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Quechua (etnia)

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Menina quechua (Departamento do Cusco, Peru)
Mulher quechua com lumes (Departamento do Cusco, Peru)
Mulher kichwa (Puruhá), Equador, região de Alausí (Provinz Chimborazo)
Quechua de Conchucos (Ancash), Peru
Plataformas em ande-los

Quechua (de qhichwa runa, "gente dos vales, da zona temperada") é um termo com o que se autodenominan várias etnias da cordillera dos Andes, principalmente aquelas que falam quechua, e um nome colectivo usado para a totalidade destas etnias. Existem etnias quechuas em Peru , Bolívia, Chile,Argentina e Equador. Em Equador, o norte do Peru e na Argentina usa-se a variante fonética Quichua (kichwa runa - as variantes quichuas norteñas não distinguem entre k e q ) e - além do termo kichwa - algumas etnias do Equador e da selva peruana.

Umas etnias quechuas (algumas adquiriram o quechua dos Incas):

Grupo linguístico: Quechua.

O quechua, ainda que deriva do aymará, é uma língua mais evoluída, porque durante o império Inca foram-se incorporando a ela novos termos e variações fonéticas (arawacas e outras). A língua dos incas afianzó ainda mais sua presença no Altiplano durante o período da colonização espanhola, já que os espanhóis a utilizaram para suas relações com os habitantes andinos, sem diferenciar de sua origem e por tanto, sem ter em conta as diferentes línguas destes povos. É o idioma índio que mais se fala no continente americano, é uma língua cheia de riqueza e muito imaginativa, com palavras que descrevem sensações muito complexas, observações de acontecimentos, etc. Garcilaso da Vega "o inca" (filho de uma inca e de um capitão espanhol) animou aos espanhóis a que aprendessem o quechua, os índios que falam este idioma -disse- possuem um intelecto bem mais claro e apto para o entendimento, e o idioma possui um maior alcance e uma maior variedade de formas de expressão. Ainda que os incas instalavam escolas nos territórios que conquistavam, seu ensino não utilizava mais textos que as sensatas de nodos, telefonemas quipu, que serviam para anotar cifras e lhes permitiam realizar uma interminável série de operações aritméticas.

País/-é: Equador, Peru, Bolívia, Argentina e Chile

Conteúdo

Regiões

Povoados diseminados por ande-los, em seus altos vales e suas amplas mesetas, estendem-se ao longo de 3.000 Km. desde a fronteira colombiana até o Chile central.

Território e características de ocupação: Cuzco a 3.420 m. de altura , em ande-los peruanos. Era a capital inca, e inclusive hoje segue sendo o grande centro dos quechuas.

Chama-se altiplano à planicie (entre 3.750 e 5.200 m.s.n.m.) que se localiza entre as duas cordilleras andinas. Normalmente encontramos uma paisagem aberta, mas com um pouco de sorte, é possível achar restos de bosques ralos e abertos de espécies nativas que fizeram parte importante da paisagem original destas terras. Costuma ser mais húmido ao norte e árido ao sul. As temperaturas médias anuais são inferiores aos 10º C, as geladas ultrapassam os 100 dias ao ano e podem ocorrer em qualquer mês. O balanço hídrico é pelo geral negativo: os céus despejados a maior parte do ano e a altura originam uma alta evaporación. As geladas e a ampla variabilidad térmica diária, determinam uma limitação da variedade de produtos agrícolas e, pelo geral, uma baixa produtividade.

Nos vales temperados encontramos temperaturas médias anuais entre 2º e 18º e correspondem a altitudes entre os 1.200 e 3.600 m.s.n.m. As variações térmicas entre estações são mínimas e as geladas escassas e pouco intensas. À medida que descemos do altiplano aos vales, a actividade agrícola costuma ter uma maior importância respecto da ganadería, ainda que nos vales as cabras e as ovelhas exercem uma forte pressão sobre a terra e podem ter problemas de subsistencia, particularmente ao final da época seca. Observa-se uma débil proporção de matéria orgânica e um agotamiento progressivo das terras.

Os yungas encontram-se entre os 800 e 2.000 m.s.n.m. as temperaturas são sempre superiores a 17º, não há geladas nem grandes variações térmicas. As pendentes e a elevada pluviosidad originam solos lavados com a consequente perda de fertilidad. A intensidade das precipitações e a exuberante vegetación dificultam a actividade agrícola.

