Visita Encydia-Wikilingue.com

Sociologia do desvio

sociologia do desvio - Wikilingue - Encydia

Arquivo:Non-smoking.JPG
O não_cumprimento das normas é um dos principais âmbitos de estudo da sociologia do desvio.

A sociologia do desvio é o ramo da sociologia que se encarrega do estudo do consenso sobre as normas sociais, os actos e comportamentos que se desviam destas e o sistema de controle social construído para evitar tais desvios.[1]

O desvio é um tema fundamental em sociologia e desde o nascimento desta disciplina tem sido uma de suas principais preocupações.[1] Neste sentido as principais correntes sociológicas têm dado sua interpretação sobre o como e o porqué do não_cumprimento das normas sociais.

O desvio tem sido analisada desde diferentes disciplinas, como a filosofia, o direito, a biologia ou a medicina. Ademais, nos últimos anos desenvolveram-se estudos em criminología , disciplina com a que a sociologia do desvio esta intimamente unida. Conquanto a primeira centra-se mais na relação entre a vítima, o victimario e as leis, a sociologia do desvio analisa também as condutas que - sem estar prescritas como delitos- são catalogadas como anormales e recebem algum tipo de sanção social.[2]

Conteúdo

Conceito de desvio desde uma perspectiva sociológica

Em sociologia considera-se um desvio qualquer acto ou comportamento, ainda que seja simplesmente verbal, de uma pessoa ou um grupo que viole as normas de uma colectividad, e consequentemente implique algum tipo de sanção.[3] No entanto, esta não é uma característica intrínseca de certos actos, senão que depende da resposta e a definição que os membros de uma colectividad lhe atribuam. Em palavras de um dos fundadores da sociologia:

Não o reprovámos porque é um crime, senão que é um crime porque o reprovámos.
Émile Durkheim, 1893[4]

É por isso que um acto só pode ser julgado como desviado em relação a:

Esta aproximação relativista ao desvio, que caracteriza à Sociologia, já tinha sido antecipada por alguns pensadores. Cabe destacar ao filósofo francês Pascal que já no século XVII declarava:

Não há nada justo ou injusto que não muda de qualidade com o mudar do clima, três graus de latitud subvierten toda a legislação[...] Em poucos anos as leis fundamentais mudam, o roubo, o incesto, o assassinato de pais e filhos, todo tem encontrado um lugar entre as acções virtuosas.
Blaise Pascal, 1893[6]

Já no século XX os estudos de Antropologia comparada têm posto de manifesto que realmente existem muito poucas formas de desvio que possam se considerar universais. No entanto, e contradizendo a Pascal, existe um Consenso científico sobre que o incesto entre pai e filha tem resultado tabu em todas sociedades durante toda a história, chegando Claude Lévi-Strauss a considerar sua proibição como a origem da vida cultural e do resto das instituições sociais.[7]

As normas

Artigo principal: Norma social
Diferentes tipos de normas e tipo de desvio que implica seu não_cumprimento.

O conceito de desvio está intimamente unido ao conceito de norma, já que é da norma do que um comportamento se desvia. Por isso se afirma que onde não existe norma não pode existir desvio.[1]

As normas sociais definem-se como proposições que prescrevem a indivíduos ou grupos o comportamento adequado em determinadas situações, ou bem as acções a evitar.[8] Podem ser classificadas segundo diversos critérios, mas o mais habitual dentro da sociologia do desvio, é agrupá-las dentro de sistemas normativos segundo o grau da sanção que se aplica ao infractor. Com este sistema obtemos uma classificação dos comportamentos desviados segundo sua gravidade:

No diagrama pode observar-se como os diferentes sistemas normativos se agrupam uns dentro de outros. Isto se faz para refletir como, por exemplo, não todas as normas sociais estão no código penal, mas todas as normas do código penal são normas sociais. Em realidade este modelo é uma simplificação de como se interrelacionan os sistemas normativos, já que existem multidão de excepções: é habitual que alguma das normas sociais existentes não seja aceite pela moral individual de algumas pessoas, o que dá lugar ao aparecimento das subculturas; também sucede com frequência que algumas normas do sistema jurídico ou penal não cheguem a se integrar dentro das normas sociais. Isto sucede, sobretudo, nos sistemas não democráticos, ainda que também ocorre nas democracias. Um exemplo actual é a contradição de muitas legislações com a aceitação social das descargas por internet . Quando existem fortes contradições entre os sistemas normativos pode se produzir uma crise que os modifique. Por este motivo autores como Durkheim consideram o desvio como um motor da mudança social.[4]

