Visita Encydia-Wikilingue.com

Percutor (talha lítica)

percutor (talha lítica) - Wikilingue - Encydia

Uso experimental de um percutor.

O percutor é a ferramenta que se emprega na talha de indústrias líticas, geralmente prehistóricas, para a obtenção de lascas em sentido amplo. Apesar que o uso da palavra percutor tem uma denotación precisa (a de ferramenta que golpeia; no campo da Prehistoria e, mais concretamente, no da tecnologia da pedra talhada, um percutor tem umas connotaciones mais amplas, dependendo da técnica empregada quando se recorre a ele: percutor duro, percutor macio ou elástico, percutor indirecto através de uma peça intermediária (ponteiro) e compresor (do que há múltiplas variantes).

Em qualquer caso, um percutor na talha lítica tem sempre a mesma função, a extracção de peças de lascado (sejam lascas, folhas ou hojitas) para a fabricação de ferramentas de pedra por médio de uma série de técnicas extremamente variadas e, às vezes, tão sofisticadas, que ainda não têm sido desveladas.

Veja-se também: Talha lítica

Conteúdo

Tipos de percutor

Ao longo do período de tempo em que o ser humano tem fabricado ferramentas de pedra talhada (não só durante a Prehistoria) se empregaram diferentes técnicas e diferentes classes de percutores. A seguinte é uma enumeración básica, pois certos procedimentos são tão sofisticados que neles intervêm uma série importantes de artefactos especializados no lascado.

Percussão directa

Percutor durmiente ou pasivo

É uma grande pedra que, bem assentada no solo, serve para diversos fins, sendo o mais óbvio o golpeio com a peça a trocear, obtendo geralmente grandes lascas. A técnica do percutor durmiente é pouco conhecida porque tem sido pouco experimentada, conquanto conhece-se que se usou durante o Paleolítico Inferior para obter lascas de grande tamanho que, a sua vez, seriam suportes para certos utensilios. As grandes lascas eram suportes muito apreciados, pois precisavam muito pouca transformação, com o que se poupava esforço em seu manufactura. O problema do percutor durmiente é que se manejam pedras de grande tamanho, o que implica um escasso controle sobre o resultado e numerosos golpes frustrados, ao menos até adquirir a força e a perícia suficientes.

Retoque por percussão directa sobre um yunque de pedra.

Outra forma de empregar o percutor durmiente como yunque é mais própria de períodos avançados (a partir do Paleolítico Superior). Ainda que baseia-se no emprego de uma pedra solidamente assentada, o conceito técnico é completamente diferente: trata-se de apoiar lascas ou folhas líticas sobre o yunque e levar a cabo um retoque abrupto por repercussão em um lado (dorso) ou extremidade (truncadura) obtendo retoques assim, cruzados ortogonais (é o que se chama retoque abrupto).[1] Também se pôde experimentar o retoque sobre yunque de pedra por médio de uma forte pressão, obtendo assim uma borda retocado regular e monofacial.

Percutor duro activo

Vários tipos de percutor duro.

É um simples canto trabalhado que se usa como martelo para golpear a rocha, o sujeitando directamente com a mão. O percutor duro é e tem sido o mais utilizado ao longo do periplo humano, pois ainda que usem-se outros tipos de percutores como ferramentas principais para a talha, os de pedra são ferramentas subsidiarias para preparar o terreno (por tanto, nunca pode ser utilizado como um argumento cronológico). A percussão dura é a primeira em aparecer e a única que se conhece durante, ao menos, dois milhões de anos (até que se incorpora o percutor macio); empregou-se para a fabricação de úteis ao longo de toda a corrente operativa, até que a tecnologia lítica melhorou. Então o percutor duro ficou relegado às primeiras fases de elaboração de um artefacto: o desbastado inicial, a hechura primária (a criação de preformas , que depois seriam refinadas com percutor macio ou por pressão), o ataque de planos de percussão inacesibles para o percutor macio, a preparação de plataformas de percussão em determinados núcleos, etc.

