A religião é um sistema da actividade humana composto por crenças e práticas a respeito do considerado como divino ou sagrado, tanto pessoais como colectivas, de tipo existencial, moral e espiritual. Fala-se de religiões» para fazer referência a formas específicas de manifestação do fenómeno religioso, compartilhadas pelos diferentes grupos humanos. Há religiões que estão organizadas de formas mais ou menos rígidas, enquanto outras carecem de estrutura formal e estão integradas nas tradições culturais da sociedade ou etnia na que se praticam. O termo faz referência tanto às crenças e práticas pessoais como a ritos e ensinos colectivos.
Definir que é religião (do latín religare ou re-legere) tem sido e é motivo de controvérsia entre os especialistas. Segundo o sociólogo G. Lenski, é «um sistema compartilhado de crenças e práticas sócias, que se articulam em torno da natureza das forças que configuram o destino dos seres humanos».[1] Por sua vez, o antropólogo Clifford Geertz propõe uma definição alternativa: «A religião é um sistema de símbolos que faz para estabelecer vigorosos, penetrantes e duradouros estados anímicos e motivações nos homens, formulando concepções de uma ordem geral de existência e revestindo estas concepções com uma aureola de efectividad tal que os estados anímicos e motivações pareçam de um realismo único».[2] Devido ao amplo espectro de usos da palavra, resulta especialmente complexo oferecer uma definição exhaustiva da religião ou do fenómeno religioso. No entanto, pode-se afirmar que, como facto antropológico, engloba entre outros os seguintes elementos: tradições, culturas ancestrales, instituições, escrituras, história, mitología, fé e credos, experiências místicas, ritos, liturgias, orações...
Ainda que a antropologia tem recolhido manifestações religiosas desde o primeiro momento da existência do homem e estas têm influído decisivamente na configuração das diversas culturas e sociedades, ainda se discute se é um fenómeno essencial do homem ou pode ser reduzido a outras experiências ou aspectos humanos mais fundamentais. O ser humano tem feito uso das religiões para encontrar sentido a sua existência e para dar trascendencia e explicação ao mundo, o universo e todo o imaginable.
A palavra «religião» em ocasiões usa-se como sinónimo de religião organizada» ou «organização religiosa», isto é, instituições que respaldam o exercício de certas religiões, frequentemente baixo a forma de entidades legais.
Diversas ciências humanas interessaram-se pelo fenómeno religioso desde seus respectivos pontos de vista como por exemplo a antropologia, a sociologia, a psicologia e a história das religiões. Por outro lado, disciplinas como a fenomenología da religião estudam especificamente suas manifestações tentando dar com uma definição exhaustiva do fenómeno e mostrar sua relação com a índole própria do ser humano.
Filosoficamente, a religião pode ser um estilo de vida, um caminho para a plenitude, uma plenitude que inicia desde o mesmo instante que se cobra consciência da mesma.
Em um sentido mais amplo, também se utiliza para referir a uma obrigação de consciência que impele ao cumprimento de um dever.[3]
A etimología do termo religião tem sido debatida durante séculos devido às duas interpretações que se sustentaram que além de oferecer uma proposta a respeito da origem da palavra, sublinham alguma atitude religiosa.
Dantes de ser usada com um sentido relacionado com as divinidades, o termo «religião» ou «religioso» era utilizado para expressar um temor ou um escrúpulo supersticioso. Assim consta em textos de Julio César (De Belo Gallico VI 36) e Tito Livio (História de Roma desde sua fundação IV 30).
