Este artigo reférese ao tango argentino, para outros significados ver: Tango (homónimos)
O tango é um estilo musical e uma dança riopratense, própria das cidades de Bons Ares e Montevideu de natureza netamente urbana e renome internacional. Musicalmente tem forma binaria e bússola de dois por quatro. É classicamente interpretado mediante orquestra típica ou sexteto e tem ao bandoneón como instrumento essencial. A coreografía, desenhada a partir do abraço do casal, é sumamente sensual e complexa. As letras estão compostas com base a um jargão local chamado lunfardo e soem expressar as tristezas, especialmente «nas coisas do amor»[1], que sentem os homens e as mulheres da vila, circunstância que o emparenta em verdadeiro modo com o blues. Enrique Santos Discépolo, um dos seus máximos poetas, definiu ao tango como «um pensamento triste que se dança».[2]
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Se bem o tango reconhece lonxanos antecedentes africanos, latinoamericanos e europeus, as suas origens culturais fusionáronse de tal modo que resulta quase impossível reconhecê-las. Em esencia o tango é uma expressão artística de fusão, de natureza netamente urbana e raiz suburbana («arrabaleiro»), que responde ao processo histórico concretizo da imigração maciça, maioritariamente européia, que reconstituíu completamente as sociedades riopratenses, especialmente as de Bons Ares, Rosario e Montevideu, a partir das últimas décadas do século XIX.
Argentina, que em 1850 contava com 1,1 milhões de habitantes, recebeu 6,6 milhões de imigrantes entre 1857 e 1940. Uruguai sofreu um processo similar. Trata de uma experiência humana «aluvial» quase sem comparação na história contemporânea.
A diferencia de outras zonas do mundo, os imigrantes que chegaram ao Rio da Prata a partir da segunda metade do século XIX superavam em quantidade às populações nativas, e foram parte de um intensivo processo de mestizaxe multicultural e multiétnico, em grande medida induzida pelo Estado através de uma formidable promoção da escola pública laica.
O tango é filho directo dessa intensa mestizaxe. Sabe-se que os primeiros tangueiros eram afroarxentinos e afrouruguaios[3]; que o bandoneón prove da Alemanha; que a sua sensualidade deriva da sua origem prostibularia, onde os imigrantes europeus que chegavam sós a buscar emprego mantinham relações sexuais com as nativas, maioritariamente afroarxentinas e indoamericanas denominadas «chinas». Sabe-se também que o jargão do tango, o lunfardo, está cheio de expressões italianas e africanas; que o seu ritmo e clima nostálxico estão emparentados com a habaneira cubana; e que «tango, milonga, malambo e candombe», são parte de uma mesma família musical de raízes africanas e costumes provintes dos gauchos que emigraram à cidade.
Porém, o tango não se confunde nem deriva de nenhum estilo musical em particular. Ernesto Sábato diz que por sobre todas as coisas o tango é um híbrido, uma expressão original e nova que deriva de uma mobilização humana gigantesca e excepcional.
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Ya los anhos se vão passando,
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O desejo sexual, sublimado em sensualidade, e a tristeza ou melancolia, derivada de um estado permanente de insatisfacción, são os componentes centrais do tango. Nas suas origens esses sentimentos afloraron da dura situação de milhões de trabalhadores imigrantes maioritariamente varões, solitários numa terra estranha, acudindo em massa aos prostíbulos, onde o sexo pago acentuava «a nostalgia da comunión e do amor, a saudade da mulher» e a evidência da solidão.[5] O tango emergiu assim de um «ressentimento erótico»[6] maciço e popular, que conduziu a uma dura reflexão introspectiva, também maciça e popular, sobre o amor, o sexo, a frustración e finalmente o sentido da vida e a morte para o homem comum.
No curso do século XX e com a importância que adquiriu a sexualidade e a introspección, assim como uma visão existencial e menos optimista da vida, o tango desenvolveu os seus componentes básicos como uma expressão artística notavelmente relacionada com a problemática do homem contemporâneo.
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Arrabal amarguro...