Em todo o conjunto se observa que a introdução do ganhado e as práticas agronómicas introduzidas, têm produzido em decorrência de uns quantos anos um rápido deterioro do médio ambiente, que limita ainda mais seu já de por si escassa produtividade.

Cultura

Formas tradicionais de exploração e organização comunitárias

A domesticación e adaptação de plantas na região andina demonstra que o poblador antigo manejava muito bem a diversidade ecológica e suas possibilidades. A cada nicho ecológico oferece uma variedade de produtos agrícolas, como o caso do papa, que junto à oca, ulluku ou papalisa (tubérculos), quina e qañawa (quenopodáceas), e o tarwi (leguminosa) foram a base da alimentação e do desenvolvimento da agricultura na altiplanicie. No caso dos vales, os produtos autóctonos mais conhecidos são: a coca, maíz, ají, camote, maní; frutas diversas como a chirimoya ou o tumbo, e muitos produtos mais.

Hoje em dia os quechuas não cultivam mais que uma parte relativamente pequena da terra que cultivavam seus antepassados, descendentes da civilização inca, que utilizavam a técnica de regadío da seca estepa montanhosa mediante um complicado sistema de canais e terraços. Graças ao manejo destas tecnologias conseguiram resultados espectaculares na domesticación dessas plantas. Os lucros do passado seguem sendo perceptibles; pese a que depois da conquista espanhola se abandonaram zonas cultivadas e se introduziram novas espécies vegetales e animais, a base da alimentação na zona andina a segue oferecendo, em boa medida, a produção e consumo de espécies nativas.

Já no ano 500 a de J.C. os quechuas tinham domesticado o lume. O estiércol de lume utilizava-se como fertilizante e como combustível para as fogueiras. Mas onde melhor se estima o valor do lume é como animal de ónus; capazes de levar pequenos fardos através dos longos e perigosos caminhos da montanha, estes animais não requerem nenhum cuidado especial, eles mesmos se alimentam pelo caminho. No inverno podem-se ver frequentemente grandes fileiras de lumes que descem das altas punas aos vales, carregadas de sal e batatas.

Acha-se que foram os primeiros em cultivar a batata. Mas aparte de seu valor imediato, os quechuas descobriram um sistema para conservar seu conteúdo nutritivo, sistema que se segue praticando na actualidade. Expondo as batatas às geladas nocturnas e depois ao calor do dia e calcando-as mais tarde para extrair-lhes a humidade, os índios produziram o Chuño, uma comida negra e deshidratada muito ligeira, fácil de armazenar e que pode se conservar indefinidamente.

Artesanato

Os primeiros hilados foram com lana de lume. O processo de elaboração foi perfeccionándose até conseguir as teias que têm dado fama aos índios precolombinos. Ademas usaram tecnicas para dar-lhe cor ao tecido misturam-dolo com ervas e fervendo a altas temperaturas, assim conseguiam lhe dar uma cor característico à cada lana.

Mercados

Na comunidade quechua, os intercâmbios fazem-se sempre em um ambiente que não é meramente económico e no que a reciprocidad joga um papel determinante. Os valores do trocado estão fixados pelo costume mais que pelo mercado nacional.

As diferentes formas de circulação do trabalho e dos produtos deste formam um sozinho sistema fundado no parentesco e nas expressões culturais comuns a todo o grupo étnico. No intercâmbio a cada parte crê ser a mais generosa; entre os contratantes compara-se mais o grau de generosidad, e não se calcula tanto o que se transfere efectivamente.

Existe um comércio tradicional que se realiza utilizando como médio de transporte aos lumes. A modalidade básica do comércio destes llameros é o trueque, ainda que às vezes intervém a moeda, mas seu interesse básico é obter bens de uso das zonas agrícolas; preferem mudar os seus por alimentos. Relacionam-se com zonas agrícolas dos vales e de yungas, eles oferecem produtos de ganadería transformados pelo artesanato têxtil; também carne seca, sebo, couros, e em algumas oportunidades lana.

Quando a economia tradicional das comunidades se enfrentou à economia de mercado, começou um processo que está a levar ao desaparecimento dos sistemas tradicionais. Em um primeiro momento, a economia comunal trata de adaptar às condições que se impõem desde afora; enquanto nas comunidades se comercia só um excedente, o efeito modificador do mercado é atenuado pelas normas tradicionais da comunidade. No entanto, estas não podem manter por muito tempo essa modificação e tendem a decaer em frente à potência do dinheiro e às necessidades produtivas e de consumo que gera o mercado.