A primeira interpretação relacionada com o culto é a do orador latino Cicerón que em sua obra De natura deorum oferece a seguinte etimología: «Quem interessam-se em todas as coisas relacionadas com o culto, as retomam atenciosamente e como que as releen, são chamados «religiosos» a partir da relectura».[4] Esta etimología —filológicamente mais correcta— sublinha a fidelidade aos deveres que a pessoa religiosa contrai com a divinidad e por tanto está mais relacionada com a justiça.[5]
A outra etimología proposta por Lactancio faz derivar a palavra «religião» do verbo latino religare: «Obrigados por um vínculo de piedade a Deus estamos “religados”, de onde o mesmo termo “religião” tem sua origem, não —como foi proposto por Cicerón— a partir de “releyendo”».[6] Este segundo sentido realça a relação de dependência que «religa» ao homem com as potências superiores das quais ele se pode chegar a sentir dependente e que lhe leva a tributarles actos de culto.[7]
Em seu ensaio Do império romano, José Ortega e Gasset escreve «Quando o homem crê em algo, quando algo lhe é incuestionable realidade, se faz religioso disso. Religio não vem, como costuma se dizer, de religare , de estar atado o homem a Deus. Como tantas vezes, é o adjectivo quem nos conserva a significação original do sustantivo, e religiosus queria dizer “escrupuloso”; por tanto, o que não se comporta às presas, senão cuidadosamente. O contrário de religião é negligencia, descuido, desentenderse, abandonar-se. Em frente a relego está nec-lego; religente (religiosus) [8] opõe-se a negligente .» [9]
A definição do amplo espectro de significados que reflete o conceito religião assim que implica encontrar um elemento próprio, distintivo e único, é uma exigência própria das culturas ocidentais,[10] já que são estas as que desde uma postura mais teísta distinguem entre divinidad e o resto do mundo. Especialmente, desde a Ilustração elaboraram-se muitas e variadas definições tentando recolher os aspectos próprios do fenómeno religioso. Aqui mencionar-se-ão os mais significativos. É óbvio que as definições que partem de um Ser Supremo ou o dão por suposto se têm de recusar pois não se aplicam a muitas religiões da Ásia oriental ou aos povos primitivos.
Uma possibilidade é tentar uma definição desde o ponto de vista das pessoas que praticam a religião. Assim encontramos propostas como as de Friedrich Schleiermacher: «sentimento de dependência absoluta» que depois distingue este sentimento dos tipos de dependência relativa. William James sublinha mais bem «o carácter entusiasta da adesão» dos membros das religiões. Desde este ponto de vista podem-se considerar elementos como os sentimentos, os factores experienciales, emotivos ou intuitivos, mas sempre desde uma perspectiva mais bem individualista.
Com o estudo que as diversas ciências humanas (sociologia e antropologia cultural especialmente) têm realizado da religião, se conseguiu formular outro conjunto de definições que consideram este fenómeno em seu âmbito social e cultural. A conhecida definição do sociólogo francês Durkheim entra neste grupo: «Uma religião é um sistema solidario de crenças e de práticas relativas às coisas sagradas. [...] Toda a sociedade possui todo o necessário para suscitar em seus membros a sensação do divino, simplesmente através do poder que ela exerce sobre eles».[11]
No entanto, com a chegada da fenomenología da religião, tentou-se ir para além das formas que procuravam o núcleo próprio do fenómeno na sociedade ou nos aspectos individuais. E nesse âmbito identificou-se como próprio da religião o facto da presença ou consciência do sagrado. Rudolf Otto em sua obra, O santo, publicada em 1917, indica como esencia da consciência religiosa o temor reverencial ante aquilo que, sendo desconhecido (mysterium), ao mesmo tempo sobrecoge (tremendum) e atrai quase irresistivelmente (fascinans).[12]
No entanto, estes elementos que Otto refere como próprios da experiência religiosa parecem estar ausentes nas religiões asiáticas. Em Mircea Eliade dá-se uma ampliação da noção de «sagrado» que perfecciona a definição de Otto. Fala de espaços, coisas e tempos sagrados na medida em que estes se relacionam com simbolismos e rituales próprios das religiões. Assim a religião é a configuração ou organização da existência a partir de dimensões profundas da experiência humana que relacionam ao homem com algo que se lhe apresenta como último e trascendente. Tais dimensões variam de acordo com as circunstâncias e culturas.