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O tango é uma arte de raiz suburbana, «arrabaldeiro», derivado da sua natureza popular. Surge e se desenvolve nos bairros de trabalhadores que rodeiam às cidades riopratenses: o «arrabalde». Para o tango o arrabalde é a musa inspiradora, o lugar de pertença que não se deve abandonar, nem traicionar, nem esquecer. Por riba de todas as coisas, o tangueiro é uma pessoa «de bairro». Na linguagem do tango, o arrabalde e o centro compõem dois pelos opostos: o arrabalde, muitas vezes unido indissoluvelmente aos amigos e aos «vê-lhos» (os pais), expressa o verdadeiro e o autêntico, em tanto que o centro soe expressar o passageiro, «as luzes» que encandilan, o insucesso.
O sentimento de pertença ao arrabalde levou ao tango a construir culturas de bairro, a dar-lhes personalidade. Sobretudo em Bons Ares, o tango está indissoluvelmente ligado à identidade dos «100 bairros porteños». A cidade do tango é uma cidade vivida desde o arrabalde.
Jorge Luis Borges destacava que a música de tango está tão conectada com o mundo riopratense que quando um compositor de qualquer outra parte do mundo pretende compor um tango «descobre, no sin estupor, que haver urdido algo que nuestros ouvidos no reconocen, que nuestra memória no hospeda y que nuestro cuerpo rechaza».[8]
Esta característica fortemente local do tango, imbricada com o ritmo e a musicalidade da linguagem riopratense, foi reiteradamente assinalada.
Uma das primeiras características da música tangueira foi a exclusão dos instrumentos de vento-metal e percussão, tirando-lhe estridencias com o fim de construir uma sonoridade intimista e cálida, capaz de transmitir a sensualidade que o definiu desde um princípio.
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Lastima, bandoneón, mi coração
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O bandoneón é o coração da música de tango, chegando a dizer-se que «bandoneón y tango são la misma cosa»[É preciso referência]. De origem alemã, foi adoptado pelos tangueiros ao iniciar-se o século XX para substituir a presença inicial da flauta e completar o som inconfundível do tango. Cátulo Castillo atribui-lhe «...al bandoneón la definitiva sonoridad de lamento que tiene ele tango, su inclinação al quejido, al rezongo»[10]. O bandoneón impôs-lhe ao tango a sua definitiva forma complexa, integrando a melodia numa base simultaneamente rítmica e armónica.[11]
Esta complexidade melódica-rítmica-harmónica, será fortalecida mais adiante com a incorporação do piano, em substituição da guitarra, e o desenvolvimento de uma técnica de execução especialmente tangueira, fundada na percussão rítmica. Deste modo a base instrumental do tango fica definida como trío de bandoneón, piano e violín.
Sobre a base dos seus instrumentos básicos conforma-se a orquestra típica de tango, inventada originalmente por Julio de Caro nos anos 20 e consolidada principalmente em forma de sexteto com a seguinte integração: piano, dois bandoneóns, dois violíns e contrabaixo. A orquestra de tango, propriamente dita, segue o mesmo esquema, alargando o grupo de bandoneóns, e agregando violas e violoncellos ao grupo das cordas.
O tango nasceu como música instrumental exclusivamente para ser dançado. Com o tempo incorporou o quanto, quase sempre solista, eventualmente a dupla, sem coro, mas mantendo de modo bastante marcado a separação entre tangos instrumentais e tangos cantados.
Musicalmente o tango tem forma binaria. Originalmente escrito em bússola de 2/4, terminou escrevendo-se em bússola de 4/8.
As letras estão compostas em base a um jargão local chamado lunfardo e adoptam expressar as tristezas, especialmente «em las cosas dele amor»,[12] que sentem o homem e a mulher do povo, circunstância que o emparenta com o blues.
A poesia tangueira tem a inhabitual característica de ser consideravelmente complexa, com o uso de metáforas e reflexões filosóficas, e ao mesmo tempo muito popular, sobretudo nos estratos mais humildes da população.