Semanalmente organiza-se em um dia de mercado onde se realiza a compra-venda de artigos de primeira necessidade para a família. Comummente a mulher vai com uma "arrobita" de sua produção, a qual vende, e imediatamente vai adquirir outros produtos que precisa; não guarda o dinheiro nem o acumula. Só em época de colheita as transacções na feira são maiores, neste caso costuma ir o homem, ainda que há muitas variantes segundo o lugar e o produto.

Educação

A mãe é o agente principal e básico para a socialización do menino. Até o ano e médio de idade leva-o carregado às costas e vai-o cuidando enquanto realiza suas actividades. A que colabora no cuidado dos meninos menores é normalmente a filha maior; esta é uma das funções específicas que deve realizar a partir de quatro anos de idade aproximadamente. O pai dedica pouco tempo à criação dos filhos nesta primeira etapa. Após os cinco anos o menino varão já colabora mais com o pai, se treinando nas diferentes actividades próprias do homem. Em mudança no caso das filhas, estas ficam sempre junto à mãe, que segue influindo em seu comportamento como mulheres.

Com os amigos aprendem mediante o jogo as regras sociais. No pouco tempo que têm de reunião jogam a ser adultos, cultivando, vendendo e comprando produtos, cuidando meninos, etc., de tal maneira que grande parte do jogo é funcional e não de pura recreación.

Outro modo de educar são os contos relacionados com as actividades e avatares da vida quotidiana, que utilizam pássaros e animais para mostrar o caminho para uma vida cómoda e honorable e contêm uma mistura de moralidad e de antigas superstições.

A educação que se recebe desde a escola não contribui à melhor incorporação do menino em sua comunidade senão à iniciación deste na sociedade global dominante. Tanto a temática do curriculum como os meios de aprendizagem (por exemplo o uso forçado do castelhano), e inclusive as atitudes implícitas da maioria de professores, levam em conjunto a desprezar a cultura comunal e rural e a sobrevalorar, em mudança, a vida fora da comunidade.

Moradia

A cada moradia forma um complexo habitacional bastante diversificado que vai crescendo à medida que vai avançando o ciclo vital da família que o ocupa. É pequeno e limitado quando se acaba de formar o casal, depois, durante os períodos de pouca actividade agrícola na estação seca, vão surgindo anualmente novas melhoras. Finalmente, quando os filhos maiores desta família chegam a se casar, começarão um novo ciclo em outra moradia, possivelmente em um terreno desmembrado do património familiar.

A maioria das moradias constroem-se aproveitando os recursos do lugar: adobes, pedras ou tabelas nas paredes, e palha totora, palma, teça ou varro para o tejado. A madeira usa-se mais em vales e yungas, e menos no árido altiplano; pelo mesmo é mais fácil encontrar moradias de dois andares nos vales e yungas, enquanto em partes do altiplano encontram-se ainda tetos de abóbada cupular ou travesaños de varro enrollado (ñiq'i giru).

A moradia adapta-se ao clima. É bem mais pequena, sem ou com poquísimas janelas e portas diminutas no frio altiplano desta mesma maneira as cozinhas são pequenas arquitecturas construídas de varro com diferentes altura e fontes de fogo , abaixo vivem os cuiyes domesticados. Em mudança nos vales e yungas tem maior tamanho e ventilación, com mais janelas, escada externa e às vezes inclusive porches. Em lugares frios é mais provável que todos durmam no mesmo quarto e que ali mesmo se cozinhe para manter mais quente o ambiente.

Em quase todas as partes o complexo familiar distingue uma parte habitacional para viver, dormir e outras rotinas domésticas e outra mais directamente reservada a depósitos de toda a índole. Na parte habitacional guarda-se a roupa e os principais artigos de consumo; há também diversos signos religiosos; as paredes interiores estão muitas vezes enfeitadas com jornais, almanaques, pósters, etc. O mobiliário é escasso: algumas camas ou melhor tarimas de adobe compartilhadas por várias pessoas, quiçá uma mesa e às vezes alguma cadeira ou taburete. A roupa costuma pendurar-se nos travesaños do teto ou em pregos.

Não longe da casa estão os diversos corrales dos animais, salvo os coelhos andinos (quwi), que costumam se instalar embaixo da tarima-cama.