A partir do século XVIII, com a irrupción do humanismo e o movimento dos ilustrados na Europa, que estender-se-á com rapidez a outras partes do mundo, se tenta separar a doutrina do Estado da doutrina religiosa. Actualmente, estas ideias de separação dos poderes político e religioso ainda não tem concluído. Em boa parte do planeta mal tem começado, e nos países ocidentais, ainda que observam a laicidad do estado, ainda a religião pode actuar com uma enorme influência em suas legislações. Por exemplo no caso dos Estados Unidos[13] ou o de Espanha[14]
Nos países asiáticos, a separação entre Estado e religião está mais ou menos implícita de verdadeiro laicismo. China, Japão, Vietname e outros países do sudeste asiático implicam verdadeiro laicismo estatal em sua própria história ao ser países em onde coexisten diferentes religiões. No caso de Tailândia ou Sri-Lanka, com maiorias budistas, em mais de 90%, mantêm-se debates sociais para enfrentar o laicismo do Estado e diversas mudanças legais.[15]
Nos países com maiorias muçulmanas há diferentes aproximações à laicidad do Estado. Países como Turquia ou Síria são mais laicos, enquanto outros como Irão ou Arábia Saudita se definem como islâmicos. O mundo islâmico é variado e complexo, e existem movimentos tanto secularizadores como prorreligiosos.[16]
Israel é um estado laico, conquanto projecta-se como religioso. Índia é um caso parecido, também é um país laico, ainda que sua organização social e legislação, continuam sendo muito influídas pela religião. Nestes casos estão influídos, em boa medida, pelo componente étnico de suas religiões maioritárias
Há diferentes classificações das religiões, por exemplo:
Outra divisão que se utiliza consiste em falar de religiões reveladas ou não reveladas.
Outra classificação das religiões é por origem ou família. As religiões agrupam-se em troncos de onde derivam, por exemplo:
Usualmente aceita-se que as principais famílias de religiões são as seguintes:
Algumas religiões, de recente criação, têm um estatus complexo já que não são reconhecidas como religiões de maneira universal. Uma seita ou Novo Movimento Religioso, segundo a antropologia e a sociologia, é, desde o ponto de vista sociológico, um grupo de pessoas com afinidades comuns: culturais, religiosas, políticas, esotéricas, etc. Habitualmente é um termo peyorativo, em frente ao que tem surgido o eufemismo «novos movimentos religiosos».
Ainda que o vocablo «seita» esteja relacionado com grupos que possuam uma mesma afinidad, com o passo dos anos tem adquirido uma connotación relacionada com grupos de carácter religioso, aos que se qualifica como «seita destructiva». Estes grupos podem ter um historial judicial em um ou vários países, por manipulação mental ou por ser grupos de caracter destructivo. Em alguns países, algumas destas não estão reconhecidas ou autorizadas. Com frequência uma seita está centrada no culto pessoal ao profeta ou líder, do grupo. A palavra seita concebeu-se derivada, principalmente, do latín seqüi: ‘seguir’.
A maioria das diversas religiões gozam de boa saúde em número de seguidores e seu número tem aumentado em todo mundo. Nos países com anteriores regimes comunistas a religião tem-se revitalizado a uma velocidade surpreendente como mostram os casos da Rússia e Chinesa.
Não existem até a data umas estatísticas fiáveis do número de seguidores das religiões do mundo. A cada religião costuma contribuir seus próprios cálculos estimativos, que com frequência costumam somar seguidores sem critérios demasiado cientistas, tais como geografia, ritos temporões de iniciación (baptismos, etc) ou o pertence familiar. Na seguinte estatística mostra-se o cálculo estimativo contribuído pelas diferentes religiões. A falta de dados actualizados, aquelas que não têm feito públicos seus cálculos mostram aqui o reunido no lugar adherents.com,[23] dependente de uma organização cristã evangélica estadounidense.
Lista das principais religiões actualmente praticadas no mundo, por ordem alfabética.