Imagens como «ele mistério de adiós que siembra ele comboio» que utiliza Homero Manzi em Bairro de tango (1942), ou «las nieves dele tiempo platearon mi sien» de Carlos Gardel em Voltar (1935), ou «tu mezcla milagrosa de sabihondos y suicidas» criada por Enrique Santos Discépolo em Cafetín de Buenos Aires (1948), ou «tinta roja nele gris dele ayer» que Cátulo Castillo pôs em Tinta roja (1941), reúnem uma alta complexidade poética junto com uma alta popularidade, que persistiram com os anos.
Os temas principais e mais conhecidos das letras de tango são o desengano amoroso e o passo do tempo, mas também a cidade e as suas personagens, a problemática social e política, o amor, a morte, o futebol e o próprio tango.
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Llora, llora coração,
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O desengano amoroso como tema central do tango é um lugar comum, ainda que só parcialmente verdadeiro. Provavelmente o que dá nas vistas na forma na que o tango aborda o desengano amoroso, seja o contraste do homem «duro» e orientado ao machismo, emocionalmente restringir, que se abre nas letras do tango, mostrando a sua interioridade e a profundidade do seu sofrimento. No tango os homens choram e falam das suas emoções, num mundo no que os homens não devem chorar nem expor os seus sentimentos.
A reflexão sobre o passo do tempo é uma característica muito especial das letras de tango, talvez tanto ou mais que o desengano amoroso. Praticamente todos os tangos contêm uma mirada desagarrada sobre o efeito destrutivo do tempo sobre as relações, as coisas e a vida mesma. Por riba de todo o poeta tangueiro manifesta a sua impotencia ante essa «fiera venganza la dele tiempo»[13] e expressa «ele dor de ya no ser».[14].
Exemplos de tangos clássicos por tema:
Existe também poesia e prosa tangueira ou lunfarda criada sem ser pensada como parte de uma canção. Entre os autores podem citar-se Julián Centeya, Celedonio Flores, Carriego, Evaristo, Atilio Jorge Castelpoggi, Carlos de la Púa, Martina Iñiguez, Orlando Mario Punzi, Juan Carlos Lamadrid ou Luis Luchi. O próprio Jorge Luis Borges tem textos que podem ser considerados tangueiros, como o poema Jacinto Chiclana e o conto Ele hombre de la esquina rosada.
A coreografía, desenhada a partir do abraço do casal, é sumamente sensual e complexa. A complexidade dos passos não se deve à expressão ou ao que se quer trasmitir durante o dance. Trata-se de expressar um sentimento cheio de sensualidade (mas não de sexualidade), onde o primordial não são só os passos ou as figuras que fazem os bailarinos com os pés. De nada vale uma técnica perfeita, ou uma sincronización perfeita, se a expressão facial dos bailarinos não trasmite sentimentos. Todo na dança do tango está unido, as miradas, os braços, as mãos, cada movimento do corpo acompanhando a cadencia do tango e acompanhando o que eles estão vivendo: um romance de três minutos, entre duas personas talvez recén conhecidas e que provavelmente não tenham uma relação amorosa na vida real.
O tango trascende e chega ao coração dos que contemplam aos bailarinos, mercede aos sentimentos que põem no baile e obviamente à qualidade das suas coreografías. Cada estrofa musical, cada passagem, cada tango tem diferentes momentos. Não se pode dançar um tango completo seguindo um patrão de conduta idêntico para toda a melodia. Há cadencias tristes, alegres, sensuais ou eufóricas, finais silenciosos ou grandiosos, música in-crescendo e música in-diminuendo, só expressa sentimentos e estes são os que os bailarinos transportam aos seus pés e a todo o seu corpo.
O musicólogo e historiador argentino Carlos Vega explica que no século XVIII, em México existia uma dança chamada «tango». Esse baile executava-se individualmente, não em casal. Em 1803, nos arquivos da Inquisición, em México, há referência à proibição de um «antiguo tango» (uma canção mexicana).
Porém, o tango propriamente dito tem uma origem mais recente ainda que não muito claro. Segundo estudos que não contam com numerosa documentação, desce da habanera e se interpretava nos prostíbulos de Bons Ares, Rosario e Montevideu, nas duas últimas décadas do século XIX, com violín, flauta e guitarra.