Vida Familiar

A comunidade forma um grupo endógamo (isto é, casam-se entre comunitários); no entanto, na actualidade esta endogamia deve-se mais às inevitáveis limitações físicas das relações entre indivíduos que a regulações propriamente culturais. Ademais com a crescente fragmentação de comunidades a cada vez resulta mais difícil que as novas comunidades seguam sendo endógamas. Por todo isso, desde séculos atrás o número de uniões intercomunitarias tem ido aumentando lentamente. O mais corrente é que seja a mulher quem proceda de outra comunidade, mas o contrário é também aceitado.

Há uma maior vinculação entre os parentes, sobretudo os mais próximos. A rede de parentesco funciona como um seguro para a família em diversas necessidades, por outra parte, é um dos factores aglutinantes das diversas famílias da comunidade ou ao menos de uma parte importante dela. A cada indivíduo vai aumentando seu prestígio na comunidade não só desempenhando certos cargos e serviços como pasante e como autoridade, senão também se rodeando de uma estela de parentes, yernos-nueras e ahijados. Rege a tendência de não permitir uniões entre parentes tanto maternos como paternos até após quatro gerações.

O compadrazgo é um costume que consiste em que uma determinada família estabelece um vínculo de quase parentesco com outra, a propósito de sua participação específica em um rito importante. O casal escolhido passa a ser padrino ou madrina de um ahijado (personagem central do rito) e os pais deste passam a ser compadres com os padrinos. O compadrazgo é horizontal quando une ritualmente a pessoas do mesmo nível social e vertical quando se realiza entre indivíduos e famílias de diferentes níveis sociais.

Existe uma hierarquia de obrigações estabelecida com base ao parentesco na prestação de ajudas: os parentes imediatos têm mais obrigação de ajudar-se que os longínquos e os não parentes, na mesma comunidade; entre parentes, os de nível social inferior têm mais obrigação de ajudar a seus superiores, e a cada um tem sua forma específica de ajuda; os parentes da geração superior têm mais obrigação que os da mesma geração; os familiares do esposo têm mais obrigação que os da esposa, mais facilmente procedente de outra parte; reciprocamente, é mais forte a obrigação dos esposos com os familiares do varão.

Situação da Mulher no interior da Comunidade: Educar à mulher muitos anos é considerado uma despesa inútil de tempo e de dinheiro, pois em sua vida adulta ela mal precisará praticar o ali aprendido. Ademais os pais consideram que, uma vez entrada na pubertad, suas filhas têm mais perigos que benefícios indo à escola. Por todo isso os pais preferem que após as primeiras letras se vão incorporando às actividades domésticas. Por outra parte, dentro da economia doméstica a mão de obra dos filhos segue sendo importante para uma série de rotinas (por exemplo o cuidado dos animais). Já que a escola agora recorta este contribua, a família procura recuperar sequer às filhas maiores para essas tarefas indispensáveis.

Crenças religiosas

Os seres humanos vivem em "este mundo" (kay pacha) e estão permanentemente expostos às forças de dois mundos em parte contrapostos, em parte complementares. Estes são o janaq pacha (mundo de acima/longínquo) e o ukhu pacha (mundo de abaixo/adentro). Ambos mundos estão cheios de seres vivos e poderosos que influem sobre todos nós, exigindo nossa colaboração e, a mudança, nos brindando seus bens e poderes; ou - caso de não os ter em conta- nos enviando suas ameaças para que cumpramos com eles. A ideia central é que se deve manter uma situação de equilíbrio e reciprocidad com todos eles e, ao mesmo tempo, garantir este equilíbrio entre os dois mundos. Por outra parte a cada um deles tem sua própria especificidad: o de acima está mais unido à ordem estabelecida; o de abaixo, menos previsível, tem que ver mais com o poder gerador de nova vida.

Todos os habitantes do mundo de abaixo têm como característica comum sua força e sua fome, com o que se originam grandes bens e grandes catástrofes, a fortuna e a miséria dos homens. Daí que os atender bem, lhes dar de comer com oferendas generosas e os tratar com deferencia seja importante para a conservação da saúde ou para a fortuna na produção. Não se perde do todo uma connotación ética na maneira em que devemos relacionar com esses seres: se não cumprimos nossas obrigações básicas com os demais, é mais provável que cheguem calamidades. Mas o mais central é que lhes atendamos em sua fome para que assim, agradecidos, usem seu poder de maneira beneficiosa para nós. O celebrante ordinário para esta relação com o mundo de abaixo é o yatiri, em especial o que se chama ch'amakani "o dono da escuridão".

