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Sociologia da arte

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A sociologia da arte é uma disciplina das ciências sociais que estuda a arte desde uma proposta metodológico baseado na sociologia. Seu objectivo é estudar a arte como produto da sociedade humana, analisando os diversos componentes sociais que coincidem na génesis e difusão da obra artística. A sociologia da arte é uma ciência multidiciplinar, recorrendo para suas análises a diversas disciplinas como a cultura, a política, a economia, a antropologia, a linguística, a filosofia, e demais ciências sociais que influam no devir da sociedade. Entre os diversos objectos de estudo da sociologia da arte encontram-se vários factores que intervêm desde um ponto de vista social na criação artística, desde aspectos mais genéricos como a situação social do artista ou a estrutura sociocultural do público, até mais específicos como o mecenazgo, o mercantilismo e comercialização da arte, as galerías de arte, a crítica de arte, o coleccionismo, a museografía, as instituições e fundações artísticas, etc.[1] Também cabe remarcar no século XX o aparecimento de novos factores como o avanço na difusão dos meios de comunicação, a cultura de massas, a categorización da moda, a incorporação de novas tecnologias ou a abertura de conceitos na criação material da obra de arte (arte conceptual, arte de acção).

A sociologia da arte deve suas primeiras propostas ao interesse de diversos historiadores pela análise do meio social da arte desde mediados do século XIX, sobretudo depois da irrupción do positivismo como método de análise científico da cultura, e a criação da sociologia como ciência autónoma por Auguste Comte. No entanto, a sociologia da arte desenvolveu-se como disciplina particular durante o século XX, com sua própria metodología e seus objectos de estudo determinados. Principalmente, o ponto de partida desta disciplina costuma-se situar imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, com o aparecimento de diversas obras decisivas no desenvolvimento desta corrente disciplinar: Arte e revolução industrial, de Francis Klingender (1947); A pintura florentina e seu ambiente social, de Friedrich Antal (1948); e História social da literatura e a arte, de Arnold Hauser (1951). Em seus inícios, a sociologia da arte esteve estreitamente vinculada ao marxismo –como os próprios Hauser e Antal, ou Nikos Hadjinikolaou, autor de História da arte e luta de classes (1973)–, conquanto depois se desmarcó desta tendência para adquirir autonomia própria como ciência. Outros autores destacados desta disciplina são Pierre Francastel, Herbert Read, Francis Haskell, Michael Baxandall, Peter Burke, Giulio Carlo Argan, etc.[2]

Conteúdo

Definição

A sociologia da arte é uma disciplina relativamente nova, desenvolvida principalmente desde a Segunda Guerra Mundial. Por isso, ainda não tem uns fundamentos do todo estabelecidos, sendo abordada desde diferentes propostas teóricas e metodológicos pelos diversos estudiosos que tratam a matéria. Ademais, a sociologia da arte está estreitamente relacionada com outras disciplinas que estudam a arte, como a estética ou a própria história da arte, ciência esta última que sempre tem considerado em maior ou menor medida o componente social como parte indisoluble da criação artística. A história social da arte tem posto especial énfasis nas circunstâncias materiais que originam a obra artística, analisando desde esse ponto de vista tanto o génesis como a evolução do facto artístico. Assim mesmo, a estética tem sido estudada por diversos autores desde o ponto de vista sociológico assim que seu objecto de estudo –o conceito de beleza, os julgamentos estéticos ou a função da arte– pode igualmente analisar desde o componente social que influi neles. Assim, a estética sociológica é aquela que estuda o conhecimento sensível a partir das condições históricas e sociais que lhes são próprias na cada momento.[3]

O estudo social da arte deve-se principalmente às contribuições realizadas pela sociologia geral, como ciência que estuda a dimensão social dos factos humanos e os múltiplos factores que intervêm neles: política, economia, cultura, etc. Assim, a sociologia da arte é a que, tomando esta base metodológica, a aplica ao estudo da arte. O principal interesse desta disciplina é explicar o facto artístico em base aos factores que o geram, contextualizando obra e artista dentro da sociedade e evidenciando as relações intrínsecas entre ambos. Cabe remarcar que esta relação é recíproca, e que a sociologia da arte estuda tanto a influência da sociedade na arte como a que possa contribuir este último ao desenvolvimento social.