Nos últimos anos alguns autores têm identificado a existência de situações nas que se qualifica de desviado, não a quem incumpre a norma senão a quem a cumpre com demasiada fita-cola. Glenna Huls ejemplifica este fenómeno com a concepção social do empollón ou de quem paga religiosamente seus impostos na sociedade norte-americana.[5]

Teorias presociológicas do desvio

O estudo do desvio é anterior ao aparecimento da sociologia. Já na Antigüedad clássica se desenvolveram as primeiras teorias sobre a delincuencia e o castigo, filósofos como Sócrates, Pitágoras, Platón ou Aristóteles escreveram sobre isso, atribuindo os delitos à herança ou a deficiências físicas ou mentais. Na Idade Média realizaram-se alguns estudos médicos para pesquisar crimes isolados e Tomás de Aquino em sua obra Escolástica, tentou sentar as bases de uma Filosofia do Direito. Nos séculos XVIII e XIX ,com a chegada da ilustração e o positivismo, apareceram teorias e enfoques cuja influência tem chegado até nossos dias. Dois exemplos destacados disso são:

Teoria clássica

Denomina-se Teoria Clássica do desvio aos esforços teóricos do iluminismo por dar uma definição objectiva do delito e da pena que substituísse a concepção relativista e arbitrária característica do Antigo Regime. Esta objetivización do delito era imprescindible para construir o Estado de direito- baseie do Estado liberal- já que é um prerrequisito necessário do Princípio de legalidade, a segurança jurídica ou a Igualdade ante a lei.

O autor mais representativo foi Cessar Beccaria, que desenvolveu suas ideias em um livro que se converteu em um clássico do Direito: Dos delitos e as penas, no que, em palavras do próprio autor, se incluem

Os orçamentos para uma teoria jurídica do delito e da pena [...] no quadro de uma concepção liberal do Estado de direito, baseada sobre o princípio utilitarístico da máxima felicidade para o maior número de pessoas e sobre a ideia do contrato social.
Cessar Becaria.[9]

De acordo com estes princípios do utilitarismo e o contractualismo, para Beccaria o homem nasce livre, mas estabelece um contrato com o estado pelo que renuncia a parte de sua liberdade a mudança de segurança. O delinquente seria alguém que incumpre esse contrato, pelo que deve ser sancionado, mas a sanção não tem um objectivo de vingança senão de prevenir novos danos e servir de exemplo disuasivo ao resto dos cidadãos.

A Teoria Clássica tem os evidentes limites de que se centra no delito -sem analisar o resto de desvios sociais- e que não pesquisa sobre as causas deste, o que é o objecto principal das teorias posteriores. Esta teoria teria uma grande influência sobre a Teoria da Eleição racional, chegando no ponto de que alguns autores denominam a esta última como Teoria Neoclásica.

Enfoque Biológico

Um das primeiras tentativas para entender de maneira científica o fenómeno do desvio se fizeram desde o âmbito da Biologia. Durante o século XIX desenvolveram-se diversos estudos para tentar descobrir quais eram as características físicas que convertiam às pessoas em desviadas. A ideia de poder explicar a conduta delictiva em base a rasgos biológicos tem interessantes precedentes em algumas legislações medievales, nas que se recomendava aos juízes que duvidassem entre dois suspeitos elegessem aos mais feios e deformes.[10] Em 1876 o medico penitenciário Cessar Lombroso elaborou uma detalhada teoria sobre as características físicas que provocavam a delincuencia. Os rasgos físicos descritos eram basicamente simiescos: vello abundante, braços longos, frente estreita, mandíbula prominente, etc. Ainda que os estudos de Lambroso atingiram uma grande notoriedad em sua época, o determinismo biológico, depois das sucessivas criticas, foi caindo em desuso até mediados do século XX, quando Willians Sheldon realiza um estudo com centos de jovens no que chega a conclusões similares. Para Sheldon existem três tipos básicos de constituição física -Endomorfo, Mesomorfo e Ectomorfo- aos que correspondem três personalidades diversas, sendo os mesomorfos -com constituição musculosa e atlética- os mais predispuestos a delinquir. Os dados de Sheldon foram reanalizados por Eleonor Glueck chegando à conclusão de que não pode se afirmar que a constituição atlética seja um bom predictor da delincuencia, e muitos menos sua causa.[11]