O escritor e polemista argentino Jorge Luis Borges afirmou que pelas suas características o tango só pôde nascer em Montevideu, Rosario ou Bons Ares, todos portos fluviais. O bandoneón, que actualmente caracteriza o tango, chegou até a região do Rio da Prata para 1900, entre as bagagens de imigrantes alemães. Não existem muitas partituras da época, porque os músicos de tango não sabiam escrever a música e provavelmente interpretavam sobre a base de melodias existentes, tanto de habaneras como de polkas.
O tango é conhecido como música de «dois por quatro», em bússola de dois quartos (2/4). Mas na realidade a maioria dos tangos —tanto os da guarda vê-lha (de antes de 1935) como os posteriores— estão em bússola de quatro quartos (4/4). A este género, música e dança prostibularios aplicou-se-lhes (aproximadamente na segunda metade do século XIX) o nome despectivo «tangó» talvez porque no seu carácter reservado e secreto se parecia às reuniões onde os pretos (que por então formavam uma boa percentagem da população de Bons Ares, e que representam uma influência fundacional da cultura montevideana) se juntavam a tocar e dançar a sua música. Tangó: golpe de tambor no candombe uruguaio, principal corrente musical junto com o tango.
No Museu da Partitura Histórica, de Rosario guarda-se o primeiro tango registado como tal: La canguela, de 1889.
Os mais antigos compositores e intérpretes de tango que se conhecem apareceram em duas primeiras décadas do século XX. No Museu da Partitura Histórica de Rosario ) encontra-se o primeiro tango registado como tal, La Canguela, de 1889. O primeiro tango com autor conhecido é Ele entrerriano, de Rosendo Mendizábal, publicado em 1898. Ángel Villoldo, Roberto Firpo e Francisco Canaro foram famosos e populares autores e intérpretes de tango.
Naqueles anos, nos que os filhos de famílias ricas levam a Paris o tango que aprenderam na frecuentación dos lupanares, começa uma nova era para o género, com o aporte de músicos melhor preparados e a incorporação de letras evocativas da paisagem do subúrbio, da infância e de amores contrariados.
Carlos Gardel é o melhor e mais recordado cantor de tango dos anos vinte e trinta. Muitos dos temas que interpretava eram compostos por ele mesmo, e encarregou as letras ao seu inseparable colega Alfredo Lê Pêra. Gardel, que começou a sua carreira em comités políticos dos subúrbios fabriles de Bons Ares, cantou em Paris e em Nova Iorque, filmou várias películas nos Estados Unidos e morreu num acidente de aviação em Medellín , Colômbia. Desde então é um mito para os riopratenses.
Músicos como Pascual Contursi, Juan Carlos Cobián, Julio De Caro, Osvaldo Fresedo, e cantores como Ignacio Corsini, Sofía Bozán, Rosa Quiroga, Agustín Magaldi, integraram o que se conheceu como a «nova guarda» do tango naquela época.
A dos anos cuarenta foi uma década dourada para o género, que se interpretava já em locais nocturnos de luxo, com uns ambientes que por sua vez inspiravam aos letristas, que nos seus versos contrapunham os luxuriosos cabarets e os desbordes da vida nocturna face à infância no arrabal, paisagem esta que adquire então ribetes míticos de paraíso perdido.
Grandes orquestras como as de Osvaldo Pugliese, Aníbal Troilo, Carlos Diz Sarli ou Horacio Salgán, actuavam à vez nos cabaréts do centro e em salões barriais, e, com eles, cresceu enormemente a indústria discográfica na Argentina. Letristas de grão vo —Enrique Santos Discépolo, Homero Manzi, Enrique Cadícamo, Cátulo Castillo— deram ao tango composições inolvidables, marcadas pela amarga crítica de costumes (Discépolo), o matiz elexíaco e as metáforas inspiradas em grandes poetas (Manzi, Castillo), a recorrente pintura de ambientes sofisticados com resonancias do poeta modernista Rubén Darío (Cadícamo). Notáveis cantores da época foram o Polonês Goyeneche, Ángel Vargas e Edmundo Rivero.