Apesar de que há depoimentos indirectos de sua longa persistência, a arqueologia tem sacado à luz muito poucos percutores. Entre os mais antigos são os citados por Jean e Nicole Chavaillon tanto em em Gomboré 1B, como em Melka Kunturé e, inclusive, Olduvai (capas I e II): Os percutores duros activos distinguem-se por sua forma oblonga com um ou duas bordas activas com numerosas marcas de choques e, com frequência, pequenos lascados (astillamientos), bem como algumas fisuras.[2] Estes, se reconhecem pelas numerosas impressões de golpes que têm (microestrellas, cones de percussão, fisuras, lascados fortuitos...).

É possível que nas excavaciones antigas e pouco sistémicas passassem desapercibidos, mas também se disse que os bons percutores de pedra eram tão apreciados, que o artesão só os abandonava quando ficavam inúteis.[3] Semenov fala de um yacimiento rico em percutores (o de Polivanov , Rússia),[4] mas, como o resto deles, são quase todos do Neolítico em adiante.[5] O tamanho dos percutores duros depende de sua função: há muito grandes para o desbastado, os médios servem para a hechura, os pequenos são ferramentas auxiliares para preparar plataformas de percussão, ou retocar lascas. Com respeito à forma, há circulares, ovalados, retangulares.... De facto, a forma depende muito do estilo do artesão (ao menos pelo que respecta aos prehistoriadores que experimentam com a talha do sílex, e que adquirem estilos, posturas e gustos diferentes).

Apesar de que os percutores de pedra são mais próprios da extracção de lascas largas e curtas, usados com maestría podem conseguir um controle muito preciso do troceado da rocha. De facto, têm-se atestiguado casos de extracção de folhas líticas com percutor duro, principalmente no Paleolítico Médio europeu (quase sempre folhas Levallois[6] ), mas também no Superior e no Epipaleolítico. Verdadeiro que a extracção de folhas é mais efectiva com outras técnicas, mas há suficientes indícios para afirmar que também se pode fazer com percutor duro. Inclusive há casos excepcionais e inauditos de extracção de folhas de obsidiana a mais de 30 centímetros no México precolombino e na antiga Etiópia (em nenhum dos casos os tallistas experimentales modernos têm sido capazes de recrear os métodos, pelo que estes são, em ambos casos, um mistério por resolver).[7]

Percutor macio directo

Trata-se de um fragmento de cuerna de cérvido ou de madeira dura que se utiliza para golpear a rocha e extrair lascas. Os percutores macios costumam ter uns 30 ou 40 cm de longo e o tamanho idóneo para asirlos na mão. O material do que estão factos é muito variado, já ao longo de sua história os humanos têm caçado muitas espécies de cérvidos em todo o balão, mas os tallistas experimentales apreciam concretamente os de reno ou de caribú (conquanto, os de ciervo são os mais comuns e asequibles).[8] No caso da madeira, só servem as espécies de material especialmente dura: boj, acebo, talvez encina, por exemplo. Em qualquer caso, o percutor duro se desgasta com seu uso com relativa rapidez, a cada golpe come-se um pouco do percutor, de facto, aqueles percutores que estão feitos de madeira duram muito pouco. Os de cuerna duram algo mais, mas ao final acabam avariando pela fadiga do material. A observação a olho nu revela que o sílex (ou qualquer que seja a rocha talhada) deixa pequenas partículas incorporadas no percutor, astillitas e esquirlas pétreas.

Percutores macios:
de madeira de boj, de acebo, de encina e cornamenta de cérvido.

Nas excavaciones arqueológicas, os percutores macios são mais raros ainda que os duros, já que são orgânicos e, por tanto, perecíveis. François Bordas e Dénise de Sonneville-Bordas exhumaron um nos estratos solutrenses mais recentes da gruta de Laugerie-Haute (Dordoña). A peça estava rompida em vários fragmentos e incompleta, mas conservava o extremo funcional, onde puderam se observar as marcas dos golpes e, ao miscroscopio, eram visíveis os trocitos de sílex incorporados. As análises petrológicos determinaram adiccionalmente que se tratava do mesmo tipo de sílex que as peças talhadas extraídas da mesma capa arqueológica.