Desde os anos 80 está a dar-se uma revitalización do enfoque biológico, baseada nos avanços da genética. Neste âmbito fizeram-se particularmente populares os estudos sobre a Síndrome do XYY- uma anomalía cromosómica pela que o varão recebe um cromosoma E extra- que alguns autores relacionam com uma tendência à violência, ainda que numerosos estudos têm confirmado que isto não se observa com frequência.[12] [13] [14] [15] [16]

Teorias macrosociológicas do desvio

Teoria Funcionalista

Emile Durkheim, pai do funcionalismo.

Os teóricos funcionalistas viram-se ante a tarefa de achar resposta à necessidade, por parte de alguns indivíduos, de não cumprir as regras. O primeiro em descrever algumas das funções sociais que cumpria o desvio foi Émile Durkheim. Ainda que pareça contradictorio, para Durkheim o desvio contribui a consolidar os valores e as normas culturais, já que é parte indispensável no processo de criação e manutenção do consenso sobre as mesmas. A base desta ideia é que sem o delito não há justiça nem é possível por tanto o consenso sobre as ideias do bem e o mau. Neste sentido o desvio contribuiria a definir os limites morais. Definindo a alguns como desviados o resto da sociedade pode observar claramente o limite entre o bem e o mau. Outra função do desvio seria o fomento da unidade social, já que a resposta unitária em frente às acções extremas de desvio -assassinato, atentados- fortalece o laço social. Por outro lado o desvio também contribuiria à mudança social, já que o transgredir uma norma convida a reflexionar sobre a necessidade ou a conveniencia desta, e representa um modelo de conduta alternativo que pode chegar a se converter em maioritário, já que o que hoje é uma conduta desviada pode não ser no futuro.[4]

Teoria Marxista

Ainda que já desde seus inícios o marxismo tinha tratado temas relacionados com o desvio, é nos anos 70 quando aparecem obras sistémicas sobre esta desde uma perspectiva marxista. Autores destacados nesta sistematización foram Iain Taylor, Paul Walton e Jock Young, que argumentaram que as teorias existentes obviaban certos factores estruturais -como a desigual distribuição do poder e a riqueza- que eram fundamentais para entender as condutas desviadas.[17]

Este argumento foi posteriormente desenvolvido por Steven Spitzer, que ejemplificó amplamente como as pessoas que são etiquetadas como desviadas costumam ser sujeitos que obstaculizan o desenvolvimento do Capitalismo. Spitzer analisou como os sujeitos que ameaçam a propriedade privada -base do Capitalismo- são sempre qualificados como desviados, no entanto os actos das classes privilegiadas contra os interesses das subordinadas -como uma grande subida do preço da moradia- longe de se considerar desviadas, são assumidas como uma legítima defesa de seus interesses. Também analisa como -ao ser a exploração do trabalho outro dos fundamentos do capitalismo- quem não trabalha, seja por imposibilidad -minusválidos, parados involuntarios-, seja por vontade, tem muitas possibilidades de ser etiquetado como desviado. Exemplos disto os encontramos na legislação contra vadios e maleantes.[18]

Teoria da subcultura

Esta teoria baseia-se no princípio de que a conduta desviada -ao igual que o resto de condutas- se aprende no ambiente em que se vive. Os actos desviados seriam portanto uma consequência da socialización em ambientes com valores e normas diferentes aos da sociedade em general. A teoria foi elaborada por Clifford Shaw e Henry Mckay e tem sua origem nos estudos etnográficos realizados pela Escola de Chicago durante os anos vinte. Os pesquisadores dividiram a cidade de Chicago em cinco zonas, realizando círculos concêntricos e comparando a taxa de delincuencia e a relação entre o número de delinquentes e o total da população da cada zona. Os dados evidenciaron que o valor da taxa diminuía conforme se afastava do centro, e o que é mais interessante, que entre 1900 e 1920 a relação entre as taxas de delincuencia da cada zona permaneceu invariável, apesar de que neste período teve grandes movimentos de população que mudaram a composição étnica da cada zona. Estes factos fizeram chegar aos pesquisadores à conclusão de que a subcultura desviada fazia parte da idiosincrasia de alguns bairros, pelo que era transmitida aos novos habitantes.