O estudo da religião costuma implicar numerosos campos de investigação, entre eles:
Ao longo da História, a prática da religião organizou-se de diferentes maneiras em sociedade. O homem primitivo depositava no chamán ou curandero o conhecimento e explicações sobre assuntos religiosos. Esta figura ainda existe em povos indígenas da América, Africa e Oceania.
As primeiras civilizações agricolas, com o desenvolvimento das cidades, verão surgir a figura do sacerdote, que se erige como mediador entre a sociedade e as divinidades. Esta figura cobrará uma importância enorme no Egipto, Grécia, Roma e América precolombina. Com frequência com uma dupla função de médico e guia espiritual, supõe uma evolução da antigo guia-chamán das tribos primitivas.
O monacato surge em religiões como o cristianismo, o budismo ou o taoísmo. O monacato ali onde está presente, personifica um esforço mais intenso em um caminho religioso, e suporá o esforço por reunir ou proteger aos eremitas dispersos.
Em religiões como a hebréia ou o islão, são as pessoas com uma notável capacidade de interpretação das escrituras sagradas as que ostentan o papel de guia de uma comunidade de seguidores. Assim, a figura do íman ou do rabino estão presentes nestas religiões.
No meio hinduista, a casta dos brahmanes é a encarregada de aclarar os assuntos religiosos.
O conhecimento religioso, segundo os seguidores das religiões, pode ser obtido de líderes religiosos, textos sagrados e/ou a própria revelação pessoal. Alguns pontos de vista das religiões observam este conhecimento como ilimitado em alcance e capaz de resolver qualquer pergunta, outras lhe outorgam um papel mais restringido ou acompanhando ao conhecimento obtido mediante a observação dos fenómenos físicos. Algumas religiões outorgam ao conhecimento religioso a característica de ser infalible. Muitos textos religiosos contam com muitos séculos de antigüedad: o Poema de Gilgamesh, o Livro dos Mortos, os quatro Vedás, os Puranás, o Ramaiana, o Majábarata, o Bhagavad Guitá, a Biblia, o Corán. Estes textos não só têm sido de interesse dentro das próprias religiões senão também especialmente para a filosofia na disciplina da Filosofia da religião. Esta estuda[31] as diferentes concepções teístas ou não teístas, a cosmología das religiões bem como seus argumentos de desenho, o misticismo, o problema do mau, a epistemología e assim um amplo espectro de assuntos que são tratados desde o aparelho intelectual filosófico.
No âmbito hispano existem escritores, filósofos e teólogos de renome que se ocuparam da filosofia da religião. Entre eles Ciro Alegria, Leonardo Boff, Jorge Luis Borges, Lluis Busquets i Grabulosa, Pedro Laín Entralgo, Benjamín Forcano, David Flusser, José Ortega e Gasset, Octavio Paz, Xabier Picaza, Margarita Pinto, Miguel de Unamuno, Miguel Sarmiento.
Nas religiões existem com frequência grandes desenvolvimentos filosóficos cuja missão é aclarar ou conciliar a doutrina religiosa com a razão humana. Nas religiões teístas conhece-se a este desenvolvimento como Teología. Na Ásia oriental, muitas vezes, ainda que os desenvolvimentos filosóficos são grandes e variados, não existem como disciplina diferenciada dentro da própria religião, filosofia e religião esta entrelazada. Em outras religiões não existe um aparelho filosófico, em especial nas religiões tribales e chamánicas. Os desenvolvimentos filosóficos das religiões.recolhem os diferentes aspectos da doutrina religiosa ou a verdade ou deidad que as sustenta, e que são historicamente a explicação aos diferentes pontos de vista dentro da cada religião.
A maioria de religiões costumam ter uma parte de conhecimento exotérico e outra esotérico.
Em quase todas as grandes religiões ambas facetas existem. As religiões teístas costumam aludir ao acesso ao conhecimento esotérico como um dom ou bênção da deidad para a pessoa. No cristianismo por exemplo, o conceito de Graça considera-se um dom de Deus que entre outras coisas permite à pessoa penetrar em significados mais profundos. Similares ideias existem na religião muçulmana e judia.