A contrapartida a esta fragilidad são uma série de vantagens derivadas da elasticidade e das propriedades em frente à tensão-deformação deste tipo de percutores. O percutor macio tem um limite de fluencia inferior ao da rocha, isso faria pensar a um lego que é impossível talhar sílex ou cuarcita com um trozo de madeira ou de cuerna; no entanto, seu limite de elasticidade é muito superior, o que faz que suporte mais tensão e que seja a rocha a que se rompa, em lugar do percutor (isto não ocorre, em mudança com o osso; os percutores de osso costumam ser inapropiados para a talha, aliás o osso é mais bem uma matéria prima talhada, ao igual que as rochas).

O professor Tixier experimentando com percutor macio.

Por outro lado, durante a percussão mesma, que dura milésimas de segundo, o percutor macio, ao ser um elástico linear não-isótropo, varia seu estado tensional e aumenta sua energia interna em forma de energia potencial elástica. No momento em que a rocha chega a seu limite de elasticidade e se rompe, a energia potencial se liberta e o percutor recobra sua forma original. Por outro lado, devido também a sua elasticidade, a superfície de contacto entre percutor e rocha é maior, já que este se adapta ao plano de percussão. A zona percutida é maior também, por isso o arranque da fractura é mais difuso que se usássemos uma pedra, por isso o concoide é também menos acusado. É um processo tão rápido que é invisível ao olho humano, mas suas consequências têm sido aproveitadas desde faz mais de um milhão de anos. Tudo isto, que é tão teórico, se traduz ao nível prático, desde o ponto de vista do artesão tallista, em um maior controle sobre a talha, em uns resultados mais fáceis de dirigir, e em um lascado mais preciso e definido; em poucas palavras, a talha é mais eficiente e seus resultados mais eficazes (os artefactos talhados com percutor duro têm um acabamento bem mais fino que aqueles nos que só se usou o percutor duro).

O Percutor macio aparece durante o Paleolítico Inferior, concretamente no Achelense (é muito ostensible em certos bifaces), faz 700 000 anos na África e faz meio milhão em Eurasia . Não obstante o percutor macio não desbanca ao percutor duro, ao invés, se complementa com ele. O habitual é fazer o desbastado ou preparação da peça com percutor duro, e o acabamento com percutor macio, com o que o mais habitual é que os objectos talhados tenham cicatrices de ambos tipos de percutor. De facto, a coisa não é tão singela: com frequência as peças terminadas e utilizadas reciclavam-se, se reafilaban, possivelmente com percutor duro, com o que teria várias fases alternadas de percutor duro e macio. Outras vezes, no caso dos núcleos, ainda que a extracção de lascas ou folhas fizesse-se com percutor macio ou por pressão (vide infra), o percutor duro era necessário para preparar a plataforma de percussão e eliminar salientes que pudessem desbaratar a operação.

Os experimentos de talha do professor Luis Benito do Rei, professor titular de Prehistoria na universidade de Salamanca, servem para distinguir, com verdadeiro grau de precisão aceitável (pois nunca há certeza completa), as cicatrices da talha por percussão directa com percutor duro e as do percutor macio comparadas entre si.[9]