A partir dos anos cinquenta e sessenta nasce um tango «de vanguarda».
Em 1948 Mariano Mores forma o seu próprio grupo, debutando na sala do Teatro Presidente Alvear, à frente de uma grande orquestra.
Outra figura muito notável é Ástor Piazzolla: influído por músicos como Ígor Stravinski ou Béla Bártok, Piazzolla introduz armonías disonantes e bases rítmicas intensas e nervosas, abroquelándose os cultores tradicionais do tango para criticar essas inovações, finalmente aceites. Muitos dos músicos de tango posteriores seguem a senda piazzolliana, sem esquecer a grandes músicos anteriores, principalmente Troilo e Pugliese, e a um virtuoso incomparável, Salgán.
Desde há alguns anos (começando precisamente a partir de determinados periodos da obra de Piazzolla) observa-se que o fenômeno de aculturación mundial que deriva em fusões musicais entre linguagens, se bem de origem geográfica verdadeira, considerados como universalmente difundidos (jazz, rock, música electrónica) e músicas étnicas ou locais, também chegou ao tango. Trata-se de fusões do tango com o jazz, o rock e a electrónica, sendo esta última a mais difundida, com exemplos como Bajofondo Tango Clube, Tanghetto ou Gotan Project. Entre aqueles que fusionan com o jazz pode-se encontrar a Adrián Iaies, o contrabaixista Pablo Aslan ou o saxofonista Miguel De Caro. Ademais, existem diversas orquestras na sua maioria conformadas por músicos novos que pretendem resgatar e reinterpretar com novos códigos o tango. Destacam entre elas 34 Puñaladas, Altertango, Alfredo Piro, ou Astillero.
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Recordava aquellas horas de garufa
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O lunfardo é inseparable do tango. Se bem o tango pode cantar-se com uma maior ou menor presença do lunfardo nas suas letras, é a pose e a sonoridade do lunfardo riopratense a que o caracteriza. O lunfardo não é só um jargão integrado por centos de palavras próprias, senão que também é e talvez mais essencialmente, uma pose linguística, uma forma de falar algo exagerada (na que se inclui a omisión dos esses), pela que soem ser reconhecidos em todo mundo os porteños (ainda que o lunfardo abarca toda a zona riopratense, incluído o Uruguai). O tango «és réu»[16] porque o lunfardo «és réu», trata-se de um estilo musical construído sobre a fala popular. O lunfardo é a fala do subúrbio, a voz do arrabal.
Como em nenhum outro lugar o lunfardo expressa a fusão migratoria que originou as sociedades riopratenses, expressada pelo tango. Palavras africanas, italianas, aimaras, mapuches, xudeas, xitano-espanholas, galegas, quechuas, guaraníes, polonesas, portuguesas ou inglesas, mézclanse no uso quotidiano sem consciência da sua origem.
O lunfardo foi nos seus inícios e segue sendo hoje uma linguagem oculta-metafórica construída a partir de uma notável dinâmica entre a sociedade carceraria, a mocidade e o ambiente laboral. De algum modo, segundo José Gobello, o lunfardo é «una travesura léxica, algo assim como um guiño travieso que ele habla lê hace al idioma»[17].
O lunfardo foi perseguido em Argentina (ao igual que o carnaval). Durante a ditadura instalada em 1943 sancionou-se uma circular censurando os tangos que contivessem letras em lunfardo. Por essa razão muitos foram reescritos. Durante a ditadura de Onganía (1966-1970) o lunfardo desapareceu virtualmente do tango e a música popular. Em 1969 Alejandro Dolina incluiu o termo «bulín» no seu tema Fantasmas de Belgrano e Horacio Ferrer iniciava a sua famosa Balada para um loco com uma exclamação essencialmente lunfarda: «Ya sé que estoy piantao, piantao, piantao...». Desde então, e malia algumas tentativas durante a ditadura estabelecida em 1976 por amañar a cultura popular, o lunfardo registou um notável rexordimento[18].