Numerosos pesquisadores têm desenvolvido a teoria, comprovando que é comum que os indivíduos com comportamentos desviados pertençam a grupos nas que estas condutas são permitidas- ou inclusive prescritas- pelo que tal conduta só poderia se julgar como desviada com respeito às normas e valores da sociedade, mas não com respeito às de seu grupo de referência. Com respeito a isto o criminólogo Edwin Sutherland escreveria que

A cultura criminosa é tão real como a legal, e bem mais difundida do que se pensa habitualmente.
Edwin Sutherland[3]

Walter Miller estudou como se criam as subculturas do desvio, chegando à conclusão de que estas costumam aparecer entre os jovens de classe baixa, já que são os que têm menos possibilidades de cumprir suas aspirações por meios legítimos. Miller ademais individuó as características destas subculturas, cujos principais rasgos seriam: A rutinización do conflito, a dureza, a sagacidad e a autonomia.[19]

Teorias microsociológicas do desvio

Teoria do Etiquetamiento

Nos anos 1960 começa-se a estudar o desvio desde a perspectiva do Interaccionismo simbólico. Estes autores centram seus estudos não tanto nas possíveis causas da conduta desviada, senão nas formas de controle e interacção social pelas que se definem a certos indivíduos como desviados. A principal contribuição teórica desta escola é a Teoria do Etiquetaje, que poderia se sintetizar assim:

Os grupos sociais criam o desvio estabelecendo regras cuja infracção constitui um desvio, e aplicando estas regras a pessoas particulares, que etiquetam como outsiders [...] O desvio não é uma qualidade da acção cometida senão a consequência da aplicação-por parte de outros- de regras e sanções. O desviado é alguém ao que a etiqueta lhe foi posta com sucesso; o comportamento desviado é o comportamento etiquetado assim pela gente.
Howard Becker.[20]

Uma das contribuições fundamentais desta teoria é a distinção entre desvio primário e secundária realizada por Edwin Lemert. Dentro da primária enquadrar-se-iam os não_cumprimentos das normas que não fazem se sentir desviado a quem o comete, nem é visto assim pelos demais. Dentro da secundária estariam pelo contrário os não_cumprimentos que fazem mudar a concepção que os demais têm do autor, o etiquetando como desviado. Este etiquetamiento provocará que o autor reorganize a percepción de si mesmo assumindo a nova definição que os demais dão dele.[21] A base desta distinção está no facto de que, em realidade, praticamente todo mundo tem cometido actos desviados. É difícil encontrar a alguém que não tenha mentido, cometido algum pequeno roubo ou consumido alguma droga ilegal, mas poucas destas pessoas são catalogadas -ou autocatalogadas- como mentirosos, ladrões ou drogadictos.[3]

O desvio secundário está muito relacionada com o conceito de estigma desenvolvido por Erving Goffman, definido como uma marca social negativa usada para definir a uma pessoa. O estigma converte-se em um papel dominante do indivíduo e todos os actos passados começam a reinterpretarse baixo a perspectiva do novo estigma, em um processo de distorsión biográfica conhecido como etiquetaje retrospectivo. Goffman desenvolveu a possibilidade de que ao estigmatizar a alguém -com maior ou menor motivo- se activassem uma série de mecanismos, como a rejeição social, que lhe impulsionassem a procurar companhia entre quem não lhe censuran -outros estigmatizados- reforçando assim a identidade desviada e o impulsionando a continuar sua carreira delictiva. Deste modo o desvio poderia ser uma dessas profecias autorealizadas que Robert K. Merton elaborou baseando-se no Teorema de Thomas.