A relação entre arte e sociedade é uma comunicação fluída, dinâmica, que tem ido variando ao longo do tempo. Por isso, a sociologia da arte deve ter especial cuidado com a relativización da análise histórica, pois uma mesma circunstância social pode ter diferente interpretação segundo o lugar e o momento histórico. Pelo geral, a incidencia do factor social na arte é de tipo estrutural, já que não se trata de factores isolados senão de um conjunto de relações que intervêm de forma organizada na criação artística. A sociologia da arte deve adaptar-se pois ao contexto específico que rodeia qualquer obra artística, pelo que não pode elaborar leis gerais nem extrapolar conclusões de um facto artístico a outro. Cabe remarcar igualmente que não é uma ciência exacta nem pretende contribuir explicações exhaustivas nem soluções definitivas, já que na arte incurren muitos mais factores de índole mais subjetiva e dificilmente interpretable. Como disse Hauser: “todo a arte está condicionado socialmente, mas não tudo na arte é definible socialmente”.[4]

Antecedentes

O Ángelus, de Jean-François Millet.

Conquanto diversos autores propuseram-se ao longo da História a função social da arte –Platón por exemplo questionou-lho na República–, é principalmente desde o século XIX que começa a se analisar a relação arte-sociedade: as mudanças sociais produzidos pela Revolução francesa e a Revolução industrial, tanto a nível político como económico, levaram aos filósofos a replantearse a relação do homem com a sociedade. Assim surgiu a sociologia da arte, ciência fundamentada nos princípios metodológicos do positivismo que considera ao artista como parte indisoluble da sociedade, sendo a obra artística um fiel reflito dos condicionamientos sociais que envolvem ao artista.[5] Em seu génesis, a sociologia da arte opôs-se ao romantismo, o movimento cultural preponderante na Europa a princípios do século XIX, conquanto tomaram deste o conceito da arte como reflito do tempo –o que chamavam espírito do tempo”–, que os positivistas chamaram contexto histórico”.[6]

Em seu génesis, a sociologia da arte opôs-se ao romantismo, o movimento cultural preponderante na Europa a princípios do século XIX, conquanto tomaram deste o conceito da arte como reflito do tempo –o que chamavam espírito do tempo”–, que os positivistas chamaram contexto histórico”.[6] Igualmente, enfrentaram-se ao esteticismo, movimento que recusava o utilitarismo imperante na época e a fealdad e materialismo da era industrial. Esta tendência outorgava à arte e à beleza uma autonomia própria, sintetizada na fórmula de Théophile Gautier “a arte pela arte” (L'art pour l'art), chegando inclusive a falar-se de religião estética”.[7] Esta postura pretendia isolar ao artista da sociedade, procurando de forma autónoma sua própria inspiração e deixando-se levar unicamente por uma busca individual da beleza, que se afasta de qualquer componente moral, convertendo no fim último do artista, que chega a viver sua própria vida como uma obra de arte –como se pode apreciar na figura do dandy–.[8] Um dos teóricos do movimento foi Walter Pater, que influiu no denominado decadentismo inglês, estabelecendo em suas obras que o artista deve viver a vida intensamente, seguindo como ideal à beleza. Posteriormente, autores como James McNeill Whistler, Oscar Wilde, Algernon Charles Swinburne e Stéphane Mallarmé desenvolveram esta tendência até um elevado grau de refinamiento baseado unicamente na sensibilidade do artista.

O primeiro teórico que estudou a arte desde um ponto de vista sociológico foi Hippolyte-Adolphe Taine: em sua Filosofia da arte (1865-1869), aplicou à arte um determinismo baseado na raça, o contexto e a época (race, milieu, moment). Para Taine, a arte opera como qualquer outra disciplina científica, em base a parámetros racionais e empíricos: a arte “não é mais que uma espécie de botánica aplicada não às plantas, senão às obras do homem”. Considera as obras de arte “produtos dos que há que determinar suas características e procurar suas cauces”, aceitando qualquer forma artística como “manifestações do espírito humano”. Jakob Burckhardt, na cultura do Renacimiento na Itália (1860), esboçou desde a perspectiva do historicismo uma análise da arte estudada desde qualquer fenómeno que rodeia ao mundo da arte: desde a política e a moral, até a vida doméstica e a situação da mulher. Igualmente, Jean Marie Guyau, na arte desde o ponto de vista sociológico (1888), propôs uma visão evolucionista da arte, afirmando que a arte está na vida, e que evolui como esta; e, ao igual que a vida do ser humano está organizada socialmente, a arte deve ser reflito da sociedade.[9]