Em outras religiões, o conhecimento esotérico costuma afirmar-se como um mecanismo de transmissão oral, em ocasiões à margem das escrituras sagradas ou daquelas que são públicas. O budismo tem algumas variantes, especialmente aquelas provenientes do budismo tibetano, que são fortemente esotéricas. O taoísmo tem em sua faceta contemplativa alguns complicados métodos psicofísicos com um forte componente esotérico e de iniciación.
Normalmente, nas próprias religiões coexisten pontos de vista diferentes que tendem a recusar ou afianzar o lado esotérico.
Em ocasiões é importante distinguir entre «religião» e «postura religiosa». Sendo a religião um sistema de crenças, preceitos, práticas e rituales, uma postura religiosa refere-se à forma como um indivíduo se identifica em frente a uma ou várias religiões. Por outro lado, existe a postura de quem negam o valor ou a utilidade das religiões, negam-nas ou as adecúan a suas próprias propostas pessoais ou de grupo. Também se observam diferentes posturas religiosas nos enfoques de aplicação à sociedade em temas como o laicismo ou o diálogo interreligioso.
Na Antigüedad grecorromana, os filósofos já tentavam explicar a origem das crenças. Lucrecio em De natura rerum, emite a hipótese de que os homens inventaram aos deuses para explicar as maravilhas e os mistérios da natureza: para explicar o que não controlavam. Critias pensava que a religião (e o temor aos deuses) se tinha inventado para impor à cada um o respeito à sociedade: disciplina, moral, sentido o bem e do mau. Os antropólogos, psicólogos e sociólogos mantêm para a maioria estas duas explicações.
Até o século XX, a perspectiva dominante sobre a origem da experiência religiosa situa-a no sentimento de espanto ou medo ante o desconhecido ou aquilo que escapa a uma explicação racional. Este ponto de vista fez-se famoso pelos trabalhos de Rudolf Otto.[33] Mais tarde, Mircea Eliade propõe o termo de hierofanía como percepción do sagrado, em onde o impulso ou sentimento religioso está caracterizado por um sentimento de insuficiencia ante a explicação da realidade que oferecem os sentidos e a razão humanas.[34] A ideia de hierofanía que propõe Eliade assenta uma oposição entre o sagrado e o profano que desloca a anterior entre razão e medo irracional. Este enfoque será o germen de um novo tratamento nos estudos sobre a religião, e possibilitará sua expansão nas principais universidades da Europa e EE. UU.[35]
Nas religiões mais antigas, alguns membros de sociedades de caçadores-recolectores ou agricolas isolavam-se, em um estado de privação sensorial para favorecer o aparecimento de visões e sonhos místicos.[36] Com frequência diversos métodos ou produtos alucinógenos eram empregues, como activadores destes processos. Estas práticas ainda existem nas diversas formas do chamanismo. Do mesmo modo, inciensos e plantas especiais como o opio e o cornezuelo do centeno, com propriedades alucinógenas, se desenvolveram nos oráculos da Grécia, Egipto e Roma. Esta utilização de substâncias externas podemos encontrar na história na origem de muitas das grandes religiões; como por exemplo ocorre com os primeiros desenvolvimentos visionarios dos povos indoeuropeos faz mais de 10.000 anos,[37] e que posteriormente assentar-se-iam no vale do Indo faz mais de 4000 anos.
Em sua evolução histórica, algumas religiões ir-se-ão sofisticando para observar noções de pureza de corpo e espírito que irão desterrando a alteração da psique mediante substâncias externas. Substitui-las-ão os rituales, orações, e técnicas contemplativa que converter-se-ão nos facilitadores da experiência religiosa. Esta evolução, unida ao triunfo ou colapso das diferentes civilizações que as acolhem, e à pressão do médio social no que se desenvuelven, explicarão em boa medida o futuro das diferentes religiões.