Na primeira década do século XXI o lunfardo desfruta de uma grande vitalidade, sendo adoptado e reformulado pelas novas gerações. Em grande parte por essa razão, o tango insertouse nos ritmos modernos (rock, hip hop, ska, etc.) através das letras e a fala lunfarda.[19]
Ter-mos como acostumam-no, boludo, bardo, bondi, cana, chabón, te, chorro, escabiar, junar, mina, morfi, pibe, rajar, yuta e muitos outros da fala lunfarda, constituem o coração da fala riopratense actual.
| Expressão | Significado | Origem | Verso | Tango | Autor |
|---|---|---|---|---|---|
| Tamangos Mango Morfar | Zapatos Dinheiro Comer | Africano Italiano Francês | Cuando rajés los tamangos, buscando esse mango que te haga morfar | Yira yira[20] | Enrique S. Discépolo |
| Milonga | 1. Dança e música cadenciosa cercana ao tango 2. Lugar para dançar tango | Africano | Com la milonga la voy de igual a igual porque también soy milonga... | La milonga y yo[21] | Leopoldo Díaz Vélez e Tito Ribero |
| Candombe | Estilo musical afro-riopratense com uso intenso da percussão cercano ao tango | Africano | Candombe! Candombe preto! Nostalgia de Buenos Aires por las calles de São Telmo viene moviendo la calle! | Candombe candombe preto[22] | Enrique Francini e Homero Expósito |
| Quilombo | Prostíbulo | Africano | Qué destino tendrás, viejo Juan Tango iluso? Hijo de nadie y todos num quilombo oscuro. | Viejo Juan Tango[23] | Juan Navarro |
| Laburar Mina | Trabajar Mulher "fácil"/ Jovem sedutora | Italiano Vários | És lo mismo ele que labura noche y dia como um buey que ele que vive de las minas ele que mata, ele que cura o está fuera de la ley. | Cambalache[24] | Enrique Santos Discépolo |
| Piantao | Loco | Italiano | Ya se que estoy piantao, piantao... | Balada para um loco[25] | Ástor Piazzolla e Horacio Ferrer |
| Chorro Gil | Ladrão Tonto | Carcerario Italiano | Chorra, vos tu vieja y tu papai. Lo que más bronca me da és haver sido tão gil. | Chorra[26] | Enrique Santos Discépolo |
| Junar | Mirar | Xitano-espanhol (caló) | Como com bronca y junando... | Ele ciruja[27] | Alfredo Marino e Ernesto de la Cruz |
| Araca Chamuyo | Atenção! Falar sedutor | Carcerario Xitano-espanhol (caló) | Araca coração, callate um poco y escuchá faz favor este chamuyo. | Araca coração[28] | Alfredo Marino e Ernesto de la Cruz |
| Pibe | Criança | Incerto | "Mamita, mamita" se acercó gritando la madre extrañada dejo ele piletón y ele pibe lê dijo riendo y llorando "ele clube me haver mandado hoy la citación". | Ele sueño dele pibe[29] | Reinaldo Yiso e Juan Puey |
| Pilcha | Roupa | Quechua | Metele a la vida, sacale partido, mudando de nido, de pilcha y gavión,... | Por qué me das dique?[30] | Alberto Alonso e Rodolfo Sciammarella |
| Papirusa | Mulher formosa | Polonês | Em tu esquina, um dia, Milonguita, aquella papirusa criolla que Linnig mentó, | Corrientes y Esmeralda[31] | Celedonio Flores |
| Pucho | Pinto de fumar | Mapudungun Quechua | Tango querido que ya pá' siempre pasó, como pucho consumió las delícias de mi vida que hoy cenizas sólo são. | Sobre um pucho[32] | Sebastián Piana e José González Castillo |
Nas duas primeiras décadas do século XX o tango triunfou em clubes nocturnos de Paris (França), outros países latinoamericanos (especialmente Colômbia e Centroamérica) e depois em Nova Iorque, onde foi introduzido por bailarinos das classes altas que por snobismo adoptavam frequentar os sítios onde se praticava em Bons Ares. O tango começou a dançar-se então em locais nocturnos das suas cidades de nascimento e em seguida passou a salões populares.