A sociologia da arte teve no século XIX uma grande vinculação com o realismo pictórico e o naturalismo literário, bem como com movimentos políticos de esquerdas, especialmente o socialismo utópico: autores como Henri de Saint-Simon, Charles Fourier e Pierre Joseph Proudhon defenderam a função social da arte, que contribui ao desenvolvimento da sociedade, aunando beleza e utilidade em um conjunto harmônico.[10] Por outro lado, no Reino Unido, a obra de teóricos como John Ruskin e William Morris contribuiu uma visão funcionalista da arte: nas pedras de Veneza (1851-1856) Ruskin denunciou a vulgarización da arte levada a cabo pela sociedade industrial, bem como a degradação da classe operária, defendendo a função social da arte. Assim mesmo, na arte do povo (1879) pediu mudanças radicais na economia e a sociedade, reclamando uma arte “feita pelo povo e para o povo”. Por sua vez, Morris –fundador do movimento Arts & Crafts– defendeu uma arte funcional, prático, que satisfaça necessidades materiais e não só espirituais. Nos fins da arte (1887) postuló um conceito de arte utilitario mas afastado de sistemas de produção excessivamente tecnificados, próximo de um conceito do socialismo próximo ao corporativismo medieval.[11]

Por outro lado, a função da arte foi questionada pelo escritor russo Lev Tolstoi: em Que é a arte? (1898) propôs-se a justificativa social da arte, argumentando que sendo a arte uma forma de comunicação só pode ser válido se as emoções que transmite podem ser compartilhadas por todos os homens. Para Tolstoi, a única justificativa válida é a contribuição da arte à fraternidad humana: uma obra de arte só pode ter valor social quando transmite valores de fraternidad, isto é, emoções que impulsionem à unificação dos povos.[12]

A sociologia da arte no século XX

Fonte, de Marcel Duchamp. No século XX supõe uma perda do conceito de beleza clássica para conseguir um maior efeito no diálogo artista-espectador.

A arte contemporânea tem apresentado uma grande atomización de estilos, refletindo ideias culturais e filosóficas que se foram gestando na mudança de século XIX-XX, em muitos casos contradictorias: a superação das ideias racionalistas da Ilustração e o passo a conceitos mais subjetivos e individuais, partindo do movimento romântico e cristalizando na obra de autores como Kierkegaard e Nietzsche, supõem uma ruptura com a tradição e uma rejeição da beleza clássica. O conceito de realidade foi questionado pelas novas teorias científicas: a subjetividad do tempo (Bergson), a relatividad de Einstein , a mecânica cuántica, a teoria do psicoanálisis de Freud , etc. Por outro lado, as novas tecnologias fazem que a arte mude de função, já que a fotografia e o cinema já se encarregam de plasmar a realidade. Os movimentos de vanguardia pretenderam integrar a arte na sociedade, procurando uma maior interrelación artista-espectador, já que é este último o que interpreta a obra, podendo descobrir significados que o artista nem conhecia. É o que Umberto Eco denominou obra aberta”: uma obra que expressa com maior liberdade a concepção do artista, mas que ao mesmo tempo estabelece um diálogo com o espectador, ao ter um número ilimitado de interpretações. Às vezes a arte está mais na visão que lhe outorga o espectador que não em seu próprio processo produtivo, como nos ready-made de Marcel Duchamp.[13]

A arte contemporânea está intimamente unido à sociedade, à evolução dos conceitos sociais, como o mecanicismo e a desvalorização do tempo e a beleza. É uma arte que destaca por sua instantaneidad, precisa pouco tempo de percepción, com oscilações contínuas do gosto, mudando simultaneamente: bem como a arte clássica sustentava-se sobre uma metafísica de ideias inmutables, o actual, de raiz kantiana, encontra gosto na consciência social de prazer (cultura de massas). Em uma sociedade mais materialista, mais consumista, a arte dirige-se aos sentidos, não ao intelecto. Cobra especial relevância o conceito de moda, uma combinação entre a rapidez das comunicações e o aspecto consumista da civilização actual. As últimas tendências artísticas perdem inclusive o interesse pelo objecto artístico: a arte tradicional era uma arte de objecto, o actual de conceito. Há uma revalorización da arte activa, da acção, da manifestação espontánea, efémera, da arte não comercial (arte conceptual, happening, environment).[14]