A atitude dos primeiros sociólogos ante a religião foi diversa à dos filósofos da Ilustração pois não consideravam este fenómeno como um momento passageiro cheio de superstições na história da humanidade, senão como um aspecto quase imprescindible da organização social. Assim, Feuerbach em sua obra A esencia do cristianismo trata a religião cristã desde o ponto de vista sociológico e afirma que se trata de uma alienación de capacidades propriamente humanas. Ocupa-se além de alguns aspectos da religião como o dogma, a liturgia e a simbologia. Por sua vez, Alexis de Tocqueville, na democracia na América, realiza uma análise do catolicismo e do protestantismo dentro das sociedades democráticas e desde um ponto de vista sociológico. A partir destes primeiros passos da sociologia, outros autores de grande renomeie como Max Weber, Émile Durkheim, Ferdinand Tönnies ou Ernst Troeltsch dedicaram atentos estudos ao fenómeno religioso dentro da sociedade.
No indivíduo, a religião existe como uma tendência que combina o racional e o irracional. À hora de articular-se, as religiões desenvolvem doutrinas que tentam dar respostas globais ao indivíduo. Por este motivo, a maioria das grandes doutrinas religiosas têm dado respostas a perguntas relacionadas com a criação do universo, o propósito da vida, a natureza humana, a definição de bem e mau, a moral, a escatología. E do mesmo modo elaboram diferentes códigos éticos, rituales e simbólicos. Não obstante, toda a religião tenta oferecer uma posição para viver e entender a existência do ser humano de uma forma integral, incluindo a dimensão espiritual, pelo que existem elementos comuns em todas elas.
Nas sociedades, ao longo da história também têm sido frequentes as chamadas guerras de religião e as teocracias; isto é sociedades provistas de um governo cuja legitimidade descansa em um sistema de ideias religiosas. Nelas se atribuía um valor divino ao soberano da civilização, Mesopotamia, Egipto, Roma, Tíbet e o império Inca são significativos. Nestes casos a lei é ao mesmo tempo autoridade jurídica e religiosa. Um exemplo contemporâneo que sobrevive é o Reino Unido, em onde a rainha é governadora suprema» da Igreja anglicana os territórios da Inglaterra e Gales, em onde aprova a nomeação de bispos dentro de ditos territórios.
No século XX, Talcott Parsons deixa constancia da relação entre a religião e a sociedade, incluída a «cibernética»: gera valores, modifica as normas, influi nos papéis sociais, e dá uma guia para os sistemas da sociedade, da personalidade e do comportamento. Seu sistema é considerado como uma nova aplicação de teorias evolucionistas à religião. Daí que um de seus alunos, Robert Bellah tenha publicado Evolução religiosa.
A religião tem sido para algumas sociedades um símbolo de sua identidade. Do mesmo modo, a religião aparece como peça fundamental na classificação moral das sociedades e actuando de maneira influente em sua ordem legislativa. Esta relação pode ser vista como beneficiosa ou perjudicial segundo como tem evoluído essa acomodación.[38]
Normalmente a antropologia cultural tem dirigido sua atenção ao estudo das manifestações religiosas nas sociedades que não conhecem a escritura se fixando sobretudo em suas crenças e práticas. Esta disciplina parte de diferentes fundamentos ao enfrentar a religião. Por um lado, a teoria dos «factos sociais» de Durkheim ; por outro, os «tipos ideais» de Max Weber mas também as investigações seja de freudianos seja do marxismo a respeito das expressões da religiosidad. Os aspectos mais representativos do estudo antropológico são os que têm por objecto dilucidar as relações da religião com os demais aspectos da vida cultural: as leis, a política, a economia, a ética. No entanto, não se conseguiu um consenso em relação com o método: o problema resulta complexo já que um método explicativo implica um verdadeiro grau de objetividad, e contesta-se a possibilidade de que um estudioso não tenha preconceptos em relação com a religião, e um método interpretativo permite diversas aproximações e respostas. De qualquer forma, o primeiro passo consiste em agrupar e listar os vários usos e práticas religiosas para depois procurar semelhanças ou possíveis origens comuns. No ano 1980, James Peacock e Thomas Kirsch publicam um livro que tenta uma via intermediária para explicar desde a antropologia o desenvolvimento de papéis diferentes nas religiões.[39]