Durante a ch'alla (libación), quando convidam a tomar a todas as divinidades, e enquanto vão derramando gota a gota o engolo pelo solo, os povos quechuas percorrem nome por nome todos os lugares de seu território e os inserem em um espaço mais vasto e cheio de forças, mediante a recitación quase interminável da cada lugar, a cada recoveco onde se reconhece um poder especial. Não é uma simples enumeración do espaço, senão que vão chamando a estes lugares para que desempenhem a cada um sua função própria.

Entre os seres do mundo de abaixo ocupam também um lugar muito importante os mortos, os achachila ou machula (avôs ou antepassados) são os protectores da a comunidade e da região e alguns deles têm poderes especiais sobre as nuvens, os ventos, a chuva, a gelada ou o granizo, fenómenos vinculados à agricultura que se associam a determinados cerros do contorno próximo ou longínquo; as awicha (avós(, em mudança, estão mais associadas às grutas e avariadas e com as doenças, ainda que o espírito protector da cada lar recebe também este nome.

A pachamama é uma das divinidades andinas mais citadas, inclusive fosse do campo, mas também uma das mais difíceis de definir. Seu nome costuma traduzir-se como "Mãe Terra" mas em realidade sua personalidade é bem mais complexa. Associa-lha sempre com a fertilidad agrícola. Desde esta perspectiva tem relação com os outros espíritos multiplicadores dos animais (illa) e das plantas (ispalla) e inclusive do mineral (mama). Também lha considera um espírito tutelar e se diz que a cada comunidade, a cada sayaña e até a cada chacra e a cada casa concreta tem sua pachamama protectora; mas ao mesmo tempo a Pachamama é também universal e está em qualquer parte. Por todo o dito até aqui se compreende que muitos considerem que ela é o principal espírito deste mundo.

Entre as muitas expressões religiosas e cosmológicas dentro da vida quotidiana do homem andino sobresale a festa. Por seu número, pela riqueza de seus significados simbólicos, por seu poder de convocação e pelo clímax que pode gerar, a festa é um momento fundamental na vida dos indivíduos e das comunidades. Ao longo do ciclo vital e do ciclo anual as festas, por definição eventos sociais, vão marcando e dando sentido aos acontecimentos mais importantes na vida do indivíduo e a família e às rotinas da vida comunal. As celebrações directamente dirigidas ao mundo de acima ajustam-se mais à ordem anual do calendário e a momentos previsíveis do ciclo agrícola; são mais públicas e sociais mas são também as que mais sublinham a subordinación à classe dominante. As directamente dirigidas ao mundo de abaixo, ainda que unidas também às vezes ao calendário (por exemplo, nas terças-feiras, o Carnaval ou princípios de agosto), dependem mais de eventos extraordinários imprevisíveis, como uma doença, uma seca, um raio ou os acidentes em uma construção ou uma mina; são celebrações mais intimas, às vezes quase clandestinas, ainda que podem atingir também o nível comunal.

A abundância de comida e, sobretudo de bebida, joga um papel importante nestas celebrações. Sublinha antes de mais nada o carácter ao mesmo tempo social e ritual da celebração festiva, que parte de convites e intercâmbios de generosidad em um contexto global de reciprocidad. Mas ademais a festa é uma celebração que põe em actividade todos os resortes sensoriales: comida e bebida até a plenitude da embriaguez, coca e cigarro, música e canto, dança e disfarces, vai-as, incienso e cheiro a fumaça, o sentido de multidão, o estrondo de cohetillos e dinamitazos... tudo contribui a acrescentar o ambiente de euforia e até de êxtase. Desta maneira, a festa constitui o lugar e o momento por excelencia de comunión social e encontro sagrado com esses seres de outros mundos, que determinam o destino e o sentido deste mundo, onde moram os humanos.

Saúde e Medicina Tradicional

Para o quechua a origem de muitas doenças é misterioso, por tanto para diagnosticá-las e curá-las deverá recorrer simultaneamente a explicações e remédios de tipo cósmico ancestral -incluindo uma rica tradição no manejo da farmacopea andina-, aos conceitos médicos que trouxe a Colónia, e aos da ciência moderna. O camponês que diminui riscos agrícolas semeando muitas espécies em muitos lugares e tempos diferentes, actua com esta mesma racionalidad ante a doença.