Teoria da Eleição racional

Os teóricos da eleição racional -também chamados neoclásicos- enmarcaron o desvio dentro de seu modelo geral de conduta, segundo o qual as acções das pessoas estão guiadas por um frio racionalismo cujo objectivo é calculado para obter prazer e evitar dor. Ainda que posteriormente foi assumida por alguns sociólogos esta teoria foi desenvolvida em seus inícios por economistas , como Gary Becker que elaborou o modelo económico do crime que descreve uma conduta desviada guiada pelo cálculo de utilidade relativa na que se põem em uma balança os custos e os benefícios que pode ter tal conduta. Estudos posteriores têm tentado localizar quais são os custos e benefícios concretos das condutas desviadas, chegando à conclusão de que os benefícios seriam os comuns a todas as acciones -lucro, prestígio, poder, prazer- enquanto os custos podem se dividir em três: as sanções formais impostas pelo Estado, as sanções sociais de seu meio e as autosanciones que o desviado se imponha -como vergonha ou sentimento de culpa- devido à interiorización das normas.

A Teoria da Eleição racional também tem realizado vários estudos sobre a eficácia das sanções. Segundo o modelo teórico, uma forma de reduzir o delito seria aumentar os custos de sua realização, por isso desde esta teoria se propôs aumentar a severidad das penas. Estudos posteriores desde esta perspectiva têm posto de manifesto que a severidad da sanção tem repercussões irrelevantes, enquanto pelo contrário, a certeza da pena-a convicção de que existirá uma sanção- pode influir na redução da delincuencia.[22]

O controle social

Artigo principal: Controle social
Ao ser um de seus instrumentos mais evidentes, as câmaras de vigiliancia têm sido usadas com frequência como símbolo do controle social.

Além das normas e seu não_cumprimento, o controle social é o outro grande campo de estudo da Sociologia do desvio. Baixo este conceito integram-se o conjunto de mecanismos e instâncias a partir dos quais toda a sociedade, de uma ou outra forma, induze a seus membros a se comportar conforme com as normas, valores e pautas culturais predominantes.[23] Por isso o controle social é bem mais amplo que as instituições mais visíveis às que geralmente se associa -polícia, cárceres, julgados...- e inclui a outras como os manicomios, os trabalhadores sociais ou o sistema educativo, sendo o papel deste último de especial importância.[24] Além de por estes agentes institucionalizados, o controle social é exercido em grande parte por mecanismos informais e difusos. Sociólogos como Talcott Parsons destacam, por exemplo, o papel que joga a família no processo.[25]

A importância da família e do sistema educativo vem dada sobretudo por sua função no processo de interiorización das normas, no qual as normas sociais são transformadas em normas morais, sendo assim assumidas como próprias pelos indivíduos. Este processo permite que não se incumpram as normas ainda que nenhum factor externo o impeça, e o que é mais importante, nos converte a todos em agentes de controle social, já que manteremos uma atitude reprobatoria ante quem as incumpra.[26]

Neste sentido, a Psicologia social tem estudado de forma experimental diferentes mecanismos interiorizados do controle social. O experimento de Milgram demonstrou os actos que se podem chegar a fazer se estes são ordenados por uma figura de autoridade; o experimento do cárcere de Stanford, a obediência que se pode obter com ideologia legitimidora; o experimento de Robber's Cave, como através da construção do inimigo externo se consegue a unidade interna; os experimentos de Sherif e Asch, como se muda a própria opinião para que esta se adapte à da maioria. Estes experimentos, hoje já convertidos em clássicos, mostram com que naturalidad nossos comportamentos se adaptam às exigências da norma, a normalidade e a autoridade.

O castigo

O castigo é uma forma finque do controle social, com a explícita função de corrigir o comportamento dos indivíduos.

Devido a sua função explícita de corrector de actos ou comportamentos, o castigo é uma das formas de controle social mais pesquisada. Desde a sociologia do desvio estudaram-se as diferentes funções que tem possuído o castigo e a efectividad que os diferentes castigos possuem para reduzir o comportamento desviado.