Após esta publicação, os estudos foram-se centrando em tratar de determinar a origem da religião. Assim, já desde 1965 Evans-Pritchard publicam o livro Teorias a respeito da religião primitiva, que é uma sorte de recolección das interpretações e teorias que se deram a respeito da origem da religião nas culturas humanas desde uma perspectiva evolucionista. As variantes propostas são muitas: a magia, o totemismo, o politeísmo, o fetichismo, o animismo, etc.: no entanto, Evans-Pritchard sublinha a dificuldade de demonstrar que algumas destas manifestações —que apresentar-se-iam como origem da religião ou a «primeira» religião— seja aislable e independente de outras manifestações cronologicamente contemporâneas. As críticas e disputas deram-se especialmente ante os esquemas darwinistas que sugeriam o passo do mito à magia e desta à religião. Este tema da origem da religião e o problema das diferenças entre as religiões é o objectivo temático da antropologia cultural no século XXI já que tem abandonado seu interesse inicial por elaborar uma espécie de catálogo de todas as religiões e suas manifestações e práticas.
Surge junto com o estudo das religiões comparadas e com o psicoanálisis. Seu método vai desde a medida com instrumentos próprios das ciências exactas -como por exemplo os estudos de laboratório próprios do século XIX- até a introspección.
Um dos pioneiros da psicologia da religião foi Wilhelm Wundt que considerava quatro etapas da história da consciência. O elemento unificador delas é o combate da pessoa por afirmar no mundo físico. Trata-se das seguintes: o ritual primitivo, o totemismo, os mitos sobre os heróis e deuses e o humanismo. Por outro lado, Oswald Külpe introduziu outros métodos para estudar a religião tais como as entrevistas e os cuestionarios de dados autobiográficos. Assim as duas tendências da psicologia do século XIX —o estudo introspectivo por um lado e a análise objectiva por outro— se entrelazan também ao aplicar à religião.
Em EE. UU. a psicologia nasceu como disciplina independente. Stanley Hall criou uma equipa de investigação que introduziu métodos empíricos para o estudo da religião. Em 1881 deu cursos sobre a relação entre a pubertad e a conversão religiosa e no ano 1904 fundou uma revista chamada The American Journal of Religious Psychology and Education. Alguns de seus alunos como James Leuba se dedicaram de por vida ao estudo da psicologia da religião.
Em 1899, outro de seus alunos, E.D. Starbuck publicou o primeiro tratado de psicologia da religião -The Psychology of Religion- que tratava as coincidências na descrição da pubertad, da dementia precox e a conversão religiosa. Foi uma obra controvertida.
No ano 1902, William James publicou The Varieties of Religious Experience onde centra seu estudo na unicidad das experiências morais e religiosas a partir de métodos de análise introspectivo. Nesse mesmo período, Pierre Janet e Sigmund Freud iniciaram seus estudos a partir do subconsciente.
Freud considerava todos os ritos e crenças religiosas como projecções inconscientes dos conflitos internos à família que afirmam a posição do eu na sociedade: assim no âmbito próprio das crenças religiosas e partindo delas, tais conflitos poderiam se resolver. A religião teria nascido do sentimento de culpa pelo assassinato da figura do pai, culpabilidad que seria liberta através do sacrifício religioso. Ainda que reconhecia vantagens na religião, procurou promover um maior realismo e resignação dado que a religião conteria muitas fixações infantis.[40]
Um dos alunos de Freud, Carl Gustav Jung se ocupou também do tema religioso. Considerava a religião como uma manifestação de um nível mais profundo da consciência ou ao menos mais profundo que o âmbito sexual sustentado por seu maestro. A partir de seus estudos sobre a Alquimia, chegou à conclusão que a religião podia ser também uma forma de unir consciente com inconsciente em um «eu individuado» e confirmar assim sua teoria dos arquetipos.