Marxismo

A teoria do materialismo dialéctico formulada no século XIX por Marx e Engels teve derivações no campo da teoria da arte no século XX, sobretudo na Rússia. Da obra de Marx desprendia-se que a arte é uma “superestructura” cultural determinada pelas condições sociais e económicas do ser humano. Marx considerava o fenómeno artístico como um dos factores integradores da dinâmica social, e puntualizó a alienación da arte em relação aos grupos sociais. Para Marx, a arte é um componente da ideologia: a cada ideologia corresponde-se com uma visão do mundo que trata de justificar a ordem social estabelecido. Assim, a ideologia artística equivale a uma maneira de representar que tende a justificar a realidade social resultante das relações económicas de produção. Para os marxistas, a arte é reflito da realidade social, conquanto o próprio Marx não via uma correspondência directa entre uma sociedade determinada e a arte que produz. Georgi Plejánov, em Arte e vida social (1912), formulou uma teoria materialista que recusa a “arte pela arte”, bem como a individualidad do artista alheio à sociedade que o envolve. Após a Revolução Soviética a arte, enquadrado no realismo socialista, foi estandarizado em uns parámetros definidos principalmente por Maksim Gorki e Andréi Zhdánov: o artista tem de ser catalizador das forças sociais, fomentando o processo revolucionário marxista.[15]

Para György Lukács a arte de vanguardia é reflito do “irracionalismo burgués”. Influído por Wilhelm Dilthey e sua distinção entre “ciências da natureza” e “ciências do espírito”, aplicou esta diferença para estabelecer uma ontología da arte: se a ciência trata “com os factos e com suas conexões”, a arte “oferece-nos almas e destinos”. Para Lukács, a arte está ontológicamente unido à verdade, a uma verdade mítica perdurável na profundidade do homem durante milénios. Em História e consciência de classe (1925) aplicou a dialéctica marxista à arte, concebendo este como uma estrutura profunda e recorrente inherente ao devir histórico ao longo do tempo. A arte é assim um fenómeno mimético que recolhe os aspectos mais essenciais e universais dos acontecimentos históricos. Para Lukács, “a arte verdadeira representa sempre a totalidade da vida humana”.[16]

Walter Benjamin analisou a arte de vanguardia, que para ele é “a culminación da dialéctica da modernidad”, o final da tentativa totalizador da arte como expressão do mundo circundante. Tentou dilucidar o papel da arte na sociedade moderna, realizando uma análise semiótico em que a arte se explica através de signos que o homem tenta decifrar sem um resultado aparentemente satisfatório. Para ele, a modernidad implica uma fractura semiótica que submerge ao homem na confusão, impeliéndole a sua vez a uma busca da verdade. Ainda que aparentemente a arte tem uma função reconciliadora entre o homem e o mundo, a própria natureza artificial deste faz que nos conduza a falsas premisas para valer. Na obra de arte na época da reproductibilidad técnica (1936) analisou a forma como as novas técnicas de reprodução industrial da arte podem fazer variar o conceito deste, ao perder seu carácter de objecto único e, por tanto, seu halo de reverência mítica; isto abre novas vias de conceber a arte –inexploradas ainda para Benjamin– mas que suporão uma relação mais livre e aberta com a obra de arte.[17]

Theodor W. Enfeito, como Benjamin pertencente à Escola de Frankfurt, defendeu a arte de vanguardia como reacção à excessiva tecnificación da sociedade moderna. Contrariamente ao conceito estrutural de Lukács, Enfeito pôs énfasis na forma artística, que para ele é onde se manifesta o conteúdo ideológico subjacente na arte, conquanto de uma forma distorsionada, como em um espelho rompido. Em sua Teoria estética (1970) afirmou que a arte é reflito das tendências culturais da sociedade, mas sem chegar a ser fiel reflito desta, já que a arte representa o inexistente, o irreal; ou, em todo o caso, representa o que existe mas como possibilidade de ser outra coisa, de trascender. A arte é a “negación da coisa”, que através desta negación a trasciende, mostra o que não há nela de forma primigenia. É aparência, mentira, apresentando o inexistente como existente, prometendo que o impossível é possível.[18]

Uma nova disciplina

O Museu Guggenheim Bilbao. No século XX tem posto de manifesto uma maior interrelación entre a arte e a sociedade, o que se fez patente na proliferación de novos museus.

