se conter já -mais ou menos desenvolvidos- os meios necessários para pôr termo aos males descobertos. E esses meios não têm de sacar da cabeça de ninguém, senão que é a cabeça a que tem que descobrir nos factos materiais da produção, tal e como os oferece a realidade.
No entanto, já em vida de Marx tiveram epígonos que distorsionaron esta concepção a convertendo em um mero determinismo económico. Engels denuncia esta situação em sua carta a Joseph Bloch de 1890, na qual, conquanto reivindica que a causa última das mudanças sociais se encontra nas condições económicas, isto não significa que esta influência seja unilateral e imediata nem que possa se explicar a cada mudança social a partir da economia. Engels admite que esta malinterpretación economicista do materialismo histórico se deve a que, em sua polémica com os socialistas utópicos e com outros sectores que negavam a influência da economia, Marx e ele se viram obrigado a realçar o papel das condições económicas sem lhe dar a importância que se merecia às condições extra-económicas.[14]
De teoria revolucionária do proletariado a ciência positiva
Karl Korsch tem argüído em suas obras Marxismo e filosofia (1923) e Karl Marx (1938) que o materialismo histórico marxiano tal como foi herdado pela socialdemocracia alemã deixou de ser uma teoria crítica com finalidades práticas para passar a ser uma doutrina de análise positivo da realidade e, portanto, o fundamento de uma ciência positiva. Segundo Korsch, este desvio dogmática tem sua raiz no marxismo original, devido a sua dependência da filosofia herdada da burguesía e a influência em Marx e Engels da tradição revolucionária jacobina da revolução francesa.
Devido a esta disociación entre a teoria histórico-materialista e sua aplicação para a luta de classes proletaria, se cimentó a crença de que a dialéctica materialista marxiana podia ser utilizada como elemento para a investigação científica positiva inclusive fora das ciências sociais. Um exemplo disto é a obra de Engels Dialéctica da natureza.
Outros enfoques materialistas da história
Fora do campo do materialismo histórico de Marx, existem outros métodos de investigação histórica para os quais os rasgos definitorios das sociedades humanas e a evolução histórica das mesmas tem estado determinada ou fortemente condicionada antes de mais nada por factores materiais (tecnologia disponível, sistema de produção, características geográficas e climáticas). Devido à tentativa de estabelecer as ideias do materialismo histórico de modo independente à versão marxista do mesmo, têm-se acuñado termos novos como: materialismo cultural, funcionalismo ecológico, determinismo geográfico, determinismo económico, e outros, que podem ser considerados como concepções materiais da História. Diversos autores académicos como Jared Diamond ou Marvin Harris têm tratado em detalhe a evolução histórica de extensas áreas geográficas, e tratado de explicar rasgos definitorios da sociedade a partir de factores materiais, assinalando que este tipo de factores são os preponderantes quando se trata de entender a evolução das sociedades e as civilizações.