A concepção autóctona não distingue entre doenças-curas de tipo mágico e outras de tipo natural, é bem mais unitária, como um sistema de relações entre o corpo, seus várias almas, a sociedade e o cosmos cheio de seres tão vivos e reais como nós, como partes inseparáveis que compõem um todo harmônico. A medicina andina assume uma ideologia globalizadora de corpo e espírito, pessoa, sociedade e cosmos; possui curas naturais, cuidados pessoais e remédios rituales que facilitam a resposta adequada do doente andino.

O especialista para o diagnóstico e a cura de todo o tipo de desordem físico-psíquico-cósmico (incluídas as doenças) é o yatiri (o que sabe), sua especialização pode incluir processos de aprendizagem mas em última instância é de ordem sobrenatural, por ter sido tocado pelo raio ou ter recebido poderes superiores já desde o nascimento. É ao mesmo tempo médico, adivinho e sacerdote. Domina os recursos rituales, ainda que conhece também os naturais. Dentro destes o jampiri ou qulliri (o que cura) está especializado em doenças e tem um amplo conhecimento das plantas e outros recursos naturais medicinales.

Formas de organização política e religiosa

As comunidades tradicionais quechuas recebem o nome de ayllu, palavra que não somente alude ao território de enclave do povoado, senão que também se refere ao grupo emparentado por relações de sangue. A comunidade em si mesma não é uma unidade de produção, é um território compartilhado por um número de famílias que produz de maneira individual; no entanto existem mecanismos institucionalizados que regulam e facilitam a constituição de grupos de cooperação e que norman as regras de comportamento entre seus integrantes, as obrigações que a cada um tem com os outros e a distribuição de tarefas. Entre estes mecanismos podem-se distinguir os que prescrevem trabalhos comunales colectivos (phayna, jayma, umaraga, chuqu e outras mais) e aqueles que asseguram a reciprocidad entre famílias (yanapa, ayni, mink'a, waki e outras mais).

Quando um indivíduo se casa e herda terras comunales chega à categoria de pessoa, propriamente dita (runa em quechua) e passa quase automaticamente a ser comunitário com todos seus direitos e obrigações. Em todos os casos o critério para ser membro pleno da comunidade é ter terras.

Entre as obrigações de todo comunitário estão: prestar seus serviços nos trabalhos comunales; contribuir fundos regularmente à comunidade; assistir à assembleia; passar os cargos públicos -políticos e religiosos- que a comunidade tem estabelecidos, etc. Se o chefe da família está imposibilitado de assistir, pode fazê-lo outro da família. Neste sentido o membro e/ou o titular dos cargos não é tanto o indivíduo senão a unidade familiar à que representa o chefe de família. Seus direitos são: usufruir uma ou mais parcelas da área agrícola com sua respectiva dotação de água (se há); ter acesso aos demais recursos comunales (pastizales, madeira, material de construção, etc.); ser nomeado autoridade; intervir na tomada de decisões dos assuntos comunales através da assembleia; participar nas festas; ser atendido pelas autoridades locais em suas demandas e emergências; etc.

A assembleia comunal é a máxima instância de autoridade e eixo da vida comunitária. Sua potestade estende-se desde o domínio económico dos recursos comunales até todas as manifestações sociais. É o centro do poder da comunidade. É convocada e presidida pela principal autoridade comunal, nomeada periodicamente em uma assembleia.

Normalmente as decisões passam pelo tamiz de uma ou várias assembleias comunitárias em que participam activamente os homens chefes de família; em forma menos visível, passam ademais pelo tamiz da cada lar onde marido e mulher têm consultas sobre o assunto dantes de chegar a uma decisão firme na assembleia. A mulher só assiste à assembleia se é viúva ou se o marido está ausente, a não ser que se trate de um tema que lhe incumba muito directamente. Estas assembleias são um foro de expressão e processo colectivo de decisões que surpreende ao forastero por seu grau de participação e por seu sentido de respeito democrático. Os acordos se tomadas após longas discussões entre os participantes e estes se retiram a suas casas tendo conciliado interesses. Procura-se o consenso, mais que uma decisão por só maioria.

Veja-se também

Enlaces externos

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