John Macionis identifica quatro funções que, em diferentes sociedades ou épocas, têm justificado a existência do castigo. A primeira, e mais antiga, seria o desquite, que se baseia na ideia de recuperar a ordem interrompida, pelo que se aplica ao infractor um dano proporcional ao dano cometido. Está contida na Lei do talión e o princípio bíblico de olho por olho, dente por dente. A segunda, a disuasión, é a ideia de que o castigo desincentiva o não_cumprimento normativo. Formaliza-se teoricamente no século XVIII, com a concepção do ser humano como um ser racional, movido por cálculos de custo e benefício. A terça é a reabilitação, pela que se pretendem modificar as pautas de condutas desviadas do indivíduo. Tomada auge no século XIX com o aparecimento das Ciências sociais e os estudos científicos sobre a conduta humana. Por último estaria a função de protecção da sociedade pela que se separa ao desviado do resto do corpo social, já seja o encerrando, o desterrando ou o executando. O facto de que, para além de que em um momento histórico determinado se ponha o acento em uma ou outra, o que as quatro ideias sobre a função do castigo possam se dar contemporaneamente é contingente.

Por outro lado, a questão da eficácia dos castigos tem suposto grandes debates entre os estudiosos, sendo a prisão - que desde seu aparecimento no século XVIII se converteu na forma generalizada do castigo penal- um dos centros do debate. Sua eficácia tem sido posta em dúvida por diversos autores, avalados por uma grande quantidade de estudos em diversos países que mostram a alta percentagem de pessoas que retornam ao cárcere depois de ter cumprido condenação. A reincidencia nos três primeiros anos da excarcelación é de 40 a um 60%,[27] nos Estados Unidos a percentagem de reincidencia estaria em torno do 60%[5] e em Espanha meio ao 40%.[28] Estas cifras têm levado a alguns autores a concluir que a prisão não é uma instituição eficiente em sua função de modificar os comportamentos e condutas delictivas.[29] Assinala-se também que a prisão pode ter aspectos que inclusive fomentariam o delito já que os longos períodos de reclusão destruiriam os laços sociais, e o contacto quase exclusivo com delinquentes fomentaria a criação e reprodução da subcultura criminosa. As críticas têm provocado que as instituições penitenciárias realizem provas experimentales sobre soluções alternativas à simples privação de liberdade, geralmente centradas em terapias de desintoxicación, que têm dado resultados notáveis.[30] [27] Outros autores continuam defendendo como innegable o efeito disuasorio das prisões.[31]

Pena de morte no mundo (06/2005):      Suprimida para todos os crimes      Suprimida para os crimes não cometidos em circunstâncias excepcionais (como os cometidos em tempo de guerra)      Contemplada como sanção penal, mas suprimida na prática      Contemplada como sanção penal, ainda aplicada

Outro castigo que provoca grandes debates sobre sua eficácia é a pena de morte, um castigo que tem sido praticado desde a antigüedad em praticamente todas as sociedades. No século XIX inicia-se uma tendência para sua abolição -ou limitação a casos extraordinários- em um crescente número de países. Por isso, nos países onde ainda se pratica, como Estados Unidos, existe um debate político sobre a conveniencia da abolir, que tem provocado que se realizem numerosos estudos sobre sua eficácia na prevenção do crime, já que este é o principal argumento para sua manutenção. Os diversos estudos realizados fazem concluir à maioria dos autores que as evidências empíricas disponíveis mostram que a pena capital mal teria efeito disuasorio.[32] [33] [34]

A tendência a abolir a pena de morte, o aparecimento dos cárceres e a humanización da pena em general, têm sido analisadas por Michel Foucault, em seu clássico Vigiar e castigar. O autor analisa a grande mudança sofrida pelos castigos entre os séculos XVIII e XIX, no que passa da espectaculosidade das torturas e execuções públicas medievales aos castigos dentro da instituição burocrática e aséptica da prisão. A perspectiva foucoliana- que já é uma meta dentro da análise do controle social- sobre este processo é que, longe de se produzir por motivos éticos ou morais, sua causa é o aumento da eficácia da pena.

Problemas metodológicos no estudo do desvio

O desvio é um dos fenómenos sociais mais complexos de analisar cientificamente, já que aqueles que os cometem tendem aos ocultar. Por isso o debate metodológico se remonta às origens da disciplina, quando Emilie Durkhaim escreve O suicídio. Esta obra consiste em um estudo cuantitativo sobre o fenómeno do suicídio em diferentes países europeus - utilizando as fontes oficiais da cada estado- com o fim de comprovar a diferente influência que tinha na cada país. Estudos posteriores comprovaram que as estatísticas oficiais infravaloran quase sempre o fenómeno, existindo ademais variações segundo a definição de suicídio das diferentes legislações. Neste sentido comprovou-se a correlação entre a possibilidade de que uma morte seja registada como suicídio - em vez de como acidente ou homicídio- e a valoração social sobre do fenómeno: quanto pior visto seja o suicídio em uma sociedade, tanto menores serão as possibilidades de que este se registe como tal.[3]