A sociologia da arte como disciplina metodológica aplicada de forma sistémica ao estudo da arte nasce após a Segunda Guerra Mundial, devida sobretudo à obra de Friedrich Antal e Arnold Hauser, provenientes ambos do formalismo da Escola de Viena.[19] Antal sentou na pintura florentina e seu ambiente social (1948) as bases deste novo método de estudo da arte, relacionando arte e sociedade como uma estrutura unificada regida por princípios causales. Para este autor, a arte tem de analisar-se desde todos os factores que intervêm em seu génesis, sejam sociais, políticos, económicos, culturais, etc. Mesmo assim, não renega da análise formal da obra de arte, nem do contribua que pode proporcionar a sensibilidade ao estudo do facto artístico.[20]

A obra de Arnold Hauser teve mais sucesso e difusão, e supôs uma maior sistematización e categorización desta disciplina, pelo que muitos lhe consideram o pai da moderna sociologia da arte. Discípulo de Heinrich Wölfflin e Max Dvořák, seu adscripción ao marxismo será evidente em toda sua obra, pelo que recebeu numerosas críticas. No entanto, a obra de Hauser, uma vez eludida sua ideologia, é fonte indispensável para o estudo sociológico da arte. Em História social da literatura e a arte (1951), Hauser tentou explicar a história da arte desde o materialismo histórico, pelo que, conquanto adolece de excessiva esquematización ideológica, esta primeira tentativa de análise social da arte sentará as bases da sociologia da arte. Em Teorias da arte (inicialmente Filosofia da história da arte, 1958), sentou de forma mais elaborada as bases do estudo sociológico da arte, delimitando seus objectivos e analisando a arte por estratos culturais. Por último, em Sociologia da arte (1974), realizou a contribuição mais completa a esta disciplina, analisando de forma rigorosa os diferentes componentes teóricos que repercutem nesta ciência.[21]

Mais adiante, Pierre Francastel supôs uma tentativa de abandonar o determinismo ao que se tinha encaminhado a sociologia da arte, tentando estabelecer umas bases mais amplas de análise, sustentadas sobretudo no componente cultural da arte e da sociedade. Defende o carácter específico da linguagem artística, optando pela obra de arte como ponto de partida, em vez do contexto social. Sua análise é multidiciplinar, contribuindo à sociologia da arte recursos provenientes do estructuralismo e a semiología. Em Pintura e sociedade (1951), analisou a história da pintura desde a evolução do pensamento, conquanto não aprofunda demasiado no componente social, pelo que se criticou a Francastel como formalista que aplica o método sociológico sem sacar conclusões dele.[22]

Igualmente, Lucien Goldmann abre a sociologia da arte a outras disciplinas como a antropologia, a linguística ou a psicologia, propondo um “estructuralismo genético” no que a linguagem é reflito de uma determinada “visão do mundo” presente a toda estrutura social. Assim mesmo, Pierre Bourdieu enfatizou a origem sociocultural da arte vinculando ao comportamento humano, analisando pautas de comportamento presentes em diferentes sociedades, desde as mais primitivas até as mais avançadas.[23]

Progressivamente a sociologia da arte foi ampliando seu horizonte metodológico, surgindo nos anos 1970 várias tendências que analisam a arte desde diversos factores: Jean Gimpel, na contramão a arte e os artistas (1968), fez um repaso histórico à arte produzida desde Giotto desde o ponto de vista da condição social do artista e da inserção da obra de arte no contexto económico que a produz, incidindo especialmente em factores como o mecenazgo e o coleccionismo. Do mesmo modo, Raymonde Moulin analisou no mercado da produção artística na França (1967) os factores incidentes em um campo específico como é o mercado da arte, sentando as bases de grande número de obras que incidirão no tema. De forma similar, Michael Baxandall sintetizou a sociologia da arte com a estética, a linguística e a semiótica, criando um método que denominou explicação histórica dos quadros”: a obra de arte deve interpretar-se, afirma, como uma “verbalización” da imagem proveniente de diversos estereotipos inherentes a estruturas de pensamento produzidas na cada momento histórico. Svetlana Alpers elaborou uma teoria baseada na representação das linguagens culturais e sua estrutura gnoseológica, relacionando diversos campos de manifestação cultural: arte, ciência, religião, técnica, poesia, junto a demais aspectos sociais e semióticos da cultura.[24]

Peter Burke, pese a não ser historiador da arte, incluiu a arte em seus estudos de história social, que aglutina a análise antropológico e cultural, analisando no Renacimiento italiano (1972) a posição social do artista, bem como o mecenazgo e a função da arte. Por outro lado, Rudolf Wittkower plasmó em Nascidos baixo o signo de Saturno (1963) um dos melhores tratados sobre a evolução da condição social do artista, bem como seu carácter e conduta social. Do mesmo modo, Padrões e pintores (1963) de Francis Haskell é referência obrigada sobre o patronazgo artístico.[25]

