O Pacto do Clube Naval foi um acordo atingido o 3 de agosto de 1984 entre os máximos jerarcas militares e representantes dos partidos Colorado, Frente Amplo e União Cívica que possibilitou a volta do regime democrático a Uruguai , após mais de onze anos de governo cívico-militar. Foi a culminación de uma negociação secreta.
Como consequência do acordo, o governo convocou a eleições o 25 de novembro do mesmo ano, nas quais não puderam participar os candidatos naturais da Frente Ampla, Liber Seregni, e do Partido Nacional, Wilson Ferreira, que se encontravam proscriptos. Em ditas eleições foi eleito presidente Julio María Sanguinetti do Partido Colorado, quem assumiu o 1º de março de 1985.
O nome deste acordo origina-se no lugar onde se efectuaram as reuniões, clube localizado no bairro Carrasco de Montevideo .
Conteúdo |
As Forças Armadas admitiram o resultado adverso do plebiscito constitucional de 1980 e, uma vez sobrepuestas do mesmo, elaboraram um novo cronograma de transição institucional, sustitutivo do original, que previa um período de transição de três anos e médio com os seguintes passos sucessivos: reestruturação do Conselho de Estado que permitisse a participação dos partidos políticos, desproscripciones de líderes políticos, redacção de um Estatuto dos partidos políticos, reforma da Constituição, eleições nacionais em 1984 e, finalmente, mudança de comando em março de 1985.
A começos de julho de 1981 iniciou-se o diálogo político entre a Comissão de Assuntos Políticos das Forças Armadas (Comaspo) e os representantes dos partidos Colorado, Nacional e União Cívica.
O 7 de outubro de 1981 reuniram-se os dirigentes do Partido Colorado e do Partido Nacional que então oficiaban de autoridades ad-hoc, com o fim de aunar critérios para elevar suas propostas à Comaspo. Pelo Colorado coincidiu o chamado “Grupo dos Seis” e pelo Partido Nacional o “Triunvirato”.
À interna dos dois partidos históricos tinha discrepâncias sobre a representatividad de alguns grupos políticos. No Colorado o pachequismo defendia a vigência do espectro oferecido pelas eleições de 1971, onde tinha obtido a maioria dos votos do lema. No Nacional o tema da representatividad era bem mais claro, pese a que alguns de seus sectores minoritários surgidos após instaurado o regime de facto sustentavam que o transcurso de uma década tinha alterado substancialmente aqueles apoios eleitorais.
Impunha-se então a necessidade de definir através de uma consulta popular a representatividad da cada grupo dentro de seus respectivos partidos. Os sectores que tinham apoiado o NÃO em 1980 coincidiram em reclamar eleições internas no prazo mais breve possível, no entendido de que esse evento possibilitaria o descongelamiento da situação política, o fortalecimiento dos partidos e a legitimación de seus representantes.
O primeiro passo foi a negociação do Estatuto dos partidos políticos. Os colorados transaron e a maioria nacionalista expôs seus pontos de vista mas manteve-se à margem da negociação. No entanto, participaram do processo de reconstrução oficial” da partidos via o novo Estatuto, que tinha sido plasmado na chamada Lei Fundamental N° 2 do 7 de junho de 1982. Nas eleições internas levadas a cabo o 28 de novembro de 1982 votou o 60,5% do electorado.
Foram habilitados somente os partidos Colorado, Nacional e União Cívica. O resultado foi ainda mais adverso para o regime que em 1980. Os sectores opositores triunfaram amplamente: 76,2% no Partido Nacional e 69,7% no Partido Colorado.
A oposição mais intransigente —a maioria nacionalista— apareceu como a grande triunfadora, porque sua vitória tinha sido aplastante dentro do Partido Nacional e porque o Partido Nacional em seu conjunto tinha recebido mais votos que o Partido Colorado através de todas suas fracções. A Frente Ampla fez um chamado a votar em alvo, mas com maus resultados; de facto, considera-se que uma considerável porção de votantes frenteamplistas sufragaron pelo wilsonismo, e uma quantidade menor pela CBI colorada.
O 21 de maio de 1981 o Conselho de Estado tinha aprovado a Lei Nº 15.137 de Associações Profissionais, a que tinha gerado muita discussão entre os trabalhadores, já que alguns entendiam que aceitar esta norma era avalar ao regime. Outros sustentavam que se podia utilizar este espaço legal para reorganizar ao movimento operário. Este último critério que prosperou e permitiu que pouco a pouco se formasse o Plenário Intersindical de Trabalhadores (PIT), que foi o encarregado de organizar o 1° de maio de 1983 a maior concentração de massas desde 1973.