Os estudos sobre a incidencia da delincuencia encontraram-se com problemas ainda maiores. Os sociólogos têm utilizado com frequência como fonte as estatísticas policiais sobre denúncias, ou as judiciais sobre condenações, mas se comprovou que se cometem muitos mais delitos que os registados. Investigações levadas a cabo na Inglaterra nos anos noventa chegaram à conclusão de que a percentagem de delitos que se notifica é de 47%, o que se denuncia o 27% e o que chega a condenar em um tribunal tão só um 3%.[35] As causas deste baixo índice de denúncias são múltiplos: temor a represálias (como no caso da máfia), cercania ao que o comete (violência de género), tolerância (maltrato a animais), vontade do esquecer (violações), desconfiança na utilidade da denúncia (hurtos), ignorância sobre se constitui um delito (delitos de índole económica), etc. Neste sentido comprovou-se como os diferentes tipos de delitos têm uma percentagem de denúncias muito desigual, há delitos que se denunciam praticamente em sua totalidade, como o roubo de carros ou as mortes violentas, e outros que sua imensa maioria não são denunciados, como a tentativa de violação ou os pequenos hurtos.[36]

Estas limitações nas fontes oficiais têm obrigado a desenvolver métodos alternativos para a cuantificación da delincuencia. Actualmente utiliza-se tanto A autodenuncia, no que se realiza uma encuesta a uma mostra de população lhes perguntando se têm cometido algum delito e se este tem sido denunciado, como a victimización, que é um método similar mas no que se pergunta se se foi vítima de algum delito.