Percussão directa com percutor duro Percussão directa com percutor macio
Bifaz con percutor duro.png
Bifaz con percutor blando.png
Gera peças grossas, de bordas irregulares e fios pouco agudos (às vezes, com restos de corteza natural da rocha)
Obtemos peças mais delgadas e regulares, com arestas bem mais agudas
Vistos de perfil, os fios são sinuosos porque os negativos dos lascados são marcados e bastante profundos
O fio, visto de perfil, é relativamente rectilíneo ou, quando menos, alabeado, isto é, torso, mas sem irregularidades marcadas
Às vezes, as sinuosidades produzidas pelos contraconcoides mais marcados podem ser rectificadas por uma retalla, também com percutor duro; deste modo, a aresta de perfil, é zigzageante
Os contraconcoides são difusos e pouco profundos, o que não impede que, com frequência, se perfeccione a aresta com uma retalla bem mais cuidada que, em realidade, reforça o fio
As improntas deixadas pelas lascas extraídas por médio da talha directa com percutor duro são maiores e menos numerosas
Os lascados do percutor macio directo são mais longos que largos, invasores, pouco profundos, às vezes de menos de um milímetro de espessura
As lascas obtidas por este procedimento são mais largas que longas, e são mais estreitas na parte proximal que na distal, com um talón grosso (geralmente, plano ou diedro) e um cone de percussão e um concoide muito marcados. Os nervos que separam uns lascados de outros são fáceis de ver.
É difícil distinguir os nervos que separam os lascados da percussão macia como suas bordas são extremamente finas e se sobrepõem de maneira imprecisa. As lascas têm bordas tão finos que são translúcidos. Seu talón é linear ou puntiforme e às vezes têm uma cornisa sobre o concoide, em lugar de cone de percussão
Tanto se as lascas são subproducto da talha de um utensilio, por exemplo um bifaz, como sem são lascas extraídas de um núcleo bifacial, não há forma das distinguir, por isso não há segurança de se se trata de desechos (a não ser que se fizessem estudos trazalógicos)
As lascas da talha ou o retoque de utensilios são, quase sempre, subproductos muito característicos (facilmente identificables). As que se extraem de núcleos preparados para o percutor macio, em mudança, são lascas específicas que nunca confundir-se-iam com desechos de talha
Quando fabricamos bifaces (ou peças bifaciales) por esta técnica, sua secção é poligonal, prismática, bastante irregular e asimétrica
A secção de um artefacto bifacial talhado com percutor macio tende a ser lenticular, com ângulos muito agudos
Os estigmas derivados da percussão directa com percutor duro activo são impossíveis de discernir dos obtidos com um percutor duro durmiente ou pasivo (os experimentos demonstram que é possível fabricar um bifaz com um percutor durmiente)
Os estigmas da talha com percutor macio costumam sobrepor-se a outros anteriores próprios do percutor duro, já que era habitual começar uma peça com percutor duro até obter um layout ou preforma, e terminá-la com percutor macio
A peça tem um aspecto pesado, tosco, primitivo, ainda que tal circunstância não pode ser tomada como indicador cronológico ou evolutivo, pois há numerosas circunstâncias que podem ter influído
O resultado final é um artefacto elegante, bastante regular, simétrico, muito bem acabamento e de aspecto geral mais delicado. Estes elementos também não podem considerar-se rasgos cronológicos.

O percutor macio directo usou-se ao longo do Paleolítico Superior de Eurasia para a obtenção de folhas e hojitas, mediante uma preparação específica. Os tallistas prehistóricos chegaram a obter folhas a mais de médio metro de longitude. Ainda que os experimentos têm podido recrear os métodos empregados, são ainda escassamente conhecidos e os resultados estão sujeitos, com frequência, a acidentes de talha e comportamento fortuito da matéria.

Percussão indirecta e pressão

Demonstração de como colocar a peça intermediária.

Tanto a percussão com peça intermediária como a talha por pressão compartilham pontos técnicos comuns, entre eles a dificuldade de distinguir as cicatrices que deixam uma e outra. Os núcleos que ficam de ambos são, em mudança, completamente diferentes. No caso da pressão já não podemos falar de um percutor no sentido estrito da palavra, pois os compresores, isto é, as ferramentas utilizadas, não golpeiam, unicamente pressionam com tanta força que superam o limite de elasticidade das rochas, rompendo segundo o modelo de fractura concoidea. Por essa razão é difícil não relacionar os compresores com os percutores.