O estrado instalou-se em frente ao Palácio Legislativo, “olhando” para a Avenida do Libertador. Um enorme cartaz pedia liberdade, trabalho, salário e amnistia. Entre os organizadores existia nervosismo pelo que poderia passar e a gente que poderia coincidir. Mas pouco a pouco começaram a chegar pessoas de todos lados. A rua foi-se colmando de gente com cartazes de suas respectivas organizações sindicais. Sobre as 15.30 horas começou-se a cantar o hino e a intranquilidad passou a ser euforia, já que umas 100 mil pessoas entoavam suas estrofas.
Os maestros de cerimónia foram Rubén Castillo e Graciela Possamay. Enquanto os oradores foram: Carlos Pereyra (ex dirigente do Sindicato de Funsa), Andrés Toriani (ex dirigente da Federação Uruguaia da Saúde – FUS), Richard Read (dirigente da Federação de Operários e Empregados da Bebida – FOEB), Juan Pedro Ciganda (dirigente da Associação de Empregados Bancários do Uruguai – AEBU) e Carlos Secco (dirigente da desaparecida fábrica Inlasa – metalúrgica).
A derrota de 1980, as eleições internas dos partidos políticos e o acto do 1° de maio forçaram ao governo a iniciar negociações para uma saída democrática.
A Comissão de Assuntos Políticos das Forças Armadas (Comaspo) organizou uma série de reuniões com políticos no Parque Hotel. Realizaram-se sete encontros.
Pela Comaspo assistiram o general Julio César Rapela (que a presidia), os generais Yamandú Trinidad, José Sequeira, Hugo Medina, Germán da Fonte e Jorge Bazzano, os contralmirantes Jorge Fernández e Ricardo Largher e os brigadieres gerais Hebert Pampillón e Fernando Arbe.
O 13 de maio de 1983 realizou-se a primeira reunião, à que assistiram os colorados Julio María Sanguinetti e Enrique Tarigo, os nacionalistas Juan Martín Posadas, Gonzalo Aguirre e Fernando Oliú e os cívicos Juan Vicente Chiarino, Humberto Ciganda e Julio Daverede.
Quando os representantes políticos chegaram ao Parque Hotel se encontraram com que no salão se tinham disposto quatro mesas. A mesa mais longa tinha à delegação militar. Em frente a eles a União Cívica, à direita o Partido Colorado e à esquerda o Partido Nacional. A Frente Ampla não foi convidado a participar das negociações.
O Partido Nacional foi com uma carta, que entregou ao entrar, onde precisava as condições nas que iria negociar. As Forças Armadas apresentaram as bases da negociação em um documento que repetia o mesmo texto constitucional que tinha sido recusado no plebiscito de 1980. A posição militar deixou perplejos aos políticos.
A reunião prevista para o 30 de maio suspendeu-se por uma nova requisa do semanário nacionalista A Democracia, que tinha publicado uma foto de Wilson Ferreira saudando em Buenos Aires ao Rei Juan Carlos I de Espanha, quem dias dantes tinha passado por Montevideo .
Recém o 9 de junho realizou-se a segunda reunião. Os delegados brancos foram modificados. Retiraram-se os representantes de Por a Pátria, Juan Martín Posadas e Fernando Oliú, por directora de Wilson Ferreira, quem recusava qualquer negociação na situação de pressão que se vivia, quando o semanário A Democracia sofria uma e outra clausura e dirigentes nacionalistas eram processados pela justiça militar. Foi designado Walter Santoro.
As propostas de militares e políticos organizaram-se em 24 pontos. Em um dia depois realizou-se o terceiro encontro, onde se discutiu sobre as liberdades públicas e as medidas de excepção. Não teve acordo. O 16 de junho as conversas estancaram-se. Os militares exigiam manter o estado de subversión e a suspensão do hábeas corpus.
A quinta reunião realizou-se o 19 de junho. Os militares recusaram uma proposta política sobre a segurança individual. O 27 de junho fez-se a sexta reunião. Enrique Tarigo afirmou que os militares “olham a Constituição pelo olho da cerradura da subversión”.