Seguindo esses passos, outro discípulo de Freud, Eric Erikson, desenvolveu mais a teoria evolutiva da consciência que partiria da crença religiosa para se unificar.
Ainda que as aproximações que dependem de Freud e de Jung sejam as mais influentes também se deram na Europa algumas outras interpretações, como por exemplo a que tentou fundar uma psicologia da religião a partir dos instrumentos da teoria do conhecimento de Kant (se vejam por exemplo, os trabalhos de Richard Müller-Freienfels.
Os modernos desenvolvimentos afirmam à psicologia da religião como um âmbito demasiado recente de estudo, em onde boa parte do que se considera experiência religiosa não pode ser admitido baixo critérios empíricos ao mesmo tempo que se contrastam efeitos beneficiosos e duradouros para o indivíduo, pelo que é uma disciplina de crescente interesse e actividade.[41]
Nas principais religiões encontramos o que se costumam chamar experiências místicas ou trascendentes como uma base fundacional da experiência religiosa. A mística refere-se a conseguir de maneira experiencial a identidade, comunión ou consciência plena da última realidade que apresentam as religiões; já seja uma verdade, um estado de consciência, ou uma ou várias deidades. As experiências místicas não se atem ao razonamiento lógico e o entendimento intelectual. A um seguidor religioso que esteja a desenvolver esta faceta de sua religião se lhe chama místico. Na mística por tanto prima a introspección com respeito à extraversión, e nela se estabelece uma relação de carácter mais directo e pessoal entre o indivíduo e sua religião. Historicamente em algumas religiões determinadas, a mística é a primeira fonte de autoridade nas diversas interpretações. Nas principais religiões costumam-se distinguir escolas, tradições ou movimentos místicos.
Ainda que em princípio a maioria de religiões são doctrinalmente facilitadoras destas experiências místicas, também com frequência as organizações religiosas não as toleraram, as considerando um contrapoder à hora de interpretar os significados religiosos em sociedade. No cristianismo, a Inquisición católica ou algumas reformas protestantes perseguiram diferentes variantes do misticismo as classificando como herejías. No islão, o sufismo tem experimentado dificuldades depois da grande Reforma. O clero do budismo tibetano ou japonês arrinconó doctrinalmente alguns enfoques contemplativos que não eram de seu agrado devido a suas consequências sociais.
Entre os intelectuais ocidentais, o misticismo tem tido defensores e detractores dentro e fora das religiões. A partir do século XIX, a observação da religião proveniente do materialismo histórico considerá-la-á de maneira crítica. Émile Durkheim atribui-a a uma 'efervescencia colectiva' no contexto social no que tais experiências se produzem. William James encabeçará uma interpretação psicológica que enmarcará à experiência mística das religiões como parte de algo bem mais amplo e não exclusivo delas. A partir do século XX, com autores como Mircea Eliade se abre uma nova etapa mais sosegada e científica para o estudo das religiões e para a consideração da mística. Actualmente, interpretações como as de Csikszentmihalyi falam de teorias de um «estado de fluxo» que pode aparecer na mente humana realizando diversas actividades que exijam concentração, provocando determinado estado de felicidade. A exploração científica mais moderna dos âmbitos de contemplación, êxtases e meditación comum à mística das diferentes religiões arrojam conclusões tão espectaculares como abertas à especulação, sendo este um terreno ainda tão interessante como inexplorado para a ciência.[42]
Em muitos casos, nas religiões da Ásia oriental, a mística e a especulação filosófica não têm sofrido tantas dificuldades históricas, estando integradas na prática religiosa de seus seguidores. Na actualidade os teólogos do cristianismo estão divididos, uns apostam por dar mais énfasis à mística,[43] enquanto outros abogan por separar a mística da ciência, diferenciando a experiência da fé dos factos históricos.[44] No islão, o sufismo ganha adeptos com rapidez tanto na Europa como nos países islâmicos.[45]
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