Percutor com peça intermediária (ponteiro)

A talha com peça intermediária é uma técnica especializada à obtenção de folhas líticas, é um dos passos de um Método de extracção laminar, o que quer dizer que por se só não tem valor, já que precisa uma preparação prévia do núcleo e contínuos gestos de manutenção do mesmo (feito isto, o trabalho é muito similar ao de um cantero com seu maza e seu cincel). Se consideramos que o núcleo está pronto, há duas formas conhecidas de usar o ponteiro ou peça intermediária:

Supõe-se que a percussão indirecta com ponteiro aparece no Paleolítico Superior, e que convive com a percussão directa. De todos modos as cicatrices destas técnicas são impossíveis de distinguir, salvo em casos excepcionais. De facto, é difícil identificar os ponteiros de osso nas excavaciones, pois mal têm marcas características, isto é, diferentes de uma percussão com qualquer outro propósito. Exemplos propostos são o da gruta de Fageolet (Dordoña), datado no Gravetiense, os de Villevallier e Armeau (Yonne), ambos neolíticos, e os de Spiennes (Bélgica), de mesmo período.[10]

Compresor

Retoque experimental por pressão com um compresor de cuerna de cérvido.

A diferença da técnica por percussão indirecta com ponteiro, a talha por pressão com compresores não só servem para a extracção de produtos de lascado (concretamente folhas líticas), também serve para o retocar úteis. Aliás a talha por pressão para obter folhas inclui um amplísimo repertorio de métodos, não todos eles conhecidos pelos pesquisadores. Todos estes métodos requerem verdadeiro nível de especialização, como se demonstrou nas experiências de talha. Por essa razão (sua complexidade) e pelo facto de que não falamos propriamente de um percutor, trataremos este apartado muito someramente.

Folha de laurel solutrense

Basicamente há um método de retoque por pressão, chamado retoque cubriente subparalelo (por seu aspecto morfológico) que foi redescubierto pelo arqueólogo e experimentador americano Donald E. Crabtree nos anos 70,[11] e aprofundado por este mesmo arqueólogo com a colaboração de Butler, Tixier e outros mais. Também têm aprofundado outros muitos, mas este tipo de retoque se conhece bastante bem (de facto, na América é já próprio de aficionados à fabricação e venda de réplicas de grande precisão, como lembrança do património aborigen de certas regiões[12] ) e o interesse dos pesquisadores, prehistoriadores experimentales, tem passado à extracção de folhas por pressão. Para efectuar esta técnica há que sujeitar a peça sobre a palma da mão esquerda com força (poder sujeitar firmemente o artefacto lítico é um dos problemas mais difíceis aprender), o compresor se sustenta com a direita ou se faz alavanca sujeitando a mão esquerda entre o polegar e o resto dos dedos, pressionando com toda a força possível. O compresor pode ser de cuerna ou de marfil (às vezes com um sílex incorporado na ponta[13] ), mas no Calcolítico, que deve ser considerada a idade de ouro deste tipo de retoque pelas peças magistrales conseguidas, o compresor podia ter uma ponta de cobre. Se a técnica faz-se bem, os retoques costumam ser muito regulares, paralelos e muito planos, cubrientes.

Por sua vez, se há uma a Idade de prata do retoque por pressão, deve ser o Solutrense, no Paleolítico Superior (sendo o caso mais paradigmático o das folhas de Laurel); ainda que a técnica conhecia-se de dantes, mal se usava. Depois desapareceu durante um tempo e voltou a aparecer no Neolítico, perdurando durante longo tempo em peças foliáceas de diverso tamanho (desde a ponta de uma seta de pedra, até os puñales ceremoniales aztecas, passando pelas pontas da Cultura Clovis ou as facas predinásticos egípcios).