Até meados do século XX era dançado indistintamente em cabarés de luxo e nos telefonemas «milongas», pistas habilitadas em clubes barriais e suburbanos de Bons Ares, Rosario e Montevideu.
Em Medellín , Colômbia, onde morreu em 1935 o máximo representante do género, Carlos Gardel, o tango convertiuse em eixo cultural do bairro de Guayaquil. Os bons bailarinos eram amplamente conhecidos e celebrados nas milongas que frequentavam, e os seus nomes adoptavam trascender inclusive noutras, mais alonxadas, e em todo o chamado «ambiente de tango».
A fama internacional desta dança e a possibilidade de ser apresentada em espectáculos por todo mundo deram pé à criação de coreografías mais audazes, com exigências maiores e figuras ximnásticas e da dança clássica que os bailarines das milongas adoptavam desdenhar. O tango deixou quase de dançar-se a partir dos anos 60 em Bons Ares. Só perviviron algumas milongas. Porém, nos 80 recebeu um novo pulo mercede ao sucesso do espectáculo Tango Argentino de Claudio Segovia e Héctor Orezzoli, primeiro em Paris e logo em Broadway , gerando uma tangomanía em todo o balão. Floresceram academias em muitos sítios e gente de todo mundo começou a peregrinar em busca de lugares para dançá-lo, especialmente Bons Ares, promovida turisticamente como a Capital do Tango.
Distingue-se actualmente entre o «tango de palco» e o «tango de salão», ou de pista. Este último é o que dançam os tangueiros não profissionais. Em Bons Ares realiza-se anualmente um torneio internacional de tango, que se divide entre essas duas categorias e ao que assistem entre outros participantes dos países europeus centrais e nórdicos, dos Estados Unidos, Coreia e Japão. Uma dos casais de tango mais elogiadas, que praticava ele tango de salão ainda que profissionalmente, foi a integrada por Juan Carlos Copes e María Nieves, que actuou em muitos palcos internacionais. Outros célebres bailarinos de tango que trascenderon as pistas das milongas foram Benito Bianquet (alcumado Ele Cachafaz) e Jorge Orcaizaguirre, conhecido como Virulazo.
Em 1990 os bailarinos Miguel Angel Zotto e Milena Plebs fundam a Companhia Tango X 2, gerando novedosos espectáculos e provocando que uma grande corrente de gente nova se interesse pelo baile do tango, algo inédito até esse momento. Acreditem um estilo que recupera o tango tradicional da milonga, renovando-o e colocando-o como elemento central nas suas criações, fazendo uma procura quase arquelóxica dos diversos estilos do tango. A finais de 1998 Milena Plebs deslígase de dita companhia para iniciar um caminho de investigação personal de diversas facetas do baile do tango.
Hacia finais dos noventa e entrado o novo século bailarinos como Gustavo Naveira e logo Chicho Frumbolli afiánzanse e reinvindican o baile da improvisación, algo esquecido durante os 80 e parte dos 90. Surge toda uma corrente de «investigadores» do tango, como Leeliana Tomaszewska, que se mantém à margem dos palcos.
Depois de meados de 2005 começam a aflorar os trabalhos de investigação que mostram lugares referentes fortes como a prática X ou Villa Malcolm como pontos de encontro e exposição. Surgem coreógrafos e directores de um tango que nunca ocupou um lugar importante no tango como Moira Castellano, Gonzalo Orihuela e Solange Chapperon, Raul e Karina, Cisa ou Silvana Grill entre outros. O tango hoje em dia está recebendo muitas novas influências que podem devir em muitas cosas. E ainda fica muito por decir.
Convém destacar que hoje em dia fica comprovado que os «passos» de tango como foram qualificados noutros tempos estão perdendo vixencia. Ficam a modo de passo» ou movimento só 4 opções: pivot, cruze atrás, cruze adiante e abertura (qualquer destas hacia direita ou esquerda) Assim, as anteriormente citadas ocupam a denominación de combinações, que muitos docentes actuais não ensinam como passos.