Notas

  1. a b c Bertelli, Bruno (2002). Devianza e vittimizzazione, teorie eziologiche do controllo sociale,, Trento: Artimedia. ISBN 88-87980-05-5.
  2. Ribeiro Juarez, Mario. Direitos humanos e criminología: um vinculo ignorado, em Economia, Sociedade e Território, vol III, numero 11, 2002. Consultado o 21 de maio de 2008.
  3. a b c d Bagnasco,A., Barbagli,M. e Cavalli,A. (1997). Sociologia, cultura e società, Bolonha: Il mulino. ISBN 88-15-08263-8.
  4. a b c Durkheim, Émile (1993)A divisão social do trabalho, Três Cantos: Akal ISBN 978-84-7600-229-2
  5. a b c Macionis, Jhon (1999). Sociologia, Madri: Prentice Hall. ISBN 84-8322-152-7.
  6. Pascal, Blasie (1669) Pensées, consultado o 11-5-1008
  7. Levi-Strauss, Claude (1971). The Elementary Structures of Kinship, Beacon Press. ISBN 978-0-8070-4669-2.
  8. Gallino, Luciano (2006). Dizionario dei sociologia, Turín: Universidade de Turín. ISBN 88-02-07482-8.
  9. Beccaria, Cessar (1998). Dos delitos e as penas, Madri:Aliança Editorial. ISBN 84-206-3959-1.
  10. Wilson, James Q. e Richard J. Herrnstein (1985). Crime and Human Nature. The definite study on the causes of crime, Nova York: Simon & Schuster. ISBN 0-671-62810-0.
  11. Glueck, Eleonor (1950). Unraveling Juvenile delinquency, Nova York: Cammonwealth foundation Simon & Schuster. ISBN 0-674-93030-4.
  12. Graham, Gail E.; Allanson, Judith E.; Gerritsen, Jennifer A. (2007). “Sex chromosome abnormalities”, Rimoin, David L.; Connor, J. Michael.; Pyeritz, Reed E.; Korf, Bruce R. (eds.)Emery and Rimoin's Principles and Practice of Medical Genetics, 5th ed., Philadelphia: Churchill Livingstone Elsevier, pp. 1038-1057. ISBN 0-443-06870-4.
  13. Milunsky, Jeff M. (2004). “Prenatal Diagnóstico of Sex Chromosome Abnormalities”, in Milunsky, Aubrey (ed.): Genetic Disorders and the Fetus : Diagnóstico, Prevention, and Treatment, 5th ed., Baltimore: The Johns Hopkins University Press, pp. 297-340. ISBN 0-8018-7928-0.
  14. Nussbaum, Robert L.; McInnes, Roderick R.; Willard, Huntington F. (2004). Thompson & Thompson Genetics in Medicine, Revised Reprint, 6th ed., Philadelphia: W.B. Saunders, pp. 172-174. ISBN 0-7216-0244-4.
  15. Beltz, Carin Leia (2005). “XYY Syndrome”, in Narins, Brigham (ed.): The Gale Encyclopedia of Genetic Disorders, 2nd ed., Detroit: Thomson Gale, pp. 1369-1371. ISBN 1-4144-0365-8.
  16. Guy's Hospital Clinical Genetics Department (2001). «The XYY Condition». Consultado o 27-09-2006.
  17. Taylor, I., Walton, P. e Young, J. (1973) The New Criminology: For a Social Theory of Deviance, Londres: Routledge. ISBN 0-415-03447-7
  18. Spitzer, Steven (1980). «Toward a marxian theory of deviance», Criminoso Behavior: Readings in Criminology (Kelly, Delos H., ed.), Nova York: St. Martin's Press. ISBN 0-312-17212-5.
  19. * Miller, Walter (1970). «Lower class culture as a generating milieu of gang delinquency», The sociology of crime and delinquency, Nova York: Wiley. ISBN 0-471-95955-3.
  20. Cohen, Stan (1992). Devianza, Roma: Istituto della enciclopedia italiana, Vol. II.. ISBN 88-420-4578-0.
  21. Lemert, Edwin (1972). Human Deviance, Social Problems, and Social Controle, Nova Camisola:Prentice-Hall. ISBN 0-13-444885-5.
  22. Tittle, Charles R. (1980). Sanctions and Social Deviance: The Question of Deterrence, Nova York:Praeger Publishers. ISBN 0-275-90560-8.
  23. Austin, Tomadas O controle social e o desvio. consultado o 23 de maio de 2008
  24. Da Villa ,María Poder disciplinario e educação: aproximação foucaultiana desde a Psicologia Social. Consultado o 24 de maio de 2008
  25. Austin, Tomadas, Fundamentos sociais e culturais da educação Consultado o 28 de maio de 2008
  26. Pino, P.F. Solle, G e Tau M. L. Controle Social: subjetividad, lei, género e família consultado o 28 de maio de 2008
  27. a b Caixal López, G. e Rocha Tutusaus, X. O tratamento da conduta adictiva em comunidade terapêutica intra e extrapenitenciaria: análise de uma mostra. Consultado o 25 de maio de 2008
  28. Serrano J. C. e Velasco F. Quase a metade dos presos reinciden. Consultado o 28 de maio de 2008
  29. Carlson, Norman (1995). «[Expressão errónea: operador < inesperado Corrections in the Unted State today: a balanço tens been struck]». The American Criminoso Law Review 13 (4). 615-647. 
  30. Margara, Castro, A pena certa e il collaso delle regole civili.. Publicado no periodico italiano Il manifesto o 25 de maio de 2008
  31. Wright, Richard (1994). In defense of prisons, Westport:Greenwood Press. ISBN 0-313-27926-8.
  32. Sellin, Thorsten (1980). The Penalty of Death, Berly Hills:Sage Publications. ISBN 0-8039-1453-9.
  33. Lester, David (2002). The Death penalty: issues and answers, Springfield:C.C. Thomas. ISBN 0-398-06823-2.
  34. Bailey, Willians (1989). «[Expressão errónea: operador < inesperado Murder and a capital punishment]». American Sociological Review 54 (5). 722-743. 
  35. Morgan, R. e Newburn, T. (1997). The Future of Policing, :Oxford University Press,. ISBN 0-19-876441-3.
  36. Bandini, T. e outros. (2004). Criminologia : il contributo della ricerca alla conoscenza do crimine e della reazione sociale, Milan:Giuffrè. ISBN 88-14-10863-3.

Veja-se também

Enlaces externos

Obtido de http://ks312095.kimsufi.com../../../../articles/a/r/t/Artes_Visuais_Cl%C3%A1sicas_b9bf.html"