O caso da obtenção de folhas por pressão é muito diferente e bem mais complicado. Pelo que não tratá-lo-emos aqui, ainda que listaremos os métodos, nada mais:[14]

  • Extracção de folhas na mão com a ajuda de um simples compresor de cuerna de cérvido: se o sílex é de boa qualidade conseguem-se folhas de até quatro cm de longitude e 7 mm de largo, mas a dificuldade de sujeitar firmemente o núcleo vai crescendo à medida que a exploração avança e este se faz mais pequeno, por isso menudean os acidentes de talha.
  • Extracção de folhas com um compresor e com um sistema de fixação do núcleo à mão (uma peça com uma ranhura onde se coloca o núcleo e que pode ser de madeira, osso ou cuerna). Os resultados não são significativamente melhores, mas sim mais homogéneos, se evitando a maior parte dos acidentes de talha
  • Extracção de folhas com um sistema de fixação do núcleo à mão e a ajuda de uma bengala-compresor apoiado na axila: método já experimentado por Crabtree, permite aumentar a força com que se pressiona o núcleo obtendo, assim, folhas ligeiramente maiores e minimizando os acidentes de talha.
  • Extracção de folhas sujeitando o núcleo no solo por médio de mecanismos fijadores de madeira e usando bengalas-compresores (muletas) apoiados no peito ou no abdomen. A postura do artesão pode ser de pé (aproveitando seu peso para pressionar) ou sentado (menos força, mas mais controle). As folhas obtidas já rozan os quinze centímetros de longo, mas, ademais, são mais estandarizadas, mais homogéneas, e se pode explodir bem mais o núcleo, até seu agotamiento total.
  • Extracção de folhas sujeitando o núcleo no solo por médio de mecanismos fijadores de madeira e usando bengalas-compresores (muletas) apoiados no abdomen. a postura do artesão de pé permite aproveitar o peso para pressionar; mas o verdadeiro truque consiste em um rebaje na bengala, para que este possa se curvar, o fazendo mais flexível, isto é, acrescentando ao peso do corpo, a energia potencial da bengala combado.
  • Extracção de folhas sujeitando o núcleo no solo por médio de mecanismos fijadores de madeira e usando bengalas-compresores com alavanca apoiados no abdomen. A postura do artesão é sentada e agarrando a bengala pelo extremo oposto, atirando dele para acima. Assim, a alavanca ataca o núcleo com uma força superior aos 300 kg. Com este sistema, ainda em fase de investigação, se chegaram a obter folhas a mais de 25 centímetros.

A extracção de folhas por pressão tem a vantagem, sobre a percussão indirecta com ponteiro, de produzir peças bem mais rectilíneas, e não curvadas, como ocorria com o outro método.


Retocadores de cuerna de cérvido procedentes do yacimiento de «Os Cercados», em Mucientes , Valladolid.

O verdadeiro é que a extracção de folhas começou, a partir do final do Paleolítico, a ser um método a cada vez mais complexo e sofisticado no que, como vemos, os percutores são só um dos instrumentos empregados. À medida que a extracção de folhas se perfecciona, vão-se acrescentando complementos: primeiro a peça intermediária ou ponteiro para talha-a indirecta, depois os guijarros abrasivos para preparar plataformas de percussão, seguidamente os compresores com cabo, mais tarde os sistemas de fixação do núcleo (os primeiros serviam para reter na mão, depois nos pés, e por último autónomos, mas a cada vez mais complexos), estes últimos unidos às muletas ou bengalas-compresores (ao princípio se apoiavam no ombro, depois no abdomen e por último no peito), às que se acrescentava uma ponta de osso, cuerna ou cobre, um mecanismo de alavanca e um rebaje para aumentar sua elasticidade e, por tanto sua energia potencial. Tudo isto assinala a um oficio a cada vez mais especializado, provavelmente enfocado ao comércio; ao menos desde o Calcolítico. Sem dúvida teve oficinas especializados que abasteciam zonas mais ou menos amplas, a partir da fonte de origem da matéria prima. Um bom exemplo disto último são as larguísimas folhas de sílex de Varna (Bulgária), que podiam atingir os 44 centímetros de longitude, estavam feitas de um sílex importado e só apareciam nas tumbas mais ricas datadas no Cacolítico (4 000 a. C.-3 500 a. C.).[15]