Um dos mais recentes terrenos de estudo da sociologia da arte é o da cultura de massas, vinculada à abertura actual do conceito da arte e à atomización de estilos e de materiais presente à arte contemporânea, com utilização de novos suportes e novas tecnologias: a fotografia, o cinema, o video, o cartaz, a banda desenhada, o desenho, a publicidade, o graffiti, a moda, a utilização do corpo (body-art) ou a natureza (land-art) como suporte artístico, ou a performance e o happening, supõem um novo leque de possibilidades para a arte contemporânea, e um novo objecto de estudo para a sociologia da arte. Em Era-a neobarroca (1987), Omar Calabrese pretende aglutinar todas estas manifestações em uma “estética social” baseada no gosto comum presente à expressão e comunicação destas novas tipologías, independentemente de sua função e qualidade.[26]

Críticas

A sociologia da arte tem recebido diversas críticas provenientes de variados sectores, desde a própria História da arte ou a mesma sociologia, até a filosofia ou a antropologia. Em especial, as críticas têm incidido especialmente na escola marxista: Hauser foi criticado por sua tentativa de formular uma teoria universal que integrasse o estudo da arte no contexto de uma análise holístico sobre o ser humano, sem se deter a analisar a obra de arte em si mesma –sua estrutura, significado ou relevância artística–. Sua obra História social da literatura e a arte foi duramente criticada por Ernst Gombrich, que assinalou as deficiências de seu enfoque teórico e metodológico, bem como a superficialidad e falta de rigor histórico de muitas de suas formulaciones. Critica-se a Hauser a rigidez de um determinismo que só encontra na arte um produto das condições sócio-económicas. De igual forma, Nikos Hadjinikolaou foi tachado de mecanicista, por negar o talento criador dos artistas, sem lugar para a improvisación ou a inovação, ou qualquer circunstância espontánea e improvisada no devir do facto artístico. Antal, sem ser tão dogmático, foi igualmente criticado, ainda que pelo geral considera-se seu estudo como uma valiosa contribuição à História da arte.[27]

O estructuralismo de Francastel tem sido igualmente criticado: segundo este autor, qualquer sociedade deve expressar-se por médio de duas diferentes vias –capacidades técnicas e necessidades simbólicas–, sendo o pensamento artístico uma forma de pensamento visual, e a cada momento histórico um contraste entre pensamentos visuais antigos e novos. Sendo assim, se criticou que não valoriza a figura do artista, e que se questiona a relação entre arte e técnica, ao mesmo tempo que não consegue formular umas conclusões claras e definitivas das propostas que confecciona. De igual forma, assinalou-se seu estilo abstrato e impreciso, a ambigüedad e falta de concreción de suas expressões, sua tendência à generalização e sua escassez de referências bibliográficas. Hadjinikolaou disse dele que era "um formalista que tinha conseguido convencer à gente de que fazia sociologia da arte".[28]

Veja-se também

Referências

  1. Focinheira (1999), vol. II, p. 332.
  2. Focinheira (2000), vol. I, p. 147.
  3. Furió (1995), p. 13-15.
  4. Furió (1995), p. 15-24.
  5. Beardsley-Hospers (1990), p. 71.
  6. a b Givone (2001), p. 101-102.
  7. Eco (2004), p. 329.
  8. Eco (2004), p. 333.
  9. Givone (2001), p. 102-104.
  10. Furió (1995), p. 31.
  11. Givone (2001), p. 112-113.
  12. Beardsley-Hospers (1990), p. 73.
  13. Eco (2004), p. 406.
  14. Eco (2004), p. 417.
  15. Beardsley-Hospers (1990), p. 79-80.
  16. Focinheira (1999), vol. II, p. 185-188.
  17. Givone (2001), p. 122-124.
  18. Givone (2001), p. 125-127.
  19. Focinheira (1999), vol. II, p. 333.
  20. Focinheira (1999), vol. II, p. 333-334.
  21. Furió (1995), p. 49-50.
  22. Furió (1995), p. 50-51.
  23. Focinheira (1999), vol. II, p. 336-339.
  24. Focinheira (1999), vol. II, p. 339-342.
  25. Furió (1995), p. 56-57.
  26. Focinheira (1999), vol. II, p. 343-345.
  27. «Sociologia da arte e história social da arte». Consultado o 29-11-2009.
  28. Furió (1995), p. 51.

Bibliografía

Enlaces externos

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