Veja-se também
Referências
- ↑ "Que dantes e durante os quarenta anos de minha colaboração com Marx tive uma verdadeira parte independente na fundamentación, e sobretudo na elaboração da teoria, é coisa que nem eu mesmo posso negar. Mas a parte mais considerável das principais crias directrizes, particularmente no terreno económico e histórico, e em especial seu formulación nítida e definitiva, correspondem a Marx." Friedrich Engels, Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã (1880)
- ↑ "...o material intelectual acumulado por Hegel é só uma das correntes que Marx e Engels têm feito desembocar no largo rio de sua nova teoria materialista da sociedade. Tomaram dos historiadores burgueses do período da restauração o conceito de classe social e o de luta de classes, de Ricardo a fundamentación económica das contraposições de classe, de Proudhon a proclamación do proletariado moderno como única classe realmente revolucionária, dos acusadores feudales e cristãos opostos à nova ordem económica nascido da revolução do século XVIII o desenmascaramiento sem contemplaciones dos ideais liberais burgueses, a invectiva cheia de ódio que dá na mosca; do socialismo pequeno-burgués de Sismondi a aguda descomposição das contradições irresolubles do moderno modo de produção; dos iniciais colegas de viagem da esquerda hegeliana, particularmente de Feuerbach, o humanismo e a filosofia da acção; dos partidos políticos operários contemporâneos -os reformistas franceses e os cartistas ingleses- a importância da luta política para a classe operária; da Convenção francesa, de Blanqui e dos blanquistas a doutrina da ditadura revolucionária; de Saint Simon, Fourier e Owen todo o conteúdo de suas metas socialistas e comunistas: a subversión total dos fundamentos da existente sociedade capitalista, a eliminação das classes e das contraposições de classe e a trasformación do Estado em uma mera administração da produção." - Karl Korsch, Karl Marx (1938)
- ↑ "Meu método dialéctico não só é fundamentalmente diferente ao método de Hegel, senão que é, em todo e por tudo, a antítese dele. Para Hegel, o processo de pensamento, ao que o convém inclusive, baixo o nome de Ideia, em sujeito com vida própria, é o demiurgo do real; e o real constitui unicamente a forma externa em que a ideia toma corpo. Em mudança, para mim o ideal não é mais que o material transferido e traduzido no cérebro dos homens (...) O facto de que a dialéctica sofra em mãos de Hegel uma mistificación não obsta para que tenha sido ele quem primeiro soubesse expor de um modo amplo e consciente suas formas gerais de movimento. O que ocorre é que na dialéctica aparece nele investida, puesa de cabeça. Não há mais que lhe dar a volta, melhor dito, a pôr de pé e em seguida se descobre baixo a corteza mística a semente racional. A dialéctica mistificada chegou a pôr-se de moda na Alemanha porque parecia transfigurar o existente. Mas em sua forma racional provoca o cólera da burguesía (...) já que no entendimento e explicação positiva do existente inclui a inteligência de sua negación e morte forçada: ao ser essencialmente crítica e revolucionária, capta as formas actuais em pleno movimento sem ignorar seu caracter perecível." - Karl Marx, Prólogo à segunda edição do Capital
- ↑ "Pelo que a mim se refere, não me cabe o mérito de ter descoberto a existência das classes na sociedade moderna nem a luta entre elas. Muito dantes que eu, alguns historiadores burgueses tinham exposto já o desenvolvimento histórico desta luta de classes e alguns economistas burgueses a anatomía económica destas." - Karl Marx, Carta a Joseph Weydemeyer (5 de março de 1853). http://www.marxists.org/espanol/m-e/cartas/m5-iii-52.htm
- ↑ "Só tendo vivido a acção liberadora deste livro [A essencial do cristianismo de Feuerbarch], poderia um se formar uma ideia disso. O entusiasmo foi geral: no ponto todos nos convertemos em feuerbachianos. Com que entusiasmo saudou Marx a nova ideia e até que ponto se deixou influir por ela —pese a todas suas reservas críticas—, pode se ver lendo A Sagrada Família." F. Engels, Ludwig Feuerbach
e o fim da filosofia clássica alemã (1886). http://www.marxists.org/espanol/m-e/1880s/feuer/index.htm
- ↑ marxists.org
- ↑ "As premisas de que partimos não são arbitrárias, não são dogmas, senão premisas reais, das que só é possível abstraerse na imaginación. São os indivíduos reais, sua acção e suas condições materiais de vida, tanto aquelas com que se encontraram já feitas, como as engendradas por sua própria acção. Estas premisas podem comprovar-se, consequentemente, pela via puramente empírica." Karl Marx e Friedrich Engels, A ideologia alemã (1846). http://www.marxists.org/espanol/m-e/1840s/feuerbach/1.htm
- ↑ Karl Marx, Crítica ao Programa de Gotha (1875)
- ↑ Friedrich Engels, Anti-Dühring (1878)
- ↑ Friedrich Engels, Do socialismo utópico ao socialismo científico (1880)
- ↑ Karl Korsch, Marxismo e filosofia (1923)
- ↑ Karl Korsch, Karl Marx (1938)
- ↑ marxists.org
- ↑ marxists.org