A cercanía dos bailarinos e a sensualidade da sua insinuante coreografía diz muito sobre a sua origem prostibulario nos subúrbios de Bons Ares. Esta origem também é recordada pelos nomes dos primeiros tangos que se conhecem:
Os nomes e as letras destes tangos tiviron que ser mudados depois do golpe de estado do general Uriburu (a primeira interrupção da vida constitucional na Argentina, em 1930, que iniciou a Década Torpe, de corte repressivo). Por exemplo, Concha suja convertiuse em Cara suja. Francisco Canaro ocupou-se de mudar-lhe a letra:
A finais do século XX os historiadores porteños recuperaram alguns destes tangos (ainda que só os títulos)
O termo parece provir do idioma ibibio (de Níxer e Congo) tamgú: ‘tambor’ e ‘dançar (ao são do tambor)’. Desconhece-se a ciência verdadeira se a palavra espanhola tambor prove deste ibibio tamgú ou do árabe hispânico tabal. Em Bons Ares creíase incorrectamente que os pretos chamavam ao seu instrumento «tangor» porque tinham dificuldades para pronunciar tambor».
No século XIX, na Ilha dele Hierro (das ilhas Canárias) e noutros lugares da América do Norte, a palavra «tango» significava reunião de pretos para dançar ao são do tambor’.
O filólogo Ricardo Rodríguez investigou as linguagens dos esclavos trazidos à Argentina. A maioria provia de etnias de Congo , o golfo da Guiné e o sul de Sudão . Para eles, tangó significava espaço fechado’, ‘círculo’ e qualquer espaço privado ao que para entrar há que pedir permissão. Os traficantes de esclavos espanhóis chamavam «tangó» aos lugares onde tinham fechados aos esclavos, tanto na África como na América do Norte. O sítio onde os vendiam também recebia esse nome.
Antes de 1900 este género era conhecido como «tango canyengue». A palavra é de origem africana. Os pretos porteños pronunciavam-na caniengue e desde 1900 os brancos o escreveram e pronunciaram canyengue (com o "ye" porteño).
O «caminar canyengue» é um modo de caminhar de cadenciosos movimentos de cadeira. Também se lhe chama «caminar arrabalero» (sendo «arrabal» os subúrbios ou bairros baixos das cidades velhas de Bons Ares e Montevideu). Como o representa Tita Merello na película Arrabalera.
O Diccionario da Língua Espanhola, na sua edição de 1899, definia ao tango como uma ‘fiesta y dança de pretos o de gente dele pueblo, na América do Norte’ e também, como segunda acepción, ‘la música dessa dança’. É interessante notar que o diccionario dalle ao me ter uma falsa origem latina: diz-se que prove do latín, que é tanxir (mais bem seria tangere, de onde prove ‘tañir’) e daí ego tango: ‘eu taño’.
A edição de 1914 traz a etimoloxía tangir e tangere: ‘tañir o tocar (um instrumento)’. As seguintes edições eliminaram o erro.
O Diccionario da Real Academia Espanhola, na sua edição de 1925, define ao tango como antes (ainda que já sem a etimoloxía latina errónea), e agrega: ‘Dança de alta sociedad importada da América do Norte al princípio deste siglo’. Isto evidência que o tango passara de ser de classe baixa à classe alta. Também se agregam mais acepcións: ‘música desta dança’ e ‘tambor das Honduras’. No criollo que se fala nos «morenales» da costa caribeña das Honduras (de população maioritariamente preta) conservam-se muitas palavras originais africanas.
A vixesimosegunda edição do diccionario da RAE define o tango como um ‘baile rioplatense, difundido internacionalmente, de pareja enlaçada, forma musical binaria y bússola de de os por cuatro’.
A importância deste género pode verse na menção que alguns escritores latinoamericanos fizeram do mesmo, como Jorge Luis Borges ou Manuel Mejía Vallejo que inclusive lhe dedica um livro (Ares de tango).
Alguns compositores tradicionais de música de tango:
Desde os anos oitenta, a geração «post-Piazzolla» inclui músicos como Dizem-no Saluzzi e Rodolfo Mederos. Um dos distintivos desta geração é que executam tango paralelamente a alguma forma de música clássica contemporânea, experimental.
Alguns bailarinos contemporâneos som:
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