Caso oposto é o do yacimiento vallisoletano de «Os Cercados» (município de Mucientes ). Ali apareceram uma série de vestígios da Idade do Cobre, basicamente poços recheados de restos arqueológicos. Um deles deparó uma série de utensilios próprios de um artesão, especializado na talha do sílex autóctono: desechos de talha, produtos de desbastado, lascas, úteis eliminados e sobretudo percutores de pedra e o que se denominaram retocadores de osso (este tipo de peças raramente se conservam, por isso são tão importantes). Ao que parece neste yacimiento especializaram-se em peças foliáceas, pontas de seta por exemplo, e dentes de fouce;[16] isto é, tratava-se de uma produção regionalizada destinada ao uso doméstico.

Percutores metálicos modernos

A talha da pedra, como é sabido, é uma das formas humanas de manifestação artística e se emprega tanto na escultura, como na arquitectura. Inclusive, actualmente o sílex e outras rochas de fractura concoidea, empregam-se como materiais de construção, bem como sillares, bem como recubrimiento estético. No entanto esse fenómeno não atañe a este artigo. Em mudança, a talha do pedernal ou de outras rochas, à maneira prehistórica, tem subsistido em instrumentos agrícolas (fouces, trillos..), pedras de chispa (mecheros de yesca, armas de fogo de pedernal...) e, inclusive fabricantes de gemas semipreciosas da Índia e outros países, a diferença costuma radicar em que se usam percutores com ligas metálicas modernas.

«Grimes Graves»: as minas de sílex do Neolítico de Brandon, Inglaterra.
Talha do sílex à maneira prehistórica com percutor metálico moderno.

Sem dúvida existem mais exemplos, mas estes podem servir para ilustrar a actividade dos percutores modernos quando se talha à maneira prehistórica.