A sétima e última reunião do Parque Hotel efectuou-se o 5 de julho. Ante as discrepâncias insalvables e o clima político existente, Julio María Sanguinetti anunciou a decisão dos grupos políticos de retirar das negociações. O general Rapela acusou aos políticos de inflexibilidad.[1]
Entre o 5 de julho e o 25 de agosto de 1983 operou-se uma mudança nos métodos empregados pela oposição. O falhanço das conversas do Parque Hotel, o decreto do 2 de agosto suspendendo transitoriamente toda a actividade política, o chamado Acto Institucional N° 14 conferindo amplas faculdades ao Poder Executivo para proceder a novas proscripciones políticas por um termo mínimo de dois anos, a proibição de levar a cabo um acto de “reafirmación democrática” que a oposição tinha lembrado para o 6 de agosto e o clima de endurecimento que vinha percebendo no país, permitiram madurar as condições para que se tomasse consciência de que a sozinha negociação era insuficiente, que os partidos políticos deviam alargar o campo opositor e que tinha chegado a hora de mobilizar à população para pressionar ao regime.
Surgiu assim, em agosto de 1983, uma aliança ampla e escassamente formalizada, que se denominou “Intersectorial” e que nucleó e representou aos sectores maioritários dos partidos políticos e às organizações sindicais, estudiantiles e sociais. O objectivo era pôr-se de acordo para coordenar e realizar mobilizações e acções de protesto em demanda de uma abertura real.
A primeira medida “marcada” da Intersectorial foi a convocação a uma “caceroleada” para o 25 de agosto às 20 horas. Em massa, a população saiu às veredas a golear cacerolas ou outros objectos capazes de gerar ruído.
O 27 de novembro os partidos políticos e as organizações sociais convocaram a um acto em Montevideo em frente ao Obelisco aos Constituintes de 1830 com consigna-a “Por um Uruguai sem exclusões”, popularmente conhecido por "O Rio de Liberdade". A diferença do acto programado para o 6 de agosto, este se foi autorizado. Estima-se que coincidiram quase 500.000 pessoas.
|
|
Partido Nacional
Os representantes do Partido Nacional não coincidiram às negociações por não compartilhar o proponho militar de realizar as eleições com partidos e pessoas proscriptas (entre elas, sua então líder, Wilson Ferreira, encarcerado desde a volta do exílio, o 16 de julho desse ano).[2]
Partido Laborista
A algumas reuniões assistiram dois representantes de um suposto Partido Laborista, que depois se retirou das conversas e não se apresentou às eleições. Eram dois jovens a quem ninguém conhecia. Nos Considerandos do Acto Institucional N° 19 menciona-lho como um dos partidos políticos com os que se chegou ao acordo.
Depois das eleições internas de 1982 e das demonstrações de força ao longo do ano 1983, a oposição civil tinha-se convertido no único interlocutor válido para o governo.
Os nacionalistas foram especialmente intransigentes com respeito às proscripciones políticas e não estiveram dispostos a negociar. Os colorados entenderam que não podiam negociar sozinhos um acordo (já que não constituíam uma maioria nacional), pelo que os militares modificaram sua antiga postura, permitindo a participação de representantes da Frente Ampla. Pela primeira vez decidiu-se um pacto de grande importância nacional sem a participação de um dos partidos tradicionais.
As negociações foram longas e difíceis. A diferença das do Parque Hotel, foram secretas e não se levaram actas. O acordo final atingido foi uma negociação, não algo imposto por uma das partes. Todos os actores principais obtiveram algo e concederam algo. Os militares concederam quase tudo, excepto que o líder nacionalista Wilson Ferreira pudesse se apresentar corno candidato à presidência nas seguintes eleições e que os líderes civis não podiam substituir a discreción aos máximos líderes militares.
No sábado 3 de agosto de 1984 às 16 horas aprovou-se e assinou uma acta contendo as chamadas "Bases para a transição". Não se conhece com exactidão o conteúdo de ditas bases mas, em base a declarações dos participantes, aos factos ocorridos e ao posterior Acto Institucional N° 19, as mesmas poder-se-iam resumir em cinco pontos:[2] [3]
A Igreja Católica e a Grande Logia da Masonería fizeram esforços para facilitar a saída da ditadura. Depois do falhanço das conversas do Parque Hotel, o então Grande Maestro da Grande Logia da Masonería do Uruguai, Carlos Bolaña, manteve contactos com o arcebispo de Montevideo , Carlos Partelli, para que a cada um, por seu lado, contribuísse a acercar às partes.[4]
O pacto marcou o fim da ditadura e sentou as bases da transição pacífica para a democracia. Assim mesmo, dirigentes do Partido Nacional, em ocasião de fundamentar seu apoio a Lei de Caducidad do 22 de dezembro de 1986 afirmaram que a impunidade para militares se tinha lembrado em forma implicita no Pacto do Clube Naval,[5] facto que sempre foi desmentido pelos participantes.[6]