Notas

  1. Tixier, Jacques (1982). «[Expressão errónea: operador < inesperado Techniques de débitage: ossons ne plus affirmer]». Studia Praehistorica Volume 2 (Bélgica). Página 21. 
  2. Cavaillon, Jean e Nicole (1981). «[Expressão errónea: operador < inesperado Gatlets aménagés et nucléus du Paléolitique Inférieur]». Préhistoire Africaine Mélanges offerts au doyen Lionel Balout réunis par Roubet, Hugot e Souville (Editions ADPF, Paris). Página 284. .
    Também assinalam a existência de percutores durmientes (pasivos), dos que já temos falado; de pedras com cúpulas de percussão e de guijarros percutidos cujas cicatrices são insuficientes para considerá-los percutores autênticos
  3. Leroi-Gourhan, André e Brézillon, Michel (1972, reimpresión de 1983). «[Expressão errónea: operador < inesperado Fouilles de Pincevent, Essai d'analyse ethnographique d'um habitat magdalénien (section 36)]». Gallia Préhistoire Supplément 07 (CNRS). ISBN 2-222-01479-4. . De facto, em Pincevent foram localizados dois percutores, um bastante pequeno (132 gramas) e outro bastante grande (de 672 gramas), mas dada a quantidade e qualidade de indústria lítica recolhida neste conhecido yacimiento, se considera uma porção muito escassa (página 276).
  4. Semenov, Serguei A. (1981, edição original em russo de 1957). Tecnologia prehistórica. Estudo das ferramentas e objectos antigos através das impressões de uso, Akal Editor, Madri. ISBN 84-7339-575-1. (página 91)
  5. Pele-Desruisseaux, Jean-Luc (1986). Outils préhistoriques. Forma. Fabrication. Utilisation., Masson, Paris. ISBN 2-225-80847-3. (páginas 12)
  6. Révillion, Stéphane (1995). «[Expressão errónea: operador < inesperado Technologie du débitage laminaire au Paléolithique Moyen em Europe Septentrionale: état da question]». Bulletin da Société Préhistorique Française Tome 92 (Numéro 4). ISSN 0249-7638.  (páginas 425-441)
  7. Inizan, Marie-Louise; Reduron, Michel; Hélène Roche e Tixier, Jacques (1995). Technologie da pierre taillée, CREP-CNRS, Paris. ISBN 2-903516-04-9. (páginas 75)
  8. A cuerna de bóvido não é tão adequada, pois tem um recubrimiento externo de queratina e uma alma óssea que se separam, no entanto podem se usar como retocadores
  9. Benito do Rei, Luis (1982). «[Expressão errónea: operador < inesperado Contribuição a um estudo tecnomorfológico do bifaz, útil do Paleolítico Inferior e Médio]». Studia Zamorensia Volume 3 (Zamora). Depósito Legal S. 425 - 1980. 
  10. Pele-Desruisseaux, Jean-Luc (1986). Outils préhistoriques. Forma. Fabrication. Utilisation., Masson, Paris. ISBN 2-225-80847-3. (páginas 14-15)
  11. Crabtree, Donald E. (1966). «[Expressão errónea: operador < inesperado A stone worker's approach to analysing and replicating the Lindenmeier Folsom]». Tebiwa Volume 9 (Número 1). Idaho State University. 
  12. Stone Flake. Woodlands, por exemplo.
  13. O yacimiento bretín de Er-Yoh, em Morbihan (Bretaña, França) deparó o que parecia um compresor fabricado com a epífisis de um herbívoro com um trozo de sílex incorporado em um extremo: Semenov, Serguei A. (1981, edição original em russo de 1957). Tecnologia prehistórica. Estudo das ferramentas e objectos antigos através das impressões de uso, Akal Editor, Madri. ISBN 84-7339-575-1. (página 102 e figura 11-3)
  14. Pelegrin, Jacques (1988). «[Expressão errónea: operador < inesperado Débitage expérimental par pression. «Du plus petit au plus grand»]». Technologie Préhistorique Notes et Monographies Techniques (Número 25). Editions du CNRS, Paris.  (Páginas 37-53). Existem, ademais, vários depoimentos de navegadores ou colonizadores que, especialmente em terras maericanas, descrevem técnicas de retoque e, especialmente, extracção de folhas por pressão, por exemplo o misionero espanhol Juan de Torquemada, no México do século XVII; ou o pintor G. Catling, que viveu entre os nativos de norteamérica no século XIX
  15. Manolakakis, Laurence (1996). «[Expressão errónea: operador < inesperado Production lithique et émergence da hiérarchie sociale: L'industie lithique de l'Énéolitique em Bulgarie (première moitié du IVe millénaire)]». Bulletin da Socété Préhistorique Française Tome 93 (Número 1). ISSN 0249-738.  (Páginas 119-123).
  16. Wattemberg García, Eloísa (coord.) (1997). Guia das colecções do Museu de Valladolid, Junta de Castilla e León, Consejería de Educação e cultura. ISBN 84-7846-603-7. (página 67)
  17. Benito do Rei, Luis e Benito Álvarez, José-Manuel (1994). «[Expressão errónea: operador < inesperado A taille actuelle da pierre à a manière préhistorique. L'exemple dês pierres pour Tribula à Cantalejo (Segovia - Espagne)]». Bulletin da Société Préhistorique Française Tome 91 (Numéro 3, mai-juin). ISSN 0249-7638.  (página 217 e figura 6)
  18. Inizan, Marie-Louise; Reduron, Michel; Hélène Roche e Tixier, Jacques (1995). Technologie da pierre taillée, CREP-CNRS, Paris. ISBN 2-903516-04-9. (página 32)
Obtido de http://ks312095.kimsufi.com../../../../articles/a/r/t/Artes_Visuais_Cl%C3%A1sicas_b9bf.html"
